Laguna IX: Surpresa e tomada do acampamento paraguaio da Laguna

Laguna IX: Surpresa e tomada do acampamento paraguaio da Laguna

Ordem de marcha. Formatura do corpo expedicionário. O mascate italiano. O major José Tomás Gonçalves.
Surpresa e tomada do acampamento paraguaio da Laguna.
Retirada da laguna

Acabara o coronel Camisão de determinar que marcharíamos sobre a Laguna. A 30 de abril levantamos acampamento para estacar à margem do Apa-Mi, ribeirão que dista uma légua do forte de Bela Vista.

Pareciam os soldados ressentir-se da insuficiência do rancho. Corria a marcha silenciosa e como ensombrecida pela tristeza. Para a animar ordenou-se que as cornetas de todos os corpos alternadamente tocassem; e a tropa gostou disto. Era como um desafio, uma provocação lançada aos paraguaios, que de longe viam seguir a coluna.

Avançavam os nossos diferentes corpos em quatro divisões distintas, formadas na previsão dos ataques de cavalaria que, com efeito, deveríamos esperar. Em conselho de guerra, anterior á nossa ocupação de Bela Vista, fizera o coronel adotar uma ordem de marcha apropriada à feição da zona atravessada e da campanha. Propusera, ao mesmo tempo, duas disposições de defensiva para duas hipóteses: de planície descampada, ou coberta de capões de mato, combinações de grande simplicidade que, na prática, nos prestaram grandes serviços, obstando qualquer confusão ao se travarem os combates. Se, realmente, foram em geral as cargas da cavalaria inimiga frouxas e impersistentes, é de se supor, contudo, que o seu único fito não vinha a ser simplesmente avaliar-nos a resistência. Poderia um primeiro momento de hesitação, ser sempre decisivo e trazer-nos o completo destroço.

No caso, pois, em que estivéssemos pelas proximidades de alguma moita, ou cerrado, ou ainda de algum ribeiro, devíamos convergir para este amparo natural, nele apoiar as carretas de munições e de feridos, com as bagagens, e cobrir-lhes a testa com uma curva formada pelas quatro divisões da coluna, levando cada uma a sua boca de fogo. Em campo raso e desabrigado formariam estes corpos, sempre alternados com as peças, quadrado em volta do nosso material. Em todo o caso deviam os comandantes ser avisados pelos ajudantes-de-campo ou por próprios, da formatura escolhida, de acordo com as circunstâncias.

Primeiro de maio. Após uma noite tranqüila recomeçamos a marcha, e sem incidente, até a fazenda da Laguna, a localidade designada pelos nossos refugiados do Paraguai. Ali havia, então, apenas uma choupana de palha que o inimigo, retirando-se, desdenhara incendiar. Ao chegarmos vimos um dos nossos soldados dirigir-se ao nosso encontro trazendo um papel que achara pregado, com um espinho, ao tronco de uma macaubeira; variante da primeira ameaça em verso. Dirigida ao comandante, assim dizia: “Malfadado o general que aqui vem procurar o túmulo; o leão do Paraguai, altivo e sanguissedento, rugirá contra qualquer invasor.”

Domina este planalto vasta extensão de terras, como que convidava o coronel a que ali acampasse; mas ainda desta vez fizeram os refugiados preponderar a sua opinião que era a seguinte: sem mais detença, nos dirigíssemos exatamente para o centro do estabelecimento, onde, mais facilmente, poderia o gado ser rodeado e cercado. À vista disto resolveu-se que a marcha prosseguiria, indo-se, sem que daí proviesse nenhum dos resultados acenados, acampar a meia légua dali, num terreno triangular de marga nitrosa, entre dois regatos que confluem antes de se lançar no Apa-Mi; e onde os rebanhos, atraídos pelas propriedades salinas do solo, costumam geralmente concentrar-se na estação das grandes cheias: lugar denominado Invernada da Laguna.

Mostrou-nos o primeiro relance de olhos que, tanto ali como em qualquer parte, o inimigo nos cerceava sobretudo os viveres. Ao colocarmos guardas avançadas pudemos, a certa distância, divisar um acampamento paraguaio dispondo de grande boiada e cavalhada tangida para o sul, enquanto a sua vanguarda nos vigiava os movimentos. Que podíamos fazer sem cavalaria?

No entanto os dias 2 e 3 se empregaram em diversas tentativas para a obtenção de gado ou pelo menos para surpreender algumas sentinelas de quem se pudesse obter informações sobre o estado do interior da República. Malogrou-se-nos, contudo, o duplo intuito. Quanto à grande boiada que avistáramos, desaparecera. Fizemos ainda algumas avançadas em busca dos animais tresmalhados em tais pastagens. Ainda nos falhou este expediente precário. No dia da chegada, tivera o 21.° batalhão a sorte de apanhar apenas umas cinqüenta cabeças, malgrado os esforços dos cavaleiros inimigos, que nada pouparam para lhas retomar. Nenhuma outra batida pelos arredores teve resultados; muito embora para tal serviço partissem os demais corpos, uns após outros. O que deste trabalho penoso lucramos foi que levando nossos soldados sempre vantagens nas escaramuças parciais que daí provieram, completou-se-lhes a educação militar no fogo, sem demasiados sacrifícios. Não só ganharam confiança em si como nos chefes.

Aos quatro dias vimos chegar ao acampamento um mascate italiano, Miguel Arcanjo Saraco, que de Nioac viera, seguindo-nos as pegadas, com duas carretas de provisões, recurso para nós insuficiente.

Passara o Apa, atravessando as três e meia léguas que nos separavam, acompanhado de um único camarada que o ajudava a conduzir os veículos. O maior terror o perseguira durante todo o trajeto; mas a ele contrapusera o inato pendor para o cômico. Por uma fantasia armada para se incutir coragem, rodeara-se, contava-nos, de imaginários batalhões a quem, de tempo em tempo, dava ordens em voz alta, simulando manobras. Entre outras cenas deste gênero relatava que às dez horas de uma noite trevosa, ao transpor o Apa-Mi mandara, com todo o fôlego dos pulmões, cruzar baionetas, à vista de um capão de mato que lhe inspirava receios.

No meio da alegria da chegada, e das emoções de toda a natureza, não esqueceu, contudo, a notícia positiva, afirmava, da aproximação de longa fila de comboios a que se adiantara, e rodava pela estrada de Nioac ao Apa, apesar de todos os perigos de uma linha de perto de trinta léguas a percorrer em completo descampado. Seja-nos relevada esta diversão cômica no momento de encetarmos a narração de cenas sempre dolorosas. Traria esta mesma noite sério motivo de inquietação. Verificara-se a ausência de um soldado do batalhão de voluntários. Este miserável, de índole viciosa e semi-imbecil, havendo roubado a um dos camaradas, furtara-se ao castigo desertando. E sobejas razões tínhamos de recear que o comandante paraguaio por ele viesse a ter informações, as mais completas, sobre a nossa falta de víveres e a necessidade em que já nos achávamos de bater em retirada.

E efetivamente tivera o coronel de dar neste sentido ordens impostas pela necessidade. Não sabemos se ainda tentava engodar a si próprio como procurava fazê-lo em relação a nós outros, ao qualificar o movimento retrógrado de contramarcha sobre a fronteira do Apa, para ali ocuparmos forte base antes de prosseguir na invasão do Paraguai. Não houve, porém, quem se iludisse. Principiava a retirada.

Pretendeu pelo menos disfarçá-la com algum brilhante feito d’armas, pois punha empenho em demonstrar aos inimigos, aos do Brasil e aos pessoais, que se retrocedíamos não era porque a tanto estivéssemos forçados pela superioridade do adversário. Conhecendo a excelente disposição de nossa gente, resolveu apossar-se do acampamento paraguaio; e para a execução deste assalto designou o 21.° de linha e o corpo desmontado de caçadores. Fixara-se a manhã de 5 para esta ação; no entanto só se realizou um pouco mais tarde.

Na vanguarda da coluna brasileira, dois dias após deixar Miranda rumo ao Apa, o Batalhão 21 de Infantaria, sob o comando do major José Tomás Gonçalves (foto), faz seu primeiro ataque aos paraguaios:
Na vanguarda da coluna brasileira, dois dias após deixar Miranda rumo ao Apa, o Batalhão 21 de Infantaria, sob o comando do major José Tomás Gonçalves (foto), faz seu primeiro ataque aos araguaios:

A causa de tal demora foi que, exatamente nesta mesma noite, às nove horas, tremendo furacão se desencadeou sobre o acampamento. Torrentes de chuva transformaram logo o solo em lamacento pantanal. Não são raros no Paraguai estes terríveis fenômenos; jamais viramos, porém, coisa igual. Os relâmpagos que continuamente se cruzavam, os raios que por todos os lados caíam; o vendaval a arrebatar tendas e barracas, formaram um caos a cujo horror se uniam, de tempos a tempos, os disparos de nossas sentinelas contra os diabólicos inimigos que, apesar de tudo, não cessavam de aferretoar-nos: interminável noite em que para nós tudo representava a imagem da destruição. A mercê de todas as cóleras da natureza, sem abrigo nem refúgio, quase nus, escorrendo água, mergulhados até a cinta em correntezas capazes de nos arrebatar, ainda precisavam os nossos soldados preocupar-se em subtrair da umidade os cartuchos. Veio a manhã encontrar-nos em tal situação. Dois dias mais tarde, contudo, antes dos primeiros albores, e apesar de se haver renovado a tormenta daquela noite, puseram-se em movimento os dois corpos designados.

Era o comandante do 21.° um major em comissão, por nome José Tomás Gonçalves, homem resoluto e audaz, além de tudo popular, tanto pelo mérito como pela estima que facilmente conquista uma fisionomia aberta e simpática. Haveremos de vê-lo à testa da nossa expedição, após a morte do coronel Camisão, guiando-a ao termo desejado.

Panteão “Capitão Pedro Rufino”: é um monumento histórico, localizado no pátio interno do quartel do 10º Regimento de Cavalaria Mecanizado – RAJ. Guarda os restos mortais do bravo e inexcedível “Cmt nº 01”, herói do Regimento Antonio João, que combateu na Guerra da Tríplice Aliança – o capitão Pedro José Rufino. O projeto foi idealizado e mandado executar pelo major Eleutério Brum Ferlich – Cmt do então 10º R C I (Regimento de Cavalaria Independente). Foi inaugurado em 29 de dezembro de l939; porém, o translado da urna funerária contendo os restos mortais do herói só veio a ocorrer em 11 de maio de 1959
Panteão “Capitão Pedro Rufino”: é um monumento histórico, localizado no pátio interno do quartel do 10º Regimento de Cavalaria Mecanizado – RAJ. Guarda os restos mortais do bravo e inexcedível “Cmt nº 01”, herói do Regimento Antonio João, que combateu na Guerra da Tríplice Aliança – o capitão Pedro José Rufino. O projeto foi idealizado e mandado executar pelo major Eleutério Brum Ferlich – Cmt do então 10º R C I (Regimento de Cavalaria Independente). Foi inaugurado em 29 de dezembro de l939; porém, o translado da urna funerária contendo os restos mortais do herói só veio a ocorrer em 11 de maio de 1959

Gozava o comandante do corpo de caçadores, capitão Pedro José Rufino, de grande reputação de bravura e atividade. Se alguma coisa devêssemos recear, era o excesso de ardor por parte de ambos, a comprometer a empresa; e assim deitar a perder toda a coluna. Foi, pelo contrário, a reunião de tais qualidades que facilitou o êxito de uma combinação a que o comandante, com razão, ligara o maior apreço.

Ignorávamos com que forças iam eles medir-se. Fornece o Paraguai menos espiões ainda do que guias; e por falta de cavalos não pudéramos efetuar reconhecimentos.

Nada víramos ou ouvíramos, ruído, poeira ou fumaça, que nos permitisse presumir da chegada de reforços inimigos. Nós lhes reconhecíamos, contudo, a habilidade em encobrir os movimentos consideráveis de tropas. Assim, pois, deu o coronel ordens para que os oficiais, comandando a coluna de ataque, só entrassem em fogo quando o corpo de voluntários estivesse em condições de os sustentar. À hora aprazada, destacou este corpo com uma das peças de nosso parque em direção ao acampamento inimigo.

Neste entrementes, após grande rodeio, e a travessia de uma légua de banhado, chegara a tropa do major Gonçalves às posições dos paraguaios. Era noite ainda, uma hora antes do nascer do sol; e tudo se fizera no maior silêncio. Verificou-se, então, que a bateria inimiga fora ali assestada para defender a passagem do fosso. Na posição que lhe fora marcada, teria José Tomás Gonçalves, desde o romper da alva, de sofrer o fogo do inimigo. Assim, pois, compreendendo que não havia um momento a perder, mandou calar baionetas sobre os canhões; investida favorecida pela negligência do inimigo. E, realmente, de toda a cavalaria acumulada por trás do entrincheiramento não havia uma só patrulha para a guarda das peças.

A toque-toque chegou nossa infantaria sobre os canhões, sem deixar tempo aos seus animais de tiro de no-los subtrair. Forçou-se num ápice a entrada do acampamento, mal defendido contra a impetuosidade desta surpresa, havendo o capitão José Rufino e os seus caçadores também entrado em ação. Penetraram todos de roldão no recinto, levando e derribando quanto pela frente encontravam, no acanhado recinto em que oficiais e soldados, homens e cavalos, mutuamente se embaraçavam, tratando muito menos de resistir do que de escapar para o campo. Tudo o que não foi morto ou ferido, salvou-se pela fuga.

Estas boas notícias, trazidas por um próprio, encontraram-nos no alto de um cômodo que domina a planície e para onde se encaminhara o comandante, com o seu estado-maior, a fim de poder fazer entrar em fogo toda a sua gente, se assim se tornasse necessário.

Morro Margarida: é um monumento ecológico, de elevação impar, existente na região do vale do Rio Apa. É ponto de referência da história do Mato Grosso do Sul e, particularmente, da Guerra da Tríplice Aliança. Taunay em seus relatos sobre a Retirada da Laguna, cita-o por diversas vezes, como principal baliza referenciada por José Francisco Lopes – o guia da Expedição de Mato Grosso em 1867.
Morro Margarida: é um monumento ecológico, de elevação impar, existente na região do vale do Rio Apa. É ponto de referência da história do Mato Grosso do Sul e, particularmente, da Guerra da Tríplice Aliança. Taunay em seus relatos sobre a Retirada da Laguna, cita-o por diversas vezes, como principal baliza referenciada por José Francisco Lopes – o guia da Expedição de Mato Grosso em 1867.

Iluminados por uma aurora magnífica percebíamos, aos nossos pés, os nossos soldados correndo pelo campo, para o local do combate; mais longe, os índios terenas e guaicurus, que depois de se haverem comportado nesta refrega como bravos auxiliares, carregavam agora aos ombros os despojos dos cavalos tomados aos paraguaios. Haviam os comandantes deixado sua gente tomar um pouco de fôlego e como não recebessem, aliás, a ordem de ocupar as posições e vissem, ainda, que o coronel, sabedor do triunfo, não deixava a eminência para vir ao encontro, pensaram que teriam de evacuar o posto recém-conquistado. Começavam a mover-se em nossa direção, quando os paraguaios, rápidos como cossacos, trouxeram a todo o galope a sua artilharia, então sustentada por numerosa cavalaria. Abriram o fogo até que de nosso lado, entrando em linha todo o nosso parque, com as boas pontarias feitas pelos nossos oficiais, tivessem de calar-se, após alguns disparos.

O pequeno número de baixas que tivemos, as perdas consideráveis dos paraguaios, sua inferioridade no combate em relação a nós, demonstrada pelos fatos, restabeleceram a calma, incutindo ao espírito do coronel uma apreciação mais exata das circunstâncias e das coisas. “Estes selvagens, exclamou, que a tanta gente assassinaram e tanto assolaram esta região, quando indefesa, não mais dirão que os tememos. Sabem que dentro do próprio território, podemos obrigá-los a pagar o mal que nos fizeram. Vamos à fronteira aguardar algumas probabilidades de nos abastecer e gozar de pequeno repouso que me não poderá ser exprobrado.”



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