Dioníso: Culto em Atenas

Dioníso: Culto em Atenas

O Surgimento do Culto de Dionísio em Atenas – Dionisio somente fez seu aparecimento solene e “oficial” na pólis de Atenas, assim como na literatura grega e, por conseguinte, na mitologia, a partir do século VI a.e.c. por que tão tardiamente, se, como se disse, o filho de Zeus e Sêmele já aparece “atestado” lá pelo século XIV a.e.c.? A explicação não parece difícil. Dionisio é um deus essencialmente agrário, deus da vegetação, deus das potências geradoras e, por isso mesmo, permaneceu por longos séculos confinado no campo. É que Atenas, até os fins do século VII a.e.c, foi dominada pelos Eupátridas, os bem-nascidos, os nobres, que, sendo os únicos que se podiam armar, eram igualmente os únicos que podiam defender a pólis, tornando-se esta propriedade dos mesmos. Assim, o governo, as terras, o sacerdócio, a justiça sob forma temística (expressa pela “vontade divina”) somente a eles, aos Eupátridas, pertenciam de direito e de fato. Senhores de tudo, eram também senhores da religião.

Seus deuses Olímpicos e patriarcais (Zeus, Apolo, Posídon, Ares, Atena…), projeção de segue regime político, em troca de hecatombes e de renovados sacrifícios, mantinham-lhes a pólis e o status que. A Pólis e seus Eupátridas eram politicamente guardados pelos imortais do Olimpo.

Somente no século VI a.e.c. com o enfraquecimento militar e, por conseqüente, político dos Eupátridas, balançados pela criação do sistema monetário (a terra até então era a forma principal de riqueza), pelo vertiginoso desenvolvimento do comércio, pelo descontentamento popular – a revolução era iminente, segundo expressa o grande Sólon em seus Iambos e Elegias – e sobretudo pela constituição do mesmo legislador, com sua famosa (seisákhtheia), inclusive acerca da reforma solonina, quando se lançaram em Atenas as primeiras sementes da democracia, é que o povo começou a ter certos direitos na pólis.

As sementes da democracia frutificaram-se rapidamente, como é sabido, e de Sólon, passando por Pisístrato e depois por Clístenes, Efialtes e Péricles, a árvore cresceu e o povo teve, afinal, uma vasta sombra onde refugiar-se. Sua voz soberana se fez ouvir: era a ekklesia, a assembléia do povo. Com o povo e a democracia, Dionisio, de tarso em punho, seguido de suas Mênades ou Bacantes, suas sacerdotisas e acólitas, fez sua entrada triunfal na polis de Atenas.

A respeito dessa oposição feita à penetração do culto de Dionisio na Grécia escreveu Mircea Eliade: “qualquer que seja a história da penetração do culto dionisíaco na Grécia, os mitos e os fragmentos mitológicos que aludem à oposição encontrada têm uma significação mais profunda: eles nos informam ao mesmo tempo da experiência religiosa dionisíaca e da estrutura específica do deus. Dionisio devia provocar resistência e perseguição, pois a experiência religiosa, que suscitava, punha em risco todo um estilo de vida e um universo de valores. Tratava-se, sem dúvida, da supremacia ameaçada da religião olímpica e de suas instituições. Mas a oposição denunciava ainda um drama mais íntimo, e que aliás está abundantemente atestado na história das religiões: a resistência contra toda experiência religiosa absoluta, que só pode efetuar-se, negando-se o resto (seja qual for o nome que se lhe dê: equilíbrio, personalidade, consciência, razão, etc.)”.

Poderia parecer estranho que um deus tão perseguido e tão distante dos demais deuses olímpicos tenha sido tão festejado na Hélade e sobretudo em Atenas, a polis que sempre buscou o equilíbrio apolíneo. Talvez se possa explicar o fenômeno levando-se em consideração dois fatos incontestáveis: a política de Pisístrato e, de modo particular, o esvaziamento e a transformação do conteúdo dionisíaco de algumas das festas que celebravam o deus do êxtase e do entusiasmo.

Na realidade, a política de Pisístrato (605-527 a.e.c.), que tanto fez por Atenas e por seu povo, buscou com afinco o nivelamento das classes sociais e a conciliação dos diversos cultos, tentando realizar uma verdadeira confraternização entre os deuses. Pois bem, foi a partir principalmente desse tirano que em Atenas se celebravam quatro grandes festas em honra do deus do vinho: Dionísias Rurais, Lenéias, Dionísias Urbanas ou Grandes Dionísias e Antestérias.

Dionisio é o deus da metamórphosis, o deus da transformação. Um dos mais profundos conhecedores da tragédia grega. A. Lesky, é taxativo a esse respeito: “O elemento básico da religião dionisíaca é a transformação. O homem arrebatado pelo deus, transportado para seu reino por meio do êxtase, é diferente do que era no mundo quotidiano”.

Assim, se essa “transformação” operada no homo dionysíacus pelo êxtase e pelo inexoravelmente a romper com todos os interditos de ordem política, social e “religiosa”, ela, ipso facto, ia de encontro aos postulados da polis, mesmo “democrática” e dos deuses olímpicos, que lhe serviam de respaldo. Ora, se a tragédia é uma liturgia e um verdadeiro apêndice da religião grega, como admiti-la, se o deus do Teatro, na ótica da pólis, é exatamente o “contestador religioso” da religião política dessa mesma pólis?

Sintetizando algumas das idéias expostas na obra célebre de Walter Otto, Dionysos, Mircea Eliade mostrou que o filho de Sêmele é realmente o deus da metamórphosis interna e externamente: bem mais que todos os imortais do Olimpo, “Dionisio assombra pela multiplicidade e pela novidade de suas transformações. Ele está sempre em movimento; penetra em todos os lugares, em todas as terras, em todos os povos, em todos os meios religiosos, pronto para associar-se a divindades diversas, até antagônicas (…) Dionísio é certamente o único deus grego que, revelando-se sob diferentes aspectos, deslumbra e atrai tanto os camponeses quanto as elites intelectuais, políticos e contemplativos, ascetas e os que se entregam a orgias.

A embriaguez, o erotismo, a fertilidade universal, mas também as experiências inesquecíveis provocadas pela chegada periódica dos mortos, ou pela mania, pela imersão no inconsciente animal ou pelo êxtase do enthusiasmós – todos esses terrores e revelações surgem de uma única fonte: a presença do deus. O seu modo de ser exprime a unidade paradoxal da vida e da morte. É por essa razão que Dionisio constitui um tipo de divindade radicalmente diversa dos Olímpicos”. Walter Otto mostrou bem como o deus do Teatro é capaz de múltiplas hierofanias: surge de repente e desaparece misteriosamente.

Nas Agriônias, as festas solenes que se celebravam em sua honra na cidade Beócia de Queronéia, as mulheres, num dado momento, procurando-o por toda parte, voltavam com a notícia de que o deus havia regressado para junto das Musas. Mergulhava no lado de Lerna ou no mar e reaparecia, como no segundo dia das Antestérias, sobre uma embarcação. Todos esses desaparecimentos periódicos e hirofanias tinham por escopo mostrar que Dionisio é um deus da vegetação e, com efeito, suas festas mais populares se realizavam em função do calendário Agrícola. Como a semente, o deus morre para dar novos frutos. Todas essas ocultações e retornos, aparecimentos e ausências súbitas, traduzem o surgimento e o desaparecimento da vida, o ciclo da vida e da morte e, por fim, sua unidade.

Foi exatamente como deus da vegetação, da vida e da morte, que Dionisio celebrou um solene hieròs gámos com Ariadne, em torno de cuja união com o deus, na ilha de Naxos, se teceram narrativas romanescas. Uma delas se relaciona com o retorno de Teseu a Atenas, após eliminar o Minotauro. Tendo ajudado o herói ático a escapar do Labirinto de Cnossos, Ariadne, apaixonada pelo filho de Egeu, fugiu com ele. Quando o navio ateniense fez escala na ilha de Naxos, Teseu a abandonou, adormecida na praia, por amor a outra mulher. Diz-se ainda que foi em obediência a uma ordem dos deuses, que não lhe permitiram desposá-la. Embora em prantos, quando viu o navio de velas desfraldadas já fora da barra, logo se consolou com a chegada intempestiva de Dionísio e seu cortejo de Sátiros e Mênades. Fascinado pela beleza da jovem cretense, desposou-a e levou-a consigo para o Olimpo. Como presente de núpcias, deu-lhe uma diadema de ouro, cinzelado por Hefesto. Quando o casal chegou à mansão dos imortais, a diadema foi transformada em constelação.

De um ponto de vista simbólico, o deus da mania e da orgia configura a ruptura das inibições, das repressões e dos recalques. Na feliz expressão de Defradas, Dionisio “simboliza as forças obscuras que emergem do inconsciente, pois que se trata de um divindade que preside à liberação provocada pela embriaguez, por todas as formas de embriaguez, a que se apossa dos que bebem, a que se apodera das multidões arrastadas pelo fascínio da dança e da música e até mesmo a embriaguez da loucura com que o deus pune aqueles que lhe desprezam o culto”. Desse modo, Dionisio retrataria as forças de dissolução da personalidade: a regressão às forças caóticas e primordiais da vida, provocadas pela orgia e a submersão da consciência no magma do inconsciente.



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