Laguna III: O Coronel Carlos de Morais Camisão

Laguna III: O Coronel Carlos de Morais Camisão

Nioaque. O Coronel Carlos de Morais Camisão. O guia José Francisco Lopes.
Retirada da laguna

Fora a vila de Nioac abandonada pelo inimigo a 2 de agosto de 1866. Por toda a parte ali se viam vestígios do incêndio. Poupadas, apenas, duas casas e uma pequena igreja de pitoresca aparência. À primeira vista agrada o aspecto geral do lugar. De um lado, o povoado e um ribeirão chamado Orumbeva; do outro, o rio Nioac, cujas águas confluem cerca de 900 metros, para trás da igreja, deixando livre, em torno desta, à direita e à esquerda, um espaço duas vezes maior. Pequena colina fica-lhe em frente, a pouca distância.

Ali chegamos às 11 horas de 24 de janeiro de 1867 acampando, em ordem de batalha, com a direita encostada à margem direita de Nioac; e a esquerda à mata do Orumbeva. Instalaram-se o quartel-general e o trem à retaguarda, no local da vila, ocupando o hospital as pequenas casas salvas do fogo e um grande galpão que às pressas se construiu.

Serviu a nave da igreja – de onde se retirara tudo quanto ainda havia de símbolos do culto – de depósito ao cartuchame e a todas as munições.

m 14/07/1847, partiu uma expedição comandada por Joaquim Francisco Lopes, com o objetivo de estabelecer uma rota fluvial para ligar Mato Grosso ao Paraná. Após longa viagem, aportaram na região onde se radicara, vindo de Cuiabá em 1840, João Gomes. Estabeleceram então um Porto, o qual deram o nome de São João de Antonina em homenagem ao Barão de Antonina. Mais tarde foi fundada a povoação de Nioaque, em data, até hoje, sucetível de dúvidas: 22/04 ou 22/05/1848
m 14/07/1847, partiu uma expedição comandada por Joaquim Francisco Lopes, com o objetivo de estabelecer uma rota fluvial para ligar Mato Grosso ao Paraná. Após longa viagem, aportaram na região onde se radicara, vindo de Cuiabá em 1840, João Gomes. Estabeleceram então um Porto, o qual deram o nome de São João de Antonina em homenagem ao Barão de Antonina. Mais tarde foi fundada a povoação de Nioaque, em data, até hoje, sucetível de dúvidas: 22/04 ou 22/05/1848

Ergueram-se, de todos os lados, ranchos de palha, gurbis como lhes chamam na Argélia, e, dentro em pouco, oficiais e soldados ali se acharam tão bem instalados quanto as circunstâncias o permitiam. Um bem-estar, desde vários meses ausente, o renovamento da existência um sentimento de plenitude de vida a todos nós exaltava, e em todos se transmutava na ânsia de sobressair, graças a algum brilhante feito d’armas que chamasse a atenção do país para uma expedição desde muito inativa. Reinavam no acampamento a esperança e a alegria.

Perigo havia, contudo, neste entusiasmo; e os que conheciam o chefe, de si para si, indagavam, com secreto desassossego, qual lhe seria a demonstração da iniciativa.

Ia-lhe no peito amarga lembrança que não conseguia remover da mente. Ao abandonar o coronel Oliveira, comandante das armas da província, a praça de Corumbá[1], embora estranho às primeiras deliberações motivadoras desta precipitada retirada, figurara neste triste episódio o coronel Camisão na qualidade de comandante do segundo batalhão de artilharia; e, por tal motivo, vira-se acoimado de solidariedade com este ato de fraqueza. Contra ele servira-se a malevolência destas vozes cruéis, circulando, em tal época, um soneto impresso, acerbo estigmatizador dos defensores de Mato Grosso. Dentre os nomes nele apontados, lera o próprio…

Subsistia a dor da afronta, profundamente magoado como se lhe achava o pundonor militar. Com verdadeira paixão aceitara o comando da expedição. Seria, a seu ver, o modo de se reabilitar perante a opinião pública e, desde tal momento, concebera o projeto não de se manter na defensiva, como o critério o indicava, dada a exigüidade dos recursos de que podia dispor, e sim de levar a guerra ao território inimigo, fossem quais fossem as conseqüências.

Dia a dia. cada vez mais, tal idéia o empolgara. Sob, a influência de legítimo ressentimento, tomou a feição da fixidez, apesar da inata indecisão do caráter. Sinistro fadário o impelia ao infortúnio.

Encontrava-se no arquivo da coluna um ofício do ministro da Guerra recomendando a marcha sobre o Apa logo que as conjunturas a tanto se prestassem.

Ali enxergou, não o que exatamente havia, uma indicação facultativa, mas a ordem de avançar, formal, peremptória. Por mais que se lhe fizessem observações: cego, graças à doentia suscetibilidade, levava a mal o que de menos contestável se lhe objetasse.

Uma frase depreciativa a seu respeito pronunciada, imprudentemente repetida, ainda lhe acirrou a inflexi­bilidade, tornando-o surdo a quanto parecesse desviá-lo do projeto de invasão. Não era que lhe não sopesasse as dificuldades; via, porém, os soldados cheios de entusias­mo e já aguerridos; embalava-se na esperança de, à sua testa, praticar grandes feitos; adestrava-os às manobras, por meio de freqüentes exercícios, levava-os a empenhar combates simulados, em que a artilharia representava ruidoso papel; e desta agitação geral resultava uma animação de que ele próprio compartia.

Canhão usado na guerra do Paraguai
Canhão usado na guerra do Paraguai

Entretanto, algumas vezes também, percebia nitidamente que apenas dispunha de uma vanguarda de exér­cito em campanha; e era obrigado a reconhecê-lo. As hesitações lhe voltavam então, e, chegado o dia por ele pró­prio fixado para a arrancada das forças, achava sempre motivo para o adiamento, embora precisasse invocar as razões na véspera repelidas. Ora oficiava ao ministro que nada podia empreender sem cavalaria, e ora pre­tendia poder dispensá-la; dolorosos embates entre a au­toridade da razão clara e as inspirações do orgulho ma­goado.

Era-lhe a atitude, aliás, sempre digna e firme; em todas as questões administrativas trazia, sobretudo, o cunho de nobre integridade. Não admitia uma diminui­ção ao prestígio de chefe e sabia mantê-lo tanto mais quanto lhe assistia real singeleza e amenidade.

Homem de quarenta e sete anos de idade, baixo e aparentemente robusto, feições regulares, tez moreno-escura, olhos negros e vivos, tinha larga testa e belo crânio, completamente calvo, que dos paraguaios lhe valeu in­juriosa alcunha. Sempre sério e preocupado, era visto solitário, ou a conferenciar com o velho sertanista que nos servia de guia, José Francisco Lopes.

Merece este ser apresentado ao leitor antes que o veja agir. Dentre nós, os que tinham presentes os romances de Fenimore Cooper, não podiam, à vista do sertanejo brasileiro, o homem das solidões, deixar de evocar a grande e singela figura de Olho de Falcão no Último dos Moicanos.

Tivera, desde a infância, o pendor pelas entradas nos sertões brutos. Contava-se também que um ato violento, da primeira mocidade, lhe impusera, durante algum tempo, este modo de vida. Viera depois a idade desen­volver-lhe todas as aptidões. Prodigiosamente sóbrio, via­java dias inteiros sem beber, trazendo à garupa da caval­gadura pequeno saco de farinha de mandioca, amarrado ao pelego macio, que lhe forrava o selim. Jamais deixa­va o machado destinado a cortar palmitos. Nascido na Vila de Piumi, em Minas Gerais, dali, ao léu das aven­turas, havia atingido todos os pontos da área que se es­tende das margens do Paraná às do Paraguai. A fundo conhecia as planícies que entestam com o Apa, divisa do Brasil e do Paraguai. Numerosas localidades até en­tão virgens do pé humano, até mesmo selvagem, per­correra e a várias batizara (Pedra de Cal, entre outras). Tomara, em nome do Brasil, posse, ele só, de imensa flo­resta, no meio da qual chantara uma cruz, grosseira­mente falquejada, onde esculpira a inscrição P II (Pedro Segundo), imponente madeiro, perdido no recesso dos desertos. Criava a iniciativa do sertanista domínios ao soberano.

Numa viagem para estudar a navegação do rio Dou­rado, afluente do Paraná, gravemente ferira a planta do pé, acidente de que jamais pudera curar-se. Um dia. como lhe víssemos a chaga, semicicatrizada, sempre a sangrar, disse-nos: “Prometeu-me o governo dar-me, a título de recompensa, trezentos mil-réis, mas nunca os pagou. Perdoei-lhe a divida; o que se me devia era uma condecoração; já a tenho e nada mais quero.”

Durante sete anos, com a família, residira no Para­guai; mas no momento da invasão já estava de volta ao solo brasileiro, habitando, à margem do rio Miranda, uma propriedade sua, que batizara Jardim, fertilizada por seu trabalho e o dos filhos já crescidos. Ele e a mu­lher, dª. Senhorinha, generosamente hospedavam quantos ali fossem ter.

Quando, em 1865, irromperam os paraguaios em ter­ritório brasileiro, conseguira escapar-lhes, mas único da família, que caíra toda em poder do inimigo e fora trans­portada para a aldeia paraguaia de Horcheta, a sete lé­guas da cidade de Concepción. Com ela ali vivia o coração do velho guia.

Herói do Exército brasileiro, José Francisco Lopes, o Guia Lopes, nasceu em São Roque de Minas em 26 de fevereiro de 1811, quando a cidade ainda era um distrito de Piumhi. Tudo indica que o local do nascimento foi a atual fazenda Tamancas, a 6 km do centro de São Roque de Minas, onde funciona hoje um pesque-pague e um restaurante (veja texto abaixo). Na juventude, Lopes mudou-se com a família para Mato Grosso do Sul, próximo à divisa com o Paraguai. Na Fazenda Jardim,  dedicou-se à criação de gado e tornou-se profundo conhecedor da região que seria cenário de um dos mais trágicos episódios da Guerra do Paraguai: a Retirada da Laguna, na qual morreram quase mil soldados brasileiros
Herói do Exército brasileiro, José Francisco Lopes, o Guia Lopes, nasceu em São Roque de Minas em 26 de fevereiro de 1811, quando a cidade ainda era um distrito de Piumhi. Tudo indica que o local do nascimento foi a atual fazenda Tamancas, a 6 km do centro de São Roque de Minas, onde funciona hoje um pesque-pague e um restaurante (veja texto abaixo). Na juventude, Lopes mudou-se com a família para Mato Grosso do Sul, próximo à divisa com o Paraguai. Na Fazenda Jardim, dedicou-se à criação de gado e tornou-se profundo conhecedor da região que seria cenário de um dos mais trágicos episódios da Guerra do Paraguai: a Retirada da Laguna, na qual morreram quase mil soldados brasileiros

Por todas estas razões, nele encontrou o coronel Camisão apaixonado adepto. Desde que, dando-lhe a co­nhecer os seus projetos, acenou a José Francisco Lopes com o ensejo de, como guia da expedição, ir ter com a família e vingar-lhe os agravos, empolgou o espirito do sertanista brasileiro, que, apesar de todo o ardor, jamais perdeu, contudo, a perfeita intuição das conveniências. Assim, nunca esquecendo a modéstia da posição, freqüen­temente dizia: “Nada sei, sou sertanejo; os senhores que estudaram nos livros é que sabem.”

Era-lhe o orgulho num único ponto irredutível, no que tocava ao conhecimento do terreno, legitima am­bição, além do mais, pois dela nos proveio a salvação. “Desafio, exclamava, todos os engenheiros com as suas agulhas (bússolas) e plantas. Nos campos da Pedra de Cal e Margarida sou rei. Só eu e os índios Cadiuéus co­nhecemos tudo isto.”

Resolveu-se a partida de Nioac, embora já com gran­des dificuldades tivéssemos que lutar, sobretudo quanto ao abastecimento de gado.

Comunicou-se a ordem às tropas sem que se soubesse bem para onde se ia marchar. Pensava a maioria que se tra­tava somente de alguma incursão a fazer em território inimigo. Levava a coluna apenas o material indispensá­vel para um mês de ausência. Ficavam no acampamento as mulheres dos soldados, exceto duas ou três.

*Fora em fins de dezembro de 1864 Corumbá tomada e devastada pelos paraguaios.

Era a principal praça comerciante de Mato Grosso: e o inimigo ali realizou mui considerável presa. Haviam-se os habitantes refugiado nas matas vizinhas, mas Barrios os perseguiu.

Saqueadas as casas, vários objetos roubados, e dos mais valiosos, remeteram-se a Lopes que não hesitou em os guardar, sobressaindo-se Barrios entre todos os que assim procederam. A um brasileiro rico, e sua filha, levaram a bordo do seu navio: e quando o pai recusou deixar a menina a sós com o chefe paraguaio, arrastaram-no à força, ficando a infeliz criança no navio. Pôs Barrios em tratos todos os que lhe caíram às mãos, quando queriam ou não podiam dar-lhe as informações pedidas, ordenando que os espancassem: foram vários lanceados como espiões. The War in Paraguay por G. Thompson, vol. in 12, 1869.

Jovem engenheiro ao serviço de Lopez, entrara o sr. Thompson em campanha, crente que ia defender o fraco contra a opressão. À experiência dos fatos testemunhados dissipou-se, porém, a generosa ilusão.



Total de leitores: 776. Leitura diária: 1. Total de visitas: 2.964.700
mm

About Ivair Ximenes Lopes. Ivair Ximenes

Deixe seus Comentários

Seu comentário é muito importante. Com ele tomamos iniciativas úteis.