Sacerdotes Hebreus: do Caos ao Poder – O restabelecimento

Sacerdotes Hebreus: do Caos ao Poder – O restabelecimento e ascensão do sacerdócio

Antes do cativeiro babilônico, o serviço sacerdotal no período monárquico ficou nas mãos de Zadoque e seus descendentes, conforme nos diz Vaux (VAUX, 2004, p. 411). Inclusive Ezequiel os chama de “filhos de Zadoque”, de acordo com Vaux (VAUX, 2004, p. 423). Esta informação é importante, pois este parece ser o ideal do cronista ao registrar o restabelecimento dos sacerdotes no período pós-exílico (VAUX, 2004, p. 410).

No retorno do povo judeu do cativeiro babilônico, Vaux nos informa, fundamentado nos textos de 1 Cr. 5:30-34; 6:35-38, que o grupo de sacerdotes da caravana de Esdras pertencia à família de Zadoque, que recuperou seu direito ao exercício do sacerdócio que fora tomado pelos sacerdotes-levitas que ficaram em Judá quando da deportação dos judeus à Babilônia (VAUX, 2004, p. 425 e 427).

Vaux cita um confronto entre estes sacerdotes descendentes de Zadoque, que retornaram do exílio, e os sacerdotes-levitas que ficaram em Judá durante o exílio. Vaux cita a hipótese de que estes sacerdotes evitaram se associar ao grupo não zadoquista, provavelmente descendentes de Arão (VAUX, 2004, p. 433).

Vaux, ainda com respeito à ascendência zadoquita dos sacerdotes que retornaram do exílio, afirma que as primeiras caravanas do retorno compreendiam sacedotes que eram provavelmente zadoquitas e, no que dizem os livros de Esdras, Ageu e de Zacarias sobre o restabelecimento do culto em Jerusalém, não há traço de oposição de um outro sacerdócio que teria estado na posse do Templo (VAUX, 2004, p. 433).

Hill destaca que, após o retorno do cativeiro babilônico, os judeus careciam de uma estrutura unificadora que permitisse um ambiente de fé e esperança em uma sociedade que buscava se reorganizar e ressignificar sua existência. Segundo ele, esta unificação veio da reconstrução do Templo de Jerusalém e dos sacerdotes como os novos líderes do povo, uma vez que a monarquia fora extinta. O livro de Crônicas3 procurava preencher esta lacuna civil e religiosa ao autorizar os sacerdotes na liderança da nação que procurava se reestruturar (HILL, 2007, p. 283).

Hill ainda enfatiza, como ponto unificador da nova comunidade de Judá no pós-exílio, a adoração a Javé centralizada no Templo de Jerusalém. Esta adoração comunitária era liderada agora pela classe sacerdotal que era equivalente ao clero profissional de hoje por serem sustentados por ofertas e contribuições votivas do povo. Eram consagrados exclusivamente ao serviço de Deus por meio da instituição do santuário de Javé (HILL, 2007, p. 285).

Eichrodt vê, no desaparecimento da monarquia israelita, a oportunidade para o sacerdócio exercer seu poder absoluto na fragilizada sociedade judaica pós-exílica. Nesta ocasião a classe sacerdotal tem como sua função primordial o zelo pela Torah, que se torna cada vez mais, uma lei escrita (EICHRODT, 2004, p. 357).

O papel de Esdras no restabelecimento da sociedade judaica, fundamentada no papel do sacerdote é destacado por Eichrodt afirmando que “o sacerdócio volta a encontrar, com toda a força e pressão, seu papel tradicional de guardião da aliança divina e seus preceitos” (EICHRODT, 2004, p. 357).

Eichrodt continua, e destaca o papel fundamental e positivo que o sacerdócio exerce na nova configuração social como educadores e influenciadores da nova vida religiosa do judeu. A sistematização do pensamento teológico ocorreu neste mesmo período. Contudo, estes novos papéis que o sacerdócio assume causa o nascimento de uma casta que tende a separar-se da comunidade e, ao invés de facilitar o acesso do povo a Deus, passa a dificultá-lo. A partir daí, esta nova classe sacerdotal passa a querer cada vez mais poder, e para consegui-lo aproveita-se do controle da liturgia (EICHRODT, 2004, p. 361).

Fohrer interpreta os antigos documentos legais de Israel provenientes deste período, portanto a ordem dos personagens narrada no acampamento hebreu em Números capítulo 2 reflete a autoridade e prestígio que a classe sacerdotal recebera no pós-exílio. Ele afirma que a disposição de Moisés e os sacerdotes levitas entre o povo e Javé indicam que o israelita comum não poderia ter acesso direto a Deus sem passar por eles. Os sacerdotes fariam a mediação entre Javé e seu povo (FOHRER, 2008, p. 463).

Na avaliação de Fohrer, Esdras não restaura a antiga religião israelita, mas cria outra, não mais baseada na palavra dos profetas, mas fundamentada em sua finalização da obra de Moisés com amplos poderes e autoridade irrestrita para a casta sacerdotal (FOHRER, 2008, p. 466).

Bright enfatiza a incorporação de funções político-administrativas às religiosas quando cita que Esdras “tinha a missão de ensinar a lei aos judeus que viviam na satrapia de Abar-nahara e organizar um sistema administrativo paa que a lei fosse obedecida”. Além disso, a autoridade de Esdras não estava restrita apenas ao território de Judá, mas em toda província de Abar-nahara, que abrangia grande parte da Palestina (BRIGHT, 2010, p. 461).

Portanto o papel do sacerdote, neste período de regenaração da sociedade judaica, avança os limites religiosos, além da sua influência, que ganhava terreno fora dos limites judaicos. Com a atribuição política ao cargo de sacerdote, Esdras realizou a reorganização da sociedade judaica fundamentada na Lei. Bright explica o motivo da reorganização ser fundamentada na lei ao afirmar que embora a reconstrução do templo tenha dado aos judeus um lugar de reunião depois do intervalo do exílio e um status de comunidade de culto a Israel, não podia existir nenhum ressurgimento das antigas instituições nacionais, como o caso de Zorobabel deixou claro. Israel não era mais uma nação e tinha pouca esperança imediata de o ser.

E, apesar da tenacidade das tradições da filiação tribal, tampouco podia atrasar o relógio, para se reconstituir numa liga de clãs (Bright, 2010, p. 466).

 

Entrando no período monárquico, o sacerdócio ganha estruturação e a partir daí o culto no Templo torna-se vigoroso. Salomão organiza a estrutura de seu reino e com isso o culto fica centralizado no Templo em Jerusalém. No entanto, com o cisma samaritano os cultos locais ganham novamente realce. Nessa época o sacerdócio e a monarquia tinham uma firme aliança, como mostra o massacre dos filhos de Acab, no qual Jeú extermina a todos, inclusive os sacerdotes que serviam o rei.Isto não se passava somente em Israel, mas também em Judá, como o caso do refugiado Joás, que ficou seis anos escondido no Templo e depois, com a conspiração do sacerdote Jojada, torna-se rei.

As classes sacerdotais formadas em comunhão com a monarquia foram respectivamente deportadas pelos conquistadores de seus reinos. Israel caiu com a invasão assíria e colonos se estabeleceram na Samaria. Algum tempo depois, sacerdotes são trazidos da deportação para ensinar a religião aos colonos, Judá é conquistada por Nabucodonosor e Sedecias, deportado para a Babilônia. Inclusive o sumo sacerdote Saraías e Sofonias, segundo sacerdote, são levados para o cativeiro.



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