Grécia: Esparta e Atenas como modelos de educação

Grécia: Esparta e Atenas como modelos de educação

Desde os tempos do idealismo alemão se aceita que cada época ou Geistgeschichte, o Espírito do Tempo, engendra o seu próprio paradigma de educação. Os períodos se sucedem e, cada um por sua vez, projeta um modelo, uma concepção do que vem a ser um jovem educado ou do súdito ou do cidadão ideal. Comete um engano quem pensa que esse ideal possa ser universalmente partilhado, adotado por todos seus contemporâneos de uma forma inquestionável. Convivendo no mesmo período histórico, praticamente um ao lado do outro, assiste-se a existência de dois ou mais modelos ideais não só divergentes como também opostos. O exemplo histórico mais chamativo que nos ocorre é o que se deu com os padrões educacionais que servem até hoje como matrizes da cultura pedagógica ocidental, o espartano e o ateniense, o agogê e a paidéia, forjados mais ou menos no mesmo cenário (entre os séculos 7 e 4 a.C.).

O método narrativo adotado nesta síntese concentrou-se em atentar para um só objetivo: dar ao leitor, através de uma palavra-chave, a ideia mais próxima possível da realidade do que os educadores daqueles tempos, ditos clássicos, esperavam atingir com seus objetivos pedagógicos – uma palavra cuja simples enunciação esclarecia qual a motivação pretendida. Identificamos, por exemplo, que entre os espartanos, uma sociedade de soldados, a educação voltava-se fundamentalmente para estimular a coragem (thimós) entre os jovens como a meta final pretendida, enquanto os rivais atenienses concentravam-se em desenvolver nos estudantes um formidável domínio da palavra (logos), essencial para o bom funcionamento da democracia.

Séculos depois se verificou que os educadores renascentistas irão se concentrar numa ampla formação dos estudos de humanidades (humanitas), tomados aqui no sentido o mais amplo possível, no seu significado holístico. E que entre os iluministas, a partir do século 18, a educação sofrerá uma radical inflexão em direção à celebração da natureza (physis) e o seu crescente domínio por meio do conhecimento científico e tecnológico.

Cada exemplo citado, entre tantos outros, evidentemente está impregnado pelas necessidades, fantasias e imaginações da época. Mas isso não significa que tiveram total aceitação ou que foram seguidos à risca. É um modelo, quase uma utopia.

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Esparta
“Todo o sistema da legislação dos lacedemônios visa a uma parte das qualidades do homem – o valor militar, por este ser útil nas conquistas; consequentemente, a força dos lacedemônios foi preservada enquanto eles estiveram em guerra, mas começou a declinar quando eles construíram um império, porque não sabiam como viver em paz, e não foram preparados para qualquer forma de atividade mais importante para eles do que a militar”. Aristóteles (Política, 1271 b)

O cenário histórico
A cidade-estado de Esparta, nas beiras do rio Eurotas, situada no Peloponeso, na Grécia, foi um dos fenômenos mais fascinantes da História – tão fascinante que até seus vizinhos, principalmente os atenienses, demoraram-se em estudar-lhe os usos, costumes e instituições. É graças a eles, aliás, a Platão, a Xenofonte, a Aristóteles e a Plutarco, que sabemos como os espartanos viveram.

Esparta petrificou-se no tempo. Sua estrutura social e seu rígido militarismo pouco mudaram ao longo de cinco séculos, uma sociedade que quase nada conheceu semelhante ao que se pode chamar de evolução em seu regime político. A razão disso foi que os espartanos tiveram que enfrentar uma população inimiga (periécos e ilotas) que os cercava que lhes superava várias vezes em número e lhes era sistematicamente hostil. Para afirmar-se e dominá-la, tiveram que se sacrificar àquele tipo de vida. Serem soldados 24 horas por dia ao longo de toda a vida. Como já se disse no passado e foi lembrado, mais recentemente, por Arnold Toynbee: “os espartanos tornaram-se escravos dos seus escravos”.

Constitucionalmente tinham algumas excentricidades. Para evitar a ascensão de um tirano, Esparta formara uma diarquia, isto é, tinha dois reis. Monarcas que eram controlados por um Senado (Gerúsia) composto de 30 senadores (gerontos), que atuava como uma espécie de órgão intermediário entre os cidadãos e o rei. Para o controle geral da sociedade, aprovaram, bem mais tarde, uma espécie de regime de fiscais: o eforato, composto por cinco éforos, ou magistrados, eleitos pelo povo, que controlavam todos os aspectos da vida espartana, inclusive corrigindo e censurando os reis.

Devido à militarização generalizada e quase que absoluta dos seus costumes, chegaram a aperfeiçoar uma linguagem própria, o laconismo: uma fala semi-telegráfica que procurava expressar-se com o mínimo possível de palavras. Obviamente não era necessário um estudo muito profundo das coisas nem se estimulava os discursos retóricos, muito menos o pensar filosófico. Os espartanos atribuíam a existência da sua severa legislação a Licurgo, um personagem quase que mitológico. O grande homem teria implantado o seu código, o código licúrgico, depois de ter feito uma peregrinação por várias cidades-estados da sua época, impressionando-se vivamente com os costumes existentes em Creta, célebres por sua rigidez. Ao retornar conseguiu impô-los pela persuasão e pela força à maioria dos seus concidadãos.

Licurgo como educador
Acredita-se, na verdade, que o código licúrgico foi resultado de uma gradativa adaptação daquela sociedade às circunstâncias cada vez mais adversas. Quanto maior era a resistência aos espartanos na região onde viviam, na Lacedemônia, conhecida por suas sucessivas rebeliões e amotinamentos, mais os espartanos enrijeciam-se. Enquanto as demais polis gregas passavam por várias e diversificadas experiências politico- institucionais, tais como a oligarquia, a tirania e a democracia, Esparta aferrou-se num sistema de castas militarizadas ultra-disciplinadas, dominado superiormente pelos espartacitas, tendo os periecos como uma classe de colaboracionistas, fazendo o papel de intermediários, e, no escalão bem inferior, os ilotas , os escravos da comunidade. Esta foi a razão de Platão defini-la como a sociedade exemplarmente timocrática, isto é, voltada e governada pela coragem.

A Agogé, a educação espartana
Em seu próprio significado, a palavra que os espartanos usavam para a educação já diz tudo: agogé, isto é, “adestramento”, “treinamento”. Viam-na como um recurso da domesticação dos jovens. Seu objetivo maior era formar guerreiros para defender a coletividade. Assim sendo, temos que entendê-la como um serviço militar obrigatório estendido à infância e à adolescência. Sabe-se que a criança até os sete anos de idade era mantida com a mãe, mas a partir dos 8 anos enviavam-na para participar de uma espécie de bando que era criado ao ar livre, um tanto que “ao deus-dará”, onde terminavam padecendo de um regime de escassez alimentar para que desenvolvessem a astúcia para conseguir uma ração suplementar.

Admitiam, pois, o ardil e o roubo como artifícios válidos na sua formação. Se fossem pegos em flagrante, no entanto, os castigos eram violentíssimos, sendo submetidos à chiamastigosis, às provas de flagelação públicas.

Dos 12 aos 15 anos, instrumentavam-nos nas letras e nos cálculos e, naturalmente, no canto de hinos do poeta Tirteu que ressaltavam a bravura e o patriotismo e, na etapa final, entre os 16 e 20 anos, quando passavam a ser denominados de eirén. Antes de entraram em permanente serviço da pátria, eram adestrados nas armas, na luta com lanças e espadas e no arco e flecha e aumentavam-lhes a carga dos exercícios e a participação de operações militares simuladas nas montanhas que circunvizinhavam a polis. Como observou Plutarco, o objetivo era de que sempre andassem “como as abelhas que sempre são partes integrantes da comunidade, sempre juntas ao redor do chefe, parecendo consagradas inteiramente à pátria”.

Atuavam em bandos liderados por um porteiras, um líder de esquadra, uma espécie de sargento, que lhes ensinava as táticas da arte da sobrevivência. A essa altura perfilava-se o que a sociedade espartana desejava do seu jovem: silencioso, disciplinado, anti-intelectual e antiindividualista, obediente aos superiores e às autoridades, vigoroso, ágil, astuto, imune ao medo, resistente às intempéries e aos ferimentos, com esprit de corps e fanaticamente dedicado à cidade.

A presença do corretivo
Platão, ao comentar a educação espartana, observou que sua principal falha era exatamente a ênfase excessiva aos exercícios físicos, conquanto que a boa educação era resultado de um composto entre a ginástica e a música, aqui entendido como a educação humanística em geral. Por isto, a obsessão militarista impedia-os de saberem conduzir-se em tempos de paz e mesmo de saber administrar sociedades que não tinham os mesmos valores que os seus. Mas a crítica maior deve-se dirigir ao objetivo final disso tudo que era a de desenvolver a destemida coragem. O jovem, transformado num menino-soldado, não teria receio de nada que envolvesse as artes militares, as manobras em campos de batalha ou as ameaças dos inimigos da coletividade. A coragem antes de tudo é um atributo espartano. Por consequência, não apreciavam nenhum tipo de tolerância ou leniência para com as obrigações devidas a polis.

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Qualquer fraqueza era vista como covardia, algo a ser veemente repelido do seio daquela sociedade e, para corrigir seus defeitos e possíveis hesitações, os educadores recorriam à sinistra presença do mastigáphoroi, o “portador do látego”, encarregado dos chibatamentos, suplícios que eram estendidos inclusive às mulheres, consideradas as mais livres e as mais endurecidas da Grécia Antiga.

E, para desenvolvê-la – a coragem – individualmente, os legisladores espartanos criaram a críptia, um “esquadrão de extermínio” que estimulava os jovens selecionados a caçarem, sozinhos ou em grupos, os hilotas (escravos do Estado) que por acaso andassem desgarrados ou que, de alguma forma, representassem, pelo seu vigor físico, uma ameaça à segurança dos espartacitas. Localizados e capturados, eram vitimados pela espada ou pela lança (as operações da críptia não passavam de assassinatos legitimados). Foi essa liberalidade homicida que fez com que dissessem que os “espartanos livres eram completamente livres, e os escravos, escravos até os limites”.

Esse sistema educacional, graças ao seu conservadorismo e apego ao tradicionalismo, que se somava a uma ausência de crítica e à completa cegueira patriótica, fez as delícias dos aristocratas e pensadores da Grécia Antiga, como também dos conservadores em geral ao longo da História. Modernamente, os regimes fascistas e nazistas nele se inspiraram para a montagem das balilas fascistas ou da Hitlerjügen nacional-socialistas, nos anos 20 e 30 do nosso século.

Mesmo Rousseau, identificado como o mentor da pedagogia liberal dos nossos tempos, rendeu suas homenagens ao agogê por estimular o ardor patriótico e o civismo espartano bem como a valorização da coletividade acima do bem privado.

Também se projetou por outra razão: a defesa da ideia básica de que a educação era um assunto de interesse coletivo e que, portanto, ninguém melhor do que o Estado para promovê-la. Por sua ascendência sobre a sociedade, era ele o único capaz de poder integrar ou sublimar as vocações privadas, submetendo-as ao coletivo. Esta era a admiração maior que Platão devotou ao sistema educacional espartano, cujo modelo não se encerrará apenas nas preferências do filósofo em muitos dos seus diálogos (particularmente no A República), mas também renascerá com toda a força no Iluminismo, no século 18. A partir de então – a educação estatizada – se tornará moeda corrente em todos os sistemas políticos modernos, não importando a sua ideologia.

Atenas
“Vivemos sob uma forma de governo que não se baseia nas instituições de nossos vizinhos; ao contrário. Servimos de modelo a alguns ao invés de imitar os outros. Seu nome, como tudo, depende não de poucos, mas da maioria. É democracia. (…) Somos amantes da beleza sem extravagância e amantes da filosofia sem indolência. Entre nós não há vergonha na pobreza, mas a maior vergonha é não fazer o possível para evitá-la. Olhamos o homem alheio às atividades públicas não como alguém que cuida apenas dos seus próprios interesses, mas como um inútil”. Péricles (Discurso Fúnebre).

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O cenário histórico
Atenas, situada nas proximidades do Golfo Sarônico, praticamente às margens do Mar Egeu, foi durante uns três séculos – do 6 ao 4 – a capital cultural da Grécia Antiga. Para lá afluíram mercadores, comerciantes, aventureiros, mercenários, artistas, poetas, sábios e professores das mais variadas partes do mundo heleno. Cidade mercantil, cosmopolita, a todos acolhia generosamente. Se é certo que restringia a vida dos estrangeiros e dos seus filhos dificultando-lhes a obtenção da cidadania, em geral, não os perturbava com acessos xenófobos. Atenas projetou-se como a mais importante cidade da Hélade graças às duas vitórias que obteve contra os persas invasores, uma em Maratona e outra em Salamina, entre 490 e 480 a.C.. Chefiou, a partir de então, a Liga de Delos, uma confederação defensiva de cidades-estados, tornando-se a referência militar, política e cultural de todos os gregos.

Ao contrário da sua rival Esparta, Atenas conheceu diversos tipos de regimes políticos. Em tempos remotos, foi governada por um monarca, o basileus, que se assessorava com um conselho (o bulê) de anciãos, chefes dos principais clãs. Esse monarca viu, no transcorrer dos tempos, seu poder ser esvaziado a ponto de limitarem-no, na época oligárquica, à simples presidência das cerimônias religiosas. Os oligarcas, por sua vez, também não duraram muito. Por volta de 560 a.C., Pisístrato, um caudilho muito popular. tomou de surpresa o poder na cidade, tornando-se o seu primeiro tirano. Não fez mau governo, mas evidentemente que granjeou muitas inimizades. Seus dois filhos, que o sucederam, foram derrubados por volta de 510 a.C., abrindo-se caminho para que um regime totalmente novo fosse então adotado: a democracia.

O artífice dessa nova época chamava-se Clistenes e a ele devemos a primeira reforma democrática que conhecemos com razoáveis detalhes. Clistenes substituiu o sistema de clãs por uma nova divisão político-administrativos assentada em 10 demos, locais onde a população vivia. A partir deles, dessas circunscrições, é que nasciam as instituições básicas da democracia: o Conselho dos 500, formado por 50 integrantes de cada um dos demos, escolhidos por sorteio feito nos bairros, e a Eclésia, assembleia geral que reunia toda a população adulta masculina para deliberar sobre os assuntos mais graves que diziam respeito a toda a comunidade.

As reformas de Clistenes
O reformista Clistenes não regou em campo seco, pois teve um antecessor célebre, o sábio Sólon, que também havia refeito, por volta de 596 a.C., à constituição da cidade, abrindo espaço para uma lenta ascensão dos plebeus, bem como a introdução de uma série de outras regras e leis que impediam que os poderosos humilhassem e oprimissem os mais fracos. Havia, pois, uma tradição legislativa que, mesmo que não fosse exposta muito claramente, procurava a harmonia social e certa igualdade (isonomia) perante a lei. E, por mencionar a lei, pode-se dizer que o regime democrático entronizou-a como sucedâneo da monarquia. A celebração da lei como entidade maior e sagrada, a quem todos igualmente devem obediência e respeito, foi um dos legados mais memoráveis da democracia antiga e principal motivação da criação teatral de Ésquilo e Sófocles.

O apogeu de Atenas ocorreu na época do estratego Péricles, entre 460 e 430 a.C., um verdadeiro líder popular que poucas concessões fez à demagogia. Foi com Péricles e seu companheiro Elfiates que a democracia verdadeiramente deitou raízes em solo grego. Combateram os aristocratas, que sistematicamente conspiravam contra o regime, e evitaram os desatinos anárquicos das massas. Foi de Péricles a ideia feliz/infeliz de utilizar-se dos recursos da Liga de Delos, depositados em confiança em Atenas, para reconstruir o templo dedicado à Atenas Partenos, o Parthenon, em mármore e ouro. Fato que, se por um lado dotou a cultura ocidental de um símbolo imorredouro de harmonia e perfeição, fez por jogar o mundo grego numa pavorosa e destruidora guerra civil: a Guerra do Peloponeso, que se estendeu por 27 anos.

A Logocracia: a educação ateniense
Os testemunhos da educação ateniense são unânimes em afirmar que a democratização da sociedade e da vida política não representou uma alteração no seu ethos, nos seus ideais finais. Ela continuou orientando-se pelo modelo cavalheiresco da nobreza no sentido de alcançar a kalokagathia, a ambição de reunir num só corpo a beleza física e moral. Os plebeus, ou “burgueses” que ascendiam, não o questionavam. Muito ao contrário, desejavam-no para os seus filhos. O que alterou substancialmente foram as formas de atingi-los. Assim, ao longo da hegemonia democrática, a educação dos seus jovens manteve-se em permanente contradição entre o ideal do gentil-homem, culto e cavalheiresco e o cotidiano igualitário, rude e singelo.

Apesar dos avanços da democracia, Atenas nunca deixou de ser dirigida e orientada por membros da nobreza. Até o mais radical dos igualitários tinha origem nobre, provindo das famílias ilustres, que por séculos influenciavam a vida política e cultural da cidade. Consequentemente, eles, os aristós, e os seus valores, continuaram sendo os paradigmas.

Política e educação
A educação sofreu uma substancial alteração quando ocorreu a transformação da cidade oligárquica, calcada nos valores militares, para a cidade democrática inspirada na importância da palavra. O antigo processo de transmissão do conhecimento, ou das habilidades, que fazia largo uso da pederastia, onde um amante mais velho acompanhava a formação do seu jovem escudeiro, foi substituído pela escola, regida pelo mestre que administrava lições de gramática e primeiros cálculos.

O antigo treinamento dos guerreiros, a hoplomachia, o combate simulado armado, cedeu lugar aos exercícios de ginástica e à participação nos corais musicais. O ideal homérico do culto aos heróis transferiu-se para o plano dos desportos. E a espada gradativamente foi substituída pela palavra.

Atenas passou a abrigar um verdadeiro enxame de mestres vindos dos lugares mais remotos, prontos a dotar seus alunos do dom maravilhoso da palavra. Por todos os lados, nos séculos 5 e 4 a.C., abriram-se escolas particulares, portanto pagas, onde se prometia tudo poder ensinar-se.

Desprezando a desconfiança do poeta Píndaro, o bardo da aristocracia, que duvidava ser o valor, a areté, passível de ser aprendido por quem não nascesse com ele, os mestres sofistas foram a luta. Não havia espaço público onde não se encontrasse um deles tentando seduzir seus possíveis alunos por meio de um panegírico ou de um epídeixeis, um discurso-demonstração, uma curta conferência onde, como um virtuose, desenvolvia seus talentos oratórios e argumentativos.

Ao jovem efebo era então oferecida a mais diversa gama de conhecimentos. Terminada sua escolaridade convencional, por volta dos 18 anos, ele podia alternar suas obrigações militares, determinadas pelas efebia, onde o adestravam nas artes militares por dois anos, com o aprendizado junto a um sofista.

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Na Atenas do século 5 a.C. ocorreu uma verdadeira explosão da palavra. Conforme a democracia enraizava-se mais e mais era preciso dela como um instrumento político e de afirmação da cidadania. O homem livre que não se envolve com as coisas públicas, que atendia apenas o seu interesse pessoal, era visto, como enfatizou Péricles num célebre discurso, como “um inútil”. Necessitava-se não só expressar-se bem, recorrendo à retórica, como apresentar sua demonstração de uma maneira racional e persuasiva, o que o obrigava a dominar os silogismos lógicos.

O tripé da cidadania
A gramática, a retórica e a lógica formavam o tripé da solidez do cidadão. Quem quisesse viver naquela sociedade tinha, obrigatoriamente, que delas se socorrer. E elas estavam à disposição graças aos sofistas e o seu objetivo era habilitar o jovem a tornar-se um cidadão dotado de arte política.

Mas discursos ocos ou verborrágicos não satisfaziam a ninguém. Era preciso ter uma cultura poética e literária: saber Homero profundamente, bem como Teógnis, Píndaro e os trágicos. Exigia-se ainda a frequência às conferências e às audições públicas dos grandes sábios. Eram célebres as promovidas por Protágoras, o maior dos sofistas, tido, até mesmo por Sócrates, como um dos homens mais cultos do seu tempo.

Mas o verdadeiro responsável pela ruptura definitiva da educação voltada para o gentil-homem dos tempos arcaicos, para uma cultura de escribas, com forte ênfase na abstração e na especulação, foi mesmo Sócrates. O velho sábio tecnicamente não se diferenciava dos demais sofistas. Ele também deambulava pelos locais públicos oferecendo sua inteligência cortante e fazendo largo uso de todos os truques da dialética para vencer um embate intelectual. Divergia deles, dos sofistas, na medida em que contestava o seu relativismo, buscando com tenacidade as coisas perenes, uma moral humana imutável, residente no mundo das formas, no tópos ouranos. Algo que não flutuasse ao sabor dos ventos e das modas, uma conceituação comum e imorredoura do que fosse o Belo, o Bem e o Justo.

Seu discípulo Platão não o seguiu num aspecto: não acreditava na difusão ampla da sabedoria junto à gente comum. Para ele, ela só poderia advir de um confinamento voluntário, da sua separação do iniciado do resto da sociedade. Nada de andar na ágora, tentando converter anônimos. O conhecimento, episteme, só era alcançável pelos homens cultos mantendo-os no alto, afastados, como uma acrópole em relação à cidade.

Daí ele terminar por fundar a Academia – um local específico, uma casa da ciência e da sabedoria – para que um seleto grupo pudesse privar da intimidade de um grande pensador e dele auferirem a essência das coisas, tratando de dar “atenção a seus próprios assuntos”, no sentido do auto-aprimoramento.

Crítico da democracia, Platão via-a como um espaço da licença e da desordem. Um regime que fazia com que os aspectos sensitivos, passionais e demagógicos tomassem de assalto os fortins da razão e da coragem, contribuindo para que tudo terminasse reduzido à confusão, à anarquia e à desobediência, e onde o “espírito de tolerância impera aqui sobre a justiça”. Provavelmente nunca se deu conta que também foi ela, a democracia, que mais promoveu a Palavra, entronizando-a como a nova divindade dirigente dos assuntos humanos. Deidade a qual, por sinal, ele foi um dos mais aplicados devotos.

Voltaire Schilling



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