A grandeza do Rei David

A grandeza do Rei David

Na obra Chovat HaLevavot (Deveres do Coração), de Rabi Pakuda, consta que “Às vezes, um pecado tem maior efeito sobre o indivíduo do que uma série de boas ações”. Imediatamente após a dura repreensão do profeta Nathan por ter tomado Bat Sheva como sua mulher e enviado Uriah à morte, o rei David admite seu grave erro. Ele não se justifica, apesar de ter argumentos em sua defesa, como outros fizeram. Em vez disso, segue a trilha do arrependimento que o leva a aniquilar o mau instinto que nele residia.

Seu erro o impulsionou a alcançar as Alturas. Mais ainda, conseguiu abrir as portas do arrependimento também a nós, seu povo.

Quando um judeu peca, quando se entrega à mercê de D’us, especialmente no Yom Kipur – ele encontra conforto na idéia de que mesmo um homem da estatura de David ha-Melech cometeu erros. Mas se arrependeu. E o confessou. E, por isso, foi perdoado.

Se os maiores homens mencionados na Torá, entre eles, Adão, Moshê e o Rei David, não tivessem errado, que esperança nos restaria, a nós?

Ninguém teve uma vida mais difícil do que David, desde que nasceu até o último de seus dias. Cresceu no ostracismo. Mesmo após vencer Golias e fielmente servir ao rei Saul, foi constantemente perseguido pelo monarca.

Quando este morreu, outros sete anos transcorreriam até que o povo aceitasse David como seu rei – ainda que tivesse sido ungido pelo profeta Samuel. E, enquanto Rei, enfrentou a violenta insubordinação do mais valente general de Israel, Yoav; o polêmico episódio que envolveu Bat Sheva; assassinatos, tragédias e revoltas no seio de sua família – e as punições Divinas que recaíram sobre ele.

Contudo, a despeito de tudo o que vivenciou, suas facetas de grandeza humana permaneceram inalteradas. Ao longo de sua vida, sua fé em D’us era completa e inabalável, por mais desestimulantes que fossem as circunstâncias. Incondicionalmente devotado a seu povo, mesmo como Rei, nunca hesitou em enfrentar perigo mortal para defender os seus.

Foi um valente guerreiro e um líder carismático, que alçou seu povo de uma humilhante derrota e do desespero nacional ao triunfo e à autoconfiança. E, quanto mais poderoso se tornava, mais humilde ficava. Reverenciava a D’us e à Sua Torá e aos Profetas. Estava aberto à repreensão, pronto a admitir seus erros. David veio ao mundo para ser, por todo o sempre, o mentor do arrependimento.

Os Salmos de David, que levam o selo indiscutível de um homem sobre quem D’us repousou a Sua Presença, constituem grande parte das orações da liturgia judaica e são recitados dia após dia, inclusive no Shabat e nas festas judaicas. Até hoje, como há milhares de anos, os Salmos têm revigorado o espírito dos seres humanos, inspirando e consolando não apenas o povo judeu, mas toda a humanidade.

Todos os atos do rei David foram em favor de D’us e de Israel. Sua devoção a nosso povo se reflete no último capítulo do segundo Livro de Samuel. O povo de Israel é punido com uma praga terrível, e o Rei que não consegue tolerar o sofrimento de seu povo, suplica a D’us: “Senhor, é fato que pequei… mas este Teu rebanho – que mal fizeram eles?” Em sua devoção a Israel, David aceitava qualquer culpa sobre si para evitar o sofrimento de Am Israel.

Sua vida, tão cheia de percalços, deve ser analisada à luz da História Judaica, que demonstra que D’us desejava que os eventos que levariam à vinda do Mashiach transcorressem em meio a dificuldades, para fazer ver ao homem que os grandes êxitos podem ocorrer mesmo em meio às mais insólitas e difíceis situações. Salta aos olhos o fato de os eventos que levaram ao nascimento do rei David e de sua dinastia – na verdade, o instrumento da Era Messiânica – somente terem sido possíveis através de uma cadeia de desafios e de milagres.

História

David, que tem em seu nome o significado de ‘querido’, ‘amado’, no idioma hebraico, é um dos mais significativos protagonistas do Livro Sagrado. Ele nasceu na cidade de Belém, na Judéia, filho caçula de Jessé, entre sete irmãos, integrante da tribo de Judá.

O futuro rei teve um papel de destaque na história dos judeus, vindo a simbolizar a união entre Deus e seu povo. Ele é retratado como um harpista que aparece na corte do Rei Saul e, mais tarde, em combate com os adversários do reino, liderados pelo feroz Golias, ele destrói o líder filisteu com o uso de uma funda.

Neste momento, ao instituir o poderio militar dos judeus, David é aclamado pelos hebreus, o que desperta os ciúmes de Saul, que planeja matar o guerreiro, mesmo depois de sua união com a filha do rei, Micol. O rapaz decide então se refugiar em outro local, aguardando o cumprimento dos desígnios divinos. Após a morte do soberano em um confronto, ao lado de seu filho Jônatas, David retorna e, eleito pelos membros de sua tribo, assume o comando de Judá, enquanto Isboset, descendente de Saul, torna-se responsável pelas outras tribos.

Houve uma disputa entre os dois herdeiros do Reino de Israel, da qual David saiu vitorioso. Os dois fizeram um acordo, no qual o rei exigia a devolução de sua esposa, com a qual ele concordou. Isboset morreu pouco tempo depois, atraiçoado por seus próprios comandados, mas foi vingado por David.

Esta e outras narrativas estão presentes nos livros I e II de Samuel, no Antigo Testamento, localizadas por volta de 1050 a.C. A história segue com a conquista de Jerusalém das mãos dos jebuseus, a qual se torna a capital do Reino Unido de Israel e núcleo espiritual deste povo, guardando em seu interior a Arca Sagrada.

David tem o mérito de converter a união de várias tribos em uma nação consolidada que gira em torno da nova sede. Diz a tradição que ele era um monarca amado pelo povo, e que seu nome é o mais citado nas Escrituras Sagradas. Ao que parece seus cabelos eram ruivos, ele tinha uma bela fisionomia e era muito amável.

Este soberano ampliou as terras israelitas e tornou sua nação próspera. Mas sua velhice foi perturbada por constantes insurreições lideradas por seus filhos e por intrigas familiares em sua corte. Detentor de uma cultura invejável, dedicado à poesia e à música, foi um dos criadores do Livro dos Salmos.

Seu primogênito, Absalão, tenta usurpar o trono paterno, mas é forçado a fugir e, a despeito das instruções de David, é assassinado por um de seus generais. Antes de sua morte ele entrega o poder a Salomão, seu filho com Betsabéia, viúva de Urias, um de seus comandados, eliminado por ordens indiretas do rei, que assim pode se unir oficialmente à amada. Infelizmente o futuro soberano provoca o princípio da queda de Israel.

Desta linha de descendência, como previsto no Antigo Testamento e também pelos judeus ortodoxos, provém o Messias, Jesus, por meio de José, que provém diretamente do antigo monarca. Atualmente os arqueólogos revelam ter encontrado sinais da existência concreta do Rei David.



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