O Convento de Cristo e Seus Mistérios

O Convento de Cristo e Seus Mistérios

Os conhecimentos geométricos dos Templários, baseados nas progressões aritméticas e nas relações entre os números com correspondência universais, tinham necessariamente de conduzir os investigadores da Ordem a transpor as portas alquímicas da transmutação. Os Cavaleiros de Cristo acenderam novamente o facho e a disposição das construções manuelinas devia corresponder a esta necessidade.

No Convento de Cristo, não faltam indicações alquímicas e a construção constituí um caminho iniciático que nos é oferecido neste lugar. Para encontrarmos a porta, teremos evidentemente de partir do antigo castelo templário. Na sua linguagem secreta, o princípio alquímico utiliza o ovo como ponto de partida. O ovo alquímico encerra ao mesmo tempo o princípio, o germe e o todo, capaz de desencadear o processo de transmutação por meio da repartição dos eletrões; de acordo com o princípio elíptico do movimento giratório dos átomos. O que é verdade no mundo intersideral para os planetas também se aplica à estrutura da matéria. O ovo será portanto o símbolo exotérico deste princípio esotérico. Mas o processo alquímico da transmutação só pode ser desencadeado de acordo com as correspondências terrestres e celestes. Não se pode ser iniciado em qualquer altura nem em qualquer lugar. Somente em determinados lugares privilegiados lhe convém, situados sobre filões telúricos excepcionais. O mesmo acontece com todos os fenômenos de uma determinada alquímica “cósmica”.

Foi assim que os maiores “milagres” da Idade Média só se deram em santuários situados sobre filões benéficos e, sempre, a Virgem Maria se manteve associada a estes favores celestes sobrenaturais. Em Portugal, é sobre o filão telúrico de Fátima, que as aparições foram acompanhadas em 1917 de fenômenos solares. A Virgem Maria, continua a ser uma imagem sagrada da ligação fluídica que liga o Céu com a Terra. Foi em 1917 — o dezessete que já conhecemos tão bem – que a Virgem se associou ao Sol, neste lugar modesto e tão mal conhecido como era na época.

Se examinarmos o aspecto geral da fachada do castelo de Tomar, podemos ver não somente que as torres estão regularmente dispostas — de acordo com uma divisão por seis do quadrado do mesmo perímetro que o círculo — mas ainda que todo se inscreve no quadrado com a mesma superfície. Voltamos a encontrar os ângulos habituais e a altura da torre corresponde à posição do Sol ao meio-dia dos equinócios na latitude de Tomar. O caminho em direção ao pátio interior, que separa o antigo castelo do Convento de Cristo, termina na torre quadrangular (foto acima).

É muito provável que debaixo do solo deste pátio existam uma ou várias salas subterrâneas a que seria possível chegar passando pelo poço. É deste ponto, com efeito, que podemos ver, em direção a oeste, o primeiro sinal do ovo. Os Templários juntaram muitas vezes ao ovo outro elemento arquitetônico que era utilizado na observação das estrelas em determinadas datas. É o chamado “olho-de-boi”, pequena janela circular, cujo contorno permitia obter indicações graduadas. A tradição conservou-o, ou seja, a correspondência entre o Boi e o Boeiro.

Graças ao olho-de-boi, podemos estabelecer vários princípios arquitetônicos relativos ao convento propriamente dito, antes de encontrarmos a cabeça de três faces, o Hermes Trimegisto, que domina o centro da abóbada de uma pequena sala situada perto do refeitório. A cabeça aponta numa direção segundo a qual, e através de uma janela, podemos efetivamente ver outro ovo. Este conduz-nos, para além da janela manuelina, até ao claustro da Micha e de seguida até ao claustro dos Corvos. A palavra “corvo” sempre foi querida dos alquimistas por encerrar em si duas interpretações secretas da preparação da Grande Obra. A sua realização só pode ocorrer num local escolhido e eleito. Este local fica debaixo do claustro da Micha, que se situa — segundo o eixo manuelino deslocado — num ângulo de treze graus em direção a oeste.

O claustro dos Corvos faz o mesmo ângulo, perfazendo assim um total de vinte e seis graus, enquanto em onomancia[9], a análise da palavra “corvo” confirma o número vinte e seis.

No centro do claustro da Micha encontra-se um poço e deste poço partem duas escadas que se enterram no solo. Aqui existiriam as salas de investigação orgânica e de transmutação.

A transmutação só é possível com a intervenção do cloro, cujo número atômico é dezassete (em simbolismo, o 17 é o Número da Estrela. Não nos surpreenderemos portanto, ao verificar que o poço da Micha forma com a janela manuelina um ângulo de dezassete graus. Aliás é esta a direção seguida pelo olhar do velho capitão que herculamente sustém o conjunto decorativo da janela.

Veio depois o tempo em que os corvos se calaram e em que os sarcófagos do claustro dos Sepulcros guardaram e seu enigma. Os corvos mantém relações com os mortos e os sarcófagos ficam expostos ao sol da vida que continua a iluminar durante a Primavera o horizonte de Tomar…

Texto de Carlos Leite Ribeiro

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(*) fotos cedidas pelo autor

[1] Concelho (com c) é uma circunscrição administrativa inferior ao distrito, adotada em Portugal; é o município.
[2] Muito fértil, abundante.
[3] Chama-se o topônimo o nome ou expressão usado para nomear um lugar, ou seja, um acidente geográfico (seja ele físico – rios, serras, igarapés, etc – seja ele humano – cidades, bairros, ruas, praças, etc – Deste modo, o topônimo (ou signo toponímico) também é um nome próprio.
[4] Ameado – murado. A ameia é um detalhe importante na construção de muros para defesa..

[5] A Charola era o oratório dos Templários no princípio do séc. XII. Esta apresenta uma estrutura compacta cilíndrica com grandes traços de influência oriental, trazida pelos cavaleiros da Ordem do Templo das passagens que tiveram por terras orientais (Cruzadas). Em 1356, Tomar passou a ser a sede da Ordem de Cristo (Herdeira doa templários, ordem extinta) em Portugal. A decoração da Charola reflete a riqueza da Ordem.Musica “Jesu Dulcis” executada por Schola Gregoriana MEDIOLANENSIS de Milão, Itália, dir. John Vianini

[6]Paracleto – S.m. Teologia Nome dado ao Espírito Santo, nos Evangelhos. Fig. Intercessor; mentor; auxiliador; defensor; consolador.
[7]Coruchéu é um substantivo masculino que provém do francês ¨clocher¨(campanário).
-Remate piramidal de um edifício.
-Torre que coroa um edifício.

[8]- cubelo (de cubo ou cuba), em arquitetura militar, designa um torreão de planta circular ou semi-circular, com a função de reforço de uma muralha numa cerca ou num castelo medieval. As torres de planta circular, como também poligonal, permitiam a diversificação dos ângulos de disparo para os defensores. Além disso, as superfícies curvas eram mais propensas a desviar os projéteis disparados pelos inimigos, que tendem a resvalar na superfície dos cubelos. Nos torreões de planta quadrada ou retangular, os cunhais (cantos) eram pontos frágeis. Outra vantagem dos cubelos era que necessitavam menos pedra para sua construção, ou seja, eram mais econômicos.

[9]- Onomancia – [Subst. Fem.]- Onomancia ou onomatomancia, é a adivinhação baseada no nome de uma pessoa, no número de letras desse nome, etc. Onomancia provém do grego ¨onoma + atos + manteia ¨.



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