Laguna XVI: Recrudesce a cólera. Passagem de um pântano. O Ten Santos Sousa

Laguna XVI: Recrudesce a cólera. Passagem de um pântano. O Ten Santos Sousa

Lampejo de esperança que se desvanece logo. A cólera. Reaparece o inimigo. O incêndio sempre. Recrudesce a cólera. Um recurso: os palmitos. Terrível passagem de um pântano. O tenente Santos Sousa. Acampamento. Conseguimos acender fogo.

Lopes que, desde algum tempo, víramos perturbado a ponto de duvidar de si, acabara, enfim, descobrindo onde estava, e orientando-se. À vista de uma eminência, a distância, dissipara-se-lhe subitamente o mistério; apontando-a, deu-nos a certeza de que dois dias mais tarde chegaríamos à sua fazenda. “De lá se avista, afir­mou, aquele pico que os senhores vêem.” Aos mais fracos e desanimados, reanimou esta notícia. Chegados a 21 à estância do Jardim, poderíamos, pelo dia 25, entrar em Nioac antes dos paraguaios e preservar a vila de novo saque, graças a esta marcha executada em onze dias, e não em quinze.

Assim tínhamos muito próximo de nós o termo de tantas misérias, quando outra novidade, mais terrível que tudo, veio agravar a situação, além de qualquer previsão por mais sinistra que fosse: circulou de repente pelo acampamento a notícia que nele havia cólera.

Já desde algum tempo tinham os doutores Quintana e Gesteira levado o fato ao conhecimento do coronel. Pouco depois morrera, com um dia de moléstia apenas, um índio terena recebido na enfermaria de Bela Vista.

Supusera-se, a princípio, que seria mero caso espo­rádico; e sobre o fato se guardara segredo, nada se po­dendo fazer, tudo nos faltando para dominar o morbo. Em todas as paradas, enormes fogueiras se acenderam supondo os soldados que se empregava um processo sa­neador da atmosfera do pantanal. No silêncio consistia, realmente, o melhor preservativo contra a propagaçã da peste. Mas a 18 rasgou-se o véu do mistério: caíram três homens atacados pela epidemia e com os mais gra­ves sintomas, e, desde então, os nossos dois médicos que haviam assistido à primeira irrupção da cólera no rio de Janeiro, julgaram imperioso dever não mais dissimu­lar a verdade. Fora-nos necessário, contudo, prosseguir na marcha, subitamente salteados de mal-estar e des­maios caíram alguns soldados; o que provocou a per­turbação e a confusão gerais em nossas fileiras. Não se caminhava mais. Os três homens já atingidos pelo fla­gelo sucumbiram. Dentro em pouco estavam a carreta que nos restava e um carroção de munições, que se lhe adicionara, repletos de enfermos, cujos gemidos por toda a parte apressavam o surto da epidemia.

Teve este dia cruel uma tarde e uma noite como era de prever. A 20, pela manhã, o tempo, a princípio chu­voso, melhorou; e logo tornou-se o sol ardente. Ainda caminharam menos os animais e os homens mal se arrastavam, tendo a morte sob os olhos e no coração.

Haviam os paraguaios reconstruído a ponte e passa­do. Já à nossa frente estavam, apenas dissipara o calor do dia o orvalho e secara a macega.

Puseram-lhe fogo, e com tal êxito que não fora um mato de pindaíbas, felizmente provido d’água, teria a coluna sido colhida pelo incêndio, Mal teve Lopes o tem­po de nos alojar neste abrigo; deu-nos o coronel ordem de acampar. Atacados, até aí, defendemo-nos como quem defende o refúgio derradeiro. Afinal obrigou o tiro de nossos canhões o inimigo a retirar-se.

Tudo em volta de nós era fumo, trevas e vapores ar­dentes. Caiu um de nossos soldados asfixiado. Outro, cego, no meio de um redemoinho, metera-se entre os paraguaios, conseguindo, contudo, graças à escuridão, safar-se e voltar sem ser reconhecido.

Neste dia fez a cólera nove vítimas. Assinalaram-se vinte casos novos: o chefe dos Terenas, Francisco das Chagas, chegou moribundo numa rede que sua gente carregava. Estavam estes desgraçados índios no auge do terror, mas não podiam mais abandonar a coluna, ocupado como se achava todo o campo por um inimigo que, quando os apanhava, jamais deixava de os fazer perecer nos mais horríveis suplícios.

A que causa devíamos atribuir esta irrupção da có­lera ou, melhor, a que causa não a atribuirmos? Seria talvez a carne estragada que éramos obrigados a comer, ou a fome curtida quando as náuseas venciam o ape­tite, ou ainda o insuportável ardor dos incêndios que nos escaldavam o sangue, quiçá a infecção oriunda de todas as substâncias vegetais que devorávamos, brotos, frutos verdes e podres, ou também, enfim, a insalubridade do ar viciado pela água estagnada dos charcos e lodaçais que naquela região tanto abundam.

Supunham alguns fosse o próprio inimigo o veiculador do morbo. É muito possível que aos paraguaios hou­vesse acontecido – embora jamais suportassem as mes­mas privações que nós – porque, de seu exército do Sul, dizimado pelo flagelo, tinham recebido reforços. Uma circunstância ocorria fazendo-nos crer que também rei­nasse o mal em suas fileiras: a frouxidão, para o fim, dos ataques, embora sempre freqüentes.

No entanto, o número do Semanario de Assunção, anexo a esta narrativa, nenhuma menção faz da epide­mia na coluna paraguaia.

Para a noite caiu abundante chuva, agravadora de todos os nossos padecimentos. Amontoados perto da pequena barraca dos médicos, sem abrigo e ao ar livre, receberam os coléricos, nos corpos gélidos, as bátegas que desabavam, de espaço em espaço. Era horrível ver estes míseros, presos de agitação extrema, dilacerando os an­drajos com que procurávamos cobri-los, rolando uns so­bre os outros, a se torcerem com câimbras, vociferando soltando brados, que se fundiam numa só voz articulada: Água!

Tinham os médicos esgotado os recursos; a princípio zelosos e ativos, desanimavam os enfermeiros ante o nú­mero crescente dos enfermos e apesar da ordem que proi­bira o uso da água, como fatal, davam-na alguma para satisfazer, um instante ao menos, aos moribundos. A isto se limitavam os seus cuidados.

Apesar de tudo, recomeçamos a caminhar no dia 21. A carreta e o carroção, com o dobro da lotação, de todos os lados deixavam pender braços, pernas, cabeças onde já se imprimiam os sinais da morte. Aos manchegos, aos armões das peças igualmente atulhavam desventu­rados recentemente atacados e já agonizantes.

Mas logo que a macega perdeu a umidade empre­gou-se novamente contra nós o odioso expediente de guerra dos paraguaios. Cerca de um quarto de légua de nossa última parada pareceu o incêndio, tangido por esperta aragem, na iminência de nos envolver, exata­mente no mesmo lugar onde nos detivéramos e onde, de todo, se baldaria o zelo de Lopes, se acaso uma mudança do vento não houvesse desviado aquele furação de chamas. Recomeçamos o lúgubre desfilar; mas ainda não vencêramos meia légua, quando os bois da artilharia afrouxaram, por não terem bebido, desde o acampamen­to do dia 19.

Estávamos felizmente num terreno cuja macega es­capara ao fogo da manhã, graças, provavelmente, à cor­rente de ar que nos salvara.

Era uma chapada extensa que, inesperadamente, se levantava de uma depressão onde corre um riacho. Ou­tra chapada, um pouco mais alta, e voltada para o sul, ligava-se a um campo imenso, o mesmo que Lopes, numa primeira incursão, batizara Campo das Cruzes; e no fun­do do qual se erguia a nossa baliza – o morro da Mar­garida. Tem o perfil deste pico algo de notável em sua regularidade elegante. Já da Bela Vista o avistáramos; agora o saudamos como a velho amigo.

Se tal foi a nossa impressão, teve Lopes outra muito mais viva, ainda. Via-se, após tantas dúvidas cruéis, jus­tificado no seu foro íntimo. Restituíra-lhe a alegria toda a vivacidade da primeira mocidade. Arrebentara naquele momento novo incêndio no campo; vimo-lo correr, de archote em punho, para o combater, com armas iguais, dizia. E conseguiu-o, varando por entre os cavaleiros paraguaios, espalhados pelo campo e que quase o apanharam.

Estava, novamente, na plena posse de si, liberto da responsabilidade que o acabrunhava e quando lhe obser­vávamos quanto precisava poupar-se, respondia que nin­guém podia ir de encontro à vontade de Deus, devendo cada qual entregar-se às mãos do Senhor. Dizia-lhe Ele que estávamos chegando ao termo de nossas provações. “Saibamos morrer, acrescentava; dirão o sobreviventes o que fizemos.”

A 22 apenas andamos três quartos de légua, pois de­pendíamos inteiramente das juntas que puxavam os ca­nhões e ainda na véspera quase não tivera o gado o que beber. Mal dera o minguado filete, junto ao qual acam­páramos, água bastante para os homens.

Tivemos de parar, forçadamente, junto a um brejo, cuja vestimenta era bastante capaz de dar algum alento aos nossos animais. Aí ficamos encostados a um mato que, felizmente, ia até um riacho chamado Prata, o primeiro afluente meridional do Miranda, como Lopes no-lo disse. Já, portanto, nos abeirávamos desse caudal, objeto de tantos anseios.

Uma vez neste lugar, entendeu o coronel que nada obstava informar a gente de Nioac de nossa proximidade e da do inimigo. Estava o caminho livre, pela mata do Prata, que se perde na do Miranda; não correndo risco algum quem a atravessasse. Para esta comissão escolheu dois homens corajosos, afeitos à vida do mato, caça­dores sabidos daquelas terras.

Fora o bilhete, que se lhes deu, endereçado ao coronel honorário que comandava o depósito redigido em fran­cês para, pelo menos, escapar às probabilidades mais fortes de divulgação. Noticiava em suma que a coluna batera em retirada; e, provavelmente, atingiria Nioac antes do inimigo, convindo, no entanto, transportar para lugar seguro e o mais depressa possível, as munições, os víveres, o arquivo, e alguma bagagem dos oficiais. Era, sobretudo, necessário que toda a tropa disponível marchasse às ordens do capitão Martinho a emboscar-se para deter os paraguaios, caso aparecessem.

A 24 chegavam os mensageiros à colônia de Miranda ali encontraram os negociantes que com a lentidão habitual haviam retrocedido, tendo achado, ainda, avolu­mados pelas chuvas, os grandes rios, que evitáramos graças à estrada pela fazenda do Jardim. Deixando este comboio à retaguarda, a 27 atingiram Nioac os nossos correios, com a missiva do comandante, divulgando o que em nosso acampamento haviam presenciado, assim como todos os boatos sinistros de que se fizeram ecos mercadores em caminho.

A 25 progredimos cerca de légua e meia, considerável esforço, pois os nossos soldados válidos quase todos se empregavam em carregar as padiolas dos enfermos e destes padioleiros, vários, subitamente atacados, em vez de ajudarem aumentavam a carga.

As contínuas convulsões dos agonizantes ainda e de tal modo agravavam esta faina horrivelmente penosa que os soldados, estafados, punham-se de repente, como à porfia com os coléricos, a soltar selvagens gritos impa­cientes, ameaçando arriar e abandonar o fardo.

Só algumas redes, ocupadas por oficiais, conservavam certo decoro lúgubre: jamais esqueceremos o belo rosto resignado do tenente Guerra, moço exemplar, filho úni­co de uma viúva que nunca o tornaria a ver… Neste dia, ao incêndio precedeu um ataque de atiradores . Repeliram-no alguns dos nossos e o fogo também passou; mas o outro inimigo, a cólera, o adversário oculto, redo­brou os golpes com que nos feria, a ninguém perdoando. Desapareceu no mesmo dia uma família inteira; pai, mãe e filho em horas fulminados juntos. De inanição pereceu uma criança de peito que, dos braços da mãe moribun­da, passara aos do pai e deste aos de camaradas, que também não tinham alimento algum.

Soubemos que dois soldados haviam enlouquecido. Assim se explicavam os gritos, cujas notas estridentes se haviam associado aos ruídos que habitualmente nos afli­giam; lamentos, furores e desespero. Outro mal come­çou: a deserção; desapareceram vinte e quatro soldados da linha de defesa do acampamento.

E no entanto impossível lhes era escapar à morte pela fome ou às mãos do inimigo. A datar deste dia não hou­ve, no mato, moita onde se não escondesse algum fugi­tivo. Abandonaram-nos os nossos índios guaicurus, não conseguindo mais detê-los o receio do fado que os aguar­dava, se os paraguaios os apanhassem.

Tais os incidentes que entre nós ocorriam. Embora dizimados, serenamente mantinham os oficiais o espí­rito geral da corporação; uns procuravam os outros reuniam-se, trocavam palavras amigas e de bom con­selho. Esta serenidade d’alma só era natural entre ho­mens de têmpera especial como José Tomás Gonçalves, Pisaflores e Marques da Cruz; ou excepcionalmente for­tes como Lago, Catão e José Rufino. A mesma atitude impassível tornava-se em outros igualmente notada, em­bora menos energicamente constituídos. Tomava, no tenente-coronel Juvêncio, laivos de melancolia ao lembrar­-se da família. Quanto ao comandante este se reconcentrava em sua dignidade e no sentimento do dever. Aproximava-se a hora em que, a tal respeito, nos daria as mais extraordinárias provas.

Na manhã de 24 uma chuva torrencial, e contínua, não tardou em transformar em atoleiro o solo argiloso sobre o qual acampáramos. O vento áspero e impetuoso lançava-nos verdadeiras enxurradas. Assim mesmo par­tiu Pisaflores, o bravo rio-grandense, à testa de cem ho­mens, a um quarto de légua, à margem do Prata, abrir uma picada num lugar indicado por Lopes. Este serviço, rapidamente executado, deu aos trabalhadores o ensejo de descobrir na mata palmitos em profusão, inesperado recurso que levou o comandante a mandar que estacássemos, porque também ali estava o solo mais seco. Não pôde, entretanto, a marcha recomeçar antes das cinco da tarde, e o que foi este deslocamento de posição só uma palavra traduz: desolação.

Observando-nos de mui­to perto assaltaram-nos os paraguaios, com vaias e tiros, a que tratávamos de responder do melhor modo. Mas o que mais penoso foi, ao atravessarmos grande charco, o banho gelado em que até a cinta afundamos. Rompeu­-se a formatura; nem sequer nos víamos mais. À espessa escuridão que sobreviera seguiu-se a noite, sem intervalo, uma destas noites propícias aos desastres e aos crimes: a mais de um doente afogaram os seus carregadores.

Às oito horas passara o grosso da coluna acampando então, às dez veio a retaguarda ocupar o seu posto. Até tarde, pela noite adentro, chegaram retardatários, con­dutores de carretas extraviadas e até coléricos que ha­viam podido pôr-se de pé, depois de atirados das padio­las ao chão.

Deu-se, entretanto, uma cena que à memória con­sola evocar. Entre as padiolas, onde prostrados se acha­vam soldados, uma houvera que a queda de um dos pa­dioleiros ia submergir no pântano, prestando-se os de­mais três, talvez, a este caso que os libertava do fardo, quando um quarto apoio, o ombro de um oficial, se apre­sentou para salvar o infeliz que ia perecer. O tenente Clímaco dos Santos Sousa, autor deste ato de altruísmo, teve, em prêmio, os louvores de nós todos.

Fôramos ficar em terreno menos lodoso; mas muito tempo decorreu antes que pudéssemos acender a lenha encharcada.

Era felizmente resinosa. Oh! Com que alegria sau­damos as primeiras chamas! Qualquer lugar junto des­tas fogueiras era cobiçado; quase todos conseguiram, contudo, aboletar-se, sãos e enfermos misturados. Mor­reram até dois coléricos ali. Foram os cadáveres remo­vidos, eram heranças a receber, lugares de calor. Apa­receram logo os palmitos que os mais ágeis dos nossos tinham corrido pedir aos trabalhadores do capitão Pisa­flores, apenas se sentiram um pouco alentados pelo fogo. Foi o alimento prontamente cozido sobre brasas na cinza e cada qual teve o seu quinhão, uns mais, outros menos.

Nunca se desmentiram os hábitos hospitaleiros da mesa brasileira, nem ali nem em parte alguma; e até mesmo nas mais terríveis conjunturas.



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