O Escotismo

O Escotismo

Um militar inglês criou o escotismo, uma prática social que ganharia o mundo

Em 22 de janeiro de 1901, no primeiro ano do século 20, após 63 anos, chegava ao fim o mais longo reinado de um monarca até então. Com a morte da rainha Vitória terminava na Inglaterra a Era Vitoriana, iniciada em 1837 quando Vitória, aos 18 anos, assumiu o trono, deixado por seu tio Guilherme IV.

A Era Vitoriana é vista como um longo período de prosperidade e paz, mas também de grande expansão para o Império Britânico, que via se espalharem pelo mundo os efeitos de sua Revolução Industrial e da conquista de terras. Sua população quase duplicou, passando de 16 milhões em 1851 para 30,5 milhões em 1901. Ocorreram mudanças graduais em direção a reformas políticas e alargamento dos direitos de voto.

Com a morte da rainha, subiu ao trono seu filho, Eduardo VII, então com 59 anos, dando início ao Período Eduardiano, que se estendeu até 1910. Nesse período foi mantida a distância entre as classes alta e baixa. Alguns estudiosos, no entanto, consideram que mudanças econômicas e sociais permitiram uma mobilidade social que não ocorria no passado.

imagesEduardo VII foi o monarca de uma época que se destacou pela arte e pela moda. Influência de seu gosto por viagens. Seu reinado chegou, inclusive, a ser classificado como uma romântica época dourada. O monarca também demonstrava interesse nas áreas navais e militares.

Nesse panorama a Inglaterra viu surgir um movimento que em pouco tempo ultrapassaria suas fronteiras: o escotismo, resultado de um projeto imaginado pelo militar britânico Robert Stephenson Smyth Baden-Powell, que ficou mundialmente conhecido como Baden-Powell, ou B.P.

Uma ideia

A história do escotismo não começa em 1907, na Ilha de Brownsea, localizada no Canal da Mancha, onde aconteceu o primeiro acampamento. Ela se originou antes, quando Baden-Powell exercia sua função militar na África do Sul e comandou um cerco ao vilarejo de Mafeking. Com um contingente militar desfavorável, optou por utilizar jovens e crianças da vila em pequenas tarefas. Resistiram, por 217 dias, ao ataque dos Boers – colonos de origem holandesa e francesa. A experiência o deixou entusiasmado.

Ao regressar da África, em 1901, ficou surpreso ao perceber que era visto como um herói. A fama colaborou na disseminação de seu livro “Ajudas à Exploração Militar”, escrito enquanto estava na África e era utilizado nas escolas masculinas inglesas.

Percebeu que se aquela obra, escrita para adultos, exercia tanta atração nos jovens, um livro especialmente para eles despertaria interesse ainda maior. Em junho de 1907, retirou-se de Londres, tendo como destino o Walton Hotel, na cidade inglesa de Ashbourne, e lá começou a escrever o livro que mudaria sua vida: “Escotismo para Rapazes”.

Para certificar-se que a teoria poderia ser colocada em prática realizou o famoso acampamento. Baden-Powell levou 20 rapazes, com idades entre 12 e 16 anos, até a Ilha de Brownsea, com suprimentos e utensílios para sobrevivência, algo que dependeria também do apoio mútuo. A experiência, realizada entre 29 de julho e 9 de agosto, foi considerada um sucesso.

No início de 1908, Baden-Powell publicou os seis primeiros fascículos de seu manual. A pretensão inicial não era criar um movimento organizado, mas divulgar uma proposta de trabalho educativo, um conjunto de princípios que servissem às associações de jovens já existentes. Defendia a educação ao ar livre e, para isso, traduziu aspectos de sua vida e experiência para um modelo pedagógico.

Com base na intenção inicial o trabalho consistia também na realização de palestras sobre escotismo por toda Inglaterra. Entre janeiro e fevereiro de 1908, num período de sete semanas, B.P. realizou 40 palestras para um público total de 25 mil pessoas, em 30 diferentes cidades.

Ganhando o mundo

jamboree1r(1)O projeto inicial, porém, sofreu uma reviravolta e atravessou as fronteiras inglesas, talvez como seu criador jamais tivesse imaginado. Um ano após o acampamento de Brownsea já existiam grupos de escoteiros organizados em outros cinco países: Nova Zelândia, Malta, Irlanda, Austrália e África do Sul.

No ano seguinte, mais oito países aderiram, incluindo Canadá, Estados Unidos e Índia. Em 1910 já existiam 123 mil escoteiros no mundo, considerando-se apenas as colônias e ex-colônias britânicas, e mais 10 países – entre eles, Holanda, França, Grécia, Dinamarca, Alemanha e Brasil – formavam seus primeiros grupos escoteiros.

Quando o movimento comemorava os dez anos do acampamento de Brownsea a proposta já estava enraizada. Havia chegado a 63 o número de países onde o escotismo se fazia presente. Novas publicações, congressos, encontros e visitas aos países que aderiam ao movimento ajudavam B.P. a divulgar o escotismo. Em 1912, ele fez uma viagem ao redor do mundo.

As décadas foram passando e, com elas, novas adesões, como nos anos 30, quando se somaram 18 novas nações. Em 60 e 70 o movimento voltou seus olhos para o mundo árabe e para a África ingressando, por exemplo, na Arábia Saudita, Emirados Árabes, Jordânia, Moçambique e Comores.

Nos anos 80 nenhum país aderiu ao movimento, mas na década seguinte ele chegou a outros sete. Cento e treze anos depois do acampamento de Brownsea, os 20 garotos de Baden-Powell transformaram-se em mais de 30 milhões de pessoas espalhadas por todo o planeta.

A maçonaria

Baden-Powell era membro da Maçonaria, afirmam alguns escritores e estudiosos, como o francês Roger Peyrefitte. Já sua esposa, Olave Baden-Powell, teria afirmado certa vez: “Não, ele não era maçom”. Mesmo assim, muitas comparações foram feitas para indicar um estreito relacionamento entre o pai do escotismo e membros da Maçonaria.

No livro “A Maçonaria”, escrito pelo argentino Emilio J. Corbière, ele cita que no século 20 importantes organizações receberam o apoio de maçons. “O maçom suíço Henry Dunat criou a Cruz Vermelha Internacional… Robert Baden Powell fundou o Movimento Escoteiro…”.

escotismo1No endereço eletrônico www.gg122.org.py, da Loja Maçônica Giuseppe Garibaldi nº 122, existem fotos de personalidades apontadas como maçons ilustres. Entre eles estão o rei Eduardo VII, Neil Armstrong, Victor Hugo, Walt Disney e Baden-Powell.

A certeza da ligação entre o escotismo e a maçonaria, segundo esses estudiosos, vai além da simples afirmação de que B.P. era maçom ou de seu relacionamento com membros dessa fraternidade, como o príncipe Artur (Duque de Connaught), terceiro filho da Rainha Vitória. Eles apontam semelhanças entre as duas instituições.

Entre elas estão: a importância do número três, os símbolos pelos quais se reconhecem e a forma de ascender de um grau para o outro. Mas, acima de tudo, o fato de seus membros reconhecerem no outro participante um “irmão”, independente de sua cor, credo ou nacionalidade. (C.G.)

O Santo Padroeiro

O Dia do Escoteiro é comemorado em 23 de abril, dia dedicado a São Jorge, o padroeiro do escotismo. A escolha por São Jorge foi feita pelo próprio Baden-Powell.

A história conta que Jorge nasceu na Capadócia, região do centro da Anatólia, atualmente pertencente à Turquia. Na adolescência, ingressou na carreira militar e chegou à patente de capitão do exército romano. Aos 23 anos passou a exercer a função de Tribuno Militar na Corte Imperial.

Perante o imperador Diocleciano, conhecido por perseguir os cristãos, defendeu a fé em Jesus Cristo. Foi preso e torturado e sempre que era levado à presença do imperador reafirmava sua fé. Foi degolado, por ordem de Diocleciano, em 23 de abril de 303.

Para os escoteiros, Jorge representa a juventude valente, leal e pronta a sacrificar-se por seus ideais, atacando o erro e defendendo a virtude. (C.G.)



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