Rota da Seda: Onde caravanas transportavam mercadorias e idéias

Rota da Seda: Onde caravanas transportavam mercadorias e idéias

Poucas aventuras humanas instigam tanto a nossa imaginação quanto aquela que aconteceu ao longo da Rota da Seda

A rede de estradas conectava o Extremo Oriente ao Mediterrâneo, por seus caminhos passaram, entre o século 2 antes de Cristo até meados do século 16, milhares de caravanas de camelos que transportavam mercadorias do Oriente para a Europa e o mundo árabe, e vice-versa. O itinerário principal da Rota se estendia por 12 mil quilômetros, atravessando montanhas, desertos e estepes, da China até os portos de Antioquia, na Síria, e os de Bursa e Constantinopla (a moderna Istambul), na Turquia. Desses portos, a Rota prosseguia por via marítima, até Veneza.

A Rota da Seda não era apenas um itinerário comercial: era sobretudo um importante canal de comunicação entre os povos do Oriente e do Ocidente, pelo qual ocorria a transmissão, em mão dupla, de tecnologias, artes e religiões. Da China, através da Rota, chegaram invenções que revolucionaram a Europa: a tecnologia do papel, a impressão, a pólvora. Da Europa, foram para o Extremo Oriente os conhecimentos ocidentais das matemáticas, da medicina e da astronomia. Percorrendo-a, o Islão, nascido no Oriente Médio, se difundiu na Ásia Central e na Índia; o budismo, por seu lado, se propagou da Índia à China e ao Japão.

Cena de rua e mercado ao ar livre em Istambul.
Chamada Constantinopla na época da Rota da
Seda, essa antiga cidade devia boa parte da sua
prosperidade ao fato de ser um dos principais
entrepostos de comércio entre a Ásia e a Europa.

A Rota da Seda – expressão cunhada no século 19 pelo estudioso alemão Ferdinand von Richthofen – tornou-se assim o maior eixo comercial e cultural de todos os tempos. Até hoje, seu nome é sinônimo de exotismo, aventura, viagens a terras distantes. A seda – objeto por excelência do desejo dos ricos e poderosos da Europa e do mundo árabe –, da qual os chineses dominavam os segredos de fabricação, foi escolhida como símbolo dessa imensa rede de comunicação terrestre. Mas a seda estava longe de ser o único produto a transitar por ela. Sobre seus lombos, os camelos carregavam também enormes fardos de especiarias em direção aos mercados europeus: cravo, canela, ginseng, coentro, sândalo, noz-moscada, cardamomo, mirra, incensos, bem como outros tecidos, sobretudo o linho, e tapetes, ervas medicinais, chás, jóias, artefatos de metal e madeira, cerâmicas e porcelanas, obras de arte. Em direção à China seguiam produtos de beleza e maquilagem, diamantes, pérolas, corais e vidros de manufatura ocidental. O diamante era utilizado sobretudo como pedra de corte, enquanto os objetos de vidro eram vendidos como artigos de alto luxo até o século 5, quando os chineses aprenderam a arte da sua fabricação.

Junto às as caravanas, caminhando ao lado dos camelos nessas viagens que duravam meses e até mesmo anos, um número enorme de pessoas se movia. Eram comerciantes e mercadores das mais diversas procedências e nacionalidades, homens de guerra com seus exércitos, sacerdotes, exploradores, embaixadores e emissários, peregrinos religiosos, artistas. Foram eles que possibilitaram o intercâmbio não apenas de mercadorias mas também aquele outro, mais duradouro e fecundo, das idéias, das crenças religiosas, dos estilos artísticos, das escolas de pensamento. A Rota da Seda funcionou assim como um gigantesco caldeirão cultural no qual se encontravam e se fundiam as mais diversas expe- riências culturais – chinesa, indiana, iraniana, árabe, turca, egípcia, a grega e a romana clássicas.

Em Kashgar, no Noroeste da China, o mercado,
a economia e a vida cotidiana não são muito
diferentes do que eram nos tempos em que esse oásis
era um dos pontos mais importantes da Rota da Seda.

Os itinerários seguidos pelos viajantes ao longo da Rota da Seda mudaram com o tempo, segundo sobretudo a situação política dos vários Estados atravessados pelas caravanas. Mas aquela que é hoje chamada de rota principal permaneceu a mesma ao longo dos séculos. Ela partia da China (da sua antiga capital, Chang’na) e se estendia em direção noroeste, penetrando na Ásia Central, onde, nas imediações do oásis de Dunhuang, se bifurcava em dois percursos principais. O primeiro seguia pela borda sul do deserto de Taklamakan, o segundo pela vertente norte desse mesmo deserto. Ambos os percursos se reuniam depois na cidade de Kashgar. Daí, a Rota atravessava as montanhas da cordilheira do Pamir, e passava pelas cidades de Samarcanda, Bucara e Merv, situadas no atual Usbequistão. Seguia depois pelas margens do Mar Cáspio e atravessava o Norte do atual Irã, antes de entrar no atual Iraque. Bagdá, a capital, era uma das cidades mais importantes da Rota. O trecho final chegava finalmente a Alepo e Antioquia, na Síria. Um outro braço atravessava a Anatólia turca até os portos de Bursa e Constantinopla (atual Istambul). Nesses portos, as mercadorias eram embarcadas em navios em direção a Veneza: entreposto definitivo onde as mercadorias eram armazenadas e as negociações aconteciam. De Veneza, via terra, os bens eram distribuídos para toda a Europa.

Nem tudo foram flores na longuíssima história da Rota da Seda. Pela prosperidade que ela engendrava, e por causa do acesso que proporcionava a um grande número de riquezas muito cobiçadas, ela atraiu um grande número de imigrantes e de invasores. No século 6, tribos turcas originárias da Ásia Central lançaram uma onda de migrações bem sucedidas em direção ao Oeste que levaram a língua e os costumes turcos até as margens do Mediterrâneo. Os árabes muçulmanos, por seu lado, fizeram o caminho contrário, migrando em direção ao Leste, alterando de maneira decisiva o equilíbrio de forças e a distribuição das grandes religiões mundiais na Ásia Central e na Índia.

Ao atravessar as zonas limítrofes entre a China e
o Sul da Mongólia, a Rota passava por vários
santuários budistas mongóis, como o da foto acima.
Nesses lugares havia intenso intercâmbio cultural,
com troca não apenas de informações científicas
e culturais mas também filosóficas e religiosas.

Em meados do século 13, chegou a vez dos mongóis de Gengis Khan e seu filho Kublai Khan. As hordas bárbaras dos mongóis invadiram a China, toda a Ásia Central, e prosseguiram depois a leste até o centro da Europa. Pela primeira e única vez na história, a Rota da Seda ficou sob o domínio exclusivo de um vasto império, o mongol. Graças a isso mercadores e emissários europeus como Marco Polo puderam viajar, sob a proteção dos mongóis, até a China, estabelecendo contato direto entre essa nação e a Europa.

Na segunda metade do século 14, o poder passou para as mãos do líder tribal Timur (Tamerlão), mongol de língua turca, que estabeleceu sua capital em Samarcanda. Guerreiro impiedoso, Timur dominou boa parte da Ásia Central, estabelecendo um reinado baseado no terror e na violência. As tribos se revoltaram contra ele, e uma situação de instabilidade política se instalou, seguida de uma crise econômica e de declínio cultural. A Ásia Central, enfraquecida e desorganizada, não mais pôde assumir o controle de intermediação que era vital para o comércio regular entre o Oriente e o Ocidente.

A arte islâmica dos azulejos está bem
representada neste detalhe de uma cúpula
de edifício religioso situado no centro
histórico de Samarcanda, no Usbequistão.

A China se aproveitou dessa situação para se livrar dos longos anos de dominação mongol e para restabelecer valores chineses tradicionais. Em meados de 1426, a dinastia Ming fechou as fronteiras da China. Depois de ter sido a principal artéria de comunicação entre o Oriente e o Ocidente, a Rota da Seda foi cortada. Seu fechamento durou 1.500 anos, e foi um dos principais motivos que levaram os europeus a descobrir rotas marítimas para manter o comércio com as nações do Oriente. Foi também responsável pelo grande declínio sofrido nos séculos seguintes pelos países e populações situados ao longo da Rota. Cada uma daquelas cidades e oásis, devido às suas naturezas particulares e colocação geográfica, tinha se beneficiado em modo e medida diversa dos estímulos e influências provenientes do intenso tráfego internacional que por elas passava. Cada uma tinha desenvolvido não apenas uma história, mas também uma fisionomia cultural, artística e religiosa próprias, constituindo sínteses únicas. Todas essas extraordinárias experiências se dissolveram com a falta dos mercadores, peregrinos, religiosos e artistas que durante séculos as tinham promovido, deixando sinais tangíveis da sua presença. Essas cidades e oásis pouco a pouco foram sendo despovoadas, algumas foram inteiramente abandonadas, transformando-se em ruínas. O deserto, finalmente, se apossou da maior parte dos monumentos, escondendo-os sob uma camada de areia.

Foi apenas no final do século 19 e início do século 20 que esses lugares quase esquecidos começaram a ser redescobertos, graças ao trabalho de numerosos exploradores e arqueólogos, em sua maioria europeus. Suas atividades, no entanto, nem sempre eram ditadas por puro espírito científi- co: muitos estavam ali como agentes de seus respectivos go- vernos para explorar estradas e percursos utilizáveis para fins comerciais e militares. Foi, por exemplo, o caso típico da Rússia, que organizou inúmeras expedições à Ásia Central, sobretudo, à zona do deserto de Taklamakan com o objetivo – por sinal bem sucedido – de instaurar protetorados ou simplesmente de anexar nações. Tudo isso faz parte da história da criação do vasto império que se chamou União Soviética. Muitos desses agentes não se contentaram em ser pontas-de-lança de projetos de dominação da região: dedicaram-se também à pilhagem dos tesouros artísticos e culturais nela guardados.

A Grande Mesquita de Bucara, no Usbequistão,
chegou intacta até os nossos dias. Ela é um
dos mais impressionantes monumentos da arte
e da arquitetura islâmica de todos os tempos.

A Rússia não esteve sozinha no grande processo de pilhagem que ocorreu naqueles anos. Pinturas murais, esculturas, manuscritos e tantos outros tesouros que testemunham a pujança das antigas civilizações da Rota da Seda foram simplesmente embarcados “para casa” pelos exploradores estrangeiros. Para se ter uma idéia da quantidade de tesouros centro-asiáticos pilhados basta visitar hoje os acervos de dezenas de museus especializados no Japão, China, Índia, Estados Unidos, Inglaterra, França, Rússia, Suécia, Finlândia, Taiwan, Coréia do Sul e Alemanha.

Hoje, lentamente, as nações da Rota da Seda abrem suas portas aos visitantes estrangeiros, e procuram recuperar o que sobrou do magnífico patrimônio que o comércio da seda gerou.

Marco Polo, o grande aventureiro da Rota da Seda

Durante séculos, o império mongol controlou a
totalidade da Rota da Seda, possibilitando a
viagem de grandes aventureiros como Marco
Polo. Na foto à esquerda, um velho monge
budista mongol. À direita, uma garota mongol.

Em 1271, os comerciantes venezianos Nicolau e Mateus Polo partem para a China, através da Rota da Seda, para uma viagem que irá durar cerca de 20 anos. Com eles está o jovem Marco, destinado a passar para a história como um dos mais célebres viajantes de todos os tempos. Suas aventuras são descritas no livro O Milhão, e farão sonhar muitas gerações de leitores ocidentais.

A Rota está novamente aberta

A desintegração da União Soviética assinala um novo capítulo na longa história da Rota da Seda. Com ela, as antigas repúblicas soviéticas da Ásia Central situadas na Rota da Seda – Casaquistão, Usbequistão, Guirguistão, Tajiquistão, Turcomenistão – conquistaram a sua independência e reabriram suas fronteiras, fechadas ao mundo ocidental durante a dominação soviética. Hoje, é possível visitar livremente essas nações – todas elas de riquíssimo passado cultural – para conhecer o que sobrou dos grandes monumentos erigidos nos séculos em que a Rota se manteve ativa. Samarcanda e Bucara, no Usbequistão, por si sós valem a visita. Ambas possuem um patrimônio arquitetônico islâmico de tirar o fôlego.

A Roda da Seda e o Patrimônio Mundial

A partir de Chang’an, a antiga capital da China,
a Rota da Seda se estendia em direção noroeste,
acompanhando o traçado da Grande Muralha.

O Centro do Patrimônio Mundial da Unesco trabalha ativamente para inscrever a Rota da Seda na lista do Patrimônio Mundial dos bens culturais. Em agosto de 2003 e em julho de 2004, a organização enviou expedições de especialistas para investigar sobretudo a parte da Rota que se encontra em território chinês. Essas missões da Unesco na China concluíram que uma rota cultural pode ser definida em termos de espaço (a Rota passava por centenas de sítios, de monumentos, de construções, de edifícios) e de tempo (é possível estabelecer o início e o fim da sua utilização). Completada a investigação do trecho chinês da Rota (cerca de 4.450 quilômetros), a Unesco dará início a uma fase ulterior, ligada aos demais países da Rota, situados na Ásia Central até o Mediterrâneo



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