Evolução do pensamento religioso no final do império

Evolução do pensamento religioso no final do império

 No começo do século II, Plutarco lamentava o esquecimento dos antigos oráculos da Grécia, situação que sem duvida refletia a perda de independência política dos estados gregos. Em Roma, o auge do estoicismo durante o século I for considerado uma mudança do interesse que, deixando de lado os cultos estatais, buscava um código de conduta moral derivado dos concertos de obrigação individual como parte da resposta de uma classe na época dominante (o Senado) a perda de sua influencia política sob o reinado dos imperadores.

Estes exemplos nos colocam no coração das importantíssimas mudanças religiosas produzidas no Império Romano durante os séculos II e III. Foram adotadas novas formas de devoção a cultura greco-oriental do Egito, da Judeia, da Seria e da Mesopotamia (o culto de isis e Osiris, o cristianismo, varias formas de gnosticismo e depois o mitraismo e o maniqueismo). Junto com alguns dos cultos místicos mais pessoais da Asia Menor, como os de Dionisio e da Grande Mãe da Frigia, tais formas parecem ter se tornado altamente populares. Ofereciam ao individuo grande variedade de atrativos: a esperança de salvação de sua alma e – em alguns casos – exóticos rituais de iniciação para os membros de uma minoria purificada, mitos alegóricos explicativos de ordem cósmica – como os do cristianismo – e uma definição do lugar do individuo no universo. Às vezes, com sua concepção da alma humana como originada de um reino divino e presa em um mundo hostil de matéria ou no campo de batalha entre o bem e o mal, ofereciam explicações do sofrimento e da maldade. Os antigos cultos públicos gregos e romanos não estavam interessados em nenhum destes assuntos.

A prevalência dos cultos esotéricos foi vinculada freqüentemente à crise do século III. Parecia natural supor que a crescente desordem e insegurança do mundo exterior tinham provocado a correspondente retirada dos indivíduos a uma vida interior. Possivelmente, além disso, o fracasso da religião tradicional em proteger o império impulsionou os homens a voltar sua atenção às religiões esotéricas mitológicas, à astrologia e, para uma proteção pessoal contra o infortúnio, às artes mágicas, que cresceram em popularidade (absoluta e relativa) no ultimo período romano.

Tais conclusões devem ser examinadas com grande senso critico. As provas, por serem circunstanciais e fragmentarias, não permitem nenhuma analise detalhada da incidência de tais crenças em um período em contraste com outro. O período final do Império Romano, por estar em geral mais abundante e diversamente documentado que os primeiros períodos, revela, naturalmente, muitos mais casos, por exemplo, do uso de praticas mágicas. Além disso, interpretações como as descritas estão fragilmente ligadas a uma concepção da sociedade do Baixo Império como uma etapa avançada de decadência diante do claro racionalismo da idade clássica; o final do império Seria uma idade menos “racional” e com atitudes e crenças mais supersticiosas. Tais impressões podem implicar a imposição de concertos racionalistas inapropriados e o fracasso na apreciação da complexidade religiosa da sociedade greco-romano anterior.

As praticas de magia e astrologia eram imemoráveis na sociedade antiga. As medidas governamentais contra as artes mágicas, junto com a expulsão dos astrólogos e “filósofos” de Roma, já eram freqüentes no século I, período em que foi construído um templo para Isis na área central da cidade. As fontes do século II estão cheias de referências a praticas mágicas, a atos realizados em resposta aos sonhos e a muitas outras atitudes que pareciam “irracionais”, mas que na opinião de seus praticantes eram eficazes. Os denominados “oráculos caldeus”, uma coleção de sentenças sobre a natureza do universo e de Deus, e sobre as técnicas de elevação da alma a Deus através do uso das artes mágicas, foram recopilados e circularam na época de Marco Aurélio. Além disso, se o misticismo esta tão rigorosamente ligado ao aumento da miséria no século III, fica difícil explicar a atitude do próprio Marco Aurélio, que se dirige angustiadamente a seu espírito nas Meditações, escritas nos prósperos dias da Idade de Ouro Antonina.

A teoria de que a popularidade das religiões esotéricas esteve vinculada a crise do século III encontra o obstáculo de que em muitos aspectos essenciais essa popularidade a precedia. Seria melhor associar este processo ao aumento da mobilidade dos homens e idéias no mundo mediterrâneo, sob as condições de paz completa criadas pelos novos imperadores romanos e como parte da unificação dos mundos latino, grego e médio oriental. Se havia uma resposta religiosa para a crise econômica e social da época, facilmente teria de tomar a forma de uma reafirmação dos valores tradicionais e da busca de outros novos. Essa foi a base da perseguição aos cristãos na época de Decio e Diocleciano, bem como aos maniqueistas por este ultimo.

Os imperadores não foram totalmente conservadores. Já haviam refletido muito sobre as crenças religiosas da época, associando-se a determinados deuses particulares sob cuja proteção viviam. Cômodo quis identificar-se com o herói-deus Hercules, ainda que isso implicasse certa excentricidade, como o caso de Heliogabalo, associando-se à pedra sagrada de Emesa. Desde meados do século III, e particularmente desde a época de Galieno, os imperadores auto-vinculavam-se ao “Sol invencível”, que era visto como seu “companheiro” familiar (comes Augusti). Aurélio estabeleceu um culto publico ao Sol em Roma e criou um novo colégio de sacerdotes para administrá-lo, que se manteve até o final do paganismo oficial de Estado. Diocleciano e Maximiano também se associaram ao Sol invencível, ao mesmo tempo que a Jupiter e a Hercules.

Esta tendência geral refletia a popularidade do culto solar na figura de Mitra dentro do exercito romano e às crenças religiosas contemporâneas em que o Sol era visto como divindade genérica suprema ou como símbolo dela, fonte de toda à vida física e da iluminação intelectual; dele dependiam totalmente os poderes dos deuses do panteão clássico, que eram seus agentes divinos.

As teses dos filósofos contemporâneos, em um sentido restrito, demonstravam as mesmas tendências como pensamento religioso em geral, dentro de sua preocupação com um conjunto de doutrinas situado na onipresente teologia derivada de Platão. Costuma-se destacar os aspectos religiosos do pensamento platônico, especialmente no que se refere à descida do espírito do reino divino das Idéias ao mundo da matéria e seu veemente desejo de retornar a Deus. Este “regresso da alma” teria de ser realizado por meio da contemplação racional ou através das técnicas mágicas ou “teurgicas” traçadas para o aproveitamento dos “símbolos” da divina presença no universo dos objetos físicos, nos números e nos feitiços e encantamentos mágicos. Estes pressupostos, puramente intelectuais, foram adotados por Plotino, fundador do que hoje é conhecido como neo-platonismo e que é uma sistematização do pensamento platônico em termos de uma hierarquia dos diferentes níveis do ser e da realidade, pela qual a alma tinha de abrir, através da contemplação, seu caminho de retorno ao “Uno” – o princípio Supremo do qual havia se originado. O seguidor mais importante de Plotino nesta concepção foi Porfirio, um sírio de Tiro. A alternativa, e em um sentido mais popular, o método de elevação da alma pela teurgica, recebeu o apoio da escola de outro sírio, Jamblico, cuja tradição teurgica passou no século V a escola neoplatônica ateniense de Siriano e Proclo.

Para todos estes filósofos, Platão não era só a influencia intelectual dominante, mas também o “divino mestre”, e eles eram considerados homens inspirados pela divindade. Seus propósitos iam além da tradicional filosofia clássica, já que procuravam ensinar e alcançar não a virtude nem a bondade, mas sim a perfeição. Como homens divinamente inspirados, eram considerados portadores de poderes especiais que os permitiam lutar contra a força da gravidade, fazer milagres, evocar os deuses e receber oráculos divinos. É necessário insistir no fato de que as origens de tal evolução devem ser procuradas pelo menos já na idade Antonina, em personagens como Apuleio e os “filósofos” taumaturgos satirizados por Lucano. Isso responde melhor a um desenvolvimento orgânico em toda a linha, devendo pouco ou nada à insegurança dos acontecimentos ao redor; pelo contrario, as origens do marcado individualismo que é observado em tais movimentos podem ser encontradas de modo mais satisfatório na comunidade e segurança de uma época pacífica e próspera, como a dos Antoninos.

004 – Fragmentos da história [Evolução do pensamento religioso no final do império]

(Império Romano) – Tim Cornell

 



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