Dioníso: Os deuses

Dioníso: Os deuses

O primeiro Dionisio – Um deus importado não penetra na Grécia sem um batismo de ordem mítica. Consoante o sincretismo órfico-dionisíaco, dos amores de Zeus e Perséfone nasceu o primeiro Dionisio, chamado mais comumente de Zagreu. Preferido do pai dos deuses e dos homens, estava destinado a sucedê-lo no governo do mundo, mas o destino decidiu o contrário. Para proteger o filho dos ciúmes de sua esposa Hera, Zeus confiou-o aos cuidados de Apolo e dos Curetes, que o esconderam nas florestas do Parnaso. Hera, mesmo assim, descobriu o paradeiro do jovem deus e encarregou os Titãs de raptá-lo e matá-lo.

Com o rosto polvilhado de gesso, a fim de não se darem a conhecer, os Titãs atraíram o pequenino Zagreu com brinquedos místicos: ossinhos, pião, carrapeta, “crepundia” e espelho. De posse do filho de Zeus, os enviados de Hera fizeram-no em pedaços; cozinharam-lhe as carnes num caldeirão e as devoraram. Zeus fulminou os Titãs e de suas cinzas nasceram os homens, o que explica no ser humano os dois lados: o bem e o mal. A nossa parte titânica é a matriz do mal, mas, como os Titãs haviam devorado a Dionisio, a este se deve o que existe de bom em cada um de nós. Na “atração, morte e cozimento” de Zagreu há vários indícios de ritos iniciáticos. Diga-se logo, que, sendo um deus, Dionisio propriamente não morre, pois que o mesmo renasce do próprio coração. A morte, desse modo, não afeta a imortalidade do filho de Zeus, onde provém, certamente, sua identificação com Osíris o “morto imortal” e com o imortal deus da morte, Plutão. Destarte, a “morte” de Dionisio nada mais é que uma Catábase seguida, de Imediato, de uma anábase.

De saída, cobrir o rosto com pó de gesso ou com cinzas é um rito arcaico de iniciação: os neófitos, como assinala Mircea Eliade, cobriam as faces com pó de gesso ou cinza para se assemelharem aos eídola, aos fantasmas, o que traduz a morte ritual. Em Atenas, durante os mistérios de Sabázio, “este outro Dionisio”, um dos ritos iniciáticos consistia em aspergir os neófitos com pó ou com gesso. Demóstenes (384-322 a.e.c.), o maior orador da Hélade, em seu universalmente famoso discurso, A Oração da Coroa, 259, desdenha de seu adversário Ésquines, afirmando que o mesmo, para ajudar a mãe, que se ocupava de magia, ungia os iniciados com argila e farelo. Diga-se, aliás, de passagem, que por etimologia popular, se associou (titanos), “gesso”, com (Titânes), “Titãs”, o que de qualquer forma patenteia o complexo místico-ritual.

Quanto aos brinquedos, que são verdadeiros símbolos de iniciação, demarcando a idade infantil, por oposição aos sofrimentos da adolescência, que àquela se seguem, são atestados em muitas culturas. As crepundia, quer dizer, argolas de marfim ou pequenos chocalhos, que se colocavam no pescoço das crianças, os ossinhos e o pião tinham um sentido preciso: não existe teleté, isto é, cerimônia de iniciação, sem “determinados ruídos”. Um deus se atraía e se atrai com flauta e tambores. Acrescente-se também que crepundia e ossinhos possuíam um decisivo poder apotropaico, pois repeliam influências malignas e demoníacas. Lúcio Apuleio, nascido por volta de 125 d.e.c., que foi um verdadeiro colecionador de iniciações no segundo século de nossa era e que se vangloriava de ser iniciado nos mistérios de Dionisio, fala de objetos misteriosos, usados por iniciados: a esses objetos o escritor dá o nome de crepundia. O espelho, a partir do qual, especulando, vemos o que somos e o que não somos, objeto muito comum em ritos iniciáticos, tem, entre muitas finalidades que se lhe atribuem, a de captar com a imagem, que nele se reflete, a alma do refletido. Olhando-se no espelho, Zagreu tornou-se presa fácil dos Titãs.

O Segundo Dionisio – Zagreu voltou à vida. Atena, outros dizem que Deméter, salvou-lhe o coração que ainda palpitava. Engolindo-o, a princesa tebana Sêmele tornou-se grávida do segundo Dionisio. O mito possui muitas variantes, principalmente aquela segundo a qual fora Zeus quem engolira o coração do filho, antes de fecundar Sêmele. A respeito de Sêmele diga-se logo que se trata de uma avatar de uma Grande Mãe, que, decaída, porque substituída em função de grandes sincretismos operados no seio da religião grega, se tornou uma simples princesa tebana, irmã de Agave, Ino e Autônoe, todas filhas do legendário herói do ciclo tebano, Cadmo, e de Harmonia.

A Etimologia de (Seméle), Semelô, frígio (dzemelô), postulada por P. Kretschmer, com oriunda do traco-frígio, com o significado de “terra”, é hoje normalmente aceita.

Tendo pois, engolido o coração de Zagreu ou fecundada por Zeus, Sêmele ficou grávida do Segundo Dionisio, Hera, no entanto, estava vigilante. Ao ter conhecimento das relações amorosas de Sêmele com o esposo, resolveu eliminá-la. Transformando-se na ama da princesa tebana, aconselhou-a a pedir ao amante que se lhe apresentasse em todo o seu esplendor. O deus advertiu a Sêmele de que semelhante pedido lhe seria funesto, uma vez que um mortal, revestido de matéria, não tem estrutura para suportar a epifania de um deus imortal. Mas, como havia jurado pelas águas do rio Estige jamais contrariar-lhe os desejos, Zeus apresentou-se-lhe com seus raios e trovões. O palácio da princesa se incendiou e esta morreu carbonizada. O feto, o futuro Dionisio, foi salvo por gesto dramático do pai dos deuses e dos homens: Zeus recolheu apressadamente do ventre da amante o fruto inacabado de seus amores e colocou-o em sua coxa, até que se completasse a gestação normal. Tão logo nasceu o filho de Zeus, Hermes, o recolheu e levou-o, às escondidas, para a corte de Átamas, rei beócio de Queronéia, casado com a irmã de Sêmele, Ino, a quem o menino foi entregue. Irritada com a acolhida ao filho adulterino do esposo, hera enlouqueceu o casal. Ino lançou seu filho caçula, Melicertes, num caldeirão de água fervendo, enquanto Átamas, com um venábulo, matava o mais velho, Learco, tendo-o confundido com um veado. Ino, em seguida, atirou-se ao mar com o cadáver de Melicertes e Átamas foi banido da Beócia. Temendo novo estratagema de Hera, Zeus transformou o filho em bode e manou que Hermes o levasse, dessa feita, para o monte Nisa, onde foi confiado aos cuidados das Ninfas e dos Sátiros, que lá habitavam numa gruta profunda.

Através de um fragmento de Plutarco, concernente às antigas festas beócias da (Daídala) “Dédalas”, com honra de Hera, ficamos sabendo que, em Atenas, e possivelmente na Beócia, se evitava cuidadosamente todo e qualquer contato entre os objetos que pertenciam ao culto de Hera e aqueles pertencentes ao de Dionisio. Até mesmo as sacerdotisas das duas divindades não se cumprimentavam. A verdadeira muralha que separava os dois cultos era certamente conseqüência das características muito diferentes desse par antitético: de um lado Hera, a teléia, a saber, a protetora dos casamentos, de outro, Dionisio, o deus das orgias, dos “desregramentos”. O mais sério é que tanto as orgias dionisíacas como as práticas coletivas das mulheres de Platéias, em homenagem a Hera Teléia, tinham por cenário o monte Citerão, o que inevitavelmente contribuía para açular os ânimos dos adeptos de uma e de outra divindade e aumentar a tradicional rivalidade entre os dois imortais do Olimpo.

Dioníso tebano – O Dioníso tebano, mais geralmente imberbe, é muito mais comum na escultura. O pintor Aristides fizera um famosíssimo Baco, levado a Roma após a tomada de Corinto. “Múmio, diz Plínio, cognominado Acaico pela sua vitória, foi o primeiro que iniciou os romanos nos quadros estrangeiros. Por ocasião da venda do saque, Átala, rei de Pérgamo, comprara por seiscentos mil dinheiros um Dioníso de Aristides. O cônsul, admirado do preço e supondo no quadro alguma virtude que ele desconhecia, retirou-o da venda, apesar das queixas do rei, e colocou-o no templo de Demeter. Creio que foi o primeiro quadro estrangeiro dado a público em Roma, mas posteriormente grande número deles foi colocado no Forum.”

A forma quase feminina de Dioníso tebano representa o deus com as feições da mocidade e em todo o esplendor da beleza. A sua expressão descuidada indica um semi-sono, um lânguido devaneio. Às vezes nu, outras coberto de uma pele de cervo, aparece freqüentemente montado numa pantera ou num carro puxado por tigres. A vinha, a hera, o tirso, a taça e as máscaras dionisíacas constituem-lhe os atributos mais comuns.



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