Rio de Janeiro: capital de um império

Rio de Janeiro: capital de um império

De um dia para o outro, a cidade foi invadida por 15 mil novos moradores, transformando-se no centro político e econômico do império português

Flávia Ribeiro |

Ao desembarcar no Rio de Janeiro, em 7 de março de 1808, dom João e sua corte encontraram uma cidade pequena, de apenas 60 mil habitantes, completamente despreparada para receber tantos e tão ilustres moradores. Algo entre 10 mil e 15 mil portugueses, acostumados ao conforto da Europa, invadiram o Rio de repente. E o ineditismo da situação ia muito além do caos instaurado na cidade. Pela primeira vez na história, uma família real européia punha os pés na América. Estava em curso uma transferência de poder sem precedentes: a mudança de toda a corte portuguesa, por tempo indeterminado, de Lisboa para a Baía de Guanabara.

A importância história dos acontecimentos não livrou dom João de enfrentar problemas aparentemente menores, mas bem difíceis de contornar. O primeiro e mais prático de todos: simplesmente não havia moradia para toda aquela gente nova no Rio de Janeiro. Por mais que estivessem num cenário deslumbrante, cercadas de mar, montanhas e muito verde, as casinhas daquela época eram humildes em sua maioria. O jeito foi desalojar as famílias que ocupavam as melhores residências, para que em seu lugar fossem acomodados os integrantes da corte. Cada imóvel desapropriado tinha as iniciais “P.R.” – de Príncipe Regente – pintadas na porta. Não demorou até que o povo carioca, gaiato desde sempre, encontrasse outro significado para a sigla: “ponha-se na rua”.

INVENÇÃO DO BRASIL

De um dia para o outro, a cidade ganhou uma importância inesperada, transformando-se na capital do império português. Para muitos historiadores, esse foi o marco inicial dos eventos que forjaram as instituições, a cultura e a política brasileiras. Até então, o Rio de Janeiro não passava de 76 pacatos logradouros. Teve de expandir-se rapidamente, num processo de urbanização que avançou na direção de São Cristóvão e da zona sul, especialmente para os arredores de Flamengo, Botafogo e Laranjeiras. Dom João elegeu uma chácara em São Cristóvão, a Quinta da Boa Vista, para ser sua residência oficial.

À medida que a cidade crescia, mais problemas iam surgindo. Crises no abastecimento de água, por exemplo, aos poucos foram debeladas com a construção de dezenas de bicas e chafarizes. A explosão demográfica não se restringiu à chegada da corte. Com a abertura dos portos brasileiros, em 1808, um número incalculável de estrangeiros começou a freqüentar o Rio. A nova capital, naquele início de século 19, transformou-se a toque de caixa na cidade mais cosmopolita de todo o continente.

Eram tantos ingleses mudando-se para cá que lhes foi concedido o direito a um cemitério e uma igreja só para eles. Italianos influenciavam a gastronomia. E até chineses vieram do outro lado do mundo, para introduzir o plantio de folhas de chá no recém-criado Horto Real – mais tarde transformado no Jardim Botânico. Em pouco tempo, bibliotecas, teatros, escolas e hospitais foram erguidos, ruas e estradas foram abertas, igrejas foram reformadas. O Rio de Janeiro crescia freneticamente, para fazer justiça à condição de capital de um império ultramarino.

Vidinha provinciana

Até 1808, a cidade tinha ares pacatos e um cotidiano sem luxos.A vaidade arquitetônica passava longe das fachadas coloniais

Flávia Ribeiro e Maurício Manuel

Botafogo e flamengo

Antes da chegada da corte portuguesa, as duas regiões eram consideradas áreas rurais. Tinham apenas algumas chácaras isoladas.

Casas Térreas

A monotonia da arquitetura colonial, marcada por construções simples de pedra bruta e argamassa, começava a mudar. Mas ainda predominavam casas baixas e sem vidros nas janelas (eram fechadas com gelosias, uma espécie de tela de madeira).

Barcos de menos

A colônia só mantinha comércio com Portugal. Navios estrangeiros não podiam entrar na Baía da Guanabara.

Paço imperial

O palácio dos vice-reis exibia um andar a menos na parte central. Era um dos prédios mais belos da cidade. Tinha três pavimentos na lateral com vista para a praça e outros dois na lateral oposta.

Campo de Santana

Dividia a área urbana e a rural. A única construção da época pré-joanina era a igreja que deu nome ao lugar. Os mangues nos arredores funcionavam como aterros, onde se jogavam barricas com dejetos.

Quinta da Boa Vista

Aqui, o comerciante Elias Lopes construiu a mansão que, em 1808, seria presenteada a dom João. Embora fosse uma das mais chiques da cidade, ficava numa região isolada, cercada de mangues.

Morro do castelo

Abandonada, a região onde a cidade nasceu servia de abrigo para a marginalidade, que vivia em condições consideradas precárias até mesmo para a época.

Marcos arquitetônicos

Arcos da Lapa e Convento de Santa Teresa foram erguidos antes da chegada da corte

Em 1503, os portugueses recém-chegados ao Brasil ergueram uma casa de feitoria à beira de um rio de águas límpidas. Os índios tamoios que habitavam as cercanias a chamaram de Cari-Ôca (casa de branco), dando origem ao nome do rio Carioca. Essas águas foram canalizadas em 1726, na maior obra de engenharia e principal marco arquitetônico do Brasil colonial: o Aqueduto da Carioca. Ao longo do século 18, a obra foi tomando forma, até ganhar seus 42 monumentais arcos, sobre os quais passava a tubulação. Situado aos pés do Morro do Desterro, mais tarde chamado de Santa Tereza, virou viaduto para bondes em 1896. Hoje, é conhecido como Arcos da Lapa. As freiras do convento das carmelitas descalças aproveitavam a água fresca do aqueduto. Localizado no Morro do Desterro, o Convento de Santa Teresa d’Ávila foi erguido graças à fé de duas irmãs, Jacinta e Francisca Rodrigues Ayres. No século 18, as agremiações de freiras eram proibidas no Rio. “A justificativa era a de que o número de mulheres na cidade era diminuto e isso prejudicaria a expansão da colônia”, diz o pesquisador Milton Teixeira. Mas, ao saber que Jacinta, Francisca e outras moças levavam uma vida religiosa em uma chácara na Rua Mata-Cavalos (atual Riachuelo), o governador Gomes Freire doou um terreno, onde permitiu a fundação do convento, em 1744.

Reconstrução total

Dom João deu uma cara inteiramente nova à cidade. Onde só havia mato surgiram casas. E a Guanabara encheu-se de navios

Flávia Ribeiro e Maurício Manuel

Sobrados chiques

A substituição das casas térreas se acelerou. Entre 1808 e 1818, mais de 600 sobrados foram construídos, a maioria com belas fachadas neoclássicas.

Botafogo e flamengo

Tornaram-se bairros emergentes. Na época de dom João, muita gente ligada à nobreza passou a ocupar chácaras nos arredores. A própria princesa Carlota Joaquina chegou a ter uma residência em Botafogo.

De baía cheia

Os portos foram abertos e os estrangeiros chegaram em peso. Navios com bandeiras de vários países passaram a freqüentar a Baía da Guanabara.

Paço imperial

A seção central ganhou um terceiro piso. A fachada voltada para o Convento do Carmo anexou, para a coroação de dom João VI, a varanda monumental, retirada mais tarde durante o Segundo Reinado.

Campo de Santana

A transformação foi radical: esta região ganhou o Museu Real, um parque com jardim e um quartel do Exército. Em pouco tempo, apareceram várias construções importantes, incluindo a prefeitura.

Quinta da da Boa Vista

Tudo o que a nobreza fazia, os cariocas ricos imitavam. Natural, portanto, que os arredores da Quinta se tornassem disputados. A residência oficial de dom João passou por reformas, mas só ganhou nova fachada, em estilo gótico, nas bodas de dom Pedro I, em 1816.

Morro do castelo

Muitos moradores despejados para acomodar a corte acabaram indo parar no alto do morro. A região tornou-se uma espécie de avó das favelas. Em 1922, o Castelo foi destruído em nome da modernidade.

Levaram minha bengala!

Até o rei foi vítima de assalto no centro do Rio de Janeiro

Levantamento recente feito pelos comerciantes da região da Praça 15, no centro do Rio de Janeiro, identificou 20 bandidos que agem com regularidade naquela área. São sempre os mesmos. Eles roubam carteiras, bolsas e celulares dos pedestres, quase todo santo dia. Esse é um problema antigo na cidade, mais antigo do que a maioria imagina. Já nos tempos da corte, os ladrões faziam a festa por lá. Até dom João foi vítima de um deles.

O assalto real aconteceu em 26 de fevereiro de 1821 – uma data fadada a entrar para a história, e não apenas por causa desse incidente. Naquele dia, dom João prestou juramento à futura Constituição portuguesa, que lhe retiraria parte dos poderes, e comprometeu-se a voltar para a Europa, deixando o filho Pedro em seu lugar. Quando o rei passava pela Rua Direita (atual 1º de Março), a caminho da sede do governo, no Paço Imperial, um ladrão surrupiou a bengala que ele levava na carruagem.

“O juramento foi seguido de uma grande manifestação no centro da cidade”, explica o pesquisador Milton Teixeira, criador do projeto Conheça o Rio a Pé. Segundo Teixeira, a carruagem de dom João acabou arrastada pela multidão do Largo do Rocio, perto de onde hoje fica o Campo de Sant’Anna, até a Rua Direita. “Atônito no meio do povo, o rei nem percebeu que a bengala tinha sumido.”

Fábio Varsano

Saiba mais

Livro

Seminário Internacional D. João VI: um rei aclamado na América, vários autores, Museu Histórico Nacional, 2000

A transformação urbanística e arquitetônica no Rio de Janeiro a partir da chegada da corte, em 1808, é o tema de ensaios apresentados pos vários pesquisadores.



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