Sarracenos: em nome de Deus

Sarracenos: em nome de Deus

Sarracenos: nome pelo qual os cristãos da época medieval designavam os muçulmanos, especialmente os da Síria e da Palestina, e os árabes e berberes que conquistaram a Espanha e a Sicília. Os Sarracenos são um povo nômade pré-islâmico, que habitava os desertos situados entre a Síria e a Arábia.

Nos primeiros séculos do Império Romano, foi usado para designar uma tribo árabe do Sinai, com origem etimológica provável na palavra Árabe شرقيين sharqiyyin (“orientais”).

Mais tarde, os súbditos do império que falavam grego estenderam a palavra a todos os árabes. Depois do levantamento islâmico e, especialmente, na época das Cruzadas, o seu uso estendeu-se a todos os muçulmanos – particularmente aos que invadiram a Sicília, o sul da Itália e a Espanha. Na cronística antiga ocidental, o termo “Império Sarraceno” foi muitas vezes usado para referir-se ao primeiro califado árabe, governado pelas dinastias Omíada e Abássida.

Nos textos cristãos contra o islamismo, o nome passou a ter um significado alternativo, baseado numa provavelmente falsa etimologia, ou seja “sem Sara” (“Sara sine”) – aludindo ao episódio bíblico da rivalidade entre Agar (mãe de Ismael, tradicionalmente considerado o ascendente primordial dos árabes) e Sara (que gerou, segundo a tradição bíblica, o povo hebreu).

Depois de conquistar boa parte do Oriente Médio, Egito e Espanha, os sarracenos, seguidores de Maomé, continuaram sua expansão islâmica tomando a Sicília das mãos dos bizantinos

Os sarracenos já exibiam um excelente currículo quando compraram briga contra os bizantinos na Sicília, em 827. Nos dois séculos anteriores, seu exército, formado após a morte do profeta Maomé, em 632, fundador do Islamismo, já dera mostras de competência militar. O leste do Império Romano, o Egito, a Espanha e o Oriente Médio já estavam sob seus domínios. Havia chegado a hora da Sicília, ilha no mar Mediterrâneo com localização privilegiada para o comércio. A invasão começou em 17 de junho de 827 pela costa oeste siciliana, que viu chegar uma enorme frota com 100 navios que despejaram cerca de 17 mil homens, 7 mil a cavalo e 10 mil a pé. Depois de 138 anos de escaramuças, a Sicília também caiu sob domínio sarraceno.

Desde sua origem, o exército sarraceno sempre foi formado por vários povos muçulmanos, como berberes, norte-africanos e árabes. Antes, sarracenos eram apenas os povos nômades de origem árabe, mas depois o termo passou a designar todos os povos que haviam se convertido ao islamismo. “Os soldados eram motivados pelos saques e pelas terras e viam essas ‘recompensas’ como manifestações da vontade de Deus”, diz Kenneth W. Harl, professor de história bizantina da Universidade de Tulane, EUA.

O lado curioso da batalha da Sicília é que o líder escolhido para comandar a invasão era Asad ibn al-Furat, um teólogo muito respeitado que nunca havia segurado uma espada. Antes de partir para a guerra, al-Furat deu, provavelmente, um dos mais improváveis conselhos militares da História: “Fui designado para esse comando por causa de meus conhecimentos com a caneta, não com a espada. Eu insisto que não poupem esforços na procura de conhecimento e sabedoria (…) e vocês terão garantido um lugar nesta vida e na vida após esta”.

O desembarque em Mazara foi um sucesso. A massa do exército era composta por mouros, soldados escravos e mercenários. Apenas a elite, que compunha a cavalaria da retaguarda, e a classe administrativa eram formadas por árabes. Depois de se instalarem na ilha, começaram as conquistas: Palermo, Pantelleria, Messina, Enna, Malta. Os maiores embates, no entanto, se deram em Siracusa (só conquistada em 878) e Taormina (que caiu em 902). Aliás, Taormina foi palco de sangrentas batalhas. Liderados pelo rei Ibrahim, os muçulmanos entraram por um portão secreto debaixo do Forte Mola (hoje Portão dos Sarracenos) e não tiveram dó. Suas espadas vararam pescoços de homens, mulheres, crianças e idosos. A cidade foi destruída e saqueada. Procópio, o bispo local, teve uma das mortes mais terríveis. Conta a lenda que o rei Ibrahim lhe deu a chance de continuar vivo se renunciasse ao cristianismo. O clérigo teria negado, dizendo que via o demônio encarnado em Ibrahim. O rei muçulmano não teve dúvida: ordenou que arrancassem o coração de Procópio, que foi devorado cru por Ibrahim ali mesmo, à frente de um povo incrédulo e estarrecido.

Sob domínio muçulmano, a Sicília prosperou. Os islâmicos introduziram novas técnicas de irrigação e melhoraram a agricultura, plantando novos produtos, como algodão, cana-de-açúcar e frutas cítricas. Empresas têxteis e processadoras de açúcar foram abertas. Estas, entre outras razões, fazem com que alguns historiadores evitem chamar os muçulmanos de bárbaros. “Naquela época os europeus eram muito mais bárbaros que os sarracenos”, afirma John Tolan, autor do livro Saracens: Islam in Medieval European Imagination (sem tradução para o português).

Máfia sarracena

A máfia italiana deve sua existência aos sarracenos. Essa é, pelo menos, a versão mais aceita para o surgimento da organização secreta. De acordo com o historiador americano Norman Lewis, em seu livro A Máfia por Dentro, a sociedade surgiu no século 9, quando os normandos, com suas táticas de guerra mais eficientes, dominaram os sarracenos da Sicília. Muitas pessoas do povo conquistado tornaram-se escravas. Outras, no entanto, conseguiram fugir para as regiões montanhosas e passaram a viver na clandestinidade. Resolveram então organizar-se para resistir aos normandos – está aí a provável origem da máfia, que em árabe significa refúgio. A idéia dos sarracenos refugiados era criar com outros refugiados laços de família com base no legado siciliano de honra, fidelidade e – principalmente – vingança contra os normandos. No fim do século 19, os sicilianos retomaram a antiga tradição sarracena e os mafiosos da região oeste da ilha conseguiram dominar quase toda a economia local. Nos anos 20, o ditador fascista Benito Mussolini dissolveu o poder paralelo e prendeu milhares de integrantes da confraria. Eles foram, porém, libertados com o final da Segunda Guerra – e hoje têm negócios em quase todo o mundo.

Cláudia de Castro Lima



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