Episódio de Cambaracê

Episódio de Cambaracê

A partir de Corumbá, conforme o Rio Paraguai vai descendo rumo à foz, as histórias de um grande conflito se tornam mais presentes. A Guerra do Paraguai começou há 150 anos. Em quase seis anos, morreram entre 50 e 60 mil brasileiros – ou nas batalhas ou de doença. Do lado paraguaio, os números são mais espantosos: 300 mil mortos.

Foi pelas águas do Rio Paraguai, na região de Corumbá, que começou a invasão paraguaia, em 1864. A guerra durou mais de cinco anos e se tornou o mais sangrento conflito entre países sul-americanos. De um lado estava a chamada tríplice aliança, formada por Brasil, Argentina e Uruguai. De outro, o Paraguai. O motivo central do conflito era a liberdade de navegação pelo Rio Paraguai.

Os paraguaios chegaram a Corumbá pelo rio e tomaram a cidade. A guarnição militar bateu em retirada e a população se escondeu onde pôde. O escritor Hildebrando Campestrini, presidente do Instituto Histórico do Mato Grosso do Sul e um estudioso deste conflito, explica: “Os paraguaios chegam, saqueiam tudo o que tem valor e mandam para Assunção. O que é de menos valor é distribuído entre eles. Os homens foram presos e mandados para o Paraguai e as mulheres sofreram todos os abusos de uma guerra”.

A cerca de 100 quilômetros de Corumbá, rio abaixo, fica o Forte Coimbra, erguido pelos portugueses em 1775. Ele foi invadido logo no começo da guerra e ficou em poder dos paraguaios por três anos. “A esquadra paraguaia se aproximou subindo o rio e a guarnição foi avisada, na verdade, por um indígena, que observara essas esquadras subindo o rio e a guarnição já se posicionou. O Brasil cedeu, porque eram 2300 homens contra 200 pessoas que havia aqui no forte. Quando terminada a munição e terminados os mantimentos, o comandante à época decidiu evacuar o forte para que não houvesse aqui um massacre”, explica o major Cavalcante, comandante do Forte Coimbra.

Em Mato Grosso do Sul, o Rio Paraguai só passa por dois municípios: Corumbá e Porto Murtinho, onde nas ruas da cidade estão casarões antigos, monumentos homenageando os índios que viviam na região e uma referência à natureza e ao tuiuiú, a ave símbolo do Pantanal.

No século XIX, a região viveu momento de riqueza levada pelo comércio da erva-mate, uma planta nativa. A exportação para a Europa e Estados Unidos era feita pelo porto Murtinho, no Rio Paraguai.

Com o declínio do comércio da erva-mate, outros produtos ganharam destaque, como o charque e o tanino, extraído de algumas espécies de árvores. O produto, usado no processo de curtimento de couro e na fabricação de tintas e roupas, era exportado principalmente para países da Ruropa. Atualmente, a maior fonte de renda do município é o turismo da pesca e de natureza.

“Cambaracê – negro que chora”, foi entalhado em uma árvore e o local foi eternizado como o palco da morte de uma centena de militares. Proprietário da fazenda que hoje abriga uma parte da história do Estado, Marcelo Monteiro de 52 anos, explica que a descoberta da importância do local na Guerra do Paraguai só ocorreu em 1998
“Cambaracê – negro que chora”, foi entalhado em uma árvore e o local foi eternizado como o palco da morte de uma centena de militares.
Proprietário da fazenda que hoje abriga uma parte da história do Estado, Marcelo Monteiro de 52 anos, explica que a descoberta da importância do local na Guerra do Paraguai só ocorreu em 1998

Em Bela Vista, no Mato Grosso do Sul, está o Rio Apa, o último afluente do Rio Paraguai em terras brasileiras. Foi na outra margem do rio, já é solo paraguaio, que começou a ação militar do Brasil contra a invasão de Mato Grosso. Uma coluna do exército brasileiro atravessou o Apa e foi atacar Laguna.

O resultado dessa invasão foi um desastre e, pelo menos, 2300 brasileiros morreram na fuga, de fome, de cólera ou abatidos pelo inimigo. “A retirada da Laguna teve um objetivo simbólico muito importante: invadir em retorno um país que nos tinha invadido. Teve também um objetivo logístico, já que eles tinham notícias de que no retiro de uma fazenda próxima havia uma grande quantidade de gado, que era o alimento consumido naquela época”, explica o coronel Francisco Mineiro, estudioso da história militar.

A coluna chegou ao Paraguai com 1680 combatentes, embora arrastasse, como era comum naquela época, cerca de cinco mil pessoas entre os familiares dos militares, negociantes, mascates, fornecedores, ferreiros e mulheres, as chamadas vivandeiras, que prestavam todo tipo de serviço para os militares e eram remuneradas por isso.

“A invasão não deu certo porque à medida que a coluna camisão se aproximava, os paraguaios retiraram todo o gado mais para o lado de Conceição e a tropa ficou sem alimentação”, relata o historiador Hildebrando Campestrini.

No lugar chamado de Cambaracê, aconteceu um dos episódios mais tenebrosos da guerra do Paraguai. A coluna do exército brasileiro que invadiu o país e foi até Laguna teve que bater em retirada. Perseguida por soldados inimigos, a tropa, para andar mais rápido, abandonou no local mais de 100 doentes e feridos, que foram mortos pelos paraguaios a facão. Entre os abandonados, não havia nenhum oficial, só praças. Suspeita-se que a maioria era de negros, daí a expressão paraguaia, Cambaracê, que quer dizer: lugar onde o negro chorou.

O episódio produziu um herói diferente na guerra do Paraguai. Deixado para morrer em Cambaracê, um mineiro se amoitou entre os corpos dos companheiros e escapou. O cabo Calixto Medeiros tinha recebido um tiro na cabeça e não se sabe se ele estava com cólera.

O sobrevivente esperou, escondido entre os mortos, que os paraguaios fossem dormir e, engatinhando, foi até uma árvore onde estava amarrado um cavalo paraguaio, montou e saiu passo a passo. “Ele tinha o espírito de guerra, um patriota, tanto é que ele incorporou-se novamente à coluna, alcançou a coluna e continuou participando da guerra”, explica o jornalista e historiador Pedro Popó.



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