Isabel, a princesa do Brasil

Isabel, a princesa do Brasil

Carola e desapegada da política, a filha de Pedro II entrou para a história ao assinar a lei que acabou com a escravidão no Brasil, há exatos 120 anos

Felipe Van Deursen |

Isabel Cristina comemorou seu aniversário de 39 anos, em 1885, com uma solenidade no Paço Municipal da capital, o Rio de Janeiro. Sentada, tendo a seu lado o marido, foi a estrela da cerimônia em que diversos escravos foram alforriados.

Conforme os nomes dos beneficiados eram anunciados pelo vice-presidente da Câmara, João Florentino Meira de Vasconcellos, eles seguiam para receber seus certificados de libertação das mãos de Isabel. Cada ex-escravo curvava-se e, em sinal de respeito e gratidão, dava um beijo na mão da aniversariante. A relação de afeto entre a mulher e os negros começava a ser demonstrada publicamente.

Ao longo dos anos, a imagem da princesa brasileira, que por três ocasiões ocupou o lugar do pai, mudou bastante – conforme o ponto de vista do observador. Para os republicanos, ela ocupou um papel insignificante. Para os monarquistas, foi elevada a um posto acima do bem e do mal. Por ter assinado a Lei Áurea em 13 de maio de 1888, Isabel tornou-se uma das personagens mais conhecidas da história do Brasil. Mostramos aqui, afinal, quem foi essa mulher.

Princesa menina

O paço São Cristóvão, na capital do império, acordou com o som provocado pelas contrações de dona Teresa Cristina em 29 de julho de 1846. Nascia Isabel Cristina Leopoldina Augusta Miguela Gabriela Rafaela Gonzaga de Bragança e Bourbon, primeira filha mulher da imperatriz e de dom Pedro II, que já tinham um menino. No ano seguinte, Isabel tornou-se herdeira do trono com a morte de seu irmão Afonso, com apenas 2 anos. Teresa Cristina estava novamente grávida e logo deu à luz Leopoldina, a grande amiga de Isabel na juventude.

As duas princesas passaram esses anos entre o Rio e Petrópolis, na residência de verão. Conhecido por ser um entusiasta das artes e ciências, Pedro II mantinha as filhas ocupadas quase o dia todo, deixando-as com pouco tempo para as bonecas de que tanto gostavam. Elas tinham aula de latim, francês, inglês, alemão, história, literatura, astronomia, física e filosofia, entre outros assuntos. Algumas dessas matérias – às quais Isabel não era tão apegada como o pai – eram lecionadas pela condessa de Barral, aia das meninas. “Isabel passou a ter mais satisfação no relacionamento com a aia que na ligação com a mãe”, escreveu o historiador inglês Roderick J. Barman em Princesa Isabel do Brasil. As duas foram amigas por toda a vida.

Isabel não ficou livre das turbulências da adolescência, restrita à vida social do palácio. A menina passou a usar palavras insolentes com mais freqüência, e desobedecia os professores. Além de malcriada, era uma jovem desastrada. Aos 16 anos, enquanto cavava um canteiro, ela atingiu com a pá Amandinha de Paranaguá, filha do político marquês de Paranaguá. A pobre, mesmo tendo perdido a visão do olho direito, permaneceu como uma das poucas e fiéis amigas de Isabel.

Em 1863, Pedro II começou a buscar noivos para as filhas, privilegiando outras casas reais (de preferência, as poderosas). Ele queria que Isabel se casasse com dom Luiz, filho de sua irmã Maria II, rainha de Portugal. A imprensa descobriu e a história pegou mal. Para a opinião pública, se a futura rainha brasileira fosse esposa de um príncipe português, o Brasil voltaria à condição de colônia na prática, já que o governante de fato seria o marido. Dom Pedro II desistiu do enlace e só conseguiu fechar um acordo quando chegou à sexta opção de sua lista: Augusto de Saxe seria o marido de Isabel, e Gastão de Orleans, o conde D’Eu, de Leopoldina.

Gato escaldado, Pedro II lembrou-se de quando foi obrigado a se casar com Maria Teresa. Por isso, tentou levar em conta os gostos das princesas e pediu retratos dos pretendentes com antecedência. Ao ver Gastão, o francês “encomendado” para sua irmã, Isabel caiu de amores. A princípio, não foi retribuída. “Ela nada tem de bonito; (…) lhe faltam completamente as sobrancelhas”, escreveu ele em carta à irmã. “Mas o conjunto de sua pessoa é gracioso.” Em 1864, aos 18 anos, Isabel casou-se com Gastão. Para celebrar, ela pediu ao pai que dez escravos do palácio, sendo oito criados pessoais dela, fossem libertados. Isabel, assim como Pedro II, desejava o fim da escravidão. Mas só se envolveria com o assunto anos depois.

Como as outras

Isabel era uma típica mulher do século 19 que, além das funções que devia cumprir – ser filha exemplar, esposa fiel, mãe dedicada –, acumulou o fato de ser princesa e, por três ocasiões, regente. Mas, segundo Roderick Barman, havia diferenças entre ela e as outras moças de alta classe da época. “Ela teve uma educação masculina a que pouquíssimas tiveram acesso”, explica. “E a vida social no palácio não era agitada. Ela não tinha esse talento.”

Com boas doses de afeto, a princesa conquistou o amado D’Eu, proporcionando uma confortável vida doméstica. Preparava compotas de pêssego e bolinhos para o marido e se dedicava a cultivar orquídeas. As flores eram uma paixão à parte. Em 1875, ela e o marido ajudaram a organizar a primeira exposição de horticultura do Brasil, realizada dentro de um prédio construído na França para a ocasião e trazido para o Brasil: o Palácio de Cristal, hoje ponto turístico de Petrópolis. Isabel também tinha gosto pela música.

A princesa foi muito pressionada a gerar herdeiros, de preferência homens. Dos quatro filhos de Pedro II, só as meninas chegaram à idade adulta, o que tornava ainda mais urgente que a sucessora tivesse um varão para manter a linhagem real. Em 1872, Isabel sofreu um aborto e, em 1874, voltou às pressas da Europa para cumprir o artigo 2 de seu contrato nupcial: o primeiro filho deveria nascer no Brasil. Tudo correu bem nas três semanas de travessia da França ao Rio. No entanto, em julho, em terra firme, o bebê morreu em um complicado parto de 50 horas. Outro choque para a família, que três anos antes havia perdido Leopoldina, morta pelo tifo, aos 23 anos. Finalmente, em 1875, nasceu Pedro de Alcântara, saudável, mas com uma deficiência: nem o braço nem a mão esquerdos moviam-se. Em 1876, outro aborto, e em 1878 nasceu Luís. Seu terceiro filho, Antônio, veio em 1881.

Uma das imagens mais recorrentes da herdeira do trono perante seus súditos era a de carola. De fato, Isabel era católica fervorosa. Bem mais que o pai, com quem sempre teve uma relação de profunda deferência, amizade e submissão.

No lugar do pai

Nas três ocasiões em que atuou como regente, procurou fazer somente o que tinha certeza de que Pedro II faria. O imperador nunca deu a ela espaço na política, por diversas razões. Segundo Barman, ele era muito centralizador e ela, por sua vez, parecia preferir a vida familiar. Mas, de acordo com o historiador Bruno de Cerqueira, do Instituto Dona Isabel I, ela não era uma marionete. “Tinha idéias próprias e era bem mais inteligente que o conde D’Eu”, diz.

Na primeira das três regências de Isabel, ela era ainda uma jovem insegura de 25 anos. Sentia-se “uma espécie de imperador sem mudar de pele, sem ter uma barba, sem ter uma barriga muito grande”, escreveu ao pai. Antes de viajar para a Europa e deixar a filha no cargo, Pedro II preparou o terreno para o início da abolição gradativa da escravidão, instaurando um gabinete favorável às idéias abolicionistas. Isabel aprovou a Lei do Ventre Livre, que libertava os filhos de escravas nascidos a partir da data de sua assinatura, 28 de setembro de 1871. A lei, porém, permitia que o senhor usasse esses escravos livres até eles completarem 21 anos. “Foi uma forma de garantir continuidade de trabalhadores enquanto não se resolvia a questão da mão-de-obra na lavoura, já que o fim da escravidão era inevitável”, diz Carlos Bacellar, historiador da Universidade de São Paulo.

A segunda regência foi mais conturbada. Em 1876, Pedro II e Teresa Cristina embarcaram para uma viagem de 18 meses ao exterior. O cenário aqui era turbulento: fracassara uma reforma eleitoral que visava impedir fraude e violência nas votações, ocorrera uma seca devastadora no Nordeste brasileiro e havia a chamada Questão Religiosa, que colocou a princesa no fogo cruzado entre a Igreja e o governo. Maçons que ocupavam cargos importantes na política combatiam, desde 1873, uma prática religiosa conservadora e ligada ao papa, com a qual a princesa simpatizava: o ultramontanismo. Bispos ultramontanos expulsaram maçons de irmandades católicas, já que a maçonaria não era tolerada por Roma. Os maçons, que apoiaram a independência, em 1822, e tinham bastante influência no império, exigiram a prisão dos bispos. Os panos quentes postos sobre a situação não resistiram durante a segunda regência, quando uma nova proposta de expulsão dos maçons das irmandades foi anunciada. O assunto não foi para a frente, mas a imprensa não poupou a princesa. A capacidade de substituir o pai foi posta à prova, e Isabel voltou à vida privada, passando mais tempo em Petrópolis.

Causa abolicionista

Na década de 1880, Isabel abriu mão parcialmente de sua vidinha na serra e passou a se apresentar publicamente como contrária ao regime escravo. Defendia a abolição nas audiências com nobres e políticos e, em viagens pelo interior, alforriava escravos. “O fim da escravidão tornou-se quase um consenso entre a população”, escreveu o historiador Robert Daibert Junior em Isabel, a “Redentora” dos Escravos.

Após séculos de luta pela própria liberdade, os escravos aceitavam a iminente abolição não como uma conquista própria, mas como uma concessão da monarquia. Para Daibert, parte disso pode ser explicada pela cultura e religiosidade da África, onde as monarquias tinham caráter quase divino. Os escravos viam como inimigo o senhor de engenho e simpatizavam com a família real – o que, mais tarde, solapou as tentativas republicanas de apagar Isabel dos acontecimentos de 1888.

Em 1887, com a diabetes incontrolável, Pedro II foi à Europa tratar da saúde. Isabel começou a derradeira regência já sem encarar as alforrias como esmola de igreja, e sim como questão de Estado. Para ela, a escravidão emperrava o desenvolvimento do país. Aliou-se, assim, à ala abolicionista de Joaquim Nabuco, José do Patrocínio e André Rebouças.

O Ministério do Império, chefiado pelo barão de Cotegipe, era contrário à abolição e, por isso, alvo de críticas da imprensa. Num incidente em que a polícia da corte agiu com extrema violência, Cotegipe se indispôs com a princesa e pediu demissão. O novo gabinete escolhido por Isabel apresentou o projeto de abolição em 13 de maio de 1888. Naquele domingo, a princesa assinou a Lei Áurea. O Brasil, último país da América a abolir a escravidão, comemorou com três dias de feriado.

Dizer que Isabel não teve nenhum papel no fim da escravidão é uma injustiça. “Embora o 13 de maio seja a data oficial do fim, a libertação já vinha ocorrendo ao longo dos anos anteriores”, diz Bacellar. Porém, também é exagero afirmar que ela era uma mulher à frente de seu tempo.

O fato é que, adorada pelas massas, Isabel e toda a família real perderam muito apoio das elites. Não houve indenização aos fazendeiros que ficaram sem seus escravos e, como a agricultura sustentava o império, a opinião de republicanos e agricultores (que diziam que a monarquia fora sustentada pela escravidão por décadas) pesava bastante. O fato de Isabel ser agraciada com a Rosa de Ouro, homenagem do papa Leão XIII à abolição, também foi usado como arma: para a elite, o terceiro reinado era submisso ao Vaticano.

Em 1889, Pedro II continuava doente. Fazendeiros e militares continuavam descontentes. O cenário estava pronto para que os radicais do Partido Republicano se aliassem a oficiais de baixa patente revoltados e ao marechal Deodoro da Fonseca para derrubar o gabinete, que se entregou sem dar um tiro sequer, e forçar os ministros a renunciar na madrugada de 15 de novembro. Dois dias depois, a família real soube que partiria imediatamente. Isabel, segundo o próprio relato, deixou a pátria aos soluços. No exílio, em Paris, manteve a vida que tinha no Brasil, matando a saudade com o papagaio paraense que levou e dedicando-se à igreja, ao lar e ao amor incondicional pelo marido. A princesa sofreu outros golpes ao enterrar os filhos Antônio, em 1918, e Luís, em 1920. Isabel morreu no ano seguinte, aos 75 anos, sem nunca mais ter retornado ao Brasil.

Alforria já!

Líderes da abolição pacífica

Joaquim Nabuco

Pernambucano, intelectual e grande orador, nasceu em 1849 na elite imperial do Recife. Era filho de senador e seguiu a carreira de político como deputado. Na Câmara, defendeu o fim do regime escravocrata no Brasil. Monarquista, afastou-se da política com a República. Foi embaixador nos Estados Unidos e co-fundador da Academia Brasileira de Letras.

André Rebouças

Nasceu em 1838, no meio da revolta baiana Sabinada. Neto de escrava alforriada, estudou no Rio de Janeiro e na Europa, formou-se engenheiro e ajudou a criar a Sociedade Brasileira contra a Escravidão. Monarquista, foi exilado com a família real. Em 1898, na Ilha da Madeira, com dívidas e depressão, suicidou-se.

José do Patrocínio

Filho de um cônego e de uma escrava alforriada, nasceu em Campos (RJ), em 1853. Formou-se em Farmácia, mas foi no jornalismo que desenvolveu seu maior talento. Fundou o jornal Cidade do Rio e militou pela libertação dos escravos, ajudando até em fugas. Com a República, saiu da política e foi morar no Amazonas, onde morreu, em 1905.

Trabalho forçado

No mapa do fim do século 19, um panorama da escravidão no Brasil

A situação em 1872

Escravos africanos: 149921

Escravos brasileiros: 1300885

Negros livres: 506420

Negros em 1872: 1957226

População branca*: 7913252

População total: 9870478

Em 1888, menos cativos

Escravos em 1872: 1450806

Escravos no ano da abolição: 750 mil (estimativa)

Pioneira redenção

Em 1883, o município de Acarape, no Ceará, foi o primeiro do Brasil a libertar os escravos. Em homenagem a Isabel, a cidade mudou de nome para Redenção. No ano seguinte, a província aboliu a escravidão, quatro anos antes do resto do país.

Número relativo

O Rio de Janeiro tinha a maior concentração de escravos: 341576 trabalhadores forçados, ou 32,3% do total da população

Número absoluto

A província com maior população de escravos em 1872 era Minas Gerais, com 370459 cativos (18,2% do total de habitantes)

* NÚMERO REFERENTE À MAIORIA BRANCA, MAS TAMBÉM INCLUI ÍNDIOS E MESTIÇOS

Deu o que falar

Brasileiros não gostavam do marido da princesa

Gastão de Orleans foi apresentado a dom Pedro II como um rapaz alto, forte, de certo renome militar, bonito, mas um pouco surdo. Mas, se Isabel caiu de amores por ele e o conquistou com muito mimo, a opinião pública brasileira não fez o mesmo. Apesar de ter vivido 25 anos aqui, o “francês”, como era chamado jocosamente pela imprensa, nunca se sentiu brasileiro. Quando chegou ao Rio, em 1864, o país vivia a Guerra do Paraguai e ele quis ir para o confronto, mas o imperador o manteve em cargos burocráticos. Só em 1869, quando o duque de Caxias, comandante do Exército, se afastou da guerra por motivo de saúde, Gastão foi à guerra. Liderou as forças brasileiras na caçada e execução do líder paraguaio Solano López, no ano seguinte. Embora a campanha tenha sido polêmica, devido ao alto custo da guerra e à matança promovida pelas tropas, Gastão aboliu a escravatura lá e retornou como herói – raro momento em que foi popular. Como o conde se estressava e ficava doente com facilidade, não podia muito envolver-se em assuntos públicos. Além disso, era malvisto por causa do temor de o Brasil vir a ser reinado por um estrangeiro. No exílio, em sua França, manteve uma vida serena. Voltaria ao Brasil nas comemorações do centenário da independência, em 1922, mas morreu a caminho do Rio, no mar, aos 80 anos.

Saiba mais

Livros

Princesa Isabel do Brasil, Roderick J. Barman, Unesp, 2005

Recheado de textos escritos pela própria princesa, o livro narra sua vida como uma mulher dependente dos homens.

Isabel, a “Redentora” dos Escravos, Robert Daibert Junior, Edusc, 2004

A imagem de Isabel pelos abolicionistas, republicanos, monarquistas e negros nas décadas após a abolição.



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