Homem das Cavernas

O Homem das Cavernas

Homem das Cavernas
Vou mostrar como a insensata idéia de Deus foi se desenvolvendo entre os homens”. Minha observação era perfeitamente piedosa. Nela eu reconhecia os desígnios divinos, mesmo nas suas manifestações mais obscuras e insignificantes.

 O Homem das Cavernas Lá nas alturas, numa estranha e remota constelação existe uma pequena estrela que os astrônomos descobrirão um dia. Pelo menos, não tenho notícias de que nenhum homem de ciência a tenha descoberto, ainda, não obstante ser sua superfície habitada. É uma estrela em cujo solo crescem plantas e animais estranhos, e nenhum destes mais estranho que o homem de ciência…

Desta maneira começaria eu uma história do mundo se quisesse seguir o costume científico de abrir o texto com uma série de considerações de ordem astronômica. Intentaria ver o planeta Terra, de fora, não pela sua posição vulgaríssima com relação ao sol, mas, sim, mediante um determinado esforço imaginativo, tendente a criar a noção de que possa pertencer ao nosso planeta um ser que não viva na sua superfície.

Mas, de outra parte, não creio que a desumanização seja um bom processo para se estudar a Humanidade. Não creio seja de mister insistir nas distâncias astronômicas para demonstrar que o mundo é muito pequeno. E, como não é fatível a idéia de fazer da terra um planeta que nos seja desconhecido para lhe dar uma nova significação, tão pouco recorrerei ao artifício de apequena-lo para torna-lo insignificante. Quase que me atrevo a sugestão de que, nem sequer sabemos que a terra seja um planeta, no sentido em que conhecemos ser o lugar onde vivemos. E um bem esquisito lugar, por certo. É este o ponto que desejo marcar de início: não de uma maneira astronômica, mas, sim, de um modo simples e familiar.

Uma das minhas primeiras aventuras na vida jornalística refere-se a Grant Allen quando este escreveu um livro sobre “A evolução da idéia de Deus”. Ocorreu-me, então, relevar que teria sido muito mais interessante um livro de Deus sobre a evolução da idéia de Grant Allen. Recordo-me de que o diretor de redação me disse que aquilo era uma blasfêmia. Pois, traduzindo em linguagem corrente, significativa: “Vou mostrar como a insensata idéia de Deus foi se desenvolvendo entre os homens”. Minha observação era perfeitamente piedosa. Nela eu reconhecia os desígnios divinos, mesmo nas suas manifestações mais obscuras e insignificantes.

Esse incidente serviu-me para aprender muitas coisas, entre estas, que a fonética tem papel proeminente na apreciação do piedoso e da blasfêmia. Meu diretor não se apercebera do ateísmo do título do livro de Allen, porque na palavra mais extensa estava o princípio e em uma das mais curtas o fim. Ao contrário, em minha observação, uma das palavras mais curtas começava a frase, e isso foi o que o impressionou desagradavelmente. Tenho observado que se se puser, por exemplo, a palavra Deus perto da palavra cão – e segue o exemplo – tem-se a impressão de se ter ouvido um disparate, sente-se a reação de quem acabasse de ouvir uma forte descarga.

E não se diga que Deus fez o cão que isso não vem ao caso. Só se pode considerar como estéreis discussões de teólogos. Mas, ao contrário, se começarmos a frase com uma palavra de muitas sílabas como “evolução”, então, a impressão já é outra e o resto da frase pode passar livremente, sem maior exame. Foi o que aconteceu, possivelmente, com o meu diretor – não lera todo o título do livro, porque era extenso e ele um homem de muitas ocupações.

O incidente, de outro lado, impressionou-me como uma parábola. Muitas histórias modernas da humanidade começam pela palavra evolução. É que existe um não sei que de brando, de suave, de gradativo, de tranqüilizador, talvez, não só na palavra como na própria idéia. Desde logo, não é esta uma palavra prática, nem a idéia resultante uma idéia aproveitável. Ninguém poderá imaginar como o nada evolucionando pudesse se converter em alguma coisa. Nem mesmo se explicando como uma coisa pode se converter em outra. É muito mais lógico começar dizendo: “No princípio, Deus criou o céu e a terra”, mesmo quando só se queira dizer: “No princípio, certo poder inconcebível iniciou um processo inconcebível também”.

Porque Deus é, por natureza, um nome de mistério, e ninguém pode imaginar como foi criado o mundo, do mesmo modo que ninguém se sente capaz de criá-lo. Mas, a palavra “evolução” parece ter certa tendência a substituir “explicação”, e são muitos os que entendem que ela os dispensa de reflexionar, como são, também, muitos os que acreditam, de boa fé, já terem lido “A origem das espécies”.

Aquela noção de suavidade, de consolador, de gradativo e lento, constitui uma grande parte da sua grande ilusão. Digamos agora, que se trata tanto de uma ilusão como de um absurdo.

A lentidão nada tem que ver nesta questão. Um fato não é mais ou menos inteligível, segundo a velocidade em que se executa. Para um homem que não acredita nos milagres, um milagre lento será tão incrível como um outro imediato, fulminante. A feiticeira grega pôde converter os marinheiros em porcos ao simples contato da sua varinha mágica. Porém, ver um marinheiro desses, nosso amigo, convertendo-se paulatinamente, em porco, não seria, de certo, muito mais tranqüilizador. O nigromante medieval lançava-se no espaço, do alto de uma torre. Mas, ver um velho senhor passeando vagarosamente pelo espaço, também, despertaria a nossa atenção.

Não obstante, o materialismo histórico parece não poder despegar-se desse erro que consiste em acreditar que uma dificuldade fica iludida explicando-a por meio de um lento decorrer do tempo. A questão se estriba na falsa sensação de facilidade que se produz pela mera sugestão de ir devagar. Como se tranqüilizássemos a uma senhora idosa, que pela primeira vez toma um automóvel, assegurando-lhe que este irá devagarzinho.

Mr. H. G. Wells reconheceu-se profeta – e nesta questão o foi à sua custa. – É curioso: seu primeiro conto fantástico foi a mais completa resposta ao seu último livro de história. A máquina do tempo destruiu, antecipadamente, todas as conclusões fundadas na mera relatividade desse mesmo tempo. Naquela sublime fantasia o protagonista viu as árvores crescerem como foguetes, a vegetação estender-se como um incêndio verde, e o sol cruzar do Oriente para o Ocidente com a velocidade de um meteoro. Porém, a questão não está em como se produzem os fenômenos e sim no por quê se produzem. E este por quê não é nada mais do que uma questão religiosa ou, pelo menos, uma questão filosófica ou de metafísica.

Não se pode considerar resolvido o problema substituindo a mudança rápida das coisas por uma transformação lenta, como não se modifica essencialmente o argumento de uma película cinematográfica focando-a com mais ou menos velocidade.

O que se necessita para se defrontar com estes problemas da existência primitiva é alguma coisa assim como um espírito primitivo. Ao reconstituir esta visão das primeiras coisas eu pediria ao leitor que fizesse comigo uma espécie de experiência de simplicidade. E fique registrado que ao dizer simplicidade não quero dizer estupidez, e sim essa expressão de claridade que percebe melhor as coisas vivas do que as palavras de sentido duvidoso como a – “evolução”. Para isto, o melhor seria fazer girar a manivela da máquina do tempo um pouco mais depressa e ver crescer a erva e elevarem-se as árvores até o céu, se tal experiência pode dar uma idéia viva e gráfica de todo o problema. O que sabemos é que as árvores e a erva crescem e que ocorrem, paralelamente, um grande número de outras coisas extraordinárias. Que umas raras criaturas se mantêm no ar agitando uma espécie de leques de diferentes formas e tamanhos; que outras navegam imersas no mais profundo das águas, ao passo que há as que andam em cima da terra com quatro pés e, a mais rara de todas, a que caminha com dois.

Estes são fatos e não teorias. Comparados com eles, a evolução, o átomo e até o sistema solar, não são mais que hipóteses. O tema, pois é histórico e não filosófico. Só é necessário relevar que nenhum filósofo nega que existe um mistério nas duas grandes transições: – a origem do universo e a origem do princípio da vida. Muitos outros acrescentam, ainda, a esses, com razão, um terceiro vinculado à origem do homem.

Em outras palavras: foi construída uma terceira ponte sobre um terceiro abismo do incompreensível quando se produziu o fenômeno que chamamos razão e o que chamamos vontade. O homem não significa uma evolução senão – uma revolução. Que tenha uma espinha dorsal e outras partes da estrutura semelhante às dos pássaros e peixes, isto é óbvio, seja qual for a significação do fato. Mas se o considerarmos como um quadrúpede que se mantém de pé sobre as patas de trás, as conseqüências dessa nossa consideração serão mais fantásticas que se o figurássemos, de pé, ou erguido, sobre a cabeça.

Apresentarei um exemplo que sirva de introdução à teoria do homem, ao mesmo tempo em que ilustre o meu asserto de que é necessária uma certa ingenuidade infantil para compreender devidamente a infância do mundo. Ilustrará, também, minha afirmativa de que um misto de ciência popular e de sabedoria de jornal tem confundido de tal maneira os fatos, acerca das primeiras coisas, por forma que já nem mais acertamos em ver quais delas foram, em verdade, as primeiras. Ilustrará, ainda, conquanto só no sentido mais conveniente tudo quanto quero dizer ao falar da necessidade de ver as ásperas diferenças que dão forma à história, ao invés de nos engolfarmos em todas essas generalizações sobre a lentidão e identidade. Porque, com efeito, necessitamos do que chama Mr. Wells – um esboço da história. Nesse ponto, podemos nos arriscar a dizer, com a frase de Mr. Montalini – que a história evolucionista não tem esboço. – Sobretudo, enfim, meu exemplo ilustrará a asserção de que – quanto mais consideramos o homem como animal, menos animal ele nos parece.

Novelas e jornais nos falam freqüentemente de um personagem popular chamado cavernícola, isto é, o homem das cavernas. Tem se tornado muitíssimo nosso familiar tanto no seu aspecto público como no privado. Fala-se muito a sério da sua psicologia nas novelas psicológicas e na medicina desse mesmo gênero. Parece, segundo todas as minhas leituras, que o homem das cavernas passava a vida surrando a sua mulher, em particular, e, em geral, a todas as mulheres que lhe chegavam ao alcance.

Até agora, não me pude convencer da verdade desse asserto. Não sei em notícia de que jornal primitivo ou processo de divórcio pré-histórico se funda. Tão pouco acerto em achar a probabilidade disso, ainda considerando o fato a priori. Dizem-nos, sempre, de uma maneira gratuita, sem explicação nem autoridade, que o homem primitivo fazia a corte à sua mulher dando-lhe pauladas na cabeça.

É um pouco estranho, não resta dúvida, que aquelas damas insistissem na necessidade de apanhar antes de se entregarem ao homem. Não compreenderei nunca em como sendo o homem tão rude era a mulher tão sagaz.

Concedamos que o homem primitivo fosse uma besta. Porém, nada nos induz a crer que fosse ele mais besta do que as próprias bestas. E é bem certo que o amor entre as girafas e os românticos idílios entre os hipopótamos decorriam sem necessidade daqueles cavalheiros recorrerem a tais processos de carícias.

Mas, o mais curioso é isto: – que enquanto dez mil línguas, mais ou menos científicas e literárias, se ocupam desse pobre homem, no seu aspecto feroz, esquecem ou desdenham o único aspecto em que ele nos aparece como criatura sensível e digna de estimação. Realmente, têm-se interessado por tudo que se refere ao homem das cavernas, menos pelo que ele fez nessas cavernas. E, entretanto, não nos faltam evidências palpáveis de que ele fez nelas alguma coisa de importante. Não é muito, como não o é quanto se refere à idade pré-histórica: mas, diz respeito ao verdadeiro homem das cavernas e não ao personagem literário a que se dá esse nome, acompanhando do seu inseparável porrete. O que se encontrou nas cavernas não foi esse pedaço de pau, com as cabeças amassadas das mulheres. A caverna não era assim, uma alcova de Barba Azul, cheia de esqueletos de esposas assassinadas.

Se desejarmos ver, realmente, este aspecto da manhã do mundo será, por todos os conceitos, preferível conceber a história do seu descobrimento como uma legenda da terra do sol nascente. Será preferível narrar o conto do que se descobriu, com a simplicidade do conto dos heróis que encontraram o Tosão de ouro ou do Jardim das Hespérides [1]. Há que fugir das névoas da controvérsia para encontrar as cores vivas e as linhas destacadas de um verdadeiro amanhecer. Os investigadores modernos deviam descrever seus descobrimentos no estilo límpido da narrativa dos primeiros viajantes, despido dessas extensas palavras alusivas e de um sentido confuso e indireto.

Um sacerdote e um menino penetraram, há algum tempo, no subterrâneo de uma montanha e passaram através de uma espécie de túnel que conduzia a um labirinto de corredores.

Passaram por caminhos que pareciam intransitáveis; desceram gargantas que eram como poços, como se estivessem enterrados vivos, sem esperança de ressurreição. Tudo isto não é mais do que o lugar comum de tais valorosas explorações; porém, do que se necessita, é de alguém que foque sobre tais histórias uma luz primária, e, então, o lugar comum deixará de sê-lo. Porque, não há de duvidar, existe alguma coisa de simbólico no fato de que os primeiros que entraram em tão oculto mundo foram precisamente, um sacerdote e um menino, os tipos da antiguidade e da infância do mundo.

Ainda que, nesta conjectura, mais me refiro ao simbolismo do menino do que ao do sacerdote.

Que alegria para o menino entrar, como Peter Pan, em baixo de um teto formado pelas raízes de todas as árvores, e seguir baixando, baixando até chegar ao ponto que William Morris chamava as verdadeiras raízes das montanhas![2]

Suponhamos alguém de posse desse sentido simples da realidade, que forma parte da inocência, seguindo, nessa viagem, até o fim, não pelo egoísmo de deduzir ou de demonstrar alguma coisa, senão, simplesmente, pelo prazer de realizar a aventura.

A secreta câmara rochosa, iluminada depois de inumeráveis anos, mostrou em suas paredes grandes desenhos e pinturas, feitos com argilas de diferentes cores. Eram desenhos e pinturas realizados, não só por um homem, senão por um artista. Com todas as limitações imposta pela época, aqueles artistas primitivos demonstravam um grande amor pela linha curva ondulante, amor que reconhecerá, imediatamente, qualquer pessoa que saiba ou intente desenhar. Aqueles desenhos demonstravam o gênio experimental e aventureiro do artista, o espírito de quem não evita senão procura a dificuldade. Sobretudo, no caso daquele cervo pintado com a cabeça voltada para a anca, numa atitude que freqüentemente surpreendemos nos cavalos, e que muitos desenhistas de animais só reproduzem com dificuldades. Uma multidão de detalhes semelhantes denota o interesse e, sem dúvida, o prazer com que o artista, mas também como naturalista. Isto é: como naturalista verdadeiramente natural.

Não será necessário indicar, senão de passagem, que nada, nessa caverna, sugere a atmosfera pessimista da caverna, segundo as narrações em voga.

Certamente que não é ideal de um caráter não humano passar o tempo pintando animaizinhos nas paredes. Quando novelistas, pedagogos e psicólogos falam do troglodita, não podem concebê-lo em relação com o que existe, realmente, em suas cavernas. Quando o novelista escreve: “Saltavam chispas no cérebro de Dagmar Doubledick, o qual sentia despertar em si o homem das cavernas”, o leitor sofreria uma grande desilusão se soubesse que nas cavernas nada mais existe do que inofensivos desenhos de animais. Quando o psicanalista escreve a um parente dizendo que “os instintos adormecidos do homem das cavernas podem levá-lo a um ato de violência”, não se refere ao instinto de pintar à aquarela nem de desenhar com simplicidade, diretamente do natural, cabeças de gado pastando mansamente.

Entretanto, sabemos, positivamente, que o troglodita fazia estas coisas inocentes, e, em troca, não temos a menor prova de que realizasse as ferocidades de que se nos fala. Em outros termos: o homem das cavernas se nos apresenta freqüentemente como um simples mito ou, melhor, como uma vacuidade, porque o mito é, ao menos, a representação imaginativa de uma verdade.

Em resumo: tudo quanto se diz da brutalidade do homem das cavernas não é mais do que pura confusão, que não tem apoio em nenhuma evidência científica, e que só serve, de certo modo, para desculpar o moderno espírito de anarquia. O cavalheiro que necessite castigar a uma mulher, que o faça sem desonrar o homem das cavernas, de quem sabemos, apenas, coisa muito diferente – que pintava coisas muito agradáveis nas paredes.

Mas, não é esta a lição de moral que se deduz dessas pinturas. É uma lição muito mais vasta e muito mais simples, tanto assim, que, até, pode parecer pueril. E, com efeito, no mais elevado sentido da palavra, é, mesmo, pueril.

Por isso, precisamente, tratei de vê-la neste apólogo com os olhos de um menino. O fato de maior consideração, com que se defrontou esse menino que entrou na caverna, é tão grande que, talvez, por isso mesmo seja difícil acreditá-lo. Se ele era uma ovelha do rebanho espiritual do sacerdote, pode-se presumir que fora educado no cultivo do senso comum, desse senso comum que, freqüentemente se nos aparece sob a forma de tradição. Neste caso, reconheceria, simplesmente, a obra do troglodita, como obra de um homem, interessante, desde logo, mas não incrível, por tratar-se de um primitivo. Veria, sem dúvida, o que, de fato, ali havia para ver, não caindo na tentação de ver o que não existia, excitado por uma inclinação evolucionista ou por qualquer outra especulação da moda. Se o menino ouvira falar disso, admitiria, então, que tais especulações podiam ser verdadeiras e não incompatíveis com os fatos verdadeiramente certos. Nada se opõe a que o artista tivesse outra feição característica além da de ser artista. O homem primitivo bem podia se comprazer tanto em surrar as mulheres como em pintar animais. O único que podemos afirmar é que os desenhos falam de seu caráter como artista e não como carrasco de mulheres. É possível que terminando de dar uma tunda em sua mãe ou na sua esposa lhe fosse agradável recrear-se, no murmúrio de um arroio e na contemplação de um cervo que bebia… Estas coisas não são impossíveis, mas, sim, improváveis. O senso comum do menino se limitaria a aprender dos fatos o que os fatos o ensinavam e ns cavernas quase não há outro fato verídico que o das pinturas. O menino não veria outra coisa senão que um homem representa animais com ocre vermelho, pela mesma razão que ele empregava o carvão nos seus desenhos. O primitivo pintara um cervo como ele pintava cavalos; um cervo com a cabeça virada, levado pela mesma causa que o impelia a pintar porcos com os olhos cerrados: porque era difícil. O menino e o troglodita por serem humanos uniam-se na fraternidade dos homens. E esta fraternidade é mais nobre quando enlaça os abismos do tempo do que quando serve de ponte às distintas classes sociais. O que ele não veria na caverna seria um indício, sequer, da evolução. Se alguém lhe dissesse que aquelas pinturas haviam sido feitas por S. Francisco de Assis, pelo seu puro e santo amor aos animais, nada encontraria na caverna que contrariasse esse asserto.

Uma senhora amiga me sustentava, com bom humor, certa vez, que a caverna primitiva só servia para os bebês e que tinham pintado animais nas paredes para distraí-los, como nas escolas infantis que se adornam as paredes com coelhos e elefantes. É uma burla, de acordo. Mas, no entanto, atrai a nossa atenção para algumas suposições que, sem mais provas, aceitamos como verdadeiras. Com efeito, as pinturas não provam que o homem das cavernas vivesse nas cavernas, da mesma forma que o descobrimento de uma adega subterrânea em Balham [3] não demonstrará nunca que a classe média da época vitoriana [4] vivia em baixo da terra. A caverna podia ter um destino especial como a adega. Podia ser uma espécie de capela religiosa ou de um refúgio em tempo de guerra, de um esconderijo de alguma sociedade secreta, ou, sabe Deus, quantas coisas mais. Mas, é indubitável que a sua artística decoração parece, mesmo, mais própria de um abrigo infantil do que de um âmbito revolucionário. Concebi um menino no subterrâneo. Tão fácil é conceber um outro qualquer, moderno ou da mais remota antiguidade, acariciando suavemente os animais pintados na rocha. Gesto carinhoso que pode ser o antecedente de outra gruta e de outro menino [5].

Mas, suponhamos que o menino não é discípulo de um sacerdote e sim de um professor, de um desses professores que simplificam a relação entre homens e animais com uma simples explicação evolucionista. Suponhamos que o menino se considera um simples Mougle [6]. Que significaria para ele a simplíssima lição dessas gravuras na rocha? Diria, naturalmente, que tendo descido muito, abaixo da terra, encontrara, aí, um lugar onde um homem pintara um cervo. Porém, muitíssimo mais teria que descer para encontrar um outro local em que um cervo teria pintado um homem. Parece, até, uma verdade de Perogrullo,[7] mas, entretanto, é uma grande verdade. Desça-se a profundidades incríveis; chegue-se a continentes submergidos, tão remotos como as mais remotas estrelas; transporte-se à lua; procure-se nos grandes abismos gelados, nas grotas colossais de pedras: – se encontrará, sim, pegadas de monstros de formas inconcebíveis. Mas, em nenhuma parte a afirmação positiva de que um dedo houvesse traçado uma linha inteligente na areia, nem sinais de que uma garra tentasse esboçar uma forma.

O menino, certo, não esperará encontrá-lo, como não esperará, jamais, ver um gato traçando a caricatura de um cão. E porque não encontra entre os animais o menor indício de uma arte embrionária? É a lição simples, muito simples que nos ensina a caverna com suas paredes pintadas; tão simples, que dá trabalho compreendê-la. – Que o homem se diferencia dos animais mais pela espécie e não por uma graduação. – E a prova está aqui: – todo o mundo acha possível e natural que um homem pinte a imagem de um macaco, ao passo que tomaria por uma burla, por uma brincadeira a afirmativa de que o macaco mais inteligente da criação houvesse logrado pintar a imagem de um homem.

Há alguma coisa que separa fundamentalmente o homem dos animais. A arte é patrimônio do homem. Esta é a verdade simples com que se deve começar a história dos princípios. O evolucionista assombra-se, nas cavernas, com coisas demasiado grandes para serem vistas e demasiado simples para serem compreendidas. E, por isso, procura deduzir conseqüências indiretas e duvidosas dos detalhes das pinturas, porque não conseguiu ver o significado primordial do conjunto. Só obtém deduções teóricas sobre a ausência de religião ou a presença da superstição, acerca da existência de um governo de tribo, da caça, de sacrifícios humanos, etc., etc.

No próximo capítulo tratarei mais detalhadamente das origens pré-históricas das idéias humanas, e mui especialmente da idéia religiosa. Aqui só trato do caso concreto da caverna, como uma espécie de símbolo da verdade singela com que deve principiar a história. De tudo o que se descobriu nela, a única coisa que se releva de certo – é que o homem sabia pintar quadrúpedes e que os quadrúpedes não sabiam pintar homens. Se o homem que os pintava era tão animal como eles, ressalta como extraordinário, que soubesse fazer o que eles não sabiam e não sabem. Se o homem, ainda, era um produto de crescimento biológico, como qualquer outro animal, também é de estranhar sobremodo, que em nada se pareça com aqueles seus “semelhantes”. Enfim, o homem parece mais sobrenatural como um produto natural do que como um produto sobrenatural.

A razão que me levou a principiar esta história na caverna, como das especulações de Platão, é que ela ilustra particularmente o erro em que se fundam as introduções e prefácios evolucionistas em uso. É inútil começar dizendo que todas as coisas são conseqüências de um desenvolvimento gradual e lento. Porque, em um caso tão palmar como no das pinturas das cavernas pré-históricas, não se reconhece um único vestígio de tal desenvolvimento ou graduação. Os macacos não sabem começar uma pintura e os homens sabem acabá-la. O pitecantropo, não pintou um cervo e o Homo Sapiens conseguiu fazê-lo.

Tudo o que podemos dizer desta noção de reproduzir as coisas é que só existe no homem, e que não podemos falar desse assunto, sem tratar o homem como alguma coisa separada da natureza. Em outras palavras: toda a história deve começar pelo homem, como homem, pelo homem como algo absoluto e único. De como ele veio à terra ou de como todas as coisas se produziram na terra — é tarefa que pertence aos teólogos, filósofos e homens de ciência, e não aos historiadores.

Uma prova excelente deste misterioso asilamento é o que podemos chamar — o impulso da arte. Esta criatura foi diferente de todas as demais criaturas, porque foi tão criadora como criada. Nada, neste sentido, pode ser feito sob outra imagem que a imagem do homem. E a verdade é tão verdade, que, ainda sem nenhuma crença religiosa, deve ser admitida em forma de princípio moral ou metafísico. No próximo capítulo veremos este princípio aplicado a todas as hipóteses históricas e éticas evolucionistas, agora em moda; às origens do governo tribal ou crença mitológica. Porém, o exemplo mais claro e mais convincente é o do que o homem da caverna fez na caverna.

Este exemplo quer dizer que, de uma maneira ou de outra, alguma coisa nova apareceu na noite cavernosa da Natureza: uma inteligência que é bem como um espelho. E é bem como um espelho, porque se trata de um fenômeno de reflexão e nela, tão somente, podem ser vistas todas as outras formas, como sombras brilhantes de uma visão, porque, finalmente, e sobretudo – é a única coisa da sua espécie. Outras coisas podem parecer-se com ela ou entre si em vários sentidos; outras coisas podem superá-la ou superarem-se entre si, igualmente, como no mobiliário de uma casa uma mesa pode ser redonda como um espelho ou um aparador maior do que ele. Mas, o espelho é a única coisa que pode conter todas as demais. O homem é o microcosmo; o homem é a medida de todas as coisas; o homem é a imagem de Deus. Estas são as únicas lições reais que há para aprender nas cavernas; e, já agora, é hora de deixá-las para sair em caminho aberto.

Não obstante, convém explicar, aqui, o que se quer dizer quando se afirma que o homem é a exceção, o espelho e a medida de todas as coisas. Mas, para vê-lo, tal como é, necessitamos, uma vez mais, defrontar-nos com aquela simplicidade que se pode limpar a si mesma das acumuladas nuvens da sofistaria.

A verdade mais singela acerca do homem é que ele é um ser muito estranho; parecendo, quase, um estrangeiro sobre a terra. Pela sua aparência externa mais parece um ser que haja trazido costumes desconhecidos de outras terras do que um ser natural desta que habitamos. Tem uma vantagem injusta e uma injusta desvantagem. Não pode se confiar a seus próprios instintos. É, ao mesmo tempo, um criador que possui mãos milagrosas e uma espécie de mutilado. Envolve-se em bandagens artificiais que se chamam vestidos; apóia-se em umas muletas que se chamam móveis. Seu entendimento tem tantas liberdades como limitações. Só ele, entre todos os animais, é capaz de agitar-se na famosa loucura que chamamos riso. Só ele, entre todos os animais, sente a necessidade de separar os seus pensamentos das realidades de seu próprio corpo, de ocultá-las, como se encontrasse ante uma mais alta possibilidade que cria o mistério do pudor. Podemos elogiar estes costumes, como naturais no homem, ou censurá-los como artificiais na Natureza. Mas, sempre permanecerão como o mesmo sentido de coisa única. Isto está comprovado pelo instinto popular chamado religião, em que pese aos laboriosos pedantes da vida simples. Os mais sofísticos de todos os sofistas são os “ginosofistas”. [8]

Porque, indubitavelmente, é antinatural o considerar-se o homem como um produto natural. É pecar contra o espírito, animalizá-lo – contra este espírito de realidade, que está feito do senso das proporções – E fico temeroso ao dizer “antinatural”, pois, enfim, se imaginamos que uma inteligência inumana ou impessoal pôde ter sentido ou captado a natureza geral do mundo não humano, com o vigor suficiente para poder ver que as coisas se desenvolveriam pela maneira que se desenvolveram, nada teria havido em todo esse mundo natural que preparasse essa inteligência para tal novidade tão natural.

O aparecimento do homem não lhe faria sequer o efeito benigno de um rebanho, entre cem, que descobre uma melhor pastagem, ou de uma andorinha, entre mil, que se extravia sob céus mais risonhos. Teria a impressão, não de uma modificação parcial das proporções, senão de um salto à quarta dimensão, como se uma vaca saltasse veloz, por cima da lua ou se um porco voasse. Para encontrar um paralelo, fora preciso não somente que as bestas escolhessem seus pastos, senão que construíssem, também, os seus estábulos; não somente que a andorinha descobrisse a Costa Azul, mas que edificasse a sua casa de veraneio.

Pois o fato mesmo dos pássaros fazerem ninhos relevaria, surpreendentemente, uma diferença inexplicável se o homem não fosse mais que um animal. Que, com efeito, cheguem a construir os ninhos que nós vemos e neles guarneçam, prova isso mais a essencial solução de continuidade entre o seu cérebro de passarinho e o cérebro humano do que se não edificassem nada. Neste caso, poderíamos lhes atribuir uma atitude filosófica, impregnada de quietismo ou de budismo, indiferente a tudo o que não é contemplação interior. Mas, desde o instante em que o pássaro edifica como o faz, regozija-se disso e gorjeia de contentamento, percebemos entre ele e nós outros um véu invisível, uma dessas vidraças contra as quais tantos pássaros se chocam em vão. Imaginemos, agora, ao contrário, que o nosso observador abstrato, não humano, vê um pássaro construindo à maneira dos homens e que em um nada de tempo faz uso de sete estilos distintos de arquitetura que esse construtor empenado escolhe, com carinho, raminhos cortados e folhas ponteagudas para expressar a piedade aguda do gótico; mas, em troca, provê-se de largas folhagens e de barro escuro quando sombras humanas o induzem a empregar os pesados pilares de Baal e Astartéia [9] na decoração de um ninho que seja um verdadeiro jardim suspenso de Babilônia. Suponhamos que faça estatuetas de argila com a figura dos voláteis mais reputados nas letras, ciências e artes, para adornar a fachada de sua moradia. Em uma palavra: suponhamos que um pássaro, entre mil, empreende, um belo dia, qualquer das ações que os homens têm levado a cabo desde a aurora dos tempos, e não duvidaremos dos sentimentos do idealizado espectador. Não verá neste pássaro uma sub-variedade em transe de diferenciar-se, segundo o curso normal da evolução das espécies, senão que um prodígio, um augúrio; o sinal não de um acontecimento futuro, senão de um fato realizado: o advento de um espírito semelhante ao espírito humano. Se não houvera Deus, nenhuma outra inteligência fora capaz de prevê-lo.

De fato, não há nem sombras de indicação de que a inteligência humana se tenha formado por evolução natural. Existe, quiçá, uma cadeia rompida de pedras e de ossamentas para sugerir vagamente certo desenvolvimento do corpo do homem; entretanto, nada de parecido existe referente ao seu espírito.

Não era, e foi; eis o que todos nós sabemos, que não encontra seu lugar em nenhuma parte no tempo nem no espaço, e que escapa, por conseguinte, ao domínio da história. Sendo a missão do historiador mais registrar do que explicar, não experimentará nenhum pudor aceitando este fato sem comentário biológico, por isso que é realidade. Pouco importa que o homem seja inverossímil: uma vez que é verdade e que é real, – é uma almofada macia para uma cabeça bem feita. “E” – e isto basta à maioria de nós outros.

Não obstante, haverá, sempre, espíritos curiosos, ávidos de conceber, para perguntar mais e querer ver, absolutamente, no homem, uma criação que não faça dele um monstro. A estes eu direi: Quereis, verdadeiramente, uma explicação realista que devolva o ser humano ao quadro original, sem o que será um escândalo para a vossa razão? Quereis assistir a uma “evolução” que concorde com a realidade de sua natureza física e moral? Quereis contemplá-lo, finalmente, na áspera lucidez de seu dia verdadeiro? Dirigi-vos a outra parte; remontai o curso de memórias simples e formidáveis e ide despertar os sonos dormidos, pois é preciso evocar muitas vezes outras causas afim de encontrar uma origem para o homem, e invocar outra autoridade para lhe dar uma figura razoável ou, unicamente, admissível. No termo da rota acha-se tudo o que é, a um mesmo tempo, horrível, familiar e esquecido, com rostos e braços espantosos e enfurecidos. Aceitemos o homem como um fato, se nos é bastante um fato inexplicável; aceitemo-lo como animal, se nos convêm viver em meio de animais fabulosos. Mas, se nos é necessário uma lógica, uma seqüência, então, precisaremos de um prodigioso prelúdio, de um crescendo de milagres desencadeados, para que, – engendrado em meio de trovões inconcebíveis, que estremeçam, até o sétimo céu – a ordem natural – o homem pareça, enfim, uma criatura comum.

(“The Everlasting Man”, 1o. cap., trad. Lourival Cunha, Editora O Globo de Porto Alegre, 1934.)

O HOMEM DAS CAVERNAS

G. K. Chesterton

Notas:

[1] Tosão de Ouro – Lenda maravilhosa no mundo grego. Veio do carneiro que levou pelos ares Phrixos e Helle à Colchida. Aí, depois de imolarem o carneiro a Zeus presentearam-no a Aetes, rei dos país, que o fazia guardar por um dragão. Deu origem à expedição dos argonautas organizada por Jasonos argonautas organizada por Jason. Jardim das Espérides – Jardim maravilhoso, cheio de pomos de ouro, guardado por um dragão de cem cabeças, onde viviam as três ninfas filhas da Noite – Aegles, Erithéa e Héspera. (N. do T.)

[2] Morris William – Poeta, pintor e crítico de arte inglês. O livro “Raízes das Montanhas”,1890 , consagrou toda a sua riqueza e gênio em melhorar as coisas visíveis e em propagar novos ideais.

[3] Balham – Subúrbio aristocrático de Londres.

[4] Vitória – época da rainha Vitória da Inglaterra.

[5] De outra gruta … – O autor refere-se ao nascimento de Cristo no estábulo de Belém, cavado na terra.

[6] Mougle – Mowgli.

[7] Perogrullo – Personagem fantástica, a quem se atribuem verdades sediças.

[8] Ginosofistas – De gumnos, nu, e sophos sábio – Filósofo de uma seita da Índia, cujos membros viviam nus.

[9] Baal e de Astartéia – Templos erigidos ao deus Baal, Bel ou Belus dos fenícios e à sua mulher Astartéia – Baal era o deus supremo. Astartéia era considerada alternativamente como deusa virgem e deusa mãe.



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