A Religião na Suméria

A Religião na Suméria 

de Adapa (Twin Rivers Rising, 1995-1997)

A mitologia da criação em geral é dividida em dois tipos: a) Cosmogonia, relativa à criação do cosmos, e b) Antropogonia, relativa à criação da humanidade. Esta distinção é importante, porque enquanto que existem textos específicos relatando a antropogonia suméria, não existem textos diretos tratando somente sobre a cosmogonia. Ou seja, o que sabemos sobre as crenças dos sumérios sobre o assunto deve freqüentemente ser apreendido a partir de textos que não se relacionam entre si. Apesar das cosmogonias apresentadas nestes textos apresentarem variações, alguns padrões distintos podem ser estabelecidos, e estes fornecem uma compreensão mais ampla a respeito das crenças sumérias relativas à criação do cosmo.

 Duas abordagens bastante diferentes podem ser vistas em textos sumérios. A primeira, chamada de Modelo de Eridu, está relacionada às crenças dos habitantes das regiões ao Sul da Mesopotâmia. A esfera do ser divino primordial aqui não é o céu ou a terra, mas as águas, definidas pelo termo Engur. Este termo tem como sinônimo Abzu/Abpsu, “as águas doces das profundezas”, e é definido como a fonte subterrânea das águas que emergem das profundezas da terra. Acreditava-se serem estas águas a fonte das terras férteis dos pântanos que deram vida a esta região da Terra Entre os Rios. O símbolo usado para Engur pode também ser usado para Namu, a deusa-mãe dos primeiros tempos da teologia da Mesopotâmia. Os textos descrevem Namu/Engur como ¨a mãe, a primeira, que deu à luz aos deuses do universo ¨ Ela é uma deusa sem consorte, o útero auto-procriador, a matéria primordial, inerentemente feminina, as águas férteis do abzu* (1). O Modelo do Norte substitui a primazia das águas pela dualidade céu-terra. Neste modelo, ¨o Céu e a Terra são os dois vistos como a matéria-prima que gerou a vida, e este fato é feito ainda mais explícito ao fazer o símbolo de Céu e Terra ser igual ao de Engur {2} Algumas vezes, um ou outro vem primeiro. Na lista de deuses, por exemplo, Anu nasce da Terra, ou seja, Uras (a terra masculina), e Ninuras (a terra feminina) Em uma das genealogias de Enlil, a terra também aparece primeiro, mas o enfoque está apenas no seu aspecto feminino, relativo à agricultura. O texto relativo à origem das cáries (que se pensava ser a origem das dores de dente) mostra o céu como o primogênito:

” Depois que Anu (3) tinha criado os céus, o céu criado a terra, a terra criado os rios, os rios criado os canais, os canais, criado os pântanos, os pântanos criado as minhocas …”(4).

 A versão mais aceita da cosmologia, entretanto, é aquela encontrada no texto Gilgamesh, Enkidu e o Mundo Subterrâneo, na qual nos é contado:
” Nos primeiros dias, nos distantes primeiros dias, nas primeiras noites, nas distantes primeiras noites, nos primeiros anos, nos distantes primentos anos. Nos dias de outrora, quando tudo o que era vital foi trazido à existência, nos dias de outrora, quando tudo o que tinha vida era bem criado. Quando o pão era degustado nos templos desta terra, Quando o pão era cozido nos fogões desta terra, Quando o Céu havia se separado da Terra, Quando o nome do homem [e da mulher] foi fixado, Quando Anu carregou consigo os céus, Quando Enlil carregou consigo a Terra ” (5)

 A criação do cosmos foi, portanto, produto da separação da massa primordial sem forma, constituída pelo Céu e a Terra. Esta massa, segundo o que podemos depreender, foi criada por Namu/Engur. Infelizmente, não possuímos nenhuma fonte suméria para explicar como surgiu Nammu/Engur, se ela foi criada, ou se, pelo contrário, foi sempre uma força pré-existente. Pode ser neste ponto que o mito da Criação Babilônica tenha auxiliado os antigos escribas semíticos, pois entre os semitas as “Águas Primordiais Pré-Existentes” deram origem a Mumu (Namu). Numa tábua que traz a listagem dos deuses sumérios, Namu é descrita como ” a mãe que deu à luz aos céus e à Terra ” (6). Segue-se daí que a união de Anu com Ki (céu e terra), que produziu os Grandes Deuses, os Anunaki, e que Enlil, o primeiro dos Anunaki, o deus do Ar, separou o céu da Terra, as duas forças cósmicas que deram origem a tudo o que existe (7). Enlil, o jovem deus do Ar, decide então tomar conta para sempre, de sua mãe, a Terra em flor (8).

 É importante salientar, entretanto, que Céu e Terra não devem ser vistos neste contexto como entidades separadas, mas sim como seres numa Unidade Essencial que compreende esta dualidade. Para os mesopotâmicos, a terra e os céus não constituíam domínios separados, mas eram duas partes de um mesmo todo. A Terra e o Céu eram complementares, um dependendo do outro e ambos igualmente importantes (9). Desta forma, a força criadora inicial, de acordo com o ponto-de-vista dos sumérios, era muito atômica em sua natureza: a criação vinha de um todo, que, entretanto, era feito de partes constituintes; e foi a separação destas forças, ou seja, a fusão do átomo, que provocou esta criação. É por esta razão que tanta atenção é dada ao ato de separação no esquema do universo. Este poder, que os antigos sumérios viam como inerente nesta separação de forças, iria continuar a ser muito importante no contexto religioso, onde encantos eram geralmente fundamentados pela sentença ” pelo Céu e pela Terra”.

 A criação e propagação da vida vegetal após estes fatos, foi vista, em contraste, como resultado da união, ao invés da separação da Terra e do Céu. A mesma união que trouxe à vida os Grandes Deuses:

” A Grande Terra fez-se gloriosa, seu corpo floreceu com pastagens verdes. A Terra Ampla adornou-se com ornamentos de prata e lápis lazuli, diorita, calcedônia, cornalina e diamantes. O Céu cobriu as pastagens com irresistível atração sexual, e apresentou-se em toda majestade. A jovem terra, deusa e mulher mostrou-se para o puro Céu, e o vasto Céu copulou com a Terra. As sementes dos heróis Madeira e Junco o Céu derramou no útero da Terra. Que recebeu a semente do Firmamento dentro de si… ” (10)

Portanto, vemos como as energias da criação transformaram-se de energia atômica (energia de separação) em energia sexual (energia da união) ao longo do processo de concepção do universo. O movimento na direção desta forma de imagens sexuais iria continuar nos relatos sumérios sobre a criação do homem. O mito de Etana dá-nos algumas indicações sobre a forma deste universo. Neste mito, o herói, Etana, foi carregado até os céus por uma águia. Desta forma, Etana pôde descrever a forma de mundo. A forma do mundo seria semelhante a uma nau de cabeça para baixo num grande oceano (11). A grande montanha que constituía a Terra tinha a forma hemisférica. Este hemisfério flutuava sobre o mar da terra, descansando sobre as Profundas Águas do Apsu, que suportavam tudo. A alguma distância da Terra, estendiam-se os céus, que também tinham a forma de um hemisfério. E mais:

 ” Acima da cúpula dos céus havia uma outra massa de águas, o oceano celestial, que suportava a cúpula dos céus e a mantinha firme em seu lugar, para que não quebrasse e caísse tal qual enchente sobre a Terra. Do lado de baixo da cúpula, as estrelas tinham os seus cursos, e o deus da Lua seguia o seu caminho. Na cúpula, ainda, havia dois portais, um ao Leste e o outro a Oeste, para uso do deus Sol” (12).

Utu então salta da terra por sobre a terra das montanhas do extremo Leste do hemisfério da Terra ao pôr-do-sol, voltando para as Grandes Profundezas das montanhas do pôr-do-sol, localizadas na extremidade oeste. Sabemos a partir do mito da Descida de Inana que este Mundo era cercado por sete muralhas e sete portais, o primeiro deles sendo o portal de Ganzir. No centro destas muralhas estava Egalkurzagin, ” o palácio da montanha lustrosa”, que abrigava os seres do Mundo Subterrâneo. Entre os céus e a Terra (apesar de ser classificado como parte da Terra) havia uma região na qual a atividade atmosférica da terra tomava lugar. A Fundação do Firmamento, entretando, descansava sobre as extremidades da Terra (13). Acima desta Fundação, estava a região inferior dos Céus, onde se pensava ocorrer a moção periódica dos planetas. Acima desta região, estava e-sara, onde residiam as estrelas fixas. O firmamento celeste, por seu turno, suportava o oceano das águas celestiais, o Ziku (14).

 A fonte da antropogonia suméria é mais direta do que as que temos para a Cosmogonia. Esta pode ser encontrada em um texto conhecido chamado ¨O nascimento do Homem ¨, onde nos é contado que os deuses menores carregavam toda a carga da criação, e que os deuses maiores trabalhavam bem menos, ou seja, nas palavras literais do mito:

¨Quando os deuses agiam como homens, eles faziam todo trabalho, e muito labutavam. O trabalho era enorme, grande o esforço, pois os deuses do céu, os Anunaki, faziam os Igigi, os deuses mais jovens da Terra, carregar uma carga sete vezes maior (15).

Mas esta vida de labuta logo traz dissenção entre os deuses, e os deuses menores ameaçam revolta. Namu, a mãe de Enki, escuta o clamor dos deuses menores e leva tais palavras até seu filho. Enki resolve criar um substituto para fazer os trabalhos para os deuses. Através da mágica de Enki e de seus ajudantes, uma delas a escolhida de Enki, Ninhursag, tem origem a humanidade:

Enki, ao ouvir a voz de sua mãe Namu, levanta-se do seu leito em Halankug, seu espaço para reflexão,” o sábio e ardiloso deus, o habilidoso guardião do céu e da terra, e construtor de todas as cuoisas, chamou Imma-en and Imma-shar. Enki então estendeu seu braço na direção delas, e viu que o feto estava crescendo, e Enki viu que o bebê se acordava com a consciência no coração” {16}

Enki então chama por Namu, para que ela “molhar o núcleo da argila do Apsu” , a partir da qual nasceram todos os deuses. Lá, Enki deposita o feto, e portanto em Namu foi o embrião da humanidade criado {17}. Esta parte do mito é elaborada em maiores detalhes no mito de Atrahasis. Neste mito, a criação dos homens e mulheres também é fruto da necessidade dos deuses de terem quem possa trabalhar para eles. Em resposta ao pedido dos deuses de que lhes sejam rendidos seus trabalhos, Enki é chamado para dar origem aos homens e mulheres, com a ajuada de Nintu (Ninhursag). Enki responde:

¨No primeiro, no sétimo e no décimo-quinto dia do mês, devo fazer um ritual de purificação por lavagem (18) Então, um deus deverá ser sacrificado. E os deuses poderão ser purificados por imersão. Nintu deverá então misturar a argila com a carne e sangue [deste deus]. Então, homem e deus irão existir juntos na argila. Que o rufar dos tambores seja ouvido para sempre, que o espírito venha a existir a partir da carne do Deus, que a deusa proclame então este ser como um símbolo vivo dela mesma. Que a deusa ensine ao ser que viver desta grande dádiva. E que para tal fato jamais seja esquecido, que o espírito permaneça para sempre¨ (19)

 Creio ser esta uma das mais impressionantes passagens da literatura suméria. Mesmo começar a querer penetrar nas suas profundezas é uma tarefa de monta. Primeiramente, gostaria de salientar ” o espírito/fantasma” que nasce do ritual de Enki aqui descrito. Estudiosos modernos geralmente crêem que este termo mostra um trocadilho entre as palavras etemmu (fantasma) e temmu (inteligência). Eles ignoram, entretanto, o fato de que temmu também é um termo usado para descrever o espírito sem corpo de homens e mulheres e que sobrevive à morte, ou seja, a Alma. Portanto, é importante de que entendamos de que do corpo do deus sacrificado foi criada a Alma, e não apenas uma criatura terrena nascida da argila transformada do Apsu. Além do mais, esta Alma deveria servir a um propósito maior do que o citado no mito ¨A criação do Homem”, ou seja, enquanto ainda que os homens e mulheres estivessem destinados a preencher os trabalhos anteriormente exigidos dos deuses para o desenvolvimento da criação na Terra, a alma destes mesmos homens e mulheres surgiu, foi criada para servir como um sinal vivo do sacrifício do deus, que cedeu o seu espírito para a humanidade. E para que tal dádiva jamais fosse esquecida, a Alma a partir de então existiria para sempre, e os sacerdotes e sacerdotisas escribas descreveram tal fato poeticamente da seguinte forma: …” E que o rufar dos tambores [energia, o pulsar do universo, grifo da tradutora] seja ouvido para sempre¨ . Portanto, os homens e mulheres foram criados tanto como seres físicos, nascidos da argila fértil das águas doces das profundezas da terra, e também como criaturas do espírito, com o sangue dos deuses e donos de uma alma imperecível e imortal, para servir aos deuses e aos seus irmãos e irmãs da criação, na lembrança eterna do sacrifício de vida mundana e eterna que criou a humanidade.

 

Notas
{1} Gwendolyn Leick, Sex and Eroticism in Mesopotamian Literature, p. 13-14
{2} Id pg. 16
{3}o termo Anu aqui não deve ser confundido com o deus Anu. Aqui, este termo se refere genericamente ao
céu ou firmamento
{4} A. Heidel, A Babylonian Genesis, p. 51
{5} S.N. Kramer, From the Poetry of Sumer : Creation, Glorification Adoration, p. 23
{6} S. N. Kramer, Sumerian Mythology, p. 39
{7} Ibid
{8} Id pg. 40
{9} M. Baigent, From The Omens of Babylon: Astrology and Ancient Mesopotamia, p. 41
{10}J. Van Dijk, "The Birth of Wood and Reed", Acta Orientaliia 28 I, p.45
{11} L.W. King, Babylonian Religion and Mythology, p.28
{12}Id pg. 31
{13}Chaldean Magic and Sorcery, p. 153
{14} Ibid.
{15}Jean Bottéro, Mesopotamia: Witing, Reasoning, and The Gods, p. 222
{16}T. Jacobsen, The Harps That Once…Sumerian poetry in Translation, p. 155-156
{17} Id at p.156-157
{18} para uma explicação a respeito do primeiro, sétimo e décimo-quinto dias do mês, leia a seção entitulada ¨Os sinais do céu e da terra¨.
{19} Stephanie Dalley, Myths From Mesopotamia, p.15, note-se, entretanto, que alterei as últimas três linhas, substituindo a tradução de Moran de 1970, pois creio que tal ato protege a integridade do sentido desta parte
da passagem de forma mais efetiva e correta.
{20} Jean Bottéro, Mesopotamia : Writing, Reasoning, and The Gods, p. 217
{21}veja seção precedente
{22} Bottero, Supra nota 12, pg. 225
{23} Leo Oppenheim, Mesopotamia: Portrait of a Dead Civilization, p. 184
{24} Id at 186
{25} Supra note 16; veja também seções precedentes.
{26} isto não era um ato religioso, mas algo feito para controlar os odores dos alimentos.
{27} Oppenhiem, Supra nota 19, pg. 188
{28} see previous section
{29} Bottero, Supra nota 12, pg 230.
{30} A. Jeremias, The Babylonian Conception of Heaven and Hell, p. 14-15
{31} Leonard Wooley, The Sumerians, p. 120
{32} Bottero, Supra nota 12, pg. 277
{33} Ibid.
{34} J. Morgenstern, The Use of Water in The Asipu Ritual, Volume I of The Doctrine of Sin in The Babylonian
Religion, p.32
{35} E. Schrader, Keilinschriftliche Bibliothek, Vol. VI, I, 228
{36} Ibid
{37} Stephanie Dalley, Myths From Mesopotamia, p. 118
{38} Id pg. 184
{39} Id pg. 187
{40} Lewis Spence, Myths and Legends of Babylonia and Assyria, p. 120
{41} Dalley, Supra note 37
{42} M. Baigent, Supra note 9. p. 50
{43} Dalley, Supra note

AUTOR: ADAPA (TWIN RIVERS RISING, 1995-1997)



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