Pedro d’Aragão

Pedro d’Aragão Extraído do discurso de posse do Acadêmico Afranio de Aragão na Academia Paraibana de Letras Maçônicas, no dia três de outubro de 2009, por ocasião de sua investidura na cadeira cujo patrono é seu pai, Pedro d’Aragão.

1. Quem foi o homem Pedro d’Aragão

Pedro d’Aragão teve uma vida dedicada às associações que fundou ou das quais fazia parte, no sentido mais amplo possível. Às educacionais, às dos trabalhadores pobres de Campina Grande, naquele tempo conhecidos como proletariado. Às das classes produtoras a que pertenceu por muitos anos, procurando a unificação de segmentos como o dos comerciantes varejistas e dos comerciantes atacadistas, estes últimos ainda não organizados, à época, em termos sindicais. Procurando difundir o Ideal Maçônico, a Filosofia Teosófica, o Rosacrucianismo e a Doutrina Espírita em Campina Grande e na Paraíba e finalmente, lutando, por mais de vinte anos, por uma imprensa livre e independente.

2. Pedro d’Aragão: considerações gerais


Pedro d’Aragão não teve educação formal. Apenas, quando criança, em São José do Egito, Pernambuco, onde nasceu, no dia primeiro de julho de 1900, teve uma professora primária.

Seu pai chamava-se André Alvino Correia de Aragão e sua mãe, Alexandrina Maria do Espírito Santo. Ambos analfabetos. A mãe, doméstica e deficiente física. O pai, funileiro, fazia e vendia candeeiros de querosene, lamparinas e pequenos carrinhos de lata para crianças nas feiras livres daquela cidade e de Campina Grande, quando nesta última cidade veio residir.

Pedro d’Aragão, já rapaz, fixou residência em Umbuzeiro, Paraíba. Ali aprendeu música, dominando com facilidade os rudimentos da composição e regência de bandas de música e de corais de igrejas da região, passando a exercer a profissão em municípios vizinhos. Aprendeu a tocar alguns instrumentos musicais, sendo músico talentoso no bombardino, no violão, no bandolim e na serafina, nome pelo qual eram conhecidos aqueles pequenos órgãos de igreja. Seu professor foi o Maestro José Souto Lima. Em 6 Umbuzeiro namorou e casou com Umbelina, filha do dono de uma pequena padaria local. Deste casamento resultaram sete filhos, o segundo mais velho, este orador.

Saindo de Umbuzeiro veio para Campina Grande onde se estabeleceu com um outro oficio que também dominava bem: fazer malas para vender nas feiras livres da cidade. Tempos depois, foi trabalhar na Prefeitura Municipal local como escrevente e depois, encarregado do incipiente setor de estatística ali existente até quando começaram os trabalhos de preparação do Recenseamento Nacional de 1940, ocasião em que foi escolhido e nomeado para instalar e dirigir a 2ª Delegacia Seccional do Recenseamento, com jurisdição de Campina Grande a Cajazeiras.

Também, foi professor de música em Campina Grande.

3. Atividades no Setor Público

3.1 Recenseamento Geral do Brasil – 1940

Pedro d’Aragão, em 1939, já era Chefe da Agência de Estatística de Campina Grande.

No ano de 1940 teve início o Recenseamento Geral do Brasil, sob a coordenação do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística.

O Recenseamento foi regulamentado através do Decreto-Lei Nº 2.141, de 15 de abril de 1940, nos termos do Decreto-lei Nº 969, de 21 de dezembro de 1938 e a investigação compreendia os aspectos demográfico-econômicos e sociais da vida brasileira, através dos seguintes censos distintos: censo demográfico; censo agrícola, censo industrial, censo comercial, censo dos transportes e comunicações, censo dos serviços e censo social.

Pedro d’Aragão foi nomeado Delegado Seccional, na direção geral da 2ª Delegacia Seccional do Recenseamento, com sede em Campina Grande e jurisdição até Cajazeiras, reportando-se à Delegacia Regional, em João Pessoa. Com poderes para montar equipes requisitou funcionários, principalmente do Banco do Brasil – à época o maior setor, em Campina Grande, de pessoas com experiência em finanças e capacidade organizacional, para ajudar a instalar dessa cidade a Cajazeiras os serviços de coleta de dados. Viajava ininterruptamente, numa atividade intensa para recrutar e treinar centenas de pessoas, do pessoal burocrático aos agentes encarregados de colher, em campo, as informações exigidas nos diversos censos. O trabalho complementar, antes e depois da coleta dos dados, levou muito tempo e eu, menino de dez anos, acompanhava aquela atividade em casa e na sede do serviço em Campina Grande, assistindo reuniões com os técnicos que davam assessoria ao trabalho em realização, até o seu final.

4. Atividades Comerciais

4.1 Livraria Modelo

A partir de sua natural inclinação para a leitura e de ser um leitor disciplinado, já era possuidor, à época, de uma das mais completas bibliotecas de Campina Grande sobre Teosofia, Esoterismo, Rosacrucianismo e de todos, ressalto, de todos os livros publicados pela Editora “O Pensamento”, do Círculo Esotérioco da Comunhão do Pensamento, e de livros espíritas publicados pela editora da Federação Espírita Brasileira. A partir, também, de suas habilidades como músico e ex-regente de banda de música, ele resolveu enveredar pelo comércio de livros e de instrumentos musicais, fundando, juntamente com Júlio Costa, seu amigo fraterno, uma papelaria e livraria que denominaram de Livraria Modelo.

A Livraria Modelo foi o primeiro, e durante vários anos o único estabelecimento de Campina Grande a vender instrumentos musicais: acordeons, instrumentos de cordas, como violões, cavaquinhos, banjos etc.; pianos novos, fabricados no Brasil, e usados, principalmente de fabricantes alemães; órgãos de fabricação nacional, inclusive aqueles popularmente conhecidos como serafinas; instrumentos de sopro e de metal e tambores para bandas marciais, sendo Pedro d’Aragão o primeiro comerciante a financiar a venda de instrumentos musicais na cidade. Dezenas de colégios e igrejas, sobretudo evangélicas, tiveram suas bandas de música adquiridas através da Livraria Modelo.

Ao tempo, eu que também estudava e trabalhava na livraria. Tivemos sérios problemas com instituições religiosas por ser ele o primeiro vendedor de livros esotéricos, maçônicos, mas, sobretudo, espíritas em Campina Grande.

5. Atividades junto a Sindicatos Patronais na Paraíba

Pedro d’Aragão distinguiu-se como líder sindical da classe patronal em Campina Grande.

5.1 Sindicato do Comércio Varejista de Campina Grande

Pedro d’Aragão foi presidente, por vários anos, do Sindicado do Comércio Varejista de Campina Grande, ao qual conferiu invulgar dinamismo, com reuniões de valorização, união e aglutinamento da classe em defesa dos seus legítimos interesses.

5.1.1 Vice-Presidente da Federação do Comércio Varejista do Estado da Paraíba

Foi eleito Vice-presidente da Federação do Comércio Varejista do Estado da Paraíba, função que exerceu por vários anos. No desempenho dessas obrigações fazia freqüentes viagens a João Pessoa, Rio de Janeiro (sede da Confederação Nacional do Comércio) São Paulo e capitais outras, onde representava a Paraíba em Congressos, Mesas Redondas e reuniões outras. Por muitas vezes assumiu a presidência da Federação do Comércio da Paraíba.

5.1.2 Presidente dos Conselhos do SESC e SENAC na Paraíba

Foi eleito Presidente dos Conselhos do SESC e do SENAC da Paraíba, funções que exerceu por vários anos.

5.2. Sindicato do Comércio Atacadista da Paraíba

A idéia de fundar um sindicato do comércio atacadista em Campina Grande germinou em reuniões com um grupo de comerciantes atacadistas da cidade. Resolveram fundar o Sindicato do Comércio Atacadista de Campina Grande, hoje Sindicato do Comércio Atacadista do Estado da Paraíba, com sede em Campina Grande, idéia que foi posta em prática passando Pedro d’Aragão a ser o seu primeiro presidente, função que exerceu por muitos anos.

6. Jornalista

6.1 Jornal O REBATE

Pedro d’Aragão fundou, juntamente com Luiz Gil de Figueiredo e Eurípedes Oliveira o jornal O REBATE no dia quatro de outubro de 1932.

Sua carteira de jornalista foi uma das primeiras emitidas pela Associação Paraibana de Imprensa.

O REBATE circulou ininterruptamente por mais de 20 anos, até que, morrendo o Professor Luiz Gil, papai resolver encerrar essa atividade jornalística. O REBATE foi um centro não somente de formação, mas de meio de expressão de idéias e posições políticas de dezenas de campinenses e paraibanos de destaque como Abel Correia, Adauto Rocha, Antonio Mangabeira, Carlos Agra, Cristino Pimentel, Egídio Lima, Elísio Nepomuceno, Elpídio de Almeida, Epaminondas Câmara, Epitácio Soares, Eurípedes de Oliveira, Evaldo Cruz, Everaldo Luna, Felix Araújo, Gilberto Leite, Hortêncio Ribeiro, José Leite Sobrinho, José Lopes de Andrade, Lino Gomes, Luiz Gil de Figueiredo, Mauro Luna, Nilo Tavares, Osmário Lacet, Pedro d’Aragão, Otávio Amorim, Severino Procópio ou William Tejo, entre outros.

6.2 Jornal A METRALHA

Pedro d’Aragão foi também fundador e um dos diretores do jornal “A Metralha” que circulou por muitos anos nas festividades do Natal e de Ano Novo em Campina Grande. Neste jornal Nilo Tavares, Luiz Gil de Figueiredo e Epitácio Soares eram, juntamente com ele, a linha de frente.

7. Atividades Sociais

Pedro d’Aragão foi, durante muitos anos, ligado às atividades sociais em Campina Grande.

No Aliança Clube 31, fundado nos idos de 1930, uma das mais antigas associações dançantes da cidade, ele ocupou por muitos e muitos anos diversas funções em sua diretoria, entre as quais, as de:
• Orador
• Presidente do Clube

O Aliança Clube 31, o clube da juventude, desde 1930, se reunia à Rua Monsenhor Sales, em prédio ainda hoje existente e era por todos conhecido como o sodalício que reunia os maçons da Regeneração Campinense. Sua inteira diretoria, antes e depois da presidência de papai, era constituída de obreiros da Loja.

8. Sociedade Beneficente dos Artistas de Campina Grande – SBA

8.1 Campina Grande à época de sua fundação: década de 1920

A Sociedade Beneficente dos Artistas foi uma instituição filantrópica fundada em 26 de fevereiro de 1929, a partir da União Beneficente dos Sapateiros, por um grupo de sapateiros, de artesãos e outros profissionais com a finalidade de oferecer cursos de alfabetização e cursos profissionalizantes como corte e costura, bordado, arte culinária, datilografia, alfaiataria, entre outros, para o “proletariado” de Campina Grande e suas famílias.

Em um período anterior à instalação e funcionamento de instituições como o SESC, SESI, SENAI e SENAC, e de investimentos do setor público nessa área, a Sociedade Beneficente dos Artistas foi talvez a mais importante instituição a representar as transformações da cidade de Campina Grande na década de 20.

Campina Grande, à época, estava expandindo a sua área urbana: a população variava entre 70 e 100 mil habitantes, segundo o Anuário da cidade datado de 1925.

Campina Grande, nessa década, estava posicionada no topo no ranking de exportação mundial de algodão, perdendo apenas para Liverpool, na Inglaterra. No tempo da safra, aos sábados entravam na cidade mais de quinhentos cavalos carregados de sacas de algodão (esse era o meio de transporte disponível). O algodão vinha do sertão e a única opção era colocar os fardos na rua para depois transportá-los de carroça para a estação ferroviária. Às vezes saiam de Campina dois trens por dia, carregados de algodão. Muito depois é que surgiu o transporte através de caminhões.

Porém, apesar de todo o status proporcionado pelo “ouro branco”, a situação urbana ainda era pouco satisfatória: ruas sem calçamento, esburacadas. A distribuição de água praticamente não existia, dada a sua insuficiência para atender à população. A luz elétrica também era em extremo precária, fornecida por dois motores velhos, a diesel, e só até às 22 horas, isso no centro da cidade. Apenas em alguns bairros havia iluminação elétrica, péssima.

O comércio e as incipientes indústrias enfrentavam esse problema com geradores em suas instalações, pois a falta de energia era freqüente comprometendo a produção e o desenvolvimento da cidade. Além disso, mesmo com o trem já funcionando desde 1907 e a utilização de caminhões para o transporte de mercadorias, havia muitos outros problemas que prejudicavam o comércio e a indústria, como as estradas de barro em péssimo estado de conservação, o crédito bancário apenas para poucos e a falta de incentivos fiscais.

Para os pedestres as opções de transporte também não eram variadas. O primeiro automóvel chegou em 1914, mas, ainda na década de 20 eram raros, e o transporte urbano praticamente começou na década de 30.

Na educação já existiam escolas como o Colégio Alfredo Dantas, o Instituto São Sebastião e o Colégio São José, de 1877, o mais antigo da cidade, fundado pelo professor Clementino Procópio. O desenvolvimento cultural e artístico também não era elevado, mas havia interesse nessa área, com pessoas preocupadas em incentivar a educação e a cultura da cidade, como o próprio Clementino Procópio e o Tenente Alfredo Dantas. Daí a origem da idéia de Eurípedes Oliveira, Pedro d’Aragão, Luiz Gil de Figueiredo, José Caboré, professor Manuel de Almeida Barreto, Severino Torquato, Severino de Brito, Severino Branco, Joaquim Passos, Antonio Monteiro, Moisés Rodrigues e tantos outros que aderiam à causa das classes menos privilegiadas, em organizar uma instituição para cuidar de seus direitos, além de oferecer aos sócios auxilio social.

Como se percebe, Campina Grande não era apenas uma cidade repleta de lacunas quanto ao seu desenvolvimento urbano. Era uma cidade promissora, tanto no lado econômico com o algodão, como no comércio e até na própria hospitalidade do povo sempre lembrada em depoimentos dos antigos moradores que um dia ali chegaram e participaram como agentes de construção da cidade.

Campina Grande teve duas grandes crises d’água. A primeira durou até 1937 quando somente conseguiu sobreviver ao despovoamento graças ao Governador Argemiro de Figueiredo – patrono, nesta Academia, da cadeira ocupada por Ailton Elisiário – que mandou fazer o abastecimento e o serviço de esgotos, contratados com o Escritório Saturnino de Brito, passando a cidade a ser abastecida pelo açude de Vaca Brava, situado no município de Areia. Lembro-me de papai me ter dito certa vez que Argemiro chegou a ferir a mão com um murro no tampo de vidro de sua escrivania, revoltado contra a resistência de políticos paraibanos em concordar com as garantias e o financiamento, pelo tesouro estadual do serviço de abastecimento d’água de Campina Grande.

Crescendo a cidade, a adutora de Vaca Brava tornou-se absolutamente insuficiente para o abastecimento de Campina Grande. A cidade começou literalmente a morrer. Isso é conhecido como o auge da segunda grande crise do abastecimento d’água de Campina Grande, quando a cidade se despovoava e quem podia partia de mudança com a família para outras cidades. Foi então que Juscelino Kubitschek quando Presidente da República, vindo a Campina Grande, sensibilizado, mandou construir a Adutora de Boqueirão. O açude já fora construído numa luta ingente sob a liderança de José Américo de Almeida, quando governador da Paraíba.

Porém, mesmo com tantos atropelos, freqüentes em cidades em desenvolvimento, principalmente àquela época, não faltavam visionários que conseguiam enxergar o promissor caminho que a cidade deveria seguir.

Este é o panorama onde floresceu a Sociedade Beneficente dos Artistas, antes União Beneficente dos Sapateiros. O germe da idéia nasceu, principalmente, pela inspiração de um grupo de sapateiros, orientados por José Caboré e pelo professor Manoel de Almeida Barreto, que veio a ceder um local para as reuniões próximo à Rua Rui Barbosa. Depois, por intermédio de Eurípedes Oliveira, que foi um dos principais incentivadores das idéias de associações em Campina Grande, foi possível comprar um terreno para a construção de sua sede. O prédio foi construído pelos próprios operários que iriam se beneficiar com a associação, pessoas praticamente iletradas e sem condições financeiras, mas com muita disposição para trabalhar. O carpinteiro fazia as portas, o marceneiro os pilares de sustentação e assim por diante, trocando algumas horas de folga particular pela proposta de surgimento da construção, com a garantia de estudo para seus filhos e para eles mesmos.

Percebe-se que a principal idéia da associação era a ajuda mútua entre os participantes. Este, repito, era o espírito que norteava a criação da União Beneficente dos Sapateiros, procurando realizar ações assistencialistas visando, reafirme-se, o bem social, econômico e cultural de seus associados. Isto, oferecendo cursos gratuitos de alfabetização, cursos profissionais, atendimento médico e judicial para a defesa dos direitos de seus integrantes, além da criação do salário-emprego, inédito no Brasil até então, entre outros tantos benefícios. Mas a própria dinâmica da implementação desses objetivos passou a pressionar seus integrantes a transformá-la na Sociedade Beneficente dos Artistas, com estatuto que permitisse, de forma melhor estruturada e definida, a continuidade de suas metas. Esta mudança ocorreu um ano depois de sua fundação. Mas isso, sem nunca fugir à idéia básica: o entendimento de artistas como operários, ou seja, pedreiros, carpinteiros, assim como artesões e artistas em bordados, pintura, música, culinária etc., todos comprometidos com a fundação dessa instituição que tinha como ideologia a construção do conhecimento em conjunto, sob o lema: “Quem soubesse até o B ensinaria até o A”.

Rapidamente a sede da agora Sociedade Beneficente dos Artistas de Campina Grande ficou pronta: foram de início dezessete trabalhadores realizando este trabalho com a ajuda dos demais associados. E o atendimento ampliou-se quase que se forma exponencial, em uma cidade que, sem atuação pública nessa área, de tudo carecia. Em pouco tempo, já existiam cerca de 600 (seiscentos) alunos inscritos, dando cada um a contribuição que podia para o desenvolvimento da pioneira Sociedade de ensino profissionalizante da Paraíba, “um trazendo um pedaço de papel, outro trazendo um livro usado ou uma régua”. Pelos meus assentamentos tudo leva a admitir que a Sociedade, entre 1929 e 1960 tenha atendido e formado mais de 8.000 (oito mil) alunos nos seus diversos cursos.

Suas instalações ficavam à Avenida Brandão Cavalcanti, 404, hoje Avenida Getulio Vargas. Lá, a associação dispunha da Escola Primária Irineu Joffily que preparava os alunos para o exame de admissão à Escola Profissional Nilo Peçanha, nomes dados a essas classes como homenagem àqueles dois homens públicos que, no entender dos sócios, realizaram feitos relevantes em benefício da comunidade, do estado ou do país.

Contava Sociedade, agora, com cursos regulares de datilografia, música, corte e costura, bordado, manicure, cabeleireira, pintura e marcenaria, entre outros, que formavam centenas de jovens de ambos os sexos, solteiros ou casados, chefes de família e donas de casa preparando-os para o seu ingresso ao mercado de trabalho, não apenas na cidade, e em cidades vizinhas, como em todo o nordeste e até no centro e sul do país.

Nessa época a Sociedade instalou um gabinete dentário para tratamento grátis aos seus alunos, sócios e suas famílias. Lembrem-se: ainda não existiam à época Sesc, Senac, Sesi e Senai. Apenas a Sociedade Beneficente dos Artistas. E precário, muito precário para não dizer quase inexistente o atendimento iniciado com Getúlio Vargas através dos diversos Institutos de Previdência (IAPC e IAPI, entre outros), hoje transformados na moderna previdência social brasileira.

Segundo o jornalista Claudeci Ribeiro, a Sociedade Beneficente dos Artistas foi responsável pelas primeiras reuniões da história trabalhista da cidade.

8.2 A Sociedade Beneficente dos Artistas em seus espaços

Através desse desejo de trabalho pelo bem comum podemos identificar a primeira convergência de ideais e propósitos entre a SBA e a Maçonaria Campinense.

É quando grande parte dos quadros dirigentes da Sociedade Beneficente dos Artistas passou a integrar a Loja Maçônica Regeneração Campinense, inscrevendo a própria Sociedade, no frontispício de seu prédio o esquadro e o compasso, símbolos da Maçonaria, como símbolos da Sociedade. A fachada externa do prédio era quase que uma reprodução da fachada no antigo prédio da Loja Maçônica Regeneração Campinense.

Nessa época a Sociedade Beneficente dos Artistas organizou um museu, com belíssimo acervo, inclusive fósseis de animais pré-históricos da região.

Na área artística a Sociedade implantou um Teatro-Escola que trabalhava a parte cultural dos alunos, como música, artes cênicas e novelas de rádios, entre outras. O coordenador desse departamento era o professor Pedro d’Aragão juntamente com o professor Anésio Leão e o professor Mozart, conhecido professor de piano. O grupo de teatro se apresentava não apenas na associação, como, também, em outros locais da cidade e em cidades vizinhas. As apresentações versavam sobre a história da cidade, como a vida dos tropeiros, sobre datas comemorativas e religiosas, que eram apresentadas inclusive para o público em geral num pavilhão montado próximo à Igreja Catedral nos festejos de Natal e Ano Novo. Também dramatizações extraídas de livros de música publicados pela Editora Irmãos Vitale, de São Paulo.

No término dos cursos era organizada a formatura dos alunos. Nela os formandos festejavam mais uma conquista. A cerimônia era muito concorrida, com o comparecimento do Prefeito Municipal presidindo a entrega dos diplomas aos alunos, líderes religiosos, políticos e educacionais.

Em determinados domingos havia exposições dos trabalhos dos alunos apresentados festivamente com o intuito de divulgar os produtos por eles confeccionados, demonstrando o seu nível do aprendizado, como também para angariar recursos que, somados as doações dos sócios, pudessem contribuir para a manutenção do prédio e financiamento de matéria-prima para alguns cursos.

Em listagem anexa, extraída de anotações da Sociedade Beneficente dos Artistas pode-se tomar conhecimento de dezenas de referências de autoridades e pessoas ilustres sobre a Sociedade, que recebeu, inclusive a visita do Presidente Getúlio Vargas.

8.3 A Sociedade Beneficente dos Artistas: encerramento de suas atividades

O encerramento das atividades, na década de 60, deu-se não só pelo falecimento dos seus antigos sócios, que tinham no coração o ideal societário, por falta de seguidores, mas, sobretudo, pela impossibilidade da obtenção de subvenções do Poder Público, uma vez que a mesma era mantida praticamente pelos próprios sócios.

Também o próprio desenvolvimento da cidade, que ia se adequando a um novo contexto vivido pelo país, e a implantações de indústrias a exigir uma bem mais rigorosa qualificação de mão-de-obra, mesmo na área artesanal, tornou o ensino na SBA paulatinamente obsoleto, uma vez que até mesmo seus sócios mais idosos e experientes não conseguiam mais competir no mercado de trabalho.

Além disso, a partir da década de 1950 outros órgãos ligados às classes produtoras se instalavam na cidade, qualificando operários para o comércio e a indústria, realizando com corpo técnico de nível superior e bem mais capacitado o trabalho que dantes era realizado pela da Sociedade dos Artistas, enfraquecendo-a ainda mais.

Nesse contexto de mudanças e dificuldades a Sociedade dos Artistas se viu sem escolhas, a não ser a de fechar suas portas e, unanimemente os 17 sócios restantes resolveram vender o prédio e encerrar as atividades da associação.

Pedro d’Aragão ingressou na Sociedade Beneficente dos Artistas de Campina Grande nos idos de 1930, participando de suas diretorias e sendo seu Presidente durante mais de quinze (15) anos, sucessivamente reeleito, até que, à medida que iram desaparecendo seus amigos, os antigos sócios, sem conseguir a renovação de quadro social, a agremiação foi definhando até o término de suas atividades.

9. Estudos Rosacruzes e Esotéricos: considerações teóricas

Não é possível compreender a vida exterior de um homem, a sua atuação no meio em que viveu, sem conhecer os motivos interiores que presidiram sua ação na sociedade. Sobretudo, sem compreender a formação religiosa que modelou sua visão do mundo e norteou seu pensamento e sua maneira de ser.

Portanto, para procurar descrever e analisar as ações do homem Pedro d’Aragão é necessário previamente elencar alguns conceitos e pedir permissão para e trazer até esta ilustre Academia alguns ressaltos sobre as bases filosóficas e religiosas que nortearam as atividades do homem Pedro d’Aragão: Esoterismo, Rosacrucianismo, Ocultismo, Espiritismo e Maçonaria. Conceituemos, portanto, algumas dessas filosofias.

9.1 Esoterismo

“Esoterismo é o nome genérico que designa um conjunto de tradições e interpretações filosóficas das doutrinas e religiões que buscam desvendar seu sentido oculto. Esoterismo é o termo para as doutrinas cujos princípios e conhecimentos não podem ou não devem ser “vulgarizados”, sendo comunicados a um restrito número de discípulos escolhidos”.

Segundo Blavatsky, criadora da moderna Teosofia, o termo “esotérico” refere-se ao que está “dentro”, em oposição ao que está “fora” e que é designado como “exotérico”. “Designa o significado verdadeiro da doutrina, sua essência, em oposição ao exotérico que é a “vestimenta” da doutrina, sua “decoração”. Também segundo Blavatsky, todas as religiões e filosofias concordam em sua essência, diferindo apenas na “vestimenta”, pois todas foram inspiradas no que ela chamou de “Religião-Verdade”.

“Um sentido popular do termo é de afirmação ou conhecimento enigmático e impenetrável. Hoje em dia o termo é mais ligado ao misticismo, ou seja, à busca de supostas verdades e leis últimas que regem todo o universo, porém ligando ao mesmo tempo o natural com o sobrenatural”.

“Muitas doutrinas espiritualistas são também chamadas esotéricas”.

9.2 Teosofia

A Teosofia, segundo Blavatsky, é “o substrato e a base de todas as religiões e filosofias do mundo, ensinada e praticada por uns poucos eleitos, desde que o homem se converteu em ser pensador. Considerada do ponto de vista prático, é puramente ética divina”.

“Considera-se que a Teosofia strictu sensu seja isenta de identificação com quaisquer culturas e sociedades específicas, sendo em vez a fonte original do conhecimento divino que verte em uma determinada cultura através dos símbolos e arquétipos próprios daquele povo. Por exemplo, a sabedoria divina foi transmitida à civilização do Egito antigo através dos símbolos, divindades, mitos, alegorias e arquétipos locais, possibilitando a assimilação dos conceitos divinos através desta roupagem. E como no Egito, também nas outras terras, a Grécia antiga, a Babilônia, Tibete, América, Europa e em todas as culturas, independente de terem feito contato entre si, demonstrando que a Teosofia é uma sabedoria que se expressa e pode ser conhecida por diversas fontes”.

“Basicamente a Teosofia prega a fraternidade universal, a origem espiritual das formas e dos seres, e a unidade de toda a vida; aponta uma fonte única e eterna para todo conhecimento, demonstra a identidade essencial entre os grandes mitos das culturas mundiais, traça o perfil da estrutura do cosmo e do homem e descreve os mecanismos, suas leis, suas potencialidades e suas transformações ao longo dos éons”.

“A Teosofia diz que a fonte de todo mal é a ignorância. O conhecimento, segundo prega, é ilimitado, mas se bem que sua totalidade esteja além do alcance de qualquer ser individual, é em vasta medida acessível a todos através de um longo processo de evolução, aprendizado e aperfeiçoamento, que necessariamente exige múltiplas encarnações, e continua até mesmo para regiões e idades onde a encarnação deixa de ser compulsória e a vida progride de beatitude em beatitude.

“A Teosofia é uma doutrina essencialmente otimista, pois refuta qualquer condenação eterna e não nega o mundo, ainda que declare que este que vemos e tocamos não é o único nem o maior, mais feliz ou mais desejável, e prevê para todos os seres sem exceção um progresso constante e um destino glorioso e absolutamente feliz. Como todas as grandes doutrinas espirituais, a Teosofia exalta o bem, a paz, o amor, o altruísmo, e promove a cessação da pobreza, da ignorância, da opressão, das discórdias e desigualdades.”

“Apesar de reconhecer a importância das religiões em estado mais puro como disseminadoras de ensinamentos importantes, não é uma filosofia teísta, se bem que possa ser descrita como panteísta, já que como um dos Mahatmas declara com rigor cartesiano, a existência de Deus como uma entidade distinta do universo dificilmente pode ser provada, mas reconhece níveis diferentes de evolução entre os seres, numa escada graduada que se ergue a alturas insondáveis.”

9.3 Fraternidades Rosacruzes

Há diversas fraternidades rosacruzes no Ocidente com filiais no Brasil. Descrevo aqui as mais relevantes ao tempo em que Pedro d’Aragão estudou sua doutrina e a uma delas filiou-se.

9.3.1 A Fraternidade Rosacruz

A Fraternidade Rosacruz, no Brasil e em Portugal (inglês, The Rosicrucian Fellowship), foi fundada por Max Heindel entre 1909 e 1911, nos Estados Unidos. Não reivindica o título de “Ordem Rosacruz”, considerando-se apenas uma escola de exposição de suas doutrinas e de preparação para o indivíduo para ingresso em caminhos mais profundos na Ordem espiritual. Segundo seus adeptos, a verdadeira Ordem Rosacruz funciona apenas nos planos espirituais. Ao contrário da maioria das demais organizações rosacruzes, as escolas de Max Heindel se consideram indissociáveis do Cristianismo. “Outras organizações rosacruzes também se consideram cristãs, mas não com esta ênfase”.

9.3.2 Antiga e Mística Ordem Rosae Crucis (AMORC)

A Antiga e Mística Ordem Rosae Crucis (AMORC), com sede mundial em São José, na Califórnia, EUA, que diz ter sido fundada no Antigo Egito, e organizada pelo Faraó Amenhotep IV (também conhecido como Akhenaton), por volta de 1500 a.C. O que se confirma historicamente é que a Ordem foi fundada em 1915 por Harvey Spencer Lewis, nos Estados Unidos. Tal como está expresso no site oficial da Ordem: “A Ordem Rosacruz, AMORC é uma organização internacional de caráter místicofilosófico que tem por missão despertar o potencial interior do ser humano, auxiliando-o em seu desenvolvimento, em espírito de fraternidade, respeitando a liberdade individual, dentro da Tradição e da Cultura Rosacruz.”. A Antiga e Mística Ordem Rosacruz (sem hífem) é hoje a maior fraternidade rosacruz no mundo, abrangendo dezenas de países, em diversos idiomas, além de acolher a Tradicional Ordem Martinista (T.O.M.), uma ordem martinista fundada pelo renomado médico e ocultista francês Papus (Dr. Gerard Anaclet Vincent Encausse). A sede para os falantes da língua portuguesa localiza-se na na cidade de Curitiba”.

9.3.3 Fraternitas Rosae Crucis (FRC)

A Fraternitas Rosae Crucis (FRC), também com sede mundial nos EUA, que se reivindica a autêntica Ordem Rosa-Cruz fundada em 1614 na Alemanha, mas que na verdade foi fundada por Reuben Swinburne Clymer por volta de 1920 e se diz representante de um movimento originalmente fundado por Pascal Beverly Randolph em 1856”.

9.3.4. Fraternitas Rosicruciana Antiqua (FRA)

“A Fraternitas Rosicruciana Antiqua (FRA) fundada pelo esoterista alemão Arnold Krumm-Heller por volta de 1927, tem sede no Rio de Janeiro (está presente também nos países de língua hispânica)”.

9.4 Círculo Esotérico da Comunhão do Pensamento

“O Círculo Esotérico da Comunhão do Pensamento (CECP) é uma entidade brasileira dedicada ao estudo das doutrinas espiritualistas, definida como uma “sociedade brasileira de estudos espirituais”. Visa principalmente o desenvolvimento das forças mentais latentes em todo ser humano, para que o homem descubra por si mesmo que não é apenas um animal que veste roupas e caminha na face da terra, e sim o co-criador do universo.”

“É a mais antiga escola de esoterismo ainda em atividade no Brasil. Fundado pelo português Antonio Olívio Rodrigues em 1909, é uma entidade dedicada principalmente ao estudo e prática de doutrinas como a cabala e o supermentalismo”.

Possui Centros de Irradiação Mental em todo o Brasil, denominados Tattwas.

De acordo com seus estatutos, “O Círculo Esotérico da Comunhão do Pensamento visa transmitir aos seus filiados a mensagem da alma em busca de evolução, procurando mostrar que o ser humano conta não apenas com um corpo material, mas também que é dotado de origem divina, embora essa parte continue, na grande maioria, em estado latente. Ou seja: promover o estudo das forças desconhecidas do homem e da natureza, estimulando o amor a esta, zelando pela sua defesa”.

Eis algumas de suas finalidades:

• “Promover o despertar das energias criadoras, latentes no pensamento de cada filiado, no sentido de assegurar o bem estar físico, moral e social, mantendo a saúde do corpo e do espírito”.
• “Promover o despertar das energias criadoras, latentes no pensamento de cada filiado, no sentido de assegurar o bem estar físico, moral e social, mantendo a saúde do corpo e do espírito”.
• “Concorrer, na medida de suas forças para que a Harmonia, o Amor, a Verdade e a Justiça se efetivem cada vez mais entre os homens”.
• “Empregar todos os meios ao seu alcance em prol do bem comum, empenhando-se no combate aos vícios que flagelam a humanidade, quais sejam o alcoolismo, os tóxicos inebriantes, as incontinências física e moral”.

Para efetivação destes ideais, em cada localidade, fora da cidade de São Paulo, sede da entidade, onde haja pelo menos três filiados ao Círculo Esotérico deverão ser criados Centros de Irradiação Mental (Tattwas).

“Os Tattwas (Centros de Irradiação Mental), criados em todos os Estados do Brasil, são elos que constituem a grandiosa Cadeia mágica, poderosas baterias vivas, para os irmãos do Círculo Esotérico da Comunhão do Pensamento que, no dizer dos Mestres Iniciados, projetam no astral de um extremo ao outro do mundo a vontade coletiva, magnética, dinamizada, cuja força assim projetada, traz um grande benefício aos irmãos da Ordem, protegendo-os contra as adversidades da vida e dando-lhes coragem para enfrentar os reveses do destino, assim como, auxiliando-os na ascensão espiritual a que todos estamos fatalmente sujeitos”.

10. Pedro d’Aragão: estudos rosacruzes e esotéricos

Nas décadas de 1930/1940 Pedro d’Aragão começou a participar regularmente, como filiado, de várias instituições de estudos rosacruzes e teosóficos.

10.1 Fraternidade Rosacruz Antiqua – FRA

Uma dessas instituições foi a Fraternidade Rosacruz Antiqua, cujas instruções ele lia e observava.

A Fraternidade editou, de janeiro de 1939 a junho de 1940, aquela que foi talvez a mais importante revista sobre rosacrucianismo e esoterismo publicada no Brasil até os dias atuais, a revista LUZES NO CAMINHO, nome retirado do mais importante livro de ocultismo talvez jamais publicado no ocidente: LUZES NO CAMINHO.

A revista tinha o objetivo de “Apresentar imparcialmente, em forma adaptável à mentalidade do ocidente, os verdadeiros princípios em que se baseiam a ciência oculta e a filosofia espiritual”. Era excepcionalmente erudita, inclusive traduzindo para o português, explicando-os, trechos dos mais importantes livros espiritualistas do ocidente, tais como aqueles escritos por Helena Blavatsky, Mabel Collins, Max Heindel, Spencer Lewis, Swinburne Clymer, Arnold Krumm-Heller, Ernesto Wood, entre muitos outros autores, além de indicar dezenas de obras traduzidas do inglês para o espanhol pela Editorial Kier, de Buenos Aires, uma das mais importantes editoras em ocultismo, da América do Sul.

Foi nessa revista que obtivemos, papai e eu, os endereços de algumas das maiores organizações espiritualistas à época, cujos livros eram de leitura obrigatória e foram por nós adquiridos.

10. 2. Círculo Esotérico da Comunhão do Pensamento

Pedro d’Aragão tornou-se sócio efetivo do Círculo Esotérico da Comunhão do Pensamento na década de 1940.

Em Campina Grande foi um dos fundadores do Primeiro Centro de Irradiação Mental, (Tattwa) do Círculo Esotérico da Comunhão do Pensamento.

Após alguns anos foi designado Delegado do Círculo Esotérico em Campina Grande.

11. Doutrina Espírita

No ano de 1929 foram instalados os primeiros Centros Espíritas em Campina Grande: O Centro Espírita Sólon de Lucena e o Grupo Espírita Santo Agostinho.

No mês de fevereiro de 1933 deu-se a fusão dos dois Centros. A nova entidade passou a chamar-se União Espírita Cristã, funcionando à Rua Tiradentes, 154.

O homem que fixou as bases da Doutrina Espírita em Campina Grande foi João Miguel de Morais, em 1929, juntamente com Severino Pequeno, Manoel Liberato, Manoel Araújo, Jário da Silva Barros, Pedro d’Aragão, Nauta Colaço e Tenente Ricarte. Pelas mãos de João Miguel de Morais papai abraçou o Espiritismo, em cuja fé veio a falecer. Passou a integrar regularmente Centros em Campina Grande, para onde me levou juntamente com alguns irmãos maçons.

Pedro d’Aragão freqüentava semanalmente o Centro Espírita de Antonio Severino, maçom filiado à Loja Regeneração Campinense, situado na antiga rua dos Paus Grandes, saída de Campina Grande para o Brejo. No Centro era o Doutrinador não somente nas reuniões para o público leigo como naquelas privadas, para cura e solução de problemas de pessoas com mediunidade. Acompanhei de perto seu trabalho naquele Centro, pois foi a primeira instituição espírita que freqüentei.

Após a morte de Antonio Severino e dissolução do Centro, passou a freqüentar o Centro Espírita de Dario, situado perto da caixa de distribuição d’água da Sanesa, na então chamada Rua das Boninas, em Campina Grande, onde também continuou como Doutrinador.

Com o falecimento de Dario ocupou a posição de presidente do Centro um outro irmão, comerciante de móveis, Lula, bem conhecido de todos nós. Papai continuou como Doutrinador, participando de suas reuniões semanais.

No ano de 1971, precisamente no dia 19 de março, Pedro d’Aragão, e Fabiano do Egito Araújo, irmão maçom dos quadros da Regeneração Campinense, juntamente com outros irmãos espíritas, fundaram o Centro Espírita denominado Casa do Caminho, que funciona regularmente até hoje, onde trabalhou como Doutrinador até que a doença não permitiu mais sua locomoção de casa.

Pedro d’Aragão foi um dos maiores batalhadores pela difusão da Doutrina Espírita em Campina Grande, na Paraíba e interior do Rio Grande do Norte, Pernambuco e Ceará. Isto porque a Livraria Modelo tornou-se o local onde os livros editados pela Federação Espírita Brasileira, pelo Círculo Esotérico da Comunhão do Pensamento e pelo Editorial Kier, de Buenos Aires podiam ser adquiridos em quantidade. Passei muitos anos sendo o gerente da livraria podendo dar um depoimento de como ela tornou-se um pólo de venda e estudo dessas idéias e doutrinas.

A propósito de difusão da doutrina espírita, certo domingo, em Paris, França, onde eu e minha mulher, Maria do Socorro, estudávamos, resolvemos visitar os túmulos de Chopin e de Allan Kardec no cemitério Père Lachaise. Isto foi em 1977. Era um domingo. Tomamos o metrô e saltamos na primeira entrada do cemitério. Fazia frio intenso e o vento uivava levantando as folhas mortas que atapetavam o chão.

Adquirimos do guarda de plantão na primeira guarita um mapa daquele imenso cemitério por cinco francos e solicitamos instruções de como encontrar aqueles túmulos que desejávamos visitar. Quanto ao de Chopin, estava situado na parte velha do cemitério. Andamos e andamos. Encontramos finalmente o de Chopin, perdido naquela floresta de mármore. Havia uma família alemã, marido, mulher, dois ou três filhos pequenos, todos reverentes naquela visita ao gênio do piano. Fizemos nossas orações e após visitar, ainda, alguns túmulos antigos, fomos para o de Allan Kardec. O guarda nos ensinara que o de Allan Kardec ficava em outra ala do cemitério, mas não havia engano. Era só seguir no mapa as avenidas que indicou, sem preocupação, porque ainda bem distante do túmulo começaríamos a encontrar pessoas, com ramalhetes de flores nas mãos. “Siga esses pequenos grupos que gradualmente irão se tornar uma procissão. Todos irão certamente em visita e vigília de oração ao túmulo de Kardec”, disse o guarda. Assim fizemos, engrossando o cordão até chegarmos onde estava Kardec em seu repouso eterno. Na época em que fomos havia, circulando o túmulo, uma lámina de vidro de talvez um metro de altura. As pessoas, multidão, em vila indiana, reverentemente, faziam suas orações e depositavam no túmulo seus pedidos, trazidos por escrito. No domingo em que fomos, havia talvez mais de 50 centímetros de altura de bilhetes, cartas e mensagens. Nunca esqueci este fato, passado na cosmopolita Paris, onde, julgava, não havia espaço para a doutrina espírita.

12. Pedro d’Aragão: atividades maçônicas

12.1 Maçonaria Simbólica

Pedro d’Aragão teve uma intensa vida maçônica. Ao Ocultismo, à Doutrina Espírita, mas, sobretudo à Maçonaria dedicou todas as suas energias. E até no momento do seu passamento, na casa onde ainda me hospedo e onde residem dois irmãos, em Campina Grande, quando os médicos lhe deram apenas cerca de trinta minutos de vida, passou para o Oriente Eterno cercado pela família e por Irmãos Maçons e Espíritas, cujos nomes e os rostos eu ainda recordo, com gratidão, presentes comigo naquela hora.

No dia 18 de julho de 1944 foi iniciado Aprendiz Maçom na Loja Maçônica Regeneração Campinense Nº. 2, do Oriente de Campina Grande, Paraíba, pertencente à jurisdição da Grande Loja Maçônica do Estado da Paraíba.

Na Regeneração Campinense adotou o nome simbólico de CASTRO ALVES, o poeta de sua predileção, cujas poesias, praticamente todas, recitava e musicava.
• No dia 8 de setembro de 1944 foi Elevado a Companheiro Maçom.
• Finalmente, foi Exaltado a Mestre Maçom em 29 de outubro de 1944.

12.2 Loja Maçônica Regeneração Campinense: cargos ocupados

Na Regeneração Campinense ocupou as funções de:
• Orador
• Segundo Vigilante
• Venerável Mestre para o ano maçônico de 1953.

12.3 Grande Loja Maçônica do Estado da Paraíba: cargos ocupados

Na Soberana Grande Loja ocupou as funções de:
• Grande Orador
• Grão Mestre para o período de 1964/1968

12.4 Maçonaria Filosófica:

12.4.1 Supremo Conselho do Grau 33 do Rito Escocês Antigo e Aceito da Maçonaria para a República Federativa do Brasil

Na Maçonaria Filosófica, ligada ao Supremo Conselho do Grau 33º para do Rito Escocês Antigo e Aceito da Maçonaria para a República Federativa do Brasil desempenhou as seguintes posições:
• Membro Efetivo do Supremo Conselho do Grau 33º do Rito Escocês Antigo e Aceito da Maçonaria para a República Federativa do Brasil.
• Soberano Grande Inspetor Litúrgico da Maçonaria para os estados da Paraíba e Rio Grande do Norte.
• Grande Inspetor Geral da Ordem.

Durante muitos e muitos anos tive oportunidade de juntamente com ele participar do convívio com o Irmão Álvaro Figueiredo, Soberano Grande Comendador do Supremo Conselho, no Rio de Janeiro.

A propósito, lembro-me das inúmeras reuniões entre papai e o Irmão João Arlindo Correia, para fazer voltar à atividade na Paraíba as Lojas de Grau Filosófico, ligadas ao Supremo Conselho. Havia uma dissidência com o Poderoso Irmão João Tavares, de saudosa memória, e eu ia à farmácia que pertencia àquele Irmão, situada à Rua Cardoso Vieira, em Campina Grande, procurando desfazer inimizades e incompreensões, até chegar ao entendimento com o mesmo e receber livros e documentação das Lojas Subordinadas, que ele tinha em seu poder. Foi assim, que numa mediação da qual papai participou, junto com outros abnegados irmãos, foi possível a volta à normalidade das Lojas de Grau Filosófico na Paraíba, subordinadas ao Supremo Conselho.

Nessas Lojas Pedro d’Aragão ocupou as seguintes funções após a regularização das Oficinas:

• Primeiro Presidente da Loja de Perfeição Gasparino Barreto
• Primeiro Presidente do Capítulo Rosa-Cruz Cavaleiros do Nordeste
• Primeiro Presidente do Conselho de Kadosch Arautos da Luiz
• Primeiro Presidente do Consistório do Real Segredo

13. Pedro d’Aragão: homenagens

13.1 Maçonaria

Na Maçonaria recebeu, entre outras, as seguintes homenagens:
• Benemérito da Loja Maçônica Regeneração Campinense.
• Grão Mestre “Ad vitam” da Grande Loja Maçônica do Estado da Paraíba.
• Loja Maçônica Pedro d’Aragão – filiada à Inspetoria Litúrgica do Soberano Conselho do Grau 33º Antigo e Aceito para o Brasil. A Loja funciona regularmente no Oriente de Guarabira, Paraíba, nos Graus Filosóficos.

13.2 Ruas com nome de Pedro d’Aragão:

Há em João Pessoa uma rua e outra em Campina Grande com o nome de Pedro d’Aragão, saber:

Campina Grande:
• Rua Pedro d’Aragão, situada no Bairro do Catolé, propositura do Vereador Altair Pereira. Lei nº. 638, de 23.10.1980.

João Pessoa:
• Rua Grão-Mestre Pedro d’Aragão, situada no Conjunto Valentina Figueiredo, propositura do Vereador José Anchieta de Sousa, em 29 de setembro de 1980.

13.3 Escolas e Centros com o nome de Pedro d’Aragão:

Ainda em Campina Grande existem:
• A Escola Cenecista Pedro d’Aragão, às margens do Açude Velho.
• O Conjunto Esportivo Pedro d’Aragão, da Federação do Comércio do Estado da
Paraíba também às margens do Açude Velho.

Ainda em Campina Grande, já quase no final de sua vida terrena papai adquiriu um pequeno sítio na zona rural da cidade onde passou a criar tilápias em um pequeno açude.

A necessidade o obrigou a fazer um pequeno loteamento e vender pequenos
lotes de terreno.

O povo da região batizou o local de Loteamento Rosacruz.

Ainda hoje há linhas de ônibus urbanos com o nome de Loteamento Rosacruz que fica no atual Bairro do Cruzeiro.

Conclusão

Termino. Mas, mesmo fugindo à solenidade e ao protocolo desta hora, como não registrar, também, o nome de minha mãe, companheira de Pedro d’Aragão durante mais de 60 anos, partícipe e responsável maior, por eu ter vindo ao mundo?

Assim, concluindo, deixai que eu tome por empréstimo as palavras de Rui Barbosa, o escritor predileto de meu pai, evocando seus pais numa das mais belas evocações de um filho aos seus pais de todos os tempos.

E permiti, ainda, que, neste instante, eu peça a todos vós, irmãos presentes, que também evoquem seus pais, o pai e mãe de cada um, como se presentes estivessem aqui entre nós, a ouvir estas palavras que também são dirigidas a eles por todos vocês.

Disse Rui :
“ Mas, antes de nos deixarmos, vinde comigo depor estas homenagens, estes troféus, estes símbolos no altar que os deve receber”.

Espírito supremo daquele que me ensinou a sentir o direito, e querer a liberdade; daquele cuja presença íntima respira em mim nas horas do dever e do perigo; daquele a quem pertence, nas minhas ações, o merecimento da coerência e da sinceridade; emanação da honra, da veracidade e da justiça, espírito severo de meu pai; imagem da bondade e da pureza, que verteste em minha alma a felicidade do sofrer e do perdoar, que me educaste no espetáculo divino do sacrifício coroado pelo sacrifício, carícia do céu na manhã dos meus dias, aceno do céu no horizonte da minha tarde, anjo da abnegação e da esperança, que me sorris no sorriso de meus filhos, espírito sideral de minha mãe. Se o bem desabotoa alguma vez à superfície agreste de minha vida, vós sois a mão do semeador, que o semeou, vós, cuja energia me criou o coração e a consciência, cuja benção derramou a fecundidade sobre as urzes de minha natureza. Quando, na minha existência, alguma coisa possa inspirar gratidão, ou simpatia, não me tomem senão como o fruto em que se mitiga a sede, e que se esquece. Vós, autores benignos do meu ser, vós sois a árvore dadivosa cujos benefícios sobrevivem no reconhecimento, que não murcha.

Tradicionalmente, a Maçonaria surgiu com as civilizações, e esteve presente na formação de quase todas elas, para instruir os homens nos princípios da construção social, construindo mentes sábias e personalidades...
Tradicionalmente, a Maçonaria surgiu com as civilizações, e esteve presente na formação de quase todas elas, para instruir os homens nos princípios da construção social, construindo mentes sábias e personalidades…


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