Forte Coimbra: Guerra do Paraguai

Forte Coimbra: Guerra do Paraguai

Ricardo Franco e o Batismo de Fogo do Forte

Mesmo com o forte incompleto, faltando as muralhas norte, os fundos do forte, Ricardo Franco apoiado por 49 militares e 60 civis, armados com 110 fuzis e 6 canhões, conseguiu, durante 9 dias – de 16 a 24 de setembro de 1801 – repelir um ataque feito por 4 goletas (embarcações com 2 mastros) com 12 canhões e 900 homens, da Fotilha de Dom Lazaro de Ribeira, governador de Assunção. Dom Lázaro, percebendo-se da superioridade que possuía, redigiu o seguinte ultimato ao inimigo:

“Ontem à tarde tive a honra de responder ao fogo que V.Sa. me dirigiu e, tendo observado naquelas circunstâncias que as forças com que imediatamente irei atacar esse forte, são muito superiores as de V.Sa., não posso deixar de fazer ver nesse momento, que os súditos de Sua Majestade Católica sabem respeitar as Leis do Humanismo, ainda que em plena guerra. Por isso, intimo à V.Sa. que se renda prontamente às Armas do Rei de quem sou súdito, pois do contrário o canhão e a espada decidirão a sorte de Coimbra, sofrendo sua infortunada guarnição as contingências da guerra, de cujos estragos se verá livre V.Sa. se concordar com minha proposta, respondendo-me dentro de uma hora. A bordo da Sumaca Nosso Senhora do Carmo, 17 de setembro de 1801 – De V.Sa., se atento e reverente servidor – Lázaro de Ribeira . Ao Senhor comandante de Forte Coimbra”.

Ricardo Franco respondeu prontamente à intimação:

“Tenho a honra de responder categoricamente a V.Exa. que a desigualdade de forças sempre foi um estímulo que animou os Portugueses, por isso mesmo a não desampararem os seus postos e a defendê-lo até as duas extremidades – ou de repelir o inimigo ou sepultar-se debaixo das ruínas do forte, que lhes confiaram. Nesta resolução se acham todos os defensores deste presídio, que têm a distinta honra de verem em frente a excelsa pessoa da V.Exa. a quem Deus guarde muitos anos. Coimbra, 17 de setembro de 1801 – Ilmo Sr. D. Lázaro de Ribeira – Ricardo Franco de Almeida Serra”.

Lázaro de Ribeira, que chegou certo de que rapidamente dominaria o forte, resolveu abandoná-lo e voltar à Assunção. Fato que muito contribuiu para isso foi o consumo excessivo de munição pelas suas tropas e impossibilidade de reabastecimento de suas provisões, que não chegavam devido às enchentes e não podiam ser conseguidas no local devido a não dominação do forte.

D. Ludovina, Nossa Senhora do Carmo e as 70 Mulheres

Em dezembro de 1864, por ocasião da Guerra do Paraguai, onde o Brasil participou fazendo parte da Tríplice Aliança, foi lançado um poderoso ataque contra Coimbra. Após aquela batalha, o forte passaria ao comando dos espanhóis por 3 anos, tendo sido posteriormente retomando através das ofensivas do Marquês de Caxias. Ao anoitecer do dia 26 de dezembro de 1864 foi avistado, próximo ao forte, poderosa esquadra, comandada pelo Coronel Vicente Bárrios, composta por 11 navios de guerra com 29 peças de artilharia de bordo e posição e 3200 homens. A guarnição brasileira era constituída de uma canhoneira – Anhambaí, com dois canhões – e aproximadamente 250 pessoas: 115 soldados, 40 civis, 18 presos, 70 mulheres e 10 índios guaicurus, numa inferioridade de 30 x 1. Quem assumiu o comando da resistência brasileira foi o Tenente-Coronel Hermenegildo de A. Portocarrero.

Na manhã do dia 27 de dezembro, Bárrios lança o ultimato clássico:

“…O Coronel Comandante da Divisão de Operações do Alto Portugal, em virtude das ordens expressas de seu governo, vem tomar posse do Forte sob seu comando, e querendo dar uma prova de moderação e humanidade, convida V.Sa. para que dentro de uma hora se renda, pois se assim não acontecer, e decorrido o prazo estipulado, ocasionará a posse à viva força, ficando a guarnição as leis do acaso…”

Porto carrero foi categórico:

“…tem a honra de declarar que, segundo os regulamentos e ordens que regem o Exército Brasileiro, a não ser por ordem de autoridade superior, a quem transmite neste momento cópia da nota que respondo – só pela sorte e honra das armas a entregará, assegurando a S.S. que os mesmos sentimentos de moderação que S.S. nutre, também nutre o abaixo assinado…”.

Ao meio dia do dia 27 de dezembro, iniciou-se o ataque ao forte. D. Ludovina – esposa do comandante – lideraria o apoio logístico aos defensores e a resistência moral e espiritual. No auge da luta, passou simbolicamente o comando do forte à Nossa Senhora do Carmo (a imagem foi doada por Ricardo Franco em 1798), depositando sobre seus pés a banda de seda vermelha do uniforme de seu marido. Na noite do dia 27 para 28, 70 mulheres – esposas dos militares e civis – sob sua liderança, manufaturaram, com o auxílio de buchas fabricadas inclusive com suas próprias roupas e pela adaptação de projéteis de maior calibre, 3500 balas de fuzil, munição consumida em dois dias de combate. Além disso, assumiram a função de prover alimentação e abastecer as posições, a fim de manter o maior número possível de soldados nas muralhas. Conta a história que, na tarde do segundo dia de batalha, D. Ludovina manda o soldado músico Verdeixas subir nas muralhas do forte e mostrar a imagem a todos gritando um viva à Padroeira da Guarnição:

“Viva Nossa Senhora do Carmo”.

O fato cala profundamente na sensibilidade também religiosa dos paraguaios. Abatem-se as armas e disputam agora Vivas à Nossa Senhora, de parte a parte. E os vivas de motivos religiosos passam a motivos cívicos e patrióticos, estrugindo os ares daquela tarde, com disputas de vivas e morras, entre brasileiros e paraguaios. Essa breve interrupção acalma o ímpeto do inimigo e reanima as esperanças de sobrevivência da guarnição. à Noite, decidem retirada estratégica, já que ficar ali era como pedir para serem dizimados: só tinham munição para mais algumas horas de combate. Deixam o forte com 206 baixas nas forças inimigas sem ter sofrido um único ferimento entre os membros da guarnição. A notícia da posse de Coimbra pelos paraguaios causa pânico em Corumbá. Toda a guarnição e população retira-se por terra e por água, tendo sido muitos alcançados e massacrados. A frente do cortejo de retirada, nas mãos de Carlota, filha do Comandante e D Ludovina, foi a imagem de N. Sa. do Carmo, posteriormente transferida para a canhoneira Anhambaí, atingido Corumbá e posteriormente Cuiabá, sem nenhum incidente.
Em 2 de agosto de 1874, após dois anos e meio de afastamento, a imagem retorna ao forte com expressivas homenagens civis, militares e religiosas ao longo do percurso.

Nixinica: Um dos Heróis Guaicurus

Em qualquer obra que se leia sobre Forte Coimbra ou a expansão e desbravamento do Brasil, na região do atual estado de Mato Grosso do Sul e regiões vizinhas próximas, pode-se ver fortes referências a ajuda dessa nação indígena. Apesar da hostilidade e inimizade inicial, após doze anos, os comandantes do forte conseguiram vencer esses obstáculos e tornarem-se amigos. O fizeram de tal forma que, além de unirem-se ao Brasil, afastaram-se radicalmente dos castelhanos. Inclusive policiando diversas regiões, evitando as ações castelhanas rio Paraguai acima, assaltando suas fazendas, trazendo informações, fazendo reconhecimentos e auxiliando em batalhas. Foi a ação de um guaicuru, Nixinica, que, em 1801, estando eventualmente em Concepción – Paraguai, aproximadamente 500 Km rio abaixo do forte, ficou sabendo que chegaria uma esquadra para atacar o forte. Pegou sua canoa e remou toda essa distância rio acima para avisar o comandante do forte – Ricardo Franco, na época – do que ele acabara de saber, auxiliando muito na sua preparação da defensiva.



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