Francisco de Assis Carvalho

Francisco de Assis Carvalho
Xico Trolha, por Hercole Spoladore

Sempre foi a própria imagem do Amigo dos Livros, quer os admirando, colecionando, lendo, ou quando escrevendo semeava palavras, frases, idéias, conceitos formando opiniões, trazendo esclarecimentos.

Seu Nome, FRANCISCO DE ASSIS CARVALHO, Nobre Cavalheiro, Paladino da Cultura Maçônica do Brasil. Evidentemente, um Maçom bem adiante de seu tempo.
Nasceu no dia 04.10.1934 no interior, na Fazenda do Banco, na Água do Macuco, situada no Município de Cândido Mota, próximo com a divisa do Município de Assis – Estado de São Paulo –Seu Pai, Antônio de Amador Bueno de Carvalho e sua Mãe Maria Aparecida de Jesus.
Nascido dentro de uma família simples teve uma infância semelhante à todo brasileiro que vive na roça, morando em “casas cobertas de sapé, piso de chão batido e paredes de pau a pique as vezes barreadas, as vezes não”.
Cursou o primeiro ano do curso primário em 1943 em Pântano, que seria depois Florínea cidade localizada próxima a Assis e também do Rio Paranapanema. Refere que como era tempo de guerra, neste ano só aprendeu marchar e cantar Hinos.
Em Abril de 1944 sua família mudou-se para o Norte do Paraná Indo morar em Jaguapitã. Ficaram neste local por um ano. Em 1945 seu pai comprou uma posse de um mineiro, que não se adaptara no Paraná e quis voltar para a sua Minas Gerais. Ainda menino, XICO trabalhou de Sol a Sol, ajudando o pai a abrir as suas terras derrubando as matas, capinando o mato e plantando as sementes de cereais e mudas de café. Quando houve o corte das terras pelos Agrônomos do Governo, coube legalmente à Família, trinta e três alqueires de chão da melhor qualidade das Terras paranaenses.
Mesmo trabalhando na lavoura, ele tentou estudar, mas depois de seis meses de aula, a sua professorinha mudou-se do local e XICO involuntariamente ficou afastado da escola, que ele haveria sempre de sonhar com ela, pois sempre foi curioso, e pautava nas dúvidas a alavanca do saber e por isso sempre desejou Se instruir a estudar, a desvendar os mistérios e as alegrias do conhecimento Humano, e os “porquês” das coisas como ele mesmo dizia.
Seu progenitor adoecera em 1950, mudando-se com a família novamente para Jaguapitã. O sitio foi vendido a preço baixo, para que se pudesse conseguir dinheiro para realizar um tratamento decente para seu velho pai.
XICO aprendeu o ofício e foi trabalhar como oficial de alfaiate, já que esta profissão não exigia um grau de escolaridade maior. E lá se passaram 15 anos neste trabalho. Em 1961, casou-se em Rolândia com a Sra. Maria Aparecida Bianco. Teve duas Filhas Evelise (Trolhinha) e Maria da Glória (adotiva).
Em 1964 fez o curso de Admissão, conseguindo entrar no curso ginasial. Neste mesmo ano foi preso em Rolândia, onde morava por participar de comando de uma greve de estudantes. Sempre se confessou esquerdista, dizia sempre até com certo orgulho, que era Ateu e que tinha uma inclinação muito grande para o comunismo.
Entretanto, eu, que o conhecia bem, acho que comunista que lê a Bíblia Sagrada, está mais para “padre frustrado” ou “pastor evangélico enrustido”, que propriamente para adepto de Marx, Engels e Lenin. Ele era possivelmente um deísta, que procurava obstinadamente as explicações para si, através das dúvidas existenciais que todos nós livres pensadores temos.
Talvez apenas se julgasse comunista como protesto contra esta humanidade cheia de desigualdade social, de egoísmo, de infâmia, de inveja, de ganância do poder, e de corrupção. Mas tenho certeza de que ele tinha o seu Deus dentro de sua consciência, bem dentro de seu coração. Ele era de qualquer forma irreligioso, mas respeitava as religiões.
Na cadeia conheceu um Maçom, José Barreto dos Santos que como ele também era da esquerda e que começou ali mesmo atrás das grades, a lhe falar Sobre Maçonaria, sendo convidado para entrar na Ordem. XICO ficou impressionado e ao mesmo tempo entusiasmado. Iria pensar no assunto. Acabou sendo iniciado em 1965 tendo como Padrinho, o companheiro de prisão.Em 1965 muda-se com a esposa e as filhas para Jandaia do Sul.
Sempre foi um pai que adorava suas filhas e um marido carinhoso. Sua esposa o chamava carinhosamente de “Fran” e ele a chamava de ‘Doca” e “Minha Cida”. E quanto à Evelise, a chamava de “Preta” ou “Bagulho”.
Esta forma irreverente de tratar as pessoas que ele mais amava era a sua maneira de mostrar o quanto ele as queria. Mesmo apelidando, brincando ele o fazia com carinho e amor e ternura. E ninguém achava ruim…Esse era o nosso Xico.
Em 1968 ele recomeçou a estudar, agora já com 34 anos de idade. Fez o Miniginásio, o Minicientífico e por fim a Faculdade de Ciências e Letras de Jandaia Do Sul. Formou-se em Dezembro de 1973 como Professor de Português-Inglês. Em Jandaia do Sul começou a explodir o seu gênio literário. Muito embora, teve uma vida difícil nesta cidade, trabalhando na SANBRA, Companhia ligada a compra e venda de café, trabalhou numa lotérica, montou uma fábrica de baterias, que não deu certo.
Entretanto, em meio a estas dificuldades foi aí que começou a despertar o seu lado cultural maçônico, sempre apoiado por verdadeiros Irmãos os quais sempre os agradeceu. Fundou em 1971 juntamente como Irmão Luciano Caetano de Souza, o Centro de Estudos Maçônicos Alécio José Gomes”.
Em 1976 mudou-se de cidade, foi trabalhar numa Usina de Cana de Açúcar em São Pedro do Ivaí nos Recursos Humanos da firma. Fez concurso para professor e foi aprovado. Dava aulas em João Pedro do Ivai e na cidade vizinha de São João do Ivaí. Ficou pouco tempo nesta cidade.
Em 1984 muda-se para Londrina, e cheio de sonhos, pretende levar avante a agora, Revista “A Trolha” em substituição a outonal “A Trolha” que era ainda mais um jornal que ao lê-lo, suas folhas caiam tal qual no outono caem às folhas das arvores. Expressão inventada pelo maçom e escritor José Castellani que viria a ser um dos seus maiores Amigos. A “Trolha” teve seu primeiro número editado em 10.04.1971. ainda em Jandaia do Sul. Em 04.10.1984 é fundada em Londrina a Editora “A Trolha”, juntamente com mais dois sócios.
Logo que chegou a Londrina, foi convidado por mim para pertencer à Loja de Pesquisas Maçônica “Brasil”, aceitou e chegou a ser seu Venerável por duas gestões. Ele foi o criador e grande estimulador dos 08 Encontros de Membros correspondentes da Loja, sendo estes encontros, o ponto inicial da união e identificação cultural de todos os escritores maçônicos do Brasil, nas duas últimas décadas.
Em Londrina, continuou com magistério, mas os afazeres com a Editora e a revista, lhe tomavam todo o tempo e em 1986, deixa de dar aulas. Sua vida maçônica foi frondosa e abrangente e podemos dizer que ele foi um verdadeiro Benfeitor da Maçonaria brasileira. Um dos maiores maçons da segunda metade do século XX e parte do XXI. Sem sombra de duvidas, o maior divulgador da cultura maçônica no Brasil até a presente data.
Era dotado de um fino humor crítico para as situações erradas que existem na Maçonaria atual. E não perdoava em suas palestras estes erros. Desmistificava lendas, procedimentos, invenções, “achismos” e costumes errados da Ordem. Não mandava dizer, dizia.
Usou uma editora e uma revista maçônicas, como meio de comunicação para unir todos os escritores e pensadores maçônicos das últimas décadas e os publicou. A Editora “A Trolha” conta atualmente com mais de 50 escritores publicados.
Iniciado em Rolândia no dia 27.11.1965 na Loja “Ciência e Trabalho” na cidade de Rolândia. Foi elevado ao grau 2 em 04.04.1966 na Loja “Estrela do Norte II” de Mandaguarí e a o grau 3 na mesma Loja em 25.11.1966. Tinha o grau 33 nos ritos REAA e Brasileiro.
Pertenceu a 36 Entidades Maçônicas, incluindo 14 Lojas como membro efetivo e 07 Academias Maçônicas de Letras. Ocupou 20 cargos em Lojas e Corpos Filosóficos. Ajudou a fundar 18 Entidades Maçônicas. Participou em cerca de 160 vezes de Congressos Seminários, Encontros, Medalhas, Diplomas, lançamento de seus livros. Incontáveis números de palestras foram proferidas em todo o Brasil. Não temos estatísticas a respeito de quantas palestras proferiu.
Foi Padrinho de 65 Irmãos na Maçonaria. Participou de 12 Comissões de Instalação de Mestre, e também de 12 Comissões de Sagração de Templos. Foi membro de 21 Entidades culturais, entre maçônicas e não maçônicas sendo a que ele mais se orgulhava era ser Membro Correspondente da Loja Quatuor Coronati de Londres, n° 2076.
Publicou em vida 30 livros sobre Maçonaria e existe material que ele deixou pronto para mais 23 livros, que sua filha Evelise (Trouxinha), também iniciada na Maçonaria Mista está organizando e editando aos poucos. Já foram vendidos 185.000 livros de sua autoria.
Existem três Bibliotecas Maçônicas com seu nome. A mais antiga é a do Grande Oriente Independente de Pernambuco, nome que foi dado pelo seu Grande Amigo e Irmão Antônio do Carmo Ferreira.
Existe uma Loja em Ponta-Porã com o nome Loja Maçônica “Francisco de Assis Carvalho”. Pertenceu ao Rotary Club de Jandaia do Sul e ao Rotary Club de Londrina Sudeste. Referiu em uma entrevista ao redator do Boletim do Rotary de Londrina, que em 1968 a 1971 foi redator do Boletim do Rotary de Jandaia do Sul e que começou a escrever e desde então não conseguiu mais parar.
Era um tremendo crítico dos costumes e hipocrisias mundanas, da política, enfim da sociedade de um modo geral. Citava especialmente a todo o momento, para os seus Amigos mais íntimos os conceitos cínicos de deboche nada convencionais de Pitigrilli (Dino Segre, escritor e jornalista italiano) aplicados à estas situações relacionadas com nossa sociedade supérflua. E ria gostosamente. Era um grande contador de piadas. Espírito alegre, brincalhão, e “gozador”. Conservou seu jeito brejeiro de intelectual fortemente apegado às raízes.
Xico gostava muito das crianças. Nos últimos anos, seu aniversário que era no dia 04 de Outubro sem que as crianças do imenso condomínio onde morava soubessem que ele estava aniversariando, ele comemorava o Dia das Crianças patrocinando uma linda festa reunindo 80 a 100 crianças, neste dia ele dizia ser um dos seus dias mais felizes da sua vida.
Sua grande paixão literária foi a poesia de um modo geral, mas em especial a de Castro Alves. Possuía em sua biblioteca profana cerca de 130 títulos de livros de diferentes autores, a respeito do grande vate patrício. Conhecia a fundo a vida e obra de um dos nossos maiores poetas. Declamava muitas das suas poesias com vibração, com perfeição, e com a alma. Xico, apesar de amar a poesia, nunca foi flagrado cometendo versos.
Grande declamador, tinha até o seu lado de ator quando declamava especialmente a pedidos de Irmãos, a “Sob a Luz do Lampião” poesia gaúchesca” de autoria do Irmão José Paim Brites que faz alusão simbólica a uma sessão maçônica transcorrendo num templo. Entretanto, onde ele colocava o maior sentimento chegando mesmo a ser teatral era quando fazia a saudação à Bandeira Nacional, aliás, o lindo texto era de sua autoria.
Vinha há algum tempo, decorando por sugestão minha, outra poesia “ A última rinha” escrita por um poeta riograndense que contava a história de um “galo prateado que peleou na rinha contra um galo colorado”. Ele a declamou em várias Lojas.
Sua Biblioteca entre livros sobre a Maçonaria e sobre cultura geral chegava aos 3.000 títulos em sua casa, e mais 1.000 livros maçônicos na Editora ”A Trolha”. Gostava muito de criar passarinhos chegando a ter 28 gaiolas em seu apartamento. As aves preferidas eram periquitos, jandaias e calapsitas.
Aconteceu que sua Biblioteca foi aumentando de tal forma que começou a faltar espaço no apartamento onde morava. Quando teve que decidir entre os pássaros e os livros, prevaleceu o pendor para os livros, pois ele era o maior Amigo dos livros que Londrina conheceu. Deu de presente, com o coração partido, todas as pequenas aves.
Gostava de música caipira, e ia verdadeiramente até as raízes. Conhecia tudo a respeito. Sabia como foram compostas as mais famosas músicas deste gênero e as suas motivações. Fazia palestras sobre o assunto.
Sua curiosidade e devoção na área era tal que foi até a cidade de Coromandel em Minas Gerais onde está enterrado o compositor Goiá, para visitar o seu túmulo. Esteve em Coxim no Mato Grosso do Sul para visitar a campa de Zacarias Mourão, debaixo de um pé de cedro. E esteve também em Itápolis-SP para ter o prazer de caminhar na Avenida José Fortuna. Estes foram compositores de músicas caipiras famosas.
Possuía em sua discoteca, 1500 CDs,1000 discos de vinil, e cerca de 300 fitas gravadas das músicas que mais gostava. Quem viajasse de carro com ele por este Brasil afora, onde ia proferir suas palestras, estava intimado a ouvir música caipira durante todo o trajeto da viagem. O Moura que era seu anjo da guarda nas viagens que o diga.
Foi Presidente da Confraria da Viola de Londrina, que se reúne todas segundasfeiras, sem jamais ter sido músico. Mas adorava a Música. A mais preciosa homenagem que esta Confraria lhe prestou foi ao invés de orações e rezas, sem pastores, sem padres, sem crucifixos quando seu corpo estava sendo velado no templo da Loja “Regeneração 3ª” de Londrina, cerca de 20 violeiros tocando suas violas, cantaram com o maior sentimento, tristeza e respeito a “Cabocla Teresa” e “Porta do Tempo”, como despedida.
Os jovens De Molay, nos quais sempre acreditou e incentivou, lhe prestaram também uma homenagem. Foi linda e triste.
Na sua doença, sabedor desde 1991 ano da sua cirurgia cardíaca, pois não lhe foi omitido nada a respeito, que não lhe restavam muitos anos de vida, ainda viveu mais 10 anos, tomou uma decisão heróica, própria de sua grandeza como Homem e como Maçom. Viveria maçonicamente cada minuto como se fosse uma hora inteira. E assim se suplantando, teve a fase mais prolífera de sua vida como escritor e palestrante. Modelo e parâmetro de vontade, dignidade e de auto-superação a ser seguido pelas gerações vindouras e também por nós.
Este é o exemplo que um Grande Maçom deixa para a posteridade, para todos os Irmãos, especialmente para os jovens que são a esperança da Maçonaria. Ele acreditava nesta verdade.
Tchau XICO, até qualquer dia, AMIGÃO.
Autor: HERCULE SPOLADORE

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VIDA MAÇÔNICA

1964 – Convite para ingressar na Maçonaria, pelo lrmão José Barreto dos Santos (falecido).

GRAUS SIMBÓLICOS
1965 – Iniciação em 27 de novembro – Loja “Ciência e Trabalho” – Oriente de Rolândia – PR.
1966 – Elevação ao Grau de Companheiro – em 4 de abril – Loja “Estrela do Norte II” – Oriente de Mandaguari – PR.
1966 – Exaltação a Mestre em 25 de novembro – Loja “Estrela do Norte II” – Oriente de Mandaguari – PR.

GRAUS FILOSÓFICOS
1968 – Grau 4 em 4 de maio – Cap. Regeneração III – Oriente de Londrina – PR.
1968 – Grau 9 em 5 de outubro – Cap. Regeneração III – Oriente de Londrina – PR.
1969 – Grau 14 em 3 de maio – Cap. Regeneração III – Oriente de Londrina – PR.
1969 – Grau 15 em 2 de outubro – Cap. Regeneração III – Oriente de Londrina – PR.
1970 – Grau 18 em 22 de novembro – Cap. Estrela de Arapongas – PR
1973 – Grau 19 em 26 de abril – Ilustre Cons. Kadosh – nº 13 – Londrina – PR.
1973 – Grau 22 em 26 de abril – Ilustre Cons. Kadosh – nº 13 – Londrina – PR.
1973 – Grau 25 em 11 de dezembro – Ilustre Cons. Kadosh Norte do Paraná – Filiado ao Supremo Cons. do Rio Grande do Sul – RS.
1973 – Grau 30 em 11 de dezembro – Ilustre Cons. Kadosh – Norte do Paraná – Oriente de Arapongas – PR.
1977 – Grau 31 em 2 de abril – Supremo Cons. Rio Grande do Sul – RS.
1979 – Grau 32 em 20 de abril – Supremo Cons. Rio Grande do Sul – RS.
1979 – Grau 33 em 20 de abril – Supremo Cons. Rio Grande do Sul – RS.

Tradicionalmente, a Maçonaria surgiu com as civilizações, e esteve presente na formação de quase todas elas, para instruir os homens nos princípios da construção social, construindo mentes sábias e personalidades...
Tradicionalmente, a Maçonaria surgiu com as civilizações, e esteve presente na formação de quase todas elas, para instruir os homens nos princípios da construção social, construindo mentes sábias e personalidades…


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