Dioníso, deus grego e não romano

Dioníso, deus grego e não romano

Trata-se, sem dúvida, de dois nomes importados, provavelmente da Trácia. Quanto a Dioníso, deus grego e não romano (o latim Bacchus que, à época da helenização de Roma e do sincretismo religioso greco-latino, suplantou o Liber dos latinos, é mera transliteração do grego Bákkhos); quanto a Dioníso, repetimos, que não aparece em Homero, Hesíodo, Píndaro e Ésquilo, somente surgiu na literatura grega no século V a.e.c. a partir de Heródoto e sobretudo no Édipo Rei de Sófocles.

Três outros epítetos de Dionisio, Iaco, Brômio, e Zagreu merecem igualmente um ligeiro comentário. Iaco, em grego (Íakkhos), é um avatar de Dionisio. Via-se nele o deus que conduzia a procissão dos Iniciados nos Mistérios de Elêusis e que era identificado misticamente com Dioníso. Etimologicamente, Iaco provém de (iakkhé), “grande grito”. Trata-se, em princípio, de uma exclamação ritual, de que nasceu a idéia da presença, no cortejo dos Iniciados, de um daímon (gênio), o místico Iaco (o Iaco dos Mistério), que projetava, de certa forma, a alma coletiva e a expressão do entusiasmo de que era tomada, como antegozo da iniciação, a multidão dos peregrinos em marcha para Elêusis. Daímon de Deméter, Iaco era o Arkheguétes, o introdutor dos mistérios, como o denomina, com justiça Estrabão. Na comédia de Aristófanes, As Rãs, o Coro dos iniciados continua a invocá-lo na outra vida, como seu guia e corifeu.

BRÔMIO, em grego (Brômios), é um dos epítetos mais freqüentes de Dionisio nos hinos que imitam os cantos litúrgicos, entoados em seu culto. Do ponto de vista etimológico, (Brómios) se prende a (brómos), “estremecimento, frêmito, ruído surdo e prolongado”, cuja fonte é o verbo (brémein), “fremir, agitar-se, onde Brômio é o “ruidoso, o fremente, o palpitante”, significação que se harmoniza perfeitamente com a agitação e o tremor acompanhados de surdos rugidos, que assinalavam o estado de transe com a presença do deus que se apossou de seus adoradores.

ZAGREU, em grego (Dzagreús), é um dos nomes pelos quais é chamado o deus do êxtase e do entusiasmo no mundo mediterrâneo e particularmente, ao que parece, na ilha de Creta. Talvez o deus designe uma divindade, que, por força de analogias de seu culto com o de Dionisio, com este se tenha confundido, em época difícil de se precisar. Tendo-se tornado um dos nomes de Dionisio místico e, tendo permanecido religiosamente mais fiel ao Dionisio arcaico do antigo mundo insular, jamais se assimilou de todo ao “segundo Dionisio”, que, era o filho de Sêmele.

A etimologia, já familiar aos antigos, do nome de Zagreu, como Grande Caçador, tão defendida por Wilamowitz, é de cunho popular. O deus, possivelmente, de origem ocidental, é chamado Zagreu sobretudo na Ásia Menor e em Creta. E se Zagreu, como epíteto, raramente aparece em textos da época clássica, seu nome, todavia, já é atestado desde o século VI a.e.c.. Ésquilo, em fragmentos de algumas de suas peças perdidas, faz de Zagreu o equivalente de Hades ou Plutão, ou mesmo seu filho, mas Eurípedes o menciona entre as divindades cultuadas por confrarias religiosas que ele supõe terem existido desde a época de Minos e cujos membros formam o coro de sua tragédia Os Cretenses. Esse Grande Caçador é um caçador noturno: o coro da tragédia citada dá-lhe o epíteto de nyktipólos, “noctívago”, o mesmo que empregara Heráclito para designar os seguidores de Dionisio. A menção da omofagia, a alusão ao orgiasmo e ao culto da Grande Mãe, a qualificação de boieiro permitem adiantar que Eurípedes situava Zagreu numa atmosfera religiosa intencionalmente dionisíaca. Fundindo os dois, os Órficos hão de fazer de Zagreu o primeiro Dionisio.

Dionisio é o deus da (metamórphosis), quer dizer, o deus da transformação.

Até a década de 50, muitos pensavam e escreviam que Dionisio, deus importado, possivelmente da Trácia, havia chegado à Hélade quando muito lá pelo século IX a.e.c, uma vez que seu primeiro aparecimento teria sido na Ilíada, VI, 130-140, no famoso episódio de Licurgo, narrado por Diomedes. Este herói conta como Licurgo, filho de Drias e rei dos edônios, na Trácia, perseguiu a Dionisio e as suas nutrizes sobre o monte Nisa. Estas lançaram por terra seus tirsos e fugiram; o deus, ainda adolescente, mas já possuído da loucura sagrada, da mania, apavorado com as ameaças do rei, lançou-se ao mar, onde foi acolhido por Tétis. Os deuses, todavia, se encarregaram da vingança e Zeus cegou ao rei dos edônios.

Diga-se, logo, que a perseguição a Dionisio, sob a perspectiva mítica, faz parte de um rito iniciático e cacareco: a purificação pela água. Este é um dos temas bem atestados em quase todas as culturas primitivas. O episódio da perseguição aparece em determinados momentos das festas e cerimônias a que o filho de Sêmele presidia.

Plutarco, falando das Agriônias, festas “selvagens e cruéis” em honra de Dionísio, em Orcômeno, na Beócia, informa que, durante as mesmas, uma das Miníades (as primeiras Mênades ou Bacantes da tradição local) era sacrificada (simbolicamente, ao menos na época histórica) pelo sacerdote do deus. Dionisio e seu séquito corriam, perseguidos pelo sacerdote, em direção a um rio. Trata-se, como é óbvio, de uma alusão a alguma prática de banho ritual, como preliminar ou conclusão de uma cerimônia religiosa. Um mito da cidade tebana de Tanagra, conservado por Pausânias, atesta que as mulheres tinham por hábito purificar-se no mar, antes de se entregarem às orgias dionisíacas.

A perseguição de Dionisio por Licurgo insere-se e sintetiza, de outro lado, a perseguição à vítima sacrifical, rito em que o deus se apresenta, por vezes, em forma de touro ou de bode. Foi assim que Penteu, vítima da (mania), da loucura sagrada, como se há de assinalar, desejando acorrentar o deus, o vê sob a forma de touro, que não é outra coisa senão o próprio Dionisio dissimulado pela máscara.

As perseguições a Dionisio pelos piratas etruscos ou por Penteu, que, com seus soldados, precipitou o deus e suas “mulheres-do-mar” no fundo do pântano de Lerna, se inscrevem na mesma linha de raciocínio.

Se, porém, se analisar a perseguição de Licurgo e de Penteu sob um ângulo mais político, poder-se-á a ver em ambas, uma séria e longa oposição à penetração do culto de Dionisio na pólis aristocrática da Grécia Antiga.

Viu-se que o deus do êxtase e do entusiasmo, até mais ou menos a década dos anos 50, era considerado como uma divindade que chegara tardiamente à Hélade. Pois bem, a partir de 1952, as coisas se modificaram: é que a decifração de uma parte dos hieróglifos creto-micênicos por Michel Ventris, ou mais precisamente, a decifração da Linear B, consoante a classificação de Arthur Evans, demonstrou que o deus já estava presente na Hélade, pelo menos desde o século XIV ou XIII a.e.c., conforme atesta a tableta X de Pilos. Há de se perguntar por que um deus tão importante, já documentado no século XIV só se manifesta e de forma aparentemente grotesca, no século IX, e só a partir dos fins do século VII a.e.c. tem sua entrada solene na mitologia e na literatura? É quase certo que o adiado aparecimento de Dionisio e sua tardia explosão no mito e na literatura se deveram sobretudo a causas políticas. Dionisio é um deus humilde, um deus da vegetação, um deus dos campônios. Com seu êxtase e entusiasmo o filho de Sêmele era uma séria ameaça à polis aristocrática, à pólis dos Eupátridas, ao status que vigente, cujo suporte religioso eram os aristocratas deuses olímpicos.

 A vinha, a hera e o tirso – A vinha, a hera e o tirso são emblemas que se prendem ao fabrico do vinho, ou aos efeitos que ele produz. A hera passava, na antiguidade, por ter a propriedade de impedir a embriaguez, e era por isso que, nos festins, os convivas com ela se coroavam. Essa planta forma também freqüentemente a coroa de Dioníso. Enrola-se freqüente-mente em torno do tirso cuja extremidade termina por uma pinha. Em numerosos lugares, realmente, a pinha entrava no fabrico do vinho, que devia diferir, em muitos aspectos, do que é hoje em dia. Vê-se pela facilidade com a qual Ulisses adormece o ciclope, dando-lhe duas vezes um pouco de vinho, que essa bebida era, ao menos em alguns lugares, extremamente capitosa. Os antigos misturavam-lhe mel e quase sempre água. Era raríssimo ver alguém sorver vinho puro.

Dioníso, inventor do teatro – Dioníso substitui às vezes Apolo, como condutor das Musas, e os monumentos o mostram freqüentemente associado a Melpomene, a musa da tragédia. É porque realmente Dioníso é o inventor do teatro, e foi durante as festas celebradas em sua honra que se representaram as primeiras peças. Tais festas se realizavam no momento da vindima : colocados num carro, os vindimadores borravam o rosto com uvas, e imediatamente se iniciavam os folguedos. O carro tornou-se uma construção, quando os vindimadores se tornaram comediantes. As máscaras, com as quais se ornavam muitas vezes os túmulos, prendiam-se aos mistérios de Dioníso, como inventor da tragédia e da comédia e indicavam que a vida, como as peças de teatro, nada mais é do que uma mescla de prazeres e dores, em que cada um desempenha um papel diferente.

Assim é que Dioníso, o qual primitivamente era o vinho personificado, se tornou de certo modo símbolo da vida humana, considerada espécie de ebriedade da alma, que no seu extravio vinha apoderar-se de uma prisão terrestre nascendo num corpo material.

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Referencia Bibliografica

BRANDÃO, Junito de Souza. Mitologia Grega Vol. II. Petrópolis, Vozes, 2004;

MÉNARD, Réne. Mitologia Greco-Romana Vol.III. Opus, São Paulo, 1991.



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