Grande Oriente do Rio Grande do Sul – GORGS

Grande Oriente do Rio Grande do Sul – GORGS

Fonte: Jornal “O Continentino”
Edição História
Centenário do GORGS (1893 – 1993)

Antes de se tornarem visíveis no Rio Grande do Sul, os indícios da existência da maçonaria no Brasil surgem, primordialmente, em outros Estados, em outras Províncias, como se dizia então. É no Nordeste que vamos encontrar, embora muito envolvidas com patriotismo, ou seja, com a causa da independência do País, as primeiras marcas da atividade maçônica.

O ambiente de então não apresentava as condições que modernamente se vêem e que permitem o funcionamento de Lojas regulares sem serem molestadas, quer seja pelos poderes públicos, quer seja pelo clero intolerante de sempre.

Os movimentos maçônicos iam surgindo, tendo desde logo enfoque político, já que a independência do Brasil era um objetivo perseguido pelos homens mais evoluídos da época, sempre vivamente influenciados pelos relatos dos viajantes e estudantes que regressavam da Europa, continente em que as lutas libertárias estavam já em pleno andamento ou em preparação.

Constata-se assim o surgimento, na Bahia, em 1759, da Academia dos Renascidos e 1798 da Conjuração dos Alfaiates, além de várias outras.

Mas em outros Estados os movimentos também surgiam.

Em Pernambuco, na atual cidade de També, em 1776, o médico e botânico Manuel de Arruda Câmara, ao regressar de viagem de estudos na Europa, fundou o famoso Areópago de Itaimbé, uma sociedade secreta, com filosofia maçônica e que visava a mobilização dos brasileiros contra a tirania dos reis.

Enquanto isto, no Rio, em 1772 é fundada a “Scientífica do Rio de Janeiro”, com características e finalidades semelhantes.

Esses movimentos iam se fazendo sentir nos mais diversos lugares do País. Inspiravam-se preferentemente nos ideais republicanos, desfraldados vitoriosamente na França.

Embora muitos deles tenham sido dissolvidos, inclusive com uso de violência, a semente que representaram, plantada em condições altamente desfavoráveis, germinou, dando frutos no século seguinte, quando a independência e a democracia foram conquistadas.

Podemos falar de uma maçonaria regular no Brasil somente no ano de 1800, quando cinco maçons iniciados na Europa e que andavam dispersos se agruparam e fundaram uma Loja, a que deram o nome de União. Isto aconteceu no Rio de Janeiro, neste ano.

De lá para cá, a Ordem foi crescendo, muito embora lhe fossem impostas grandes adversidades. As condições ideais para um desenvolvimento pleno ainda estavam longe.

Exemplo bastante expressivo de percalços sofridos constitue a estada em nossas terras de Dom João VI. Este Rei português aqui aportou fugindo do avanço Napoleônico. Eis que, entre a nobreza que o acompanhava, havia considerável número de maçons. Isto, à primeira vista, parecia que seria altamente benéfico para a causa. No entanto o Monarca, um verdadeiro déspota, passou de imediato a suma severa perseguição, que durou todo tempo em que aqui esteve.

Com seu retorno, o crescimento das Lojas tomou novo impulso, a ponto de seus Obreiros influirem decisivamente nos grandes acontecimentos de 1822, quando a independência foi finalmente proclamada.

Desse significativo crescimento resultou a necessidade de fundação de Grande Oriente, com a finalidade de congregar as Lojas já existentes. Entre várias tentativas que foram feitas, surgiu em 24/06/1831, o Grande Oriente do Passeio, este de particular importância para as atividades no Rio Grande do Sul, já que, junto com ele, no mesmo ano, surgiu também a Maçonaria Riograndense, com a fundação da Loja Philantropia e Liberdade, em Porto Alegre.

Mas em 1883, depois de muitas marchas e contramarchas, o Grande Oriente do Brasil ficou como única Potência Maçônica no Brasil e a ele, praticamente todas as Lojas do Rio Grande do Sul se filiaram.

Sediado no Rio de Janeiro, o Grande Oriente do Brasil desde logo se viu a braços com queixas por mau atendimento, de parte das Lojas pelo Brasil afora, seja em conseqüência da dificuldade existente nas comunicações, dadas as distâncias, ou mesmo de desinteresse.

Era uma crise que se abria e que viria a ter profundas conseqüências, inclusive no Rio Grande do Sul.

No auge da insatisfação, em 1893 os Obreiros de São Paulo declararam a Independência da Maçonaria naquele Estado.

Deste importante acontecimento foi dado conhecimento, via telegrama, ao Ir. Múcio Teixeira em Porto Alegre, o que logo se entusiasmou pela idéia de procedimento idêntico no Rio Grande do Sul, onde as queixas generalizadas contra o Grande Oriente do Brasil não eram menores que em São Paulo. Obtendo desde logo o apoio dos IIr. Luiz Afonso de Azambuja e Maciel Sobrinho, juntamente com eles redigiu um manifesto, com data de 05/06/1893, para ser lido e debatido nas Lojas e no qual se defendia a independência da Maçonaria Gaúcha.

Este manifesto foi o ponto de partida para a criação do Grande Oriente do Rio Grande do Sul. Foi amplamante divulgado e debatido. Condenada por uns e apoiada por outros, a idéia separatista que pregava ia tendo cada vez mais adeptos. O movimento evoluiu até que foi possível, depois de muita atividade, realizar a histórica sessão de 14 de junho de 1893, na qual três Lojas da Capital se declararam formalmente favorável à emancipação, e que eram as seguintes, com suas respectivas diretorias:

Luz e Ordem: Ven. Luis Afonso de Azambuja; 1° Vig. Dr. João Plínio de Castro Menezes; Orador Dr. João Pereira Maciel Sobrinho e Múcio Acévola Lopes Teixeira.

Progresso da Humanidade: Ven. João Damasceno Ferreira; 1° Vig. Balduino Röhrig; 2° Vig. João Batista de Sampáio; Orador Fred. Augusto Gomes da Silva; Secret. Zeferino de Oliveira Viana.

Luz e Progresso: Ven. João Batista de Sampáio; 1° Vig. Balduino Röhrig; 2° Vig. Affonso Herbert; Orador Dr. Timóteo Pereira da Rosa; Secret. Prof. Henrique Emílio Mayer.

Não há dúvida de que havia Obreiros que eram contrários à separação. As Lojas do interior do Estado a idéia não era muito simpática. Esta circunstância exigiu muito esforço de parte da Grande Comissão Central para finalmente obter o apoio de sete Lojas, número mínimo exigido para a fundação de um Grande Oriente.

Obtido este apoio, marcou-se de imediato a realização de 02 (duas) reuniões: uma preparatória para o dia 10 de outubro de 1893 e a outra, já com a finalidade de instalação do Soberano Grande Oriente do Rio Grande do Sul, para o dia 14 daquele mês.

Estabelecidas estas datas, a Grande Comissão Central se auto-dissolveu, entendendo que sua tarefa estava concluída, conforme se deduz da leitura de sua prancha-circular que a seguir transcrevemos na integra. Seu conteúdo nos parece de alto valor para a compreensão da época e dos motivos do movimento:

Termina aí a série de trabalhos da Comissão Central que entendeu levar a efeito a separação da Maçonaria Rio Grandense do Grande Oriente do Rio de Janeiro, obedecendo a todos os preceitos da lei, afim de que a anarquia jamais pudesse se implantar no seio de uma Sublime Ordem. Temos a maior satisfação de afirmar que foi sempre calma, correta, firme e digna a atitude mantida por aqueles Irmãos que mais diretamente se salientaram no decurso da atual revolução Maçônica. São suficientemente conhecidos entre nós todos esses RResp. IIr., para que não nos dispensemos da enumeração de seus nomes, mesmo porque o involuntário esquecimento de alguém poderia ser interpretado de modo inconveniente.

Agora que se vai instalar o Grande Oriente do Rio Grande do Sul, convém que os esforços de todos os OObr. convirjam para a definitiva consolidação de uma obra tão gloriosamente levada a cabo e que se acha sem dúvida alguma destinada a produzir os mais salutares efeitos. Principalmente da Resp. e Pod. Ass. constituída pelas GGr. DDig. da Ord. e RResp. de todas as corporações Maçônicas dependem da vida, o futuro e a tranquilidade da família Maçônica Rio-Grandense, portanto é ela a competente para nos dotar com uma Const. própria e fechar o ciclo revolucionário tão eficazmente percorrido. Parece ser essa a preocupação primordial de uma corporação que traz consigo o caráter nato de uma verdadeira assembléia constituinte. Por essas palavras ficam consignados o nosso pensamento as nossas esperanças com relação ao primeiro passo que certamente terá que dar o Grande Oriente Rio-Grandense.

Seja-nos permitido ainda, para finalizar a presente exposição, declinar nos traços gerais uma preocupação não menos importante do que a primeira e que tem a necessidade de inspirar e absorver grande parte da inteligência, sentimento e atividades dos PPod. SSup. que ora se constituem.

Queremos refletir ao estado aflitivo em que se debate a pátria brasileira e com especialidade o Estado do Rio Grande do Sul. De há muito que temos diante dos olhos o quadro sombrio da revolução Rio-Grandense.

Divididos por opiniões e por solicitações pessoais, que neste momento não nos compete julgar, os individuos degladiam-se no solo da pátria como se fossem completamente estranhos uns aos outros, como se sangue inteiramente diferente circulasse em suas veias. A guerra civil por certo que é sempre a mesma por toda a parte, apresentado sempre os mesmos caracteres em todas as épocas históricas, a mesma perturbação profunda no íntimo consenso que distingue o organismo social. Propriedade, família, governo, instituições e costumes que representam a principal condição de existência da sociedades, isto é, a ordem, tudo se subverte, tudo sofre pela influência nefasta dessas discordias civis, freqüentes na vida das grandes nacionalidades como para recordar o fundo batalhador da nossa natureza; e os instintos pessoais do egoísmo, que a civilização ainda não conseguiu banir do coração humano. Pois bem, a Maçonaria Rio-Grandense, quando resolveu proclamar a sua independência, teve muito em vista, como um dos poderosos motivos que a solicitavam, a falta de um manifesto intento da humanidade e patriótica intervenção põe parte de uma instituição, como nenhuma outra, profundamente humana, amiga da ordem, da paz e do trabalho.

Agora que atingimos o nosso supremo objetivo, é ocasião de sanar aquela falta, pondo em campo todos os recursos compatíveis com a natureza da instituição, afim de consigo sempre trazer as impiedosas lutas instestinais.

Um templo Maçônico é o local de paz e de amor, onde só tem lugar as preocupações altruísticas, que é preciso cada vez mais excitar no coração do homem moderno. É portanto, sob o céu constelado que lhe decora o teto, em face dos símbolos do trabalho pacífico, que tanto enobrece a nossa existência, que todos devem se empenhar em minorar a profunda dor com que a grande alma Rio-Grandense contempla as suas ridentes campinas manchadas com o precioso sangue de seus filhos.

Terminando, temos a súbita honra de depositar nas mãos do Sap. Gr. Or. do Rio Grande do Sul, com a consciência tranqüila de quem cumpriu o seu dever, os poderes de que achamos revestidos por delegação do Povo Maçônico de Porto Alegre.

Traçado aos 14 dias do 8° mês do ano de 5893 da V.L. ao Val. de Porto Alegre.

Ass. Domingos José Ferreira Bastos, Gr. 33.; João Pereira Maciel Sobrinho, Gr. 33.; Affonso Herbert, Gr. 33.; Balduino Röhring, Gr. 33.; Múcio Teixeira, Gr. 33.; Joaquim Marques da Cunha, Gr. 33.

A sessão de 14 de outubro de 1893 realizou-se conforme estava programado. Dela resultou a primeira administração do Grande Oriente do Rio Grande do Sul, com a seguinte nominata:

Desembargador Antônio Antunes Ribas, Gr. 33.; Marechal Augusto Cezar da Silva, Gr. 33.; José Soares Júnior, Gr. 30.; Dr. José Carrilho de Revoredo Barros, Gr. 30.; Dr. Pedro Gonçalves Moacyr, Gr. 30.; Frederico Augusto Gomes da Silva, Gr. 30.; João Octávio Ferreira da Silva, Gr. 30.; Dr. Raymundo Caetano da Cunha, Gr. 30.; Evaristo Carvalho Júnior, Gr. 30.; Dr. João Pinto de Castro Menezes, Gr. 30; Joaquim José da Silva Filho, Gr. 30.; Antônio Pinto Gomes, Gr. 30.; Francisco Antônio Vieira Caldas Júnior, Gr. 30.; João de Oliveira Viana, Gr. 30.

Empossada a Diretoria, já no dia seguinte, dia 15, é expedido o seu Decreto n° 1, que transcrevemos na integra, considerando seu valor histórico:

            Á GL. do SUP. ARCH. DO Un.

Força, Concórdia e Justiça

Gr. Or. do Estado do Rio Grande do Sul

A todas as Off. MMaç. do Estado

S.S.S.

Decreto n° 1

Nós, Dr. Antônio Antunes Ribas, desembargador do Superior Tribunal do Estado, Gr. Mest. Gr. Com. da Or. Maç. do R. G. do Sul:

Fazemos saber a todas as OOff. e MMaç. do Estado, que em obediência a deliberação tomada em Sess. de Assemb. Ger. do Pov. Maç. da capital, realizada no Templo da Ben. Loj. Cap. Luz e Ordem e usando das atribuições que pela mesma Ass. nos foram conferidas:

DECRETAMOS

Artigo Único

A Maçonaria do Estado do Rio Grande do Sul fica independente do Gr. Or. do Rio de Janeiro, de acordo com o estatuido no art. 6° do Projeto aprovado pelo Povo Maçônico desta capital, em sessão de 30 de junho do corrente ano.

O Gr. Secr. Ger. da Ordem e encarregado da notificação e publicação do Presente Decreto.

Dado e traçado na Gr. Secret. Ger. Prov. do Gr. Or. do Estado do Rio Grande do Sul, aos 15 de outubro de 1893 E.V.

Antônio Antunes Ribas – Gr. Mest. Gr. Com. da Ord.

Frederico Augusto Gomes da Silva – Gr. Secr. Ger.

Dr. Raymundo Caetano da Cunha – Gr. Chanc.

Em seguida o novo Grande Oriente passou a trabalhar pela obtenção de filiações das Lojas do interior do Estado que, como já dissemos, não se mostravam muito favoráveis a isto. – Mas aos poucos tal foi acontecendo e a existência e o crescimento do Grande Oriente do Rio Grande do Sul era um fato inegável.

De imediato tratou-se de instalar a Assembléia Legislativa. A nominata dos seus primeiros Deputados é a seguinte:

Desembargador James de Oliveira Franco e Souza, Dr. João Damasceno Ferreira, Dr. Joaquim Marques da Cunha, Balduino Röhring, Dr. José Pereira Maciel Sobrinho, Dr. Plínio de Castro Casado, Desembargador Paulino Rodrigues Fernandes Chaves, Dr. Affonso Herbert, Antônio José Vieira Guimarães, Major Antônio Pinto Palmeiro da Fontoura, General José Joaquim de Andrade Neves, Ten. Coronel Domingos José Ferreira Bastos, Manoel de Vasconcellos, Major José Rodrigues de Lima, Alberto Bohrer.

Nos seus primeiros tempos, o GORGS teve um desenvolvimento notável, já que transcorridos apenas cinco anos vamos encontrá-lo com o expressivo número de 53 Lojas filiadas.

Mas, nesta altura dos acontecimentos, o Grande Oriente do Brasil, antes tão displicente com os assuntos pertinentes ao Sul, passou a interessar pelo aqui se passava. Visando recuperar o terreno perdido, promoveu a fundação de novas Lojas, que por sua vez iam se aninhando, sob sua obediência, ao lado das que já havia, sem vínculo com o GORGS.

Fatos como este explicam a existência ainda hoje de mais uma Potência Maçônica no Rio Grande do Sul.

Diga-se de passagem que muitas tentativas foram feitas pela unificação, que representa, sem dúvida, um anseio de grande maioria do Povo Maçônico. Esses esforços em alguns casos fracassaram e em outros tiveram resultados favoráveis, porém passageiros.

Contribuiram ainda, para o aparecimento de cisões, um sem número de interpretações diferenciadas de Leis e Ritos. Estas divisões foram surgindo pelo tempo afora, uma das mais breves e outras mais duradoras.

Na busca da concórdia, o GORGS em 1960 chegou a se reincorporar ao Grande Oriente do Brasil, mas desligou-se novamente em 1973.

Em meio a tudo isto, o GORGS continuou sempre progredindo, não se descuidando nunca na busca da realização de seus elevados objetivos. Cresceu e se desenvolveu muito. A construção do Palácio Maçônico, inaugurado no Grão-Mestrado Abade das Chagas, representa notável feito. E este prédio, que continua sendo a sede do GORGS, embora suas consideráveis dimensões, já se revela pequeno para as necessidades. Conseqüentemente, já se está cogitando da construção de sede mais moderna, atualizada aos novos tempos.

Também o número de Lojas dispondo de sede própria cresceu muito, tanto na Capital como no interior do Estado.

Multiplicou-se igualmente o número de Maçons e também o empenho do Grande Oriente do Rio Grande do Sul em oferecer a todos condições para a formação do verdadeiro Espírito Maçônico, hoje talvez mais do que nunca indispensável ao progresso, tanto do Estado do Rio Grande do Sul como até mesmo de nossa estremecida Pátria, o Brasil, uno e indestrutível, que todo maçom destes pagos traz em si, no âmago de seu coração.

http://www.gorgs.org.br/



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  1. Bom dia meu Ir.’.
    S.’.F.’.U.’. a todos os IIr.’. do GORGS.

    Sou filiado a A.’.R.’.L.’.S.’. ESPERANÇA & FÉ Nº 413, oriente de Taquari. Somos jurisdicionada ao GOB RS. Nossa loja foi fundada em 01 de março de 1883 é, em seu início foi filiada ao GOB. Depois de um certo tempo, filiou-se ao GORGS, acho que participou da estruturação do mesmo, uma vez ter sido uma oficina muito operante, era uma Loja Capitular. Temos a vaga idéia que a mesma abateu colunas por volta de 1919. Como podemos fazer se há documentação referente a este período.
    Obrigado

    Eduardo Wienandts.
    Oriente de Taquari
    999957639

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