A Cruz de Lorena

A Cruz de Lorena 

A representação da cruz dupla tornou-se, com o decorrer do tempo, um símbolo amplamente utilizado para diversas finalidades. Como identificamos um especial interesse dos nossos leitores sobre a Cruz de Lorena, estamos incluindo um pouco mais de informações e curiosidades relacionadas a este símbolo. 

Cruz de Lorena no Memorial Charles de Gaulle em Colombey-les-Deux-Églises.

Em homenagem ao General de Gaulle, a Cruz de Lorena, com 43,50 metros de altura, construída em granito rosa pelos arquitetos Marc Nebinger e Michel Mosser, evoca a memória de Charles de Gaulle tal como ele queria.

O local onde está o monumento, erguido em 1972 sobre o ponto mais alto de Colombey-les-Deux-Églises, oferece um esplêndido panorama paisagístico de Haute-Marne. A cidade ficou famosa após o General de Gaulle ter comprado, em 1934, a fazenda de La Boisserie, onde costumava descansar. Morto em 1970, o general e sua esposa Yvonne e sua filha Anne estão enterrados no cemitério da pequena comunidade.

 

PRIMEIRAS REPRESENTAÇÕES

Encontram-se representações da cruz dupla em La Ferrasie, na Dordonha e em Las Batuecas, na Espanha, desde a era pré-histórica.

Na interpretação de alguns, o montante vertical é um meridiano e localiza o Norte e o Sul; a barra horizontal mais curta, representa o solstício de inverno, e a mais longa, o de verão; o conjunto simboliza, portanto, o percurso do sol durante um ano.

O Espaço representado por uma cruz dupla:
A) O meridiano celeste,
B) A rota do sol no verão,
C) O percurso do sol no inverno.

 

A CRUZ DUPLA NA HISTÓRIA

É em Jerusalém que se identificam os primeiros vestígios da cruz dupla. Desde o século IV é sob a forma da cruz dupla que são representadas as relíquias da Cruz Verdadeira utilizada na Paixão de Cristo, reencontrada por Santa Helena sobre o Monte das Oliveiras. Esta representação foi adotada porque seria o símbolo do poder dos Patriarcas de Jerusalém, guardiões da Cruz Verdadeira.
 
A mesma figura se encontra sobre todos os túmulos de Patriarcas, de Byzance até o Monte Athos, em Attica e a partir dessa região difundiu-se na Rússia, onde foi chamada “Cruz Russa” e na Hungria, onde se tornou “Cruz de Hungria”, passando a ser um emblema da realeza. A cruz dupla chegou ao Ocidente com o comércio de relíquias, à época dos merovíngios. No século VI, o Imperador de Byzance, Justino II ofereceu uma relíquia a Santa Radegonde. Chegando a Tours dentro de um magnífico relicário esmaltado esta relíquia foi festejada com euforia por uma multidão entusiástica ao som do hino “Vexila Regis prodeunt”, composto especialmente pelo poeta Fortunat e está, atualmente, guardada na Igreja da Santa Cruz de Poitiers. Existem relicários semelhantes, cada qual mais ricamente adornado que os outros, em muitas partes da Europa e, naturalmente, na França, em Eymoutiers na Haute-Vienne. Também conhecida como “Cruz de Santo Eloi” ou de “São Luis da Santa Capela”, este símbolo está relacionado às Cruzadas e, até mesmo, atribuem-lhe poderes mágicos. Sua forma serviu de modelo para a planificação de belas igrejas e catedrais: na Inglaterra, em Lincoln, Rochester ou Worcester e na França, como é o caso das igrejas da Abadia de Cluny, de Saint Benoît no Loire, e Saint Quentin.
 

A cruz dupla aparece também nas moedas e nas insígnias dos cruzados, iniciando com os Templários, desde que estes foram constituídos como Ordem pelo Patriarca de Jerusalém, Guarimond, em 1119. Deu-se o mesmo com a Ordem dos Hospitaleiros do Espírito Santo ou de Saint Géréon, na Palestina e depois com a Ordem da Cruz de Anjou.

 

A CRUZ DE ANJOU

Em 1241, o bispo Thomas de Hierapetra, em Creta, doou uma relíquia da Verdadeira Cruz de Cristo, que teria pertencido anteriormente a Gervais de Comène, patriarca de Constantinopla, a Jean de Allaye, cavaleiro angevino que retornava ao seu país, de volta da Terra Santa. Jean de Allaye doou-a, por sua vez, para a Abadia bernardina de La Boissière, em Anjou. 

Esta relíquia, é feita de uma madeira dura, provavelmente cedro e composta de três ramos: um vertical com 28 cm, e dois atravessados, um com 8 cm e o outro com 11 cm. Em 1357 foi colocada sob a proteção dos Jacobinos de Angers e durante a Guerra dos Cem Anos, em 1379, guardada em segurança no Castelo de Angers por Luis I de Anjou que criou, nesta ocasião, a ordem de cavalaria, “Ordem da Cruz de Anjou”. Ao fim da Guerra dos Cem Anos, em 1456, a relíquia retornou para a Abadia de La Boissière. Em 1790, foi transferida para o Hospício dos Incuráveis, de Baugé e escapou miraculosamente às destruições revolucionárias. Em Heráldica, a Cruz de Anjou é negra e a Cruz de Hungria é branca.

 

Cruz de Anjou

A Cruz de Anjou foi reconhecida como Cruz de Lorena, apenas no século XV, graças a René I de Anjou, o Bom, Duque de Lorena de 1431 a 1453 que a difundiu pelos seus estados. Seu neto, René II, Duque de Lorena de 1473 a 1508, utilizou-a para atestar ser herdeiro direto de Godofredo de Bulhões e, portanto, do Reino de Jerusalém e para justificar suas pretensões sobre o Reino da Hungria, como herdeiro da Rainha Joana II. René II escolheu como divisa para seu selo real : “Rinatus Dei Gratia Hungria Ierusalem et Siciliae Rex.” “René pela graça de Deus, rei de Hungria, de Jerusalém e da Sicília.”

René II representado em uma gravura de Jean Cayon
para a Chronique de Chrétien de Lud.
 

SIGNIFICADOS DA CRUZ DE LORENA

A Cruz de Lorena, simbolizava que os Duques de Lorena eram duplamente cristãos: por serem príncipes de um Estado cristão e como os conquistadores de Jerusalém.

• É uma representação cristã de uma cruz comum de suplício com a tabuleta de inscrição, escolhida como símbolo da Paixão de Cristo.
• É uma afirmação do poder dos Patriarcas do Oriente nos tempos de perseguições e da resistência da Fé contra todos os ataques.
• É um símbolo das Cruzadas e da Cavalaria e, portanto, sempre da resistência e da honra da Fé.
• É um símbolo dos direitos dos duques de Lorena sobre seus diversos estados e de suas pretensões sobre os reinados de Jerusalém e da Hungria.
• É um símbolo da resistência da Lorena e do direito de permanência dos seus habitantes em sua terra, contra todos os seus inimigos.
 

René II de Anjou, duque de Lorena e seus soldados a caminho da batalha de Nancy.

Na Batalha de Nancy, contra Carlos O Temerário que nela perdeu a vida, René II de Anjou fez suas tropas portarem a cruz dupla para se distinguirem dos borgonhenses, que ostentavam a Cruz de Santo André.

“Karolo duce stipato
Burgundorum potencia
Andrina cruce signato
Signi pro differencia
Guerram sine clementia
In Lotharingas accepit
Unde pro resistencia
Crucem binam quisque cepit.”
“Carlos O Poderoso
Duque de Borgonha,
traz como símbolo a
cruz de Santo André,
escolhida como o seu distintivo
em uma guerra sem piedade
contra a Lorena onde,
como sinal de resistência,
escolheram trazer a cruz dupla.”
 

O SIMBOLISMO CRISTÃO DA DUPLA TRAVESSA

O símbolo da cruz, uma trave vertical com uma transversal, representa a Paixão de Cristo e o instrumento de tortura sobre o qual Jesus foi crucificado. Então por que se juntou a esta uma transversal menor? Era costume dos romanos escrever em uma prancheta (chamada titulus ou superscriptio) e colocá-la sobre a cabeça do crucificado com o seu nome e o motivo de sua condenação.
Assim foi colocada sobre a cabeça de Jesus a prancheta com a inscrição “I.N.R.I”: Iesus Nazarenus, Rex Iudaecorum (Jesus de Nazareth Rei dos Judeus)! Pilatos usou este costume, para humilhar e ridicularizar um pouco mais o povo colocando em subentendido à expressão “rei dos judeus”, ou “aquele que se pretendia…” Nessa ocasião, em resposta aos protestos do povo, depois do “eu lavo as minhas mãos”, ele pronunciou a famosa frase:” o que está escrito está escrito!”
 
Esta prancheta nominativa teria se desenvolvido, na segunda travessa horizontal da cruz dupla, pois, os romanos costumavam repetir a inscrição em latim, grego e hebraico nos títulos, o que torna o texto, longo o suficiente para justificar a utilização de um pedaço de madeira com um bom tamanho.
Os historiadores se esforçam para comprovar como verdadeira a relíquia de Santa Helena mantida na Basílica Santa Cruz, em Roma. Encontrada por acaso em 01 de Fevereiro de 1492, dentro de uma caixa de chumbo escondida em um nicho da igreja, a relíquia seria um grande pedaço da tabuleta da “Verdadeira Cruz” descoberta por Santa Helena no Calvário em 326 .
 
Desde essa época, a cruz dupla aparece nas armas das cidades que pretendem demonstrar o seu apoio à Lorena. Ela também servirá como símbolos dos restabelecimentos católicos durante as guerras religiosas.
 

PÓRTICO DO MOSTEIRO VORONET

O Juízo Final, pintura em afresco com Cruz de Lorena em uma das cenas.

Em Bucovina no nordeste da Romênia, encontra-se a mais famosa e impressionante pintura em afresco dos seus mosteiros. Trata-se de Voronet, conhecido em toda a Europa como a “Capela Sistina do Oriente” devido às suas pinturas interiores e exteriores, este mosteiro oferece uma abundância de afrescos caracterizados por uma intensa tonalidade de azul conhecida como ‘Voronet azul’, cuja composição permanece um mistério há mais de 500 anos. Os afrescos ilustram cenas bíblicas, orações, hinos sagrados, episódios e temas como O Juízo Final e A Escada de São João, com detalhes coloridos e ricos de imagens dos apóstolos, evangelistas, filósofos, mártires, anjos e demônios.

O mosteiro Voronet foi construído por Stephen, o Grande, príncipe da Moldávia, em 1487 para cumprir uma promessa feita ao eremita Daniil, que o havia encorajado a perseguir os turcos de Wallachiia. Após a derrota dos turcos, o mosteiro foi erguido em menos de quatro meses.
Atualmente, Voronet é mantido por uma comunidade de freiras que, combinam a vida religiosa de oração com a limpeza do mosteiro e trabalhos agrícolas, executam uma oficina pintura e proporcionam visitas guiadas no mosteiro.
 
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