Hipólito José da Costa Pereira Furtado de Mendonça

Hipólito José da Costa Pereira Furtado de Mendonça

Extraído do discurso de posse do Acadêmico Juvenal da Roz na Academia Paraibana de Letras Maçônicas, no dia três de outubro de 2009, por ocasião de sua investidura na cadeira cujo patrono é Hipólito José da Costa..

Contexto Histórico

Ouso citar que há um vínculo curioso da história de Hipólito ligando-o no tempo com o Tratado de Tordesilhas, firmado entre Portugal e Espanha, sob as bênçãos da Santa Igreja e assinado em 7 de junho de 1.494, isto antes do descobrimento do Brasil.

Dois anos antes, Cristóvão Colombo, sob a bandeira da Espanha (Castela), zarpou rumo a oeste buscando uma nova rota para as Índias. Descobriu a América, mais precisamente uma das ilhas de Bahamas, Cuba e Haiti que se julgou ser as Índias. Como não encontrou cidades, tomou as terras em nome dos reis de Castela. Nos anos que se seguiu, em diversas expedições, Cristóvão Colombo aportou em terras da América Central e do Sul. Faltava-lhe ainda descobrir o caminho para as Índias.

Portugal imediatamente reagiu, avocando o direito às terras descobertas, em razão do Tratado de Toledo (1.480) firmado entre Portugal e Espanha a de outras bulas papais anteriormente firmadas e concernentes à posse de novas terras descobertas e, naturalmente, favoráveis à Portugal.

Os reis de Espanha sentindo-se em desvantagens propõem outro acordo, o Tratado de Tordesilhas. O Tratado assinalava que as terras situadas além do meridiano, de pólo a pólo, situado 370 léguas a oeste das Ilhas Verdes pertenceriam a Castela (Espanha) e as aquém, a Portugal.

Sendo assim, o “descobrimento” do Brasil em 1.500, por Pedro Álvares Cabral foi a “confirmação da existência de terras” além do horizonte poente. A partir daí, o nosso país passou a ter seus recursos naturais explorados à exaustão. Primeiramente, no litoral, com a extração do Pau-brasil, depois da cana-de-açúcar.

A produção nas fazendas canavieiras e nos engenhos necessitava de mão-de-obra abundante e barata que só era exeqüível com o trabalho escravo. Inicialmente, buscou-se na captura de nossos silvícolas, a mão-de-obra escrava. Em seguida, com a interiorização de nosso território pelos bandeirantes, na captura de índios e em busca da descoberta de recursos minerais preciosos, particularmente o ouro, a prata e as pedras preciosas.

Os cartógrafos espanhóis logo perceberam que as terras descobertas tratavam na verdade de um continente ainda inexplorado. A Espanha observando a evolução da ocupação portuguesa, trata de assumir as terras existentes além das 370 léguas e, ao sul, passa a utilizar a Bacia do Rio da Prata para adentrar o continente.

Nesse estuário, funda a cidade de Buenos Aires, com a finalidade de prover logística para as expedições ao interior do continente.

Para Portugal, a colônia do Brasil passou a ser a sua principal fonte de recursos. Quando o açúcar brasileiro passou a sofrer concorrência de outras colônias, diminuindo-lhes o lucro, descobre-se o ouro. O Brasil torna Portugal uma potência européia.

A colonização do Brasil, em seus primórdios, era composta de pessoas aventureiras e de indesejáveis.

Os aventureiros, maioria composta de pessoas humildes que não tinham perspectiva de enriquecer em Portugal, anteviam a possibilidade de aqui juntar riquezas e retornar a Pátria-Mãe. Infelizmente, para a maioria, isso não aconteceu. Daí, com o passar dos anos, acabavam por entender que aqui será o local onde passariam o resto de suas vidas.

Os deportados eram os criminosos e pessoas malquistas pela Coroa Portuguesa. Esse grupo tinha seus bens seqüestrados pela Coroa e, como os aventureiros, também eram acompanhados de suas famílias. Chegando ao Brasil, adquiriam uma relativa liberdade, nutrindo rancor eterno pelos patrícios.

Portugal impunha o princípio do Mercantilismo junto às suas colônias. As bases do Mercantilismo eram o Metalismo, Protecionismo Alfandegário, Monopólio e Colonialismo.

O Metalismo dizia que a riqueza das nações era medida de acordo com as reservas em ouro. Daí a insistência de Portugal em cobrar o imposto de 20% sobre o ouro descoberto no Brasil.

O Protecionismo Alfandegário impunha que as importações deveriam ser sempre menor do que a exportação, para gerar superávit comercial.

Pelo Monopólio, as colônias só podiam comercial com a Metrópole. Isso permitia taxar os produtos sem sofrer os efeitos de uma concorrência sadia.

O princípio do Colonialismo rezava que as colônias eram fornecedoras de matéria-prima e consumidora das mercadorias comercializadas pela Metrópole.

Assim Portugal exercia um papel sufocante sobre os residentes na colônia. Todo o comércio era controlado pela Coroa através das concessões. Os portos eram guarnecidos pelas tropas e impediam que navios de outras nacionalidades européias ancorassem.

Os capitães desses navios passaram então a explorar nosso litoral clandestinamente. Para evitar essa exploração furtiva, a costa passou a ser patrulhada pelos portugueses. Aliás, foi graças à necessidade de suprir os navios patrulhas é que foram instalados os primeiros povoados ao longo da costa brasileira.

Passados quase três séculos após o descobrimento, o Brasil já possuía várias cidades com mais de duzentos anos de existência e ainda não era permitido instalar indústrias para evitar a concorrência. Também não era permitida a instalação de faculdades.

A Igreja Católica, aliada à Coroa, exercia o papel de prestadora de saúde com suas Santa Casas de Misericórdia bem como o do ensino ligado à catequese, tornando-se embrião de diversas escolas ligadas à Igreja existentes nos dias atuais.

Os tributos brasileiros pagos à Portugal não retornavam em melhorias coletivas à comunidade colonial.

Com a descoberta do ouro, Portugal passou a exercer maior controle, impedindo até mesmo que o ouro fosse fundido pelos mineradores, com receio do contrabando.

De início, eram obrigados a recolherem o “quinto”, correspondente a 20% de todo o ouro produzido, isso sem deduzir as despesas diversas. Essas despesas abrangiam a alimentação, remédios e ferramental para mineração que por sinal só podiam ser adquiridos no mercado português, ao preço imposto, sem concorrência. Por outro lado, o exercício da mineração era muito perigoso, face ao latrocínio e a possibilidade de falir antes da descoberta do ouro.

Quando o ouro passou a escassear, o governo português impôs um tributo terrível aos colonos, a “derrama”. Nessa cobrança anual, os cobradores, escoltados por soldados, entravam nas residências e retiravam à força, tudo o que era valioso até obter o numerário devido, cometendo excessos de toda a ordem.

Cansados de tanta opressão, surgem os primeiros movimentos libertatórios.

Na América do Sul, face ao Tratado de Tordesilhas, o Rio da Prata tornou-se uma importante via de acesso ao centro-sul do continente, razão pela qual portugueses e espanhóis viviam em constante clima de guerra.

Para barrar o avanço espanhol em território português, D. Manoel Lobo, governador da província do Rio de Janeiro, funda em 1.680, à margem esquerda do rio da Prata, a colônia do Santíssimo Sacramento, onde foi instalada uma fortaleza. Esta fortaleza ficava na margem oposta onde os espanhóis haviam fundada a cidade de Buenos Aires.

Desde a fundação de Sacramento, os espanhóis e portugueses passaram a disputar a posse dessa colônia, face ao seu valor militar estratégico.

Contexto Maçônico

Na Europa, a Maçonaria com a estrutura simbólica que hoje apresenta, teve início na Inglaterra em 1.646, com Elias Asmole, autor dos rituais que em linhas gerais, ainda são seguidos em todos os ritos.

Em 1.721, James Anderson redige os primeiros regulamentos, conhecidos por “Constituições de Anderson”.

A partir daí, a Maçonaria espalha-se pela Europa, principalmente na França. Desde o primeiro momento, a Maçonaria lutou para derrubar o Absolutismo.

Os estudiosos classificam a Maçonaria pelos objetivos políticos como “Azul” e “Vermelha”.

A Maçonaria Azul, nascida na Inglaterra, almejava a instituição do regime monárquico parlamentar constitucional para seu país.

A Maçonaria Vermelha, nascida na França, castigada pelos déspotas do Absolutismo, almejava a extinção completa da monarquia e defendia o sistema republicano. Esses modelos espalharam o formato de nossa Instituição em todos os países onde ela se instalou nos séculos XVIII e XIX.

No Brasil, em razão de não existirem cursos superiores, as famílias de maior poder aquisitivo mandavam seus filhos estudarem na Europa, particularmente à Portugal, Inglaterra e França. A França por ser considerado o centro cultural europeu e a Inglaterra em razão de poder realizar contatos comerciais para quando os portos fossem abertos ao comércio exterior.

Esses jovens, tanto na Inglaterra como na França, tomaram conhecimento da existência da Maçonaria e de seus propósitos. Ao retornarem ao Brasil, trazem no bojo, os ideais maçônicos, procurando difundi-las entre os brasileiros.

Biografia de Hipólito José da Costa Pereira Furtado de Mendonça

Nos anos de 1.770, o alferes de infantaria Félix da Costa Furtado de Mendonça, natural do Rio de Janeiro, fora designado para a defesa da colônia de Sacramento. Lá, conheceu e desposou Ana Josefa Pereira Furtado de Mendonça, natural da própria colônia.

Foi nessa Colônia que Hipólito nasceu a 25 de março de 1.774.

Em razão dos constantes tratados entre portugueses e espanhóis sobre a demarcação de fronteiras, a família Félix da Costa mudou-se em 1.777, para o lugarejo denominado de São Francisco de Paula Pelotas, pertencente ao Rio Grande de São Pedro, por ocasião do tratado de Santo Ildefonso. A colônia de Sacramento por ocasião desse último tratado passou a ser domínio espanhol e hoje pertence ao Uruguai.
Hipólito iniciou seus estudos em Porto Alegre, sob a supervisão de seu tio, o padre Pedro Pereira Fernandes de Mesquita.

Dotado de inteligência privilegiada e a família de recursos financeiros, matriculou-se aos 18 anos nas Faculdades de Matemática e Filosofia da Universidade de Coimbra – Portugal. No ano seguinte, ingressou na Faculdade de Direito. Formou-se bacharel em Direito 1m 1.796 e Filosofia em 1.798.

O governo português, naquela época, usava de um expediente interessante junto as universidades: recebia delas o histórico escolar dos alunos que sobressaiam e os convidavam para assumir cargos administrativos.

Hipólito, por seus méritos acadêmicos, foi nomeado por Dom Rodrigo de Souza Coutinho, Ministro da Rainha, após três meses de formado para uma missão nos Estados Unidos da América. A missão designada pelos portugueses dizia respeito a botânica, zootecnia, engenharia e pesca.

Deveria tomar conhecimento das técnicas utilizadas para o cultivo do tabaco, arroz, cana-de-açúcar, sobre a pesca da baleia e produção de minérios. Deveria ainda inteirar-se sobre as indústrias, projetos de engenharia, particularmente o de hidráulica, navegação e máquinas desconhecidas na Europa, que pudessem ser construídas em Portugal. Incluía ainda a espionagem das minas de ouro e prata existentes no México e seus métodos de exploração.

Particularizando a missão quanto a botânica e zootecnia, deveria obter o conhecimento da técnica de produção do inseto e da planta da cochonilha, bem com seu contrabando. A cochinilha do Nepal fornece um colorante, o carmim, que era usado na época, com produto de beleza feminina. Outra espécie, originariamente do México, era utilizada pelos astecas para a produção da goma-laca. Esta espécie foi aproveitada pelos espanhóis. Essa missão de biopirataria não obteve o sucesso esperado uma vez que os insetos não suportaram a longa viagem sob inverno rigoroso.

Seu trabalho na América foi, na verdade, um grande êxito. Suas observações foram minuciosamente detalhadas em três monografias e seis cadernos de apontamentos que entregou ao Ministro quando retornou à Portugal. Realizou ainda com detalhes, os esboços da construção de pontes de madeira de um só arco e relatórios sobre a Força Naval Americana, a febre amarela, higiene pública, causas de doenças endêmicas e a produção do bicho-da-seda.

Sua permanência de quase dois anos nos Estados Unidos da América foi suficiente para conhecer uma nova mentalidade e o fruto das idéias maçônicas que moldaram a sociedade americana. Essas idéias inovadoras provenientes da França e da Inglaterra moldavam um país em gestação, sugerindo um regime democrático voltado para o social.

Na cidade de Filadélfia, teve a oportunidade de conhecer a luz maçônica, em 12 de março de 1.799, na Loja George Washington N° 59, aos 25 anos de idade. Infelizmente, a documentação desta Loja foi destruída em um incêndio em 1.819. Sabedor da perseguição da Igreja aos Maçons portugueses e dos rigores da Inquisição, em obter confissões, omitiu a informação de sua iniciação maçônica em seu retomo à Portugal.

Seu círculo de amizades nos Estados Unidos chegou ao mais alto escalão do governo; teve oportunidade de ser apresentado ao presidente John Adams e ao seu sucessor Thomas Jefferson. Dessas ilustres autoridades, representantes de um outro sistema de governo, a república, Hipólito teve uma enorme simpatia particularmente pelos modos com que tratavam as pessoas, tão diferentes da Corte Portuguesa. Relacionou-se ainda com diversos franceses, foragidos do Absolutismo Francês e do General Napoleão Bonaparte.
Durante sua estadia na América, escreveu ainda um diário com informações pormenorizadas e ricamente detalhadas que mais tarde serviriam de base para seu relatório sobre a missão.

No final de 1.800, quando de seu retomo à Portugal, foi nomeado diretor literário da Imprensa Régia, decidindo o que seria publicado. Lá, D. Rodrigo de Souza, ligado ao partido inglês, fundou a Casa Literária do Arco do Cego, na verdade uma tipografia, que foi incorporada em dezembro de 1.801 à Imprensa Régia. Como diretor, decidia sobre o que seria publicado; revisava os textos e publicava artigos diversos.

Em abril de 1.802, D. Rodrigo designa-o a viajar à Londres a fim de adquirir livros destinados à Biblioteca Pública e máquinas para a Imprensa Régia. Um segundo objetivo mais reservado, era contatar com a Maçonaria Inglesa a fim de obter o reconhecimento da Potência Portuguesa.

Foi assim, munido de credencial plenipotenciário de quatro Lojas Portuguesas, que Hipólito é recebido em Londres, com a missão de fundar uma Grande Loja Nacional em perfeita amizade com a Grande Loja dos Modernos. Essa missão logrou êxito, sendo o fato confirmado por William Preston.

Em Portugal, ocorrem intrigas sobre essa eventual missão. Hipólito é alertado de que se retornasse ao país, seria preso. Não acreditando, voltou à Portugal e foi imediatamente preso. Seus pertences são vasculhados a fim de descobrir documentos que o comprometessem. Inicialmente foi preso em segredo na cadeia do Limoeiro onde permaneceu por seis meses. Foi então transferido para os cárceres da inquisição de onde seria arrancado depois de três anos pela Maçonaria que subornou os guardas e ainda com a intervenção dos Irmãos José Liberato e Ferrão.

Fora da prisão, refugia-se em vários lugares até conseguir fugir para a Espanha e depois para a Inglaterra onde acabou vivendo até sua morte em 1.823.

Na Inglaterra, exerceu as funções de professor, tradutor, jornalista, impressor, ativista político e maçônico.

Na Ordem, participou de diversas Lojas e comissões maçônicas. Foi autor de diversas obras clássicas da Maçonaria, particularmente as que comentavam a perseguição da Inquisição aos Maçons nos primórdios do século XIX e citações sobre a Framaçonaria como Hipólito a chamava.

Pesquisas maçônicas recentes na Inglaterra levantam que Hipólito teria participado da elaboração dos novos rituais, após a união das duas Grandes Lojas rivais. Edições raras do “Syllabus” de autoria de William Preston e pertencentes a Hipólito foram descobertas recentemente e estão expostas na Biblioteca da Grande Loja Unida da Inglaterra.

Era amigo íntimo do Duque de Leister e amicíssimo de Augustus Frederick, Duque de Sussex e filho de Jorge III. O Duque de Sussex foi o Grão-Mestre da Grande Loja Unida da Inglaterra desde sua criação em 1.813 à 1.843, quando veio a falecer.

O Duque de Sussex, sabedor da competência e inteligência de Hipólito, nomeia-o para o cargo de Secretário para Assuntos Estrangeiros da Freemason’s Hall; Presidente do Conselho de Finanças da Grande Loja Unida da Inglaterra e Grão-Mestre Provincial de Ruthland, apesar da inexistência de Lojas nessa província. O Duque foi ainda seu padrinho de casamento em 1.817.

Por ocasião da morte de Hipólito, o Duque de Sussex coordenou uma campanha de doações para a construção de um monumento na Igreja de Hurley em Maidenhead.

Hipólito foi membro ativo do Royal Arch e acredita-se que tenha sido exaltado em uma Loja ligado aos “antigos”. Em 1.819, o Supremo Conselho de França para o REAA conferiu-lhe a patente do Grau 33 junto ao Duque de Sussex, em claro reconhecimento ao seu trabalho.

Em sua lápide, na Igreja de St Mary , na paróquia de Hurley, Berkshire, perto de Londres, está gravado a mando do Duque, a inscrição “à sagrada memória do Comendador Hipólito José da Costa que faleceu no dia 11 de setembro de 1.823, com a idade de 46 anos. Um homem distinto pelo vigor de sua inteligência e seu conhecimento na ciência e na literatura quanto pela integridade de suas maneiras e caráter. Descendia de uma nobre família no Brasil e neste país residiu nos últimos 18 anos, durante os quais produziu numerosos e valiosos escritos que difundiu ente os habitantes desse vasto Império pelo gosto de úteis conhecimentos, com amor pelas artes que embelezam a vida e amor pelas liberdades constitucionais fundadas na obediência às leis salutares e nos princípios de mútua benevolência e boa vontade. Um amigo que conhecia e admirava suas virtudes e que as registra para o bem da posteridade”.

Em sua vida no exílio inglês, manteve estreitas vinculações com maçons famosos como William Preston, autor do clássico “Ilustrações da Maçonaria” onde cita Hipólito como plenipotenciário em Londres para regularizar as lojas portuguesas.

Outros vultos de seu convívio: o General venezuelano Francisco Miranda, líder da emancipação da América espanhola e fundador da Loja “Gran Reunion América”, onde foram iniciados Simon Bolívar, O’Hihhinns, Alvear, San Matin e outros próceres sul-americanos.

Hipólito concorreu para que o brasileiro Domingos José Martins, comerciante em Londres, viesse a iniciar na Ordem. Domingos viria a ser o chefe da Revolução Pernambucana de 1.817.

Preocupado com o destino de sua terra natal e motivado pelos ideais libertatórios, funda em 1.808, o “Correio Braziliense” ou “Armazém Literário”. Editar esse jornal, sem dúvida, foi a maior de sua obra.

Em 5 de agosto de 1.822, por proposta de Gonçalves Ledo, 1º Vigilante foi realizada a sessão magna de iniciação e exaltação de D. Pedro na Loja Comércio e Artes. Na mesma sessão, foi proposto e aprovado o nome de Hipólito para Delegado do Grande Oriente Brasílico em Londres. Essa nomeação visava enveredar esforços para o reconhecimento dos graus superiores da Maçonaria Brasileira junto ao Grande Oriente Britânico.

Produziu ininterruptamente até 1.823, quando de sua morte, notícias no “Correio Braziliense” que moldaram a opinião pública sobre a relação Portugal-Brasil, revelando a situação política e social existentes entre a Metrópole e a Colônia, tudo com vistas a adoção de uma verdadeira reforma de base para a Colônia.

Hipólito, ao contrário do que muitos acreditam, não desejava ver o Brasil independente de Portugal. Idealizava que a Colônia do Brasil fosse erguida a situação de Reino Unido à Portugal. Almejava que fossemos tratados como Nação e não como colônia. Que parte dos tributos pagos à Portugal retornassem em forma de melhorias tais como educação (escolas, museus, teatros e faculdades), saúde (hospitais, casa de saúde, saneamento básico), segurança e construção de estradas.

Pregava sim a independência das colônias, mas preferencialmente, sem derramamento de sangue.

Ele defendia um sistema monárquico-representativo, a semelhança do que existia na Inglaterra. Combatia às instituições retrógradas, ao despotismo dos governantes e à censura ao pensamento escrito e a liberdade de imprensa.

Aconselhado pelo Duque de Sussex, evitava um ataque direto ao Rei. Essa exceção e uma carta do Duque, abrandaram a animosidade do Soberano à Hipólito, criando até uma simpatia pelo mesmo.

Hipólito ainda nos deixou três obras maçônicas: “Cartas sobre a Framaçonaria”, “Narrativa da Perseguição de Hipólito José da Costa Pereira Furtado de Mendonça, natural da Colônia de Sacramento, no rio da Prata, preso e processado em Lisboa pelo pretenso crime de Framaçon ou Pedreiro-Livre” e “Esboço para a História dos Artífices Dionísicos”, que foram traduzidos pelo Maçom João Nery Guimarães e publicados pelo Grande Oriente do Brasil.

Hipólito com sua forma de fazer jornalismo revolucionou inclusive aos ingleses que se impressionaram sendo comparado e tido como mais avançado que o “Times de Londres”, que se limitava a expor as notícias de forma anacrônica.

Hipólito entendia que não era admissível um homem subjugar outro na qualidade de escravo, razão pela qual combateu exaustivamente a escravidão.

Pregava a construção de estradas e o uso de matérias primas para a indústria local, para formação e expansão do mercado interno.

Pregava a transferência da Capital para o interior do país, para um local próximo de onde hoje situa-se Brasília, com fins de proporcionar maior segurança da capital, tão vulnerável por ser litorânea e susceptível as ações de uma força armada estrangeira – visando facilitar um combate com os próprios portugueses quando chegasse o momento da independência. Tal feito estimularia o progresso em uma área quase desabitada por brancos e a ocupação de territórios mais a oeste, fortaleceria as fronteiras com os paises vizinhos.

Incentivava a adoção de uma política migratória que aproveitasse preferencialmente os artesãos e técnicos, ao invés de mão-de-obra não qualificada.

O “Correio Braziliense”

O “Correio Braziliense” ou “Armazém Literário” foi o primeiro órgão da imprensa brasileira, ainda que publicado no exterior.

Foi graças a saga do “Correio Braziliense”, que Hipólito passou à História como o “Patriarca da Imprensa Brasileira”.

O Correio Braziliense não era um jornal provinciano, de empreendorismo doméstico, que estampava notícias que agradavam a Corte.

Desde seu primeiro exemplar, mostrou-se amadurecido e empresarial.

Era voltado para um jornalismo responsável; trazia notícias de toda ordem e não fazia oposição só por ser contra a tirania portuguesa.

Era um jornal com 150 páginas repleto de notícias reveladoras.

Seu jornal chegou a um número impressionante de 1.000 exemplares, dos quais a maioria era contrabandeada para as províncias brasileiras e passada de mãos em mãos, aumentando assim, o efeito multiplicador.

Favorecia-lhe a carência de informações; daí uma edição do jornal manter-se atualizado por um longo tempo. A residência de Hipólito passou a ser ponto de visitação obrigatória dos intelectuais que buscavam manter-se atualizado.

Hipólito combatia também a corrupção, os erros e abusos da administração portuguesa tanto na colônia como em solo português, prestando um importante papel para o rei D João VI. Alguns historiadores sugerem que D. João VI buscava no “Correio Braziliense” informações sobre corrupção na máquina administrativa do Estado.

Portugal sentiu o poder do “Correio Braziliense” e tentou repatriar Hipólito junto a Corte Inglesa alegando que tal homem poderia afetar as relações diplomáticas entre os dois países. A Inglaterra mesmo sabendo que Portugal era seu maior parceiro comercial, não cedeu.

Com a negativa, Portugal buscou rebater as edições do “Correio”, editando na própria Inglaterra, um periódico que visava desacreditar Hipólito. A primeira tentativa foi com o jornal “Reflexão Sobre o Correio Braziliense”. Segui-se com os “Cadernos de Combate ao Correio Braziliense” que também não vingou.

Segui-se uma série de panfletos, todos com o sinete palaciano português, procurando desmoralizar o brasileiro jornalista. Tais panfletos caíram no ridículo.

Por último, Portugal fundou e manteve por cerca de dez anos, o jornal “Investigador Português”, envolvendo às claras, e sem nenhuma preocupação com a ética e sem reserva moral, seus diplomatas Vicente Pedro Nolasco da Cunha e José Abrantes e Castro, adidos portugueses na Inglaterra, que assinavam como editores do citado jornal.

Influência no Processo de Abolição da Escravatura

Como afirmei em capítulo anterior, Hipólito entendia que não era admissível um homem subjugar outro na qualidade de escravo, razão pela qual combateu exaustivamente a escravidão.

Entendendo que seu jornal circulava junto à classe mais esclarecida da sociedade inglesa e que sua residência virou ponto de encontro de intelectuais, certamente as idéias publicadas no jornal eram discutidas e apoiadas por esses.

Relembro ainda que o jornal foi ativo de 1.808 à 1.823, ocasião de sua morte, exatamente um ano após a declaração da Independência Brasileira.

A Inglaterra, maior traficante de escravos, até fins do século XVIII, aboliu a escravidão em suas colônias em 1.833 e transformou-se em defensora do fim do comércio de seres humanos.

É verdade que a revolução industrial ajudou nesta questão. O capitalismo tinha interesse em ampliar o mercado consumidor que aconteceria se existissem trabalhadores assalariados.

A pressão inglesa sobre o Brasil – maior comprador de escravos na época, levou o Conselheiro Padre Diogo Antonio Feijó sancionar uma lei em 1.831, da Assembléia-Geral (Parlamento), que declarava livres os escravos que entrassem no país a partir daquela data.

Infelizmente essa Lei não foi cumprida pelos proprietários rurais pois não havia uma fiscalização alfandegária que cobrisse todo o litoral.

Em último caso, um agrado… Virou uma “lei para inglês ver”.

A Inglaterra, percebendo a manobra, editou em 1.845, uma lei que autorizava a esquadra britânica a prender navios negreiros e julgar seus tripulantes como piratas.

A pressão surtiu efeito. 5 anos após, o maçom Eusébio de Queirós conseguiu aprovar uma lei que extinguia o tráfico negreiro.

Na época, o Brasil importava 50.000 escravos por ano. Era o maior negócio brasileiro na época, representando mais da metade de toda a importação.

Em 1.865, os Estados Unidos extinguiu a sua escravatura. Na América, restavam apenas o Brasil e Cuba a mantê-la.

No dia 13 de maio de 1.888, a Princesa Isabel, filha de D. Pedro II, assinou a Lei Áurea, abolindo definitivamente a escravidão no Brasil, de autoria do maçom Rodrigo Augusto da Silva.

Conclusão

Tentei, com todas minhas limitações, apresentar o brasileiro e maçom Hipólito José da Costa, que no seu tempo e com a inteligência de que era dotado, fez-se conhecido e respeitado por todos aqueles que tomavam conhecimento de sua maior obra – o “Correio Braziliense” ou “Armazém Literário”.

Acredito que os capítulos adendos à biografia propriamente dita serviram para situar historicamente a pessoa de Hipólito bem como esclarecer o papel da Ordem Maçônica no contexto dos processos políticos de diversos países da Europa e das Américas.

Bibliografia

– Quevedo, Raul, “Construtores da Liberdade”, Ed “Ulbra”, Porto Alegre, 2.001
– Guimarães, João Nery, “A Maçonaria e a Liturgia” – vol 1, Ed “A Trolha”, Londrina, 1.998
– Guimarães, João Nery, “Obras Maçônicas de Hipólito José da Costa – Homenagem do Bicentenário de sua Iniciação”, Ed “GOB”, Brasília, 2.000
– Castellani, José, “Os Maçons na Independência do Brasil”, Ed “A Trolha”, Londrina, 1.993
– Nova Enciclopédia Barsa, Edição 2.003, Ed “Britânica do Brasil”
– Gonçalves Ledo,
– Wikipédia, a Enciclopédia Livre, Internet
http://www.aplm.xpg.com.br/hipolitodacosta.htm



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