Dioníso: A taça mística

Dioníso: A taça mística 

A taça mística – Segundo Creuzer, a taça, que é o atributo de Dioníso, tinha um significado místico. “A alma, sorvendo-a, embriaga-se, esquece a sua natureza superior, não pensa mais senão em unir-se ao corpo pelo nascimento, e segue a estrada que deve conduzi-la à sua morada terrena. Felizmente, ali encontra outra taça, a da sabedoria, onde pode beber, onde pode curar-se da sua primeira embriaguez, onde recobra a lembrança da sua origem e, com ela, o desejo de regresso à morada celeste.

Vemos, algumas vezes, em baixos-relevos, Dioníso barbudo, figurado em hermas, na companhia de crianças que preparam a cuba. Umas saboreiam o vinho, ou nele mergulham as mãos; outras querem imergir inteiramente no vinho ou já cambaleiam, sob a ação do licor dionisiaco.

Noutros monumentos, vemos velhos sátiros, antigos companheiros de Dioníso pisar aos pés as uvas para fazerem o licor embriagador, enquanto um dos seus companheiros espreme com os dedos o suco de uma uva num vaso.

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As festas de Dioníso – Alguns monumentos se baseiam nas festas de Dioníso, que eram, como as de Demeter, destinadas a agradecer aos deuses os benefícios da terra. Os ritos observados durante a procissão se prendiam à lenda do deus. Numeroso bando de meninos, coroados de heras e segurando pâmpanos, corria e dançava diante da imagem do deus, colocado num berço de pâmpanos e circundado de máscaras trágicas e cômicas. Em torno, traziam-se vasos, tirsos, grinaldas, tambores, faixas, e, atrás do carro, vinham os autores, os poetas, os cantores, os músicos de toda espécie, os dançarinos, todos os que, no exercício da sua arte, precisam de inspiração, cuja fonte era considerado o vinho. Quando a procissão chegava ao fim, começavam as representa-ções teatrais e os combates literários em honra de Dioníso, cujas festas sempre se realizavam no outono.

Essas festas revestiram-se, aliás, de caráter bastante diferente, segundo os países e as localidades em que se celebraram. Parece que em Roma, deram lugar a cenas de desenfreada licenciosidade, e foram até seguidas de assassínios, pois o senado se viu obrigado a aboli-las; mas como os iniciados nos mistérios de Dioníso eram ao mesmo tempo acusados de formar uma associação secreta, de caráter político, é difícil conhecer exatamente a verdade sobre essa misteriosa questão. Na Grécia, as festas de Dioníso tinham originariamente um caráter exclusivamente campestre. “Outrora diz Plutarco, celebravam-se as festas de Dioníso com formas simples, que não excluíam a alegria: trazia-se à cabeça uma bilha cheia de vinho e coroada de pâmpanos; depois vinha um bode sustentando um cesto de figos, e finalmente o falo, símbolo da fertilidade; mas tudo isso caiu em desuso e foi esquecido.”

Um luxo desenfreado acompanhou mais tarde as festas de Dioníso, que em várias cidades, e notadamente em Alexandria, se celebravam com a maior magnificência. Ateneu nos legou uma curiosa descrição da grande procissão dionisíaca, que se realizou nesta última cidade, sob o reinado de Ptolomeu Filometor.

“A divisão dionisíaca era precedida de silenos, uns cobertos de mantos de púrpura escura, outros de mantos de púrpura clara. Eram seguidos de sátiros trazendo archotes de folhas de hera, de ouro.

“Depois deles, surgiam Vitórias tendo asas de ouro. Traziam elas fogões para a queima de perfumes, com seis cúbitos, ornados de ramos dourados de hera. Essas Vitórias tinham túnicas cujos tecidos representavam diversas figuras de animais, e estavam ornadas do mais luxuoso atavio de ouro.

“Seguia-se-lhes um altar duplo, de seis cúbitos, guarnecido de uma folhagem de hera, de ouro, e em torno do qual corria uma grinalda de pâmpano de ouro, presa com faixas de uma mistura branca. Atrás, vinham cento e vinte meninos, cobertos de túnicas de púrpura, trazendo incenso, mirra e açafrão em bacias de ouro. Depois, avançavam quarenta sátiros cingidos de coroas de hera feitas de duro. Seguravam com a mão outra coroa igualmente de ouro. Tinham o corpo pintado de púrpura e de outras cores: dois silenos, de clâmides de cor de púrpura, traziam calçados brancos. Um deles trazia um chapéu e um pequeno caduceu de ouro, o outro segurava um clarim. Entre eles marchava um homem de quatro cúbitos de altura, em vestes de ator trágico com uma máscara e uma cornucópia de ouro.

“Atrás deles, vinha uma mulher de belíssimo porte, ricamente ornada de ouro e prata: com uma das mãos trazia uma coroa de perses, com a outra uma palma. Depois dela, vinham as quatro Estações, bem ornadas, trazendo cada uma os frutos que lhe são próprios: seguia-se-lhes, carregado, um altar de ouro. Passaram, então, outros sátiros coroados de hera de ouro e vestidos de púrpura. Traziam um vaso de ouro para vinho. O poeta Filisco, sacerdote de Dioníso, e todas as pessoas ligadas, pela sua profissão, ao culto desse deus, vinham depois Em seguida, traziam-se os tripés análogos ao de Delfos, prêmios destinados aos atletas. O que estava reservado aos adolescentes tinha nove cúbitos de altura, e o que se destinava aos homens feitos tinha doze”.

“Veio depois um carro de quatro rodas, puxado por cento e oitenta homens, trazendo uma estátua de Dioníso, a fazer uma libação com uma taça de ouro. Tinha esse Dioníso uma túnica rastejante e por cima dela um manto de tecido transparente, e outra veste de púrpura bordada de ouro”.

“No carro. e diante de Dioníso, havia uma cratera da Lacônia, um tripé e taças de ouro. Formara-se, em torno dele, um berço com pâmpanos, hera, e outras folhagens. donde pendiam coroas, grinaldas, tirsos, tambores, faixas. máscaras trágicas, cômicas e satíricas. No carro viajavam também os sacerdotes, as sacerdotisas e as mulheres que traziam os crivos. Passaram, em seguida, as lídias, de cabelos esparsos, e coroadas umas com serpentes, outras com teixos, vinhas e heras; empunhavam estas punhais, aquelas serpentes”.

“Depois delas, vinha outro carro de quatro rodas, com uma largura de oito cúbitos, puxado por sessenta homens e trazendo, sentada, a figura de Nisa, revestida de uma túnica amarela bordada de ouro e de um sobretudo da Lacônia. A figura levantava-se artificialmente, sem que ninguém a tocasse: vertia leite de uma taça e tornava a sentar-se. Segurava com a mão esquerda um tirso, em torno do qual estavam enroladas umas faixas. A testa achava-se coroada de hera e de uvas de ouro, enriquecidas de pedras preciosas. Sombreava-a também uma folhagem. Nos quatro cantos do carro haviam sido colocados archotes de ouro”.

“Em seguida, foi a vez de outro carro de vinte cúbitos, puxado por trezentos homens. Havia-se construído nele um lagar cheio de uvas. Sessenta sátiros pisavam-nas, cantando ao som da flauta a canção do espremedor. Sileno presidia a tudo e o vinho doce corria ao longo do caminho”.

“Esse carro era seguido de outro puxado por sessenta homens, trazendo um odre feito de pele de leopardo. Era acompanhado de cento e vinte sátiros e silenos, todos coroados e empunhando vasos e taças de ouro. Ao lado, via-se imensa cratera de prata ornada de animais esculpidos em relevo e rodeada de um cordão de ouro enriquecido por pedras preciosas. Depois vinham dez grandes bacias e dezesseis crateras de prata, uma grande mesa de prata de doze cúbitos e outras trinta de seis cúbitos, quatro tripés um dos quais de prata maciça, e os demais enriquecidos de pedras preciosas, vinte e seis urnas, dezesseis ânforas semelhantes às das Panatenéias e cento e sessenta vasos para refrescar o vinho. Todo esse vasilhame era de prata ; o de ouro seguia-se: em primeiro lugar quatro crateras com belas figuras em relevo, grandes tripés e um bufê enriquecido de pedras preciosas. cálices, urnas e um altar”.

“Mil e seiscentos meninos vinham depois, vestidos de túnicas alvas e coroados de hera ou de folhas de pinheiro. Traziam taças de ouro e prata: os vinhos tinham sido preparados de maneira que os que se achavam presentes no estádio pudessem apreciar-lhe a doçura. Em seguida, aparecia um carro contendo o leito de Semele, seguido de outro carro, representando uma gruta profunda coberta de hera e rodeada de ninfas coroadas de ouro. Jorravam daí duas fontes, uma de leite, outra de vinho, e do alto saíam pombas e rolas, com fitas presas às patinhas, de maneira que, tentando voar, pudessem ser agarradas pelos espectadores”.

“A seguir, vimos a representação de Dioníso no seu regresso da Índia. O deus, sentado num elefante, estava vestido de um manto de púrpura, coroado de hera, e segurando na mão um tirso de ouro. Na sua frente, e sobre o pescoço do elefante, estava um satirozinho coroado de ramos de pinheiro. Quinhentas jovens vestidas de túnicas de púrpura e com a cabeça coroada de folhas de pinheiro, caminhavam após dele e eram, por sua vez, seguidas de cento e vinte sátiros armados. Cinco grupos de burros montados por silenos e sátiros coroados eram seguidos de vinte e quatro carros puxados por elefantes”.

Havia. depois, sessenta carros puxados, cada um, por dois bodes, oito atrelagens de dois avestruzes, sete de cervos, e todos os carros estavam montados por meninos trazendo um tirso e cobertos de vestes de tecido de ouro. Os carros puxados por camelos, que se seguiam, vinham em fileiras de três e estavam seguidos por outros puxados por burricos e trazendo as tendas das nações estrangeiras. Acompanhavam-nos mulheres índias, na qualidade de cativas. seguidas dos etíopes que traziam os presentes, seiscentos dentes de elefante, dois mil troncos de ébano, e sessenta crateras de ouro e prata. Depois, surgiam dois caçadores, trazendo lanças de ouro, os quais abriam uma marcha de dos mil e quatrocentos cães da Índia ou da Hircânia, conduzidos por cento e cinqüenta homens trazendo árvores das quais pendiam todas as espécies de animais selvagens e aves: em gaiolas, viam-se papagaios, pavões, galinhas de Angola, faisões e inúmeras outras aves da Etiópia.

“Vinham depois os bandos de animais, entre os quais se notavam cento e trinta carneiros da Etiópia, trezentos da Arábia, vinte e seis bois brancos da Índia, oito da Etiópia, um grande urso branco, catorze leopardos, dezesseis panteras, quatro linces, três ursozinhos, uma girafa, um rinoceronte da Etiópia”.

“Finalmente, num carro de quatro rodas, vinha Dioníso, representado no momento em que se salvou no altar de Reia, quando estava sendo perseguido por Hera. Príapo estava ao seu lado. Esse carro era seguido de mulheres ricamente vestidas e magnificamente ornadas, as quais personificavam as cidades gregas das costas da Ásia e traziam, todas, coroas de ouro.”

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Referencia Bibliografica

BRANDÃO, Junito de Souza. Mitologia Grega Vol. II. Petrópolis, Vozes, 2004;

MÉNARD, Réne. Mitologia Greco-Romana Vol.III. Opus, São Paulo, 1991.



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