O inicio da Guerra do Paraguai

O inicio da Guerra do Paraguai

Francisco Solano Lopez que, em 1862, sucedera seu pai, Carlos Lopez, como ditador do Paraguai, tinha visitado a Europa, em missão diplomática, e viera deslumbrado com a magnificência das cortes, seduzido com idéias de grandeza e de preponderância na América do Sul.

No dia 9 de novembro de 1864.

Nesse dia o vapor de passageiros brasileiro, Marquês de Olinda, chegou ao forte Humaitá, nas margens do rio paraguai, em sua viagem regular com destino a província de Mato Grosso. O vapor pertencia a uma companhia que o Governo brasileiro contratara para fazer oito viagens anuais, ida e volta, entre o Rio de Janeiro e a cabeceira do rio Paraguai.

O percurso, parte marítimo, no trecho Rio de Janeiro para Montevidéo, e a parte fluvial, de Montevidéo até Corumbá, na província de Mato Grosso, era feita através do Maquês de Olinda; no trecho de Corumbá até Cuiabá era utilizado outro vapor de pequeno calado.

O navio começou sua viagem regular sem suspeitar de nenhum perigo, ninguém supunha que o Paraguai pudesse tomar alguma ação em favor da Banda Oriental, já que haviam dois meses que o Paraguai fizera publicar um protesto contra a invasão do Brasil na República da Banda Oriental e além do protesto nunhuma ação concreta foi anunciada por parte do Governo daquele país que pudesse indicar uma possível guerra com o Brasil.

Pelo contrário, as correspondências do Ministro brasileiro em Assunção com seu colega em Buenos Aires e outras que chegavam ao Paraguai, escritas depois da ocupação do território Oriental pelas tropas imperiais, não faziam nenhuma alusão à mudança no relacionamento entre os dois Governos. Quando o vapor chegou em Humaitá a tripulação fez as saudações de praxe ao forte e foram retornadas como de costume, e viagem prosseguiu até Assunção, onde chegou nas primeiras horas da manhã do dia 11 de novembro (1864). Nada de anormal aconteceu no porto e a mesma rotina foi seguida: a rápida disbribuição dos correios e a necessária provisão de carvão foi trazida para bordo. Ás treze horas do mesmo dia, o Marquês de Olinda reniciou sua viagem com destino a Corumbá.

Aqui é necessário fazer alusão sobre o que vinha transpirando na região. Era do conhecimento do corpo diplomático que, durante no mês de julho, o Dr. Carreras** estivera no Paraguai para conseguir garantias do Presidente López – que contava com um grande e bem organizado exército – de que se envolveria na guerra em favor da Republica do Uruguai, como havia prometido anteriormente, para defender a independência daquele país no caso de interferência externa. Retornando ao seu país com essas garantias, Carreras assumiu o governo de Montevidéo e outros três importantes Departamentos do governo uruguaio, mas para sua decepção, nenhuma iniciativa concreta foi tomada pelo Ditador, além do protesto de 30 de agosto e outro junto ao Governo Argentino, que pudesse indicar uma interferência maior do Governo do Paraguai na guerra. Talvez, nessas ocasiões, ele somente quizesse assustar pelo terror de suas proclamações, em vez de se aventurar em uma guerra real.


*A seguinte narrativa, da captura do vapor brasileiro Marquês de Olinda, foi extraída de trecho Livro “The History of Paraguay, with Notes of Personal Observations, and Reminiscences of Diplomacy Under Difficulties” , de Charles Ames Washburn, antigo Embaixador dos Estados Unidos da América no Paraguai, acreditado naquele país entre os anos de 1861 a 1868. P. 554 a 562. volume I, parte 2.

** Antonio de las Carreras, advogado, homem de grande energia, violento partidário. Quando assumiu o Departamento dos Negócios Exteriores do Uruguai, foi lhe dado poder absoluto para acabar com a rebelião em Quinteros e sob suas ordens foram executados sumariamente todos os 14 líderes dessa rebelião. Ele teve uma terrível morte, alguns anos depois, sob as mãos de López. NT

Havendo-se preparado durante muitos anos, desde os tempos do governo de seu pai, esperava apenas um momento propício para alarmar o continente com sua engendrada política. O Brasil lhe deu o pretexto, com a invasão do Estado Oriental. Imediatamente, o ditador iniciou suas hostilidades, sem prévia declaração de guerra, o que só se formalizou, após o aprisionamento do vapor Marquês de Olinda, que passava por Assunção, em viagem a Mato Grosso, levando o presidente da Província, coronel Carneiro de Campos.

No dia seguinte à declaração de guerra, feita ao nosso ministro em Assunção, López mandava invadir Mato Grosso, por cerca de seis mil homens, destacados do acampamento central de Cerro Leon. Em dezembro de 1864, a infantaria paraguaia, que fora conduzida em navios de esquadrilha e se achava sob o comando do general Barrios, ataca o forte de Nova Coimbra, guarnecido apenas por cerca de 150 soldados. Durante dois dias, estes poucos heróis resistem aos ataques furiosos do inimigo, até que, vendo esgotados todos os recursos de ação, o comandante da praça, coronel Porto Carrero, resolve abandoná-la, retirando-se com o resto de seus comandados. No dia seguinte, o inimigo ocupa o forte abandonado, onde estabelece seu centro de operações. Dali, expediu os coronéis Resquin e Urvieta para investidas contra outras povoações, e estes, subindo o rio Paraguai, foram se apoderando de Albuquerque, Miranda, Dourados e Corumbá, bem como de vários outros pontos desguarnecidos.

Em janeiro de 1865, os paraguaios já se achavam senhores de todo o sul da nossa longínqua e desventurada província, onde estabeleceram logo uma administração provisória. Os mandatários de López, ao mesmo tempo que usavam largamente o seu direito de saque, tentaram inspirar simpatias aos míseros habitantes do território invadido e que o ditador, de imediato, considerou incorporados aos seus domínios. A tática dos invasores, porém, não produziu o efeito calculado e Barrios não pôde estender suas conquistas para o norte.

Lopez, no entanto, tinha dado provas de seu tino estratégico, embora não conseguisse o que fora planejado. Se, por um lado, aumentava as complicações com que já se via o governo imperial, empenhado na guerra contra os “blancos” no Uruguay, por outro lado, Lopez fazia esforços para conseguir alianças entre os vizinhos, especialmente com o governo de Buenos Aires. Apesar da violência desusada e do imprevisto da sua atitude (e, talvez, por causa disso mesmo), o tirano paraguaio viu frustrados seus intentos. Até que chegara a conseguir promessas de ajuda do general Urquiza, governador da província argentina de Entre Rios (limítrofe ao Paraguai), contra os invasores do Estado Oriental. Isso, no entanto, lhe custou a desvantagem de deixar em alerta o general Mitre, presidente da República Argentina, que se apressou em declarar a neutralidade desse país na guerra entre Paraguai e Brasil. Desse modo, privado de um concurso que lhe era tão necessário, o ambicioso ditador tinha de ficar desvairado. Não podendo competir com nossa esquadra, e precisando atravessar território estrangeiro para chegar ao seu alvo, López se viu na necessidade de apelar à força, insurgindo-se contra todos os vizinhos (Brasil, Uruguai e Argentina),

O governo imperial, mal contendo sua indignação ante o ataque inesperado de Mato Grosso, tratou de liquidar a situação de nossas armas no Uruguai. Tomada a praça de Paissandu, conforme narrado no capítulo anterior, os aliados marcham imediatamente contra Montevideu e, ao cabo de alguns dias de sítio, a 20 de fevereiro de 1865, a capital uruguaia se rende. O general Flores [“colorado”] assume o governo provisório da República Oriental e, no dia seguinte, dá ao governo imperial, em nome de sua nação, todas as satisfações que haviam sido exigidas de Aguirre [o ex ditador “blanco”]. Regulados os negócios que explicavam a ação do Império na república vizinha, nosso governo volveu toda a sua solicitude contra o ditador paraguaio.

Derradeiro início Oficial da guerra com o Paraguai
(1º de maio de 1865)

Desiludido do concurso dos argentinos ou, pelo menos, da simpatia com que contava entre os republicanos do Prata, Lopez entendeu que só a golpes de audácia e temeridade é que poderia abrir caminho entre as populações vizinhas. Como, da parte argentina, o presidente Mitre não lhe permitisse atravessar o território de Missões para invadir o Brasil, o ditador surpreende aquela nação, aprisionando-lhe dois navios no rio Paraná, e, em seguida, invadindo a província de Corrientes. Essa violência espantosa comove, fortemente, os argentinos. Até aqueles que haviam afagado as esperanças de Lopez, como o seu amigo Urquiza [o já citado governador de Entre Rios], são os primeiros a pedir guerra contra ele. Assim, Lópes conseguia levantar contra ele os três povos da América Oriental. Em Buenos Aires, a 1º de maio de 1865, Brasil, Uruguai e Argentina celebraram, pois, o tratado da Tríplice Aliança.

Segundo esse tratado, o comando geral dos exércitos, que ia entrar em operações contra o ditador agressivo (muito inferior, em número, que o exército paraguaio), era confiado ao general Mitre. O comando das forças navais, exclusivamente brasileiras, ficava com o almirante Tamandaré. Todavia, as três nações, que iam reprimir os instintos de López, achavam-se quase de todo desprevenidas para uma campanha em condições tão excepcionais. Os argentinos dispunham de cerca de seis mil homens, espalhados pelas fronteiras, empenhados em abafar motins e em conter os índios do Chaco. Os uruguaios tinham mil e poucos homens. O Exército Brasileiro, comandado pelo general Osório, compunha-se de vinte mil combatentes. No mar, só o Brasil tinha forças capazes de enfrentar as fortificações que Lopez levantara em diversos pontos, às margens do rio Paraguai.

Antes de tudo, portanto, cumpria aos aliados cuidar ativamente de preparar elementos suficientes para reprimir a sanha do inimigo. Felizmente, em tão grave conjuntura, os três governos contaram com o patriotismo inflamado dos respectivos povos, afrontados nos seus brios. No Brasil, por toda a parte, se levantavam legiões de voluntários. Em todas as províncias do sul, a guarda nacional foi chamada às armas, enquanto se fabricavam munições de guerra em nossos arsenais e até se construíam navios, para reforço da esquadra. Assim foi que, em pouco tempo, as forças aliadas tinham-se multiplicado, deixando pronto para a campanha, um exército de cerca de quarenta mil homens, concentrados em Concórdia, São Borja, Itaqui, Uruguaiana, Paissandu e em outros pontos do Rio Uruguai.

Com a invasão da República Argentina, Lopez deixava perceber todo o seu plano. Tendo-se assenhoreado de todo o norte da província de Corrientes, ali assentara a sua base de operações contra os seus três inimigos e, principalmente, contra o Brasil. Pisando em território da Confederação [Brasil-Uruguai-Argentina], o ditador levava, ainda, a esperança de chamar a si as simpatias das populações e o apoio dos caudilhos, alguns dos quais não lhe desmentiram, aliás, essas esperanças, atestando que ali, mais que o sentimento da pátria, alguns corações eram movidos pela paixão política. Porém, ao esperar, na província de Corrientes, pelo efeito calculado de seu golpe de força, o ditador comprometia todo o êxito de seus projetos. O primeiro pensamento dos aliados foi o de privar os paraguaios das vantagens que obtiveram com a ocupação de Corrientes.

As avançadas de Lopez haviam descido o rio Paraná até Bela Vista, estabelecendo centro de ação junto às bocas do Riachuelo. Então, o general Paunero, à frente de dois mil correntinos, vai atacar os paraguaios em Corrientes. Frustrando ardis tramados pelo inimigo, Paunero embarca as suas forças e, na manhã de 25 de maio de 1865, a esquadra brasileira estabelece o bloqueio de Corrientes, enquanto Paunero desembarca com cerca de mil homens, apoderando-se da praça. Mas os paraguaios, retrocedendo a Bela Vista, obrigaram o general argentino a abandonar a cidade. Aquela investida, que fora apenas um ato de hostilidade, sem vantagens para os aliados, serviu de aviso a López e o ditador compreendeu que era preciso mover-se.



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