Disputa por Cuiabá causou massacre

Disputa por Cuiabá causou massacre

No século 19, grupo de brasileiros matou centenas de portugueses

Anselmo Carvalho Pinto

Era meia-noite de 30 de maio de 1834 quando Cuiabá foi tomada pelo som de cornetas e tiros de arcabuzes. Saindo do Campo do Ourique, no centro da capital de Mato Grosso, 80 homens começaram a invadir e saquear casas. A ordem era matar os portugueses e arrancar suas orelhas como troféu.

Ao amanhecer, centenas de pessoas estavam mortas. A rebelião ficou conhecida como Rusga. “O movimento se expandiu pelas redondezas”, diz a historiadora Elizabeth Siqueira, autora de História de Mato Grosso.

O massacre foi motivado pela mudança no comando do país, três anos antes. Em 1831, dom Pedro I (1798-1834) voltou para Portugal e deixou o filho, de 6 anos.

Até que dom Pedro II (1825-1891) alcançasse a maioridade, o Brasil seria comandado por regentes. A situação inspirou conflitos em vários locais. Cuiabá se dividiu entre liberais brasileiros e portugueses conservadores. O levante liberal foi bem-sucedido. O grupo permaneceria no governo até 1842, quando começou um período de alternância de poder.

Assassinato sem culpado
Morte do presidente da província é mistério

Pouco antes da Rusga, a Regência quis impedir que os liberais pegassem em armas. Para isso, assumiu a presidência da província João Poupino Caldas. Liberal moderado, ele tentou barrar a rebelião, sem sucesso. Em setembro de 1834, foi afastado.

O novo gestor, Antônio Pedro de Alencastro, prendeu e processou os líderes do motim (leia ao lado). Mas foi seu antecessor, Poupino, quem assinou o processo contra os colegas de partido. Em 1836, ele decidiu deixar Cuiabá. No dia da despedida, foi morto pelas costas com uma bala de prata. O autor do disparo nunca foi encontrado. Pouco depois, começou a circular na cidade uma quadrinha anônima: “No dia nove de maio/ Depois da Ave Maria/ Matei Coronel Poupino/ Fiz tudo o que queria”.

Líderes inocentados
Nenhum deles foi para a cadeia

Pascoal Domingues de Miranda
Juiz de direito. Julgado no Rio de Janeiro, foi considerado inocente e se estabeleceu na cidade.

José Alves Ribeiro
Fazendeiro próspero da região, também foi inocentado no Rio. Depois, voltou para Cuiabá.

Caetano Xavier da Silva Pereira
Major da Guarda Nacional, liderou os revoltosos e acabou julgado inocente.



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