Laguna XVII: Chegada às divisas das terras do Guia Lopes

Laguna XVII: Chegada às divisas das terras do Guia Lopes

Tríplice Aliança

Chegada às divisas das terras do guia Lopes. Passagem do Prata. O inimigo nos acompanha sempre, mas persegue-nos frouxamente. Devastações da cólera. Perplexidade do coronel Camisão. Abandonamos os enfermos. A separação. Ao tenente-coronel Juvêncio e ao coronel Camisão salteia a peste. Morte do filho de Lopes. Prossegue a marcha. Chegada à fazenda de Lopes; morre este ali, de cólera. Seu túmulo.

O rio da Prata é um rio brasileiro do estado do Mato Grosso do Sul, localizado no município de Jardim. Afluente do Rio Miranda.  Devido a alta concentração de calcário, o rio possui alta tranparência e é utilizado para a prática do ecoturismo
O rio da Prata é um rio brasileiro do estado do Mato Grosso do Sul, localizado no município de Jardim. Afluente do Rio Miranda.
Devido a alta concentração de calcário, o rio possui alta tranparência e é utilizado para a prática do ecoturismo

A picada que acabava de abrir o capitão Pisaflores dera já passagem ao nosso guia que, vendo-se, afinal, nas divisas de sua propriedade, dessa fazenda que tanto ama­va, e de que tão freqüentemente falava – não pudera resistir ao ímpeto de a palmilhar o mais depressa possível. Assim se adiantara com o filho e os refugiados do Paraguai.

Era a largura da picada suficiente para dar passagem aos homens, mas não ainda aos armões e bocas de fogo. Havia ainda a melhorar as rampas lodacentas do rio, o que pediria tempo, dado o estado de fra­queza em que nos deixavam a moléstia e a fome.

Foi só às dez da manhã de 25 que começamos a nos mover para galgar a margem direita do Prata, onde ocupáramos uma eminência dominadora de toda a circunvizinhança. Forçadamente, ia o transporte ser extre­mamente lento; nem de outro modo seria possível. Subiu o número de padiolas, que tinham de transpor o rio, a 96, cada qual tomando oito homens que se revezavam, todos, aliás, de má vontade, mostrando os mais recalci­trantes os pés esfolados e tintos de sangue. De espada em punho exigiam os oficiais o cumprimento deste dever, tanto mais penoso quanto dele se não podia esperar nenhum resultado favorável; achando-se quase todos os enfermos, como de antemão, fadados à morte Sacrifi­cava-se assim aos moribundos o que ainda restava à coluna de força e futuro.

A um documento inédito[2] do Guia Lopes falando da sua situação na data de 15 de fevereiro de 1867, cujo teor é o seguinte: “conforme as ordens recebidas sahi do acampamento de Nioac a 30 de janeiro dirigi-me a Colônia de Miranda em exploração dos pontos e lugares occupados (-) pelos Paraguayos. Tenho a honra de particioar a .Sra.      que encontrei vestígios de uma ronda de dez homens a Cavallo e reconheci que haviam parado e feito pouso naquella Colonia.  Do lado do Apa notei fumaça de fogo nos campos e no Desbarrancado a sete Légua daqui verifiquei que antes das chuvas que cahiram no fim do mês próximo passado, ahi esteve uma partida inimiga. Communico  também a V. Sra. Que vários objecto fora por mim encontrados numa ronda em agosto, havirão desapparecido; o que me fes suppor que os paraguayos os tinham transportados allem do Apa. Apresento a V.Sra. os meus sentimentos de respeito e alta consideração. Deos Guarde V.Srª Nioac 15 de Fevereiro de 1867 IImo. exm° Senr Coronel Carlos Moraes Camisão Dignissimo command° das Forças
A um documento inédito[2] do Guia Lopes falando da sua situação na data de 15 de fevereiro de 1867, cujo teor é o seguinte:
“conforme as ordens recebidas sahi do acampamento de Nioac a 30 de janeiro dirigi-me a Colônia de Miranda em exploração dos pontos e lugares occupados (-) pelos Paraguayos. Tenho a honra de particioar a .Sra. que encontrei vestígios de uma ronda de dez homens a Cavallo e reconheci que haviam parado e feito pouso naquella Colonia. Do lado do Apa notei fumaça de fogo nos campos e no Desbarrancado a sete Légua daqui verifiquei que antes das chuvas que cahiram no fim do mês próximo passado, ahi esteve uma partida inimiga.
Communico também a V. Sra. Que vários objecto fora por mim encontrados numa ronda em agosto, havirão desapparecido; o que me fes suppor que os paraguayos os tinham transportados allem do Apa.
Apresento a V.Sra. os meus sentimentos de respeito e alta consideração.
Deos Guarde V.Srª
Nioac 15 de Fevereiro de 1867
IImo. exm° Senr Coronel Carlos Moraes Camisão
Dignissimo command° das Forças

Já desde a irrupção da peste perdêramos muito mais de cem homens; uns vinte acabavam de ser enterrados no acampamento que deixáramos e com eles o tenente Guerra.

Às duas da tarde e à custa de muito trabalho tudo estava na margem direita, queimada, que fora a nossa última carreta e mortas as suas juntas para que as co­mêssemos. Multiplicaram-se durante toda a tarde os casos epidêmicos a ponto de se tornar impossível imagi­nar como poderíamos avançar. Novo arranjo imaginado pelo comandante, para as padiolas, levou ao desespero o descontentamento dos soldados, que nele enxergaram um aumento de carga e de fadiga. Chegamos a pressen­tir que entre eles se gerava a idéia de geral “salve-se quem puder”. Metendo-nos no mato, diziam, “ao menos alguns de nós chegarão a Nioac; em todo o caso deixa­remos de ser escravos de moribundos, pela mor parte desvairados”.

Entretanto tinha o inimigo vindo acampar no nosso ultimo pouso. Veio incomodar-nos uma partida de seus atiradores; também desvaneceu-se logo diante de duas companhias nossas. Então, como nos achássemos inca­pazes de pensar em persegui-los, puseram-se os para­guaios a esquadrinhar, com todo o vagar, todos os can­tos do nosso último acampamento. Como percebessem a existência de montículos recentemente revolvidos, abri­ram as covas, delas exumando os cadáveres para os des­pojar dos miseráveis andrajos, que depois, violentamen­te, entre si disputavam. Houve mesmo quem se desse pressa em os vestir. Permitiam-nos os óculos de alcance perceber claramente tão revoltante espetáculo, que nos punha estupefatos como se inacreditável miragem cons­tituísse. Aí uma de nossas granadas atiradas pela peça de Napoleão freire que firmara a pontaria quando eles estavam em grande número, no meio das sepulturas – estourou-lhes exatamente sobre a cabeça, matando al­guns. A outros atirou nas covas, dispersou os restan­tes, e libertou aquele local de sua presença. Tão justa represália velo trazer alguma animação ao acampamen­to até o pôr-do-sol desse triste dia.

À noite mandou chamar-nos o coronel Camisão. Já com os comandantes dos corpos tivera várias conferên­cias. Parecia profundamente impressionado. Falou, con­tudo, sem acrimônia da fatalidade que acompanhava os movimentos da coluna e várias vezes repetiu o que sin­ceramente lhe ia n’alma: “Para um chefe era a morte preferível ao espetáculo que desde algum tempo tinha sob os olhos.” Queixou-se, em termos comedidos, sem aquele tom acerbo de outrora, da escolha do caminho que o haviam obrigado a seguir. – “E Nioac?, excla­mava. E os nossos enfermos? Ah! quanto quisera eu estar no lugar de um destes que acabaram!” Bem perce­bíamos que ainda tinha qualquer coisa a nos dizer; re­tiramo-nos, contudo, sem que conosco se abrisse.

Às dez da noite vieram novamente chamar-nos, de sua parte. Deixamos o couro que com o tenente-coronel Juvêncio compartíamos, e ambos fomos com ele ter. Já estava o comandante em conferência com o major Bor­ges e o capitão Lago excogitando os meios de transpor­tar os novos doentes. Discuta-se a possibilidade de co­locá-los em metades de couros presos pelas beiras, à fei­ção de cangalhas, que as mulas carregadoras do cartu­chame deviam levar. Era a empresa inexeqüível, quando mais não fosse, pelo acréscimo de carga que assim recai­ria sobre os soldados, já exaustos. Defendeu ele esta idéia com insistência e contra a opinião de todos nós. Ainda desta vez nos separamos sem lhe conhecer o ín­timo pensar.

Afinal, era cerca de meia-noite, e de novo convocou os comandantes e os médicos. Acabara de tomar a su­prema resolução com que, durante os últimos dias, se embatera e cuja idéia, como recurso extremo, lhe acudi­ra ao espírito como ao de todos, sem que, contudo, hou­vesse alguém ainda ousado exprimi-la.

Depois de, em concisas palavras, haver exposto o es­tado das coisas, e a urgência da avançada rápida, sem a qual estávamos todos perdidos e a impossibilidade, agora perfeitamente averiguada e geralmente reconhe­cida, de levarmos mais longe os enfermos, declarou aos comandantes que, sob a própria responsabilidade, e em obediência a rigorosos ditames que lhe impunham este dever, iam os coléricos, exceto os convalescentes, ser abandonados nesse mesmo pouso! Não houve uma só voz que contra esta decisão se levantasse. A si avocava o coronel Camisão toda a responsabilidade. Longo silên­cio acolheu a ordem, sancionando-a.

Convidou, contudo, o coronel aos médicos que lhe apresentassem objeções, acaso inspiradas pelo dever profissional.

Depois de alguma reflexão, disse o dr. Gesteira que não ousava aprová-la nem a desaprovar, só lhe compe­tia, então, o silêncio, pois se de um lado tinha de aten­der ao seu juramento profissional, por outro achava-se este, no caso atual, em contradição absoluta com a sua consciência de funcionário público adido à expedição.

Como desvairado, ordenou, então, o coronel que, à luz de fachos imediatamente na mata vizinha se abrisse uma clareira, para onde seriam os coléricos transportados e abandonados. Ordem terrível de dar, terrível de executar; mas que, no entanto (forçoso é confessá-lo), não provocou um único reparo, um único dissentimento. Puseram os soldados, logo, mãos à obra como se obedecessem a uma ordem comezinha; e – tão facilmente cede o senso moral ante a pressão da necessidade – colocaram no bosque, com a espontaneidade do egoísmo todos estes inocentes condenados, os desventurados co­léricos, muitos deles companheiros de longo tempo, al­guns até amigos provados por comuns padecimentos.

E, coisa que a muitos parecerá não menos espantoso os próprios coléricos, desde os primeiros momentos, e sem que fosse necessário recorrer a subterfúgios, resignadamente aceitaram este último golpe da fatalidade.

Contribuíam provavelmente as dores do horrível mal para a indiferença dos pacientes; ou talvez também a idéia do repouso substituído às torturas dos solavancos da marcha; mas acima de tudo, este desprendimento fá­cil da vida, próprio dos brasileiros e que deles, tão de­pressa, faz excelentes soldados. Apenas pediam todos um favor: que lhes deixássemos água. Dominados por tan­tas e tão funestas impressões nós nos reuníramos em torno da barraca do tenente-coronel Juvêncio. Chama­ram-nos a atenção os seus gemidos: acabara a moléstia de o saltear também! Já estava irreconhecível com a voz demudada e sinistra. Foi o nosso primeiro ímpeto correr à barraca dos médicos; dela voltávamos quando junto a nós, reboou uma detonação, seguida de vários ti­ros das sentinelas inimigas. Era o soldado de plantão do quartel-general que se suicidara; horríveis câimbras havendo-o atacado, delas acabava de se libertar.

Ocorreram todos estes ruídos sem que o tenente-coronel Juvêncio desejasse conhecer-lhes os motivos e até sem que parecesse percebê-los. Tomara-lhe, pouco a pou­co, a agitação o caráter de frenética alucinação.

Nós mesmos, ao seu lado, estafados pelo cansaço, es­gotados por tantos sobressaltos, mal conseguíamos com­bater um sono acabrunhador, pejado de pesadelos, de de­salento e carnificina.

Durou a noite inteira a trasladação das vítimas, até os primeiros albores do dia. Neste momento de agonia dos míseros abandonados, veio o velho guia Lopes, de regresso, desde a véspera, da excursão às suas terras anunciar a morte do filho, de cuja moléstia já nos noti­ciara. Tremia-lhe a voz, mas conservava uma atitude calma. “Meu filho morreu, disse ao coronel, e desejo sepultá-lo em terra minha. É um pequeno favor que por ele, e por mim, solicito; sua vida, como a minha, per­tencia à expedição. Deus, que tudo determina, salvou-o várias vezes da mão dos homens para tomá-lo hoje.”

Tudo, a cada momento, se entenebrecia em torno de nós. Nada mais digno de inspirar a simpatia e a com­paixão do que o aspecto do coronel, depois da ordem que dera, e se cumpria enquanto começávamos a marchar.

Pesar, remorso? Perturbação de espírito, na aprecia­ção dos motivos que o haviam feito agir e parecia estar a debater intimamente, quando já as suas ordens esta­vam no domínio dos fatos consumados? Certo é que, pálido como um espectro, parava, para ouvir, como invo­luntariamente.

Por mais silenciosos e tristes houvessem sido os pre­parativos, não foi sem gritos e ruídos estranhos ao ou­vido e cuja causa assombrava o espírito, que chegou o momento do abandono. A todos nós foi intolerável. Dei­xávamos entregues ao inimigo mais de cento e trinta co­léricos, sob a proteção de um simples apelo à sua gene­rosidade, por intermédio destas palavras escritas, em le­tras grandes, sobre um cartaz pregado num tronco de ár­vore: “Compaixão para com os coléricos!”

Pouco tempo após nossa partida e já fora do alcance da vista, veio um estrépito de viva fuzilaria apertar-nos os corações. E que clamores indescritíveis, então, ouvi­mos! Ninguém de nós ousava olhar para o companheiro!

Pelo que depois nos contou um dos pobres abandona­dos, salvo milagrosamente, vários enfermos (ele não sa­bia bem se houvera ou não geral chacina) se haviam soerguido convulsamente e, reunindo todas as forças, cor­rido para nós. Nenhum, porém, conseguira atingir-nos, devido à fraqueza física ou à crueldade do inimigo. Nossa coluna tinha, contudo, demorado a marcha, instintiva­mente, como à sua espera.

Vista Atual do Antigo local da sede da fazenda Jardim, atual propriedade do Senhor  Joelcio de Souza Padilha – Rodovia MS 382 – Km 2 Guia Lopes da Laguna – Bonito
Vista Atual do Antigo local da sede da fazenda Jardim, atual propriedade do Senhor Joelcio de Souza Padilha – Rodovia MS 382 – Km 2 Guia Lopes da Laguna – Bonito

Já os nossos armões estavam sobrecarregados de no­vos enfermos, de permeio com os convalescentes; e o corpo de Exército, tomado do mais sombrio desespero, vencera, apesar do cansaço, duas léguas! A necessidade do repouso deteve-o à margem de volumoso ribeirão que atravessava as dependências da estância do Jardim.

O filho de Lopes, até então transportado num reparo de peça, e escoltado pelos antigos companheiros de cati­veiro no Paraguai, foi enterrado à margem direita. O pai que, enquanto se abria a sepultura, se mantivera a alguma distância, disse, ao lhe contarem que o solo es­tava muito úmido e até encharcado: “Agora que impor­ta? Entreguem à terra o que lhe pertence!”

Voltava pouco depois colocar-se-nos ao lado, pálido e como exausto do cansaço, dominando-se contudo. Sob os nossos olhos se dilatava a sua imensa propriedade; assinalou-nos diversos pontos, por ele consagrados pelas re­cordações da vida plácida que ali fora a sua. Naquele ponto, ao longe iam suas vacas beber a água de um solo nitroso. Em outro encontrava o seu gado, do qual parte era meio alçado, pastagens das melhores que o detinham ou logo o faziam voltar. Outros lugares despertavam-lhe imagens de cenas patriarcais; dominava-o febril expan­são que não conseguia reprimir.

Quando o deixamos, justamente preocupados, e apressurados pelo encontro do tenente-coronel Juvêncio, vimos que nada mais havia a esperar do estado em que se achava e como tanto receávamos. Indo levar notícias ao comandante, qual não foi o nosso pavor quando o en­contramos, ele próprio, por sua vez, atacado.

Deitado de costas na macega, com o chapéu no rosto desde que se levantou e descobriu, para nos falar, vimo-lo irremediavelmente perdido; os estigmas da cólera sobre ele se haviam impresso. Conservava, no entanto, uma calma que a situação tornava admirável. “Vou morrer, também, pronunciou; era fatal. Salvei a expedição. O sr. que o sabe, há de o dizer.”

Ao recomeçarmos a marcha, nem sequer experimen­tou montar a cavalo, carregaram-no para um armão, onde o puseram ao lado do tenente Sílvio, já agonizante; dois cadáveres, um perto do outro. Era-lhe a impassi­bilidade completa; mãos cruzadas sobre o peito com o chapéu desabado sobre os olhos, procurava subtrair-se aos raios do Sol deslumbrante que a esta triste cena ilu­minava. Queixando-se Juvêncio de tão ofuscante clari­dade, corremos em busca de um guarda-sol que vimos aberto; não conseguimos reprimir um grito de dor, en­contrando sob este abrigo um dos mais amáveis moços da coluna, o alferes Mirá, que expirava por entre indi­zíveis padecimentos. De manhã ainda o víramos válido e bravo; derreado agora, sobre o cavalo, mal se sustinha entre os braços de um patrício e amigo, o capitão Des­landes, que não tardaria em o entregar à terra.

Determinou-se o ponto do pouso: no meio da man­gueira de Lopes. Estava a findar o desempenho completo da missão do velho guia e este dever parecia ser o último liame que à vida o prendia. Dissera-nos algumas horas antes: “Reparem neste campo verde-escuro; é o meu retiro. Não chegarei até lá. Os senhores é que breve estarão em Nioac.”

Enfraquecido, arcado, caminhava cabisbaixo sobre o arção da sela. Escaparam-lhe de repente os estribos e rolou ao chão, assaltado pela cólera. Colocado sobre um reparo, reanimou-se um pouco, e ainda assim dirigiu a marcha. Como o genro, Gabriel, quisesse atalhar por um capão, recomendou com voz sumida: “Contornem o mato, que é muito sujo.” Ao cair da noite estávamos à vista da colina, ao pé da qual se acha o retiro, o an­tigo local do rodeio de gado da estância, que Lopes de longe nos mostrara. Declinava o Sol, do seu disco gran­des raios alaranjados se desferiam, na fímbria do hori­zonte, realçando a mais admirável perspectiva, tão bela que a memória no-la reproduz ainda agora. Estes esplendores eternos da natureza ainda mais pungentes nos tornavam o sentimento de nossa próxima ruína. Absor­via-nos esta contemplação quando um esquadrão para­guaio chegou a galope com a intenção de cortar nalgum lugar a nossa linha indecisa e descontínua. A parada instintiva que, por toda a parte se realizou, preservou­-nos do ataque.

Mangueira de Gado
Mangueira de Gado

Acampamos naquele local, tendo vencido quatro lé­guas de estafante marcha, privados como fôramos de alimentos e de sono; tangia-nos a necessidade e entramos nos cercados do retiro.

Foram o coronel Camisão, o tenente-coronel Juvêncio e o guia Lopes instalados num galpão arruinado, perto do qual acendemos grandes fogueiras, para ver se os aquecíamos. Alguns limões e laranjas, que lhes fo­ram dados, acalmaram-lhes um pouco a sede. Quis ain­da o dr. Gesteira experimentar um medicamento. “Dr., disse-lhe o coronel, trate dos soldados. Não se canse inutilmente comigo, sou homem morto.” A calma não o abandonou um só momento. Quando muito deixava escapar alguns gemidos surdos, ao sofrer torturas cujo exacerbamento fazia gritar e estrebuchar os companhei­ros de agonia. Passou-se a noite, para todos, numa agi­tação enorme. Aos lamentos respondiam outros lamen­tos; aos horrores da moléstia acresciam os desfalecimen­tos da fome.

Na manhã de 27 ainda de nós se aproximou o ini­migo, fazendo menção de nos disputar a passagem do ri­beirão a que dá o nome o retiro. Conteve-se, porém, ante a atitude do 17.° de voluntários, que formava a nossa re­taguarda, e assim continuou a nossa marcha, como a da véspera. Já sem voz, era o coronel Camisão carre­gado sobre um reparo de peça, Lopes sobre outro e o tenente-coronel Juvêncio, assim como vários outros ofi­ciais e inferiores, em redes. Durante a última parada três haviam morrido. À meia légua do retiro atingimos afinal a margem do Miranda, demasiado abatidos e aca­brunhados, porém, para podermos experimentar a ale­gria com que contáramos. Via-se, à margem oposta, a casa do guia, o teto hospitaleiro onde o viandante sem­pre encontrara boa acolhida e a abundância de tudo. No momento de ali chegar expirou o nobre velho, insensível à vista daquilo que tanto amara. Foi enterrado no meio do nosso acampamento, em terra que era sua.

Os amigos lhe puseram sobre a sepultura tosca cruz de madeira.

A Guerra do Paraguai (índice)



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