O touro Ápis

O touro Ápis

O mais venerado e mais célebre dos animais sagrados é, sem dúvida, o touro Ápis (Hep em egípcio). Os antigos egípcios o consideravam como a expressão mais completa da divindade sob a forma animal. Era sempre representado na forma animal e nunca na forma humana com cabeça animal. Ele encarnava, ao mesmo tempo, os deuses Osíris e Ptah. O culto do touro Ápis, em Mênfis, existia desde a I dinastia pelo menos. Também em Heliópolis e Hermópolis este animal era venerado desde tempos remotos.

– Antiga divindade agrária, simbolizava a força vital da natureza e sua força geradora. Dizia a lenda:

Ptah, sob a aparência de fogo celeste, engravidou uma vaca virgem que concebeu um touro preto, o qual se tornou o porta-voz ou o duplo de Ptah. Esse touro negro sagrado de Mênfis deveria ter certos sinais ou manchas – na fronte, uma mancha branca quadrada; no dorso, a figura de um abutre ou de uma águia; sob a língua, um nó em forma de escaravelho; os pêlos da cauda numa mescla de branco e preto; e um crescente branco sobre o lado direito do corpo. Encontrado um bezerro com tais características pelos sacerdotes especiais chamados os Bastões de Ápis, o animal era conduzido a Mênfis em uma barca dourada e em grande pompa, depois de ter sido nutrido unicamente por mulheres durante 40 dias. Uma vez entronizado cerimoniosamente, vivia no seu santuário, ao lado do deus Ptah, a mais importante divindade menfita, da qual era tido como o arauto, a imagem viva. Sua mãe, um animal também reverenciado, era sua esposa legítima, mas tinha também vacas concubinas cuidadosamente escolhidas.

Distribuía oráculos, recebia oferendas, participava de procissões. Um festival dedicado ao deus se estendia por sete dias. O povo se reunia em Mênfis para ver os sacerdotes conduzirem o animal sagrado numa procissão de louvor. Enquanto vivia era alimentado com iguarias e honras. A partir do Período Saíta, iniciado em 664 aC, os oráculos alcançaram grande popularidade. Um dos mais procurados era justamente o do touro Ápis, em Mênfis. Além de se acreditar que qualquer criança que aspirasse a respiração do animal seria capaz de predizer o futuro, também se interrogava o próprio touro. O indivíduo que consultava o oráculo postava-se diante do animal e fazia a sua pergunta. A resposta do deus que o animal encarnava podia vir de várias maneiras. Por exemplo, o bovino podia aceitar ou não a comida que lhe ofereciam; podia, entrar ou não em uma determinada sala e cada uma de tais atitudes seria um agouro bom ou mau, conforme estabelecido anteriormente pelos sacerdotes.

Ao morrer, era mumificado, fechado num sarcófago, submetido a ritos funerários que se estendiam por 60 dias, tomava lugar numa tumba, ao lado de seus predecessores, era enterrado como se fosse um príncipe.

O túmulo mais antigo dessa divindade encontrado intacto é do reinado do faraó Horemheb (c. 1319 a 1307 aC), sendo a múmia bastante atípica. Era constituída apenas pela cabeça do touro, desprovida de carne e de pele, apoiada num grande bloco negro. Ao ser examinado, esse bloco mostrou ser um aglomerado de resina, ossos bovinos quebrados e fragmentos de folhas de ouro, tudo envolto em bandagens de fino linho. Os vasos canopos do touro estavam cheios de um material resinoso de origem não determinada. Escavando sob o piso da câmara mortuária, os arqueólogos encontraram uma dúzia de grandes vasos de barro não cozido contendo cinzas e ossos queimados. Como outros conjuntos similares de vasos também foram encontrados em outras tumbas do boi Ápis, alguns estudiosos afirmam que, pelo menos durante o Império Novo (c. 1550 a 1070 aC), o corpo do animal era cozido e comido pelo faraó e sacerdotes antes do enterro. Haveria, talvez, uma conexão entre essa descoberta e o assim chamado Hino Canibal do Texto das Pirâmides, que se refere ao fato do rei devorar os deuses para assimilar seus poderes. Seja essa hipótese correta ou não, nenhum outro animal sagrado parece ter sido devorado por seus antigos guardiães. Os touros Ápis subsequentes foram mumificados inteiros e um papiro da XXVI dinastia descreve o método usado para isso.

Até a XVIII dinastia (c. 1550 a 1307 aC) cada um desses touros sagrados tinha sua sepultura particular. Foi Ramsés II (c. 1290 a 1224 aC), faraó já da XIX dinastia, quem mandou sepultá-los em uma câmara mortuária comum, conhecida como Serapeum, nome derivado da palavra grega Serápis, uma catacumba precedida por uma avenida de esfinges.

Estrabão, um geógrafo grego, deixou em sua obra indicações precisas sobre a localização desse estranho cemitério e baseado em tais informações foi possível encontrar, na necrópole de Saqqara, numerosas múmias de touros sagrados.

A câmara mortuária estava cavada depois de um corredor que penetrava 400 m no rochedo. Em nichos, os touros repousavam em magníficos sarcófagos de granito escuro ou de quartzo amarelo e vermelho, os quais medem 4 m de altura e pesam entre 60 e 80 toneladas. Um total de 24 sarcófagos dessa natureza foram encontrados nessas câmaras laterais que se abrem para o corredor principal cavado na rocha. Havia duas galerias abrigando os animais:

  • a primeira, com comprimento de 68 m, foi mandada construir por Ramsés II;
  • a segunda, com 198 m de comprimento, foi construída durante a XXVI dinastia (664 a 525 aC), em ângulo reto com a primeira.

O primeiro touro enterrado nessa segunda galeria morreu no ano 52 do reinado de Psamético I (664 a 610 aC) e o local continuou a ser utilizado até o período greco-romano. O culto do boi Ápis sobreviveu até que o imperador Honório o baniu e causou a destruição do Serapeum no ano 398. Como só havia um destes animais de cada vez, calcula-se que de 14 em 14 anos, aproximadamente, acontecia o funeral de um touro Ápis. Nenhuma múmia foi encontrada intacta. Escavações realizadas em 1964 trouxeram à luz galerias de vacas mumificadas, denominadas mães de Ápis, bem como de falcões, íbis e babuínos.

– O autor da descoberta do Serapeum, realizada em 1851, foi o pesquisador francês Mariette, que ao encontrar um desses túmulos escreveu:

Fiquei profundamente impressionado quando penetrei na sepultura do touro Ápis, que nenhum ser humano frequentara desde milênios… Mas que sorte! no fim de alguns dias, descobri um nicho murado que escapara às pesquisas dos pilhantes. Ramsés II fê-la murar, em 1270 aC, conforme explica a inscrição. A marca dos dedos do egípcio que pôs a última pedra do muro se vê ainda, nitidamente, sobre a cal, assim como a de seus pés sobre um rastro de areia esquecida. Nada faltava nesse retiro fúnebre onde um touro embalsamado repousava desde 4.700 anos.

Quando Ptolomeu I (304 a 284 aC) assumiu o controle do Egito, criou uma nova divindade, numa tentativa de unificar os gregos e os egípcios pelo estabelecimento de um deus que fosse familiar às duas culturas. Essa nova divindade foi chamada de Serápis (Osíris-Ápis) e combinava características dos deuses gregos Zeus, Asclépio e Dionísio com as do deus egípcio Osíris e as do culto do sagrado touro Ápis. Sua aparência era grega: um homem barbado e de cabelos encaracolados, usando algo semelhante a um moderno vaso de flores na cabeça.

Mas também tinha algumas das características do touro Ápis e um nome egípcio. Era encarado pelos egípcios como um deus da fertilidade e do mundo subterrâneo e tolerado por eles, mas não verdadeiramente aceito. Nessa época, embora em vida o touro fosse considerado uma encarnação de Ptah e as efígies de Ápis continuassem a trazer o disco solar entre os chifres, após a morte o animal era comparado a Osíris (sua veste negra lembrava a cor do deus) e adorado sob o novo nome e aspecto, tendo se tornado o deus nacional do Egito durante o Período Ptolomaico (304 a 30 aC).

Origem: fascinioegito.sh06.com



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