O Homem sem Sorte

O Homem sem Sorte

Era uma vez um homem que se achava sem sorte.

Parece que tudo o que fazia dava errado. Se resolvia plantar algumas sementes, vinha a chuva e as levava embora ou fazia um sol tão forte que queimava todas as sementes. Muitas coisas ruins aconteciam a ele sem que soubesse o porque.

Sempre que se encontrava com alguém, aproveitava para falar da sua falta de sorte, de como as coisas não davam certo com ele.

Ele se queixava com as pessoas e as pessoas escutavam suas queixas. Da primeira vez com simpatia, depois com um certo desconforto e enfim quando o viam, mudavam de caminho ou entravam para dentro de suas casas fechando portas e janelas, evitando-o assim.

Então alem de sem sorte, o homem se tornou chato e muito só. Ele começou a querer achar um culpado para o que acontecia com ele.

Com o tempo, as pessoas começaram a não querer se encontrar mais com ele, para não ter que ouvir aquelas histórias de como as coisas não davam certo, e isso fez com que se sentisse muito só.

O tempo foi passando e ele sempre sozinho, sem ter com quem falar. Isso deixou-o muito triste.

Um dia, sentindo-se sozinho e tristonho, disse para si mesmo:

— Tenho de fazer alguma coisa. Não posso continuar assim, com tanta falta de sorte. E teve uma idéia:

— Já sei o que fazer! Vou me encontrar com Deus! É claro! Se Deus me fez assim, sem sorte, Ele pode mudar a minha vida e me tornar um homem de sorte!

Preparou as coisas que achava importante levar consigo e, numa manhã, partiu em viagem.

Andou por dias e dias, meses e meses até que, finalmente, chegou a uma gigantesca floresta com árvores muito grandes e galhos que quase atigiam o céu.

— Ah! — disse o homem para si mesmo — esse deve ser o lugar onde vive Deus — e começou a se sentir muito sério porque este era realmente um lugar muito sério.

Pouco antes de entrar na floresta ouviu uma voz:

— Homem, me ajude por favor.

Ele olhou para os lados procurando por quem falou, até que se deparou com um lobo magro, quase sem pelos. Ele estava que só pele e ossos. O lobo falou:

— Há três meses estou assim. Não sei o que está acontecendo comigo. Não tenho forças para me levantar.

Passado o susto, o homem respondeu:

— Bobagem a sua queixa. Três meses? Eu tive azar a vida inteira. Mas faça como eu e procure uma resposta. Eu estou indo falar com o Criador para resolver o meu problema.

— Eu não tenho forças nem para ir ao rio beber água. Você está indo vê-lo, pergunte o que está acontecendo comigo. Faça este favor.

O homem franziu a testa e disse que estava muito preocupado com seu problema, mas se lembrasse, perguntaria. Assim, continuou seu caminho. Andou muito e de repente, tropeçou na raiz de uma árvore e ouviu:

— Cuidado homem! Olhando para cima viu que a árvore tinha apenas duas folhas. Levantou-se e observou suas raízes desenterradas, seus galhos retorcidos, sua casca soltando-se do tronco. Depois, disse:

— Você não se envergonha ? Olhe as outras árvores a sua volta e diga se você pode ser chamada de árvore? Conserte sua postura.

A árvore, demonstrando muita dor na voz, disse:

— Não sei o que está acontecendo. Sinto-me muito doente. Há seis meses que minhas folhas caem. Hoje só restam duas. Por favor procure uma solução com o Criador.

Contrariado , o homem seguiu com mais uma incumbência. Andou muito e chegou a um vale com flores de todas as cores e perfumes. Mas o homem não reparou nisto. Chegou até uma casa onde uma moça muito bonita o convidou a entrar. Eles conversaram longamente e quando o homem deu por si já era madrugada. Ele se levantou dizendo que não podia perder tempo. Quando estava saindo, ela lhe pediu um favor:

— Você pode perguntar ao Criador uma coisa para mim? É que de vez em quando sinto um vazio no peito, que não tem motivo e nem explicação. Gostaria de saber o que é e o que posso fazer por isto.

O homem prometeu que perguntaria e virou as costas e andou muito até que chegou ao fim do mundo. Sentou-se e ficou esperando até que ouviu uma voz, que só podia ser a voz do criador.

— Tenho muitos nomes. Chamam-me também de Criador.

O homem contou tudo sobre a sua triste vida. Conversou longamente com a voz. No final da conversa, se levantou e virando as costas foi saindo, quando a voz lhe perguntou:

— Você não está se esquecendo de nada? Não ficou de saber respostas para uma árvore, para um lobo e para uma jovem?

— Tem razão. Voltou para ouvir o que tinha que ser dito.

Quando terminou de escutar, correu. Depois de um tempo, chegou na casa da jovem, que vendo-o passar, chamou:

— Você conseguiu encontrar o Criador? Teve as respostas que queria?

— Sim! Claro! O Criador disse que minha sorte está no mundo . Basta ficar atento e perceber a hora de pegá-la!

— E você fez a minha pergunta?

— Ah! O Criador disse que o que você sente é solidão. Assim que encontrar um companheiro vai ser completamente feliz, e que mais feliz ainda vai ser o seu companheiro.

Então, a jovem abriu um sorriso e perguntou ao homem se ele queria ser este companheiro.

— Claro que não. Já trouxe a sua resposta e não posso perder tempo com você. Não foi para ficar aqui que fiz toda esta jornada.

Correu então até a floresta onde estava a árvore. Ele nem se lembrava mais dela. Mas quando novamente tropeçou em sua raiz, viu cair a última folha. Ela perguntou se ele tinha uma resposta, ao que o Homem respondeu:

— Tenho muita pressa e vou ser breve, pois estou indo em busca de minha sorte. Ela está no mundo. O Criador disse que você tem embaixo de suas raízes uma caixa de ferro cheia de moedas de ouro. O ferro desta caixa está corroendo suas raízes. Se você cavar e tirar esta caixa, vai terminar todo o seu sofrimento e você vai poder virar uma árvore saudável novamente.

— Por favor ! Faça isto por mim! Você pode ficar com o tesouro. Ele não serve para mim. Eu só quero de novo minha força e energia. O homem deu um pulo e falou indignado:

— Você está me achando com cara de quê? Já trouxe a resposta para você. Agora resolva o seu problema. O Criador falou que minha sorte está no mundo e eu não posso perder tempo aqui conversando com você, muito menos sujando minhas mãos com terra.

Então, correu, atravessando a floresta. Chegou onde estava o lobo, mais magro ainda e mais fraco. O homem lhe disse:

— O Criador mandou lhe falar que você não está doente. O que você tem é fome. Está morrendo de inanição, e como não tem mais forças para sair e caçar, vai morrer ai mesmo. A não ser que passe por aqui uma criatura bastante estúpida, e você consiga comê-la.

Nesse momento, os olhos do lobo se encheram de um brilho estranho. Reunindo o restante de suas forças, o lobo deu um pulo e comeu o homem sem sorte.



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