Balduino IV, o Rei cruzado e leproso de Jerusalém

Balduino IV, o Rei cruzado e leproso de Jerusalém  foi o último rei de Jerusalém com espírito de Cruzada. Guy de Lusignan, seu sucessor, foi um interesseiro, sob cujo reinado a Civilização Cristã perdeu a posse da Cidade Santa.

O extenso reino católico na Palestina, menos ainda se realça os gloriosos fatos que lá se passaram. E quase não se menciona a figura de um homem excepcional, intrépido guerreiro até o holocausto por amor à Religião católica, Balduíno IV (1160 – 1185), o rei leproso de Jerusalém, que subiu ao trono aos 14 anos de idade

Na história das Cruzadas, nada é mais emocionante que o reinado doloroso de  Balduíno IV. Nada, entre os vários exemplos famosos, pode atestar melhor o  império de um espírito de ferro sobre uma carne débil. Foi um rei sublime, que  os historiadores tratam só de passagem, o que faz perguntar por que até aqui  nenhum escritor se inspirou nele, exceto talvez o velho poeta alemão Wolfram von  Eschenbach. Nem o romance nem o teatro o evocam, entretanto sua breve existência  cheia de acontecimentos coloridos forma uma apaixonante e dilacerante  tragédia.

O destino sorria à sua infância. Robusto e belo, ele era dotado da  inteligência aguçada de sua raça angevina (de Anjou). Tinha sido dado a ele por  preceptor Guilherme de Tyr, que se tomou de “uma grande preocupação e dedicação,  como é conveniente a um filho de rei”. O pequeno Balduíno tinha muito boa  memória, conhecia suficientemente as letras, retinha muitas histórias e as  contava com prazer.

Um dia em que brincava de batalha com os filhos dos barões de Jerusalém,  descobriu-se que tinha os membros insensíveis: “Os outros meninos gritavam  quando eram feridos, porém Balduíno não se queixava. Este fato se repetiu em  muitas ocasiões, a tal ponto que o arquidiácono Guilherme alarmou-se. Primeiro  pensou que o menino fazia uma proeza para não se queixar. Então perguntou-lhe  por que sofria aquelas machucaduras sem queixar-se. O pequeno respondeu que as  crianças não o feriam, e ele não sentia em nada os arranhões. Então o mestre  examinou seu braço e sua mão, e certificou-se de que estavam adormecidos” (L’Eraclès). Era o sinal evidente da lepra, doença terrível e incurável naquele  tempo.

Os médicos aos quais foi confiado não podiam sustar a infecção, nem mesmo  retardar a lenta decomposição que afetaria suas carnes. Toda sua vida não foi  senão uma luta contra o mal irremissível. Mais ainda, muito mais: foi testemunho  dos poderes de um homem sobre si mesmo e da encarnação assombrosa dos mais altos  deveres. Balduíno IV foi um rei digno de São Luís, um santo, um homem enfim — e  é isso, sobretudo, que importa à nossa admiração sem reticências — a quem  nenhuma desgraça chegou a destruir o vigor de alma, as convicções, a altivez, as  qualidades de coração, o senso das responsabilidades, dos quais ele hauria o  revigoramento da coragem.

No fim de 1174, Saladino, senhor do Egito e de Damasco, veio sitiar Alepo. Os  descendentes de Noradin pediram socorro aos francos. Raimundo de Trípoli atacou  a praça forte de Homs e Balduíno IV empreendeu uma avançada vitoriosa sobre  Damasco. Estas iniciativas fizeram com que Saladino abandonasse seu desejo  inicial. Em 1176 o sultão voltou à carga, e a mesma manobra frustrou seus  planos. Balduíno venceu seu exército de Damasco, em Andjar, e trouxe um belo  lucro da expedição. Nesta ocasião ele tinha quinze anos.

Apesar de sua doença, cavalgava como um homem de armas, empunhando  eximiamente a lança. Nenhum de seus predecessores teve tão cedo semelhante noção  da dignidade real de que estava investido, e de sua própria utilidade.  Percebendo as rivalidades existentes entre os que o cercavam, compreendeu quão  necessária era sua presença à cabeça dos exércitos católicos. Mas que calvário  deveria ser o seu! Aos sofrimentos físicos juntava-se a angústia moral: seu  estado impedia-o de se casar, de ter um descendente. Ele não era senão um  morto-vivo, um morto coroado, cujas pústulas e purulências se disfarçavam sob o  ferro e a seda, mas que se mantinha de pé e se lançava à ação, movido não se  sabe por que sopro milagroso, por que alta e devoradora chama de sacrifício.

Um novo cruzado — Filipe de Alsácia, conde de Flandres e parente próximo de  Balduíno IV — acabava de desembarcar. O pequeno rei esperava muito desse apoio.  Estava claro que era necessário ferir Saladino no coração de seu poderio — isto  é, no Egito — se se quisesse abalar a unidade muçulmana. Era isso, precisamente,  o que propunha o basileus, imperador de Bizâncio. O Egito, uma vez conquistado  em parte, Damasco não poderia deixar de subtrair-se ao poder cambaleante de  Saladino. Mas Filipe de Alsácia opinava de outra forma. Ninguém poderia  impedi-lo de ir guerrear na Síria do Norte, e, o que era mais grave, de levar  consigo parte do exército franco.

Saladino respondeu invadindo a Síria do Sul. Balduíno reuniu o que lhe  restava da tropa, desguarneceu audaciosamente Jerusalém e partiu para Ascalon,  onde Saladino investia. Este, logo que foi informado, subestimou seu adversário.  Ele acreditava que a queda de Ascalon era uma questão de dias, e marchou sobre  Jerusalém com o grosso de seu exército. Balduíno compreendeu suas intenções.  Saiu de Ascalon, fez um longo périplo e caiu repentinamente sobre as colunas de  Saladino, em Montgisard.

O efeito da surpresa não compensava a desproporção dos efetivos em luta, e  Balduíno sentiu a hesitação dos seus. Desceu do cavalo, prosternou-se com o  rosto na areia, diante do madeiro da verdadeira Cruz, que era levada pelo Bispo  de Belém, e orou com a voz banhada de lágrimas. Com o coração convertido, seus  soldados juraram não recuar, e considerariam traidor quem voltasse atrás.  Rodeando o Santo Lenho, o esquadrão de trezentos cavaleiros se lançou  impetuosamente. “O vale entulhava-se com a bagagem do exército de Saladino — diz  Le Livre des Deux Jardins — os cavaleiros francos surgiam ágeis como lobos,  latindo como cães. Atacavam em massa, ardentes como uma chama”. E puseram em  fuga o invencível Saladino. Se este salvou a pele, foi graças à rapidez de seu  cavalo e ao devotamento de sua guarda. Retornou ao Egito, abandonando milhares  de prisioneiros. Balduíno logrou, enfim, uma vitória sem precedentes.

No ano seguinte Balduíno edificou o Gué-de-Jacob, fortaleza destinada a  defender a Galiléia dos ataques de Damasco. Guilherme de Tyr pretende que isso  tenha sido feito pelas prementes solicitações de Odon de Saint-Amand,  grão-mestre do Templo. Em todo caso, qualquer que tenha sido o inspirador da  idéia, não há dúvida quanto à importância estratégica de Gué-de-Jacob.

Em 1179 Saladino invadiu a Galiléia. Balduíno foi ao seu encontro, tentando  surpreendê-lo como tinha feito em Montgisard. Mas como os muçulmanos se  contivessem, ele foi cercado e caiu prisioneiro. Muitos foram mortos e presos  nesse dia. Pouco depois Saladino tomou Gué-de-Jacob e fez executar todos os  templários que a defendiam.

Sybila, irmã do rei, acabava de casar — contrariamente aos interesses de  Estado — com Guy de Lusignan, homem de beleza discutível, sem fortuna e sem  talento. Balduíno, pressionado pelos seus, minado pela doença, tinha consentido  nessa união e dado a Lusignan os condados de Jaffa e Ascalon. Tão logo a  insignificância do marido de Sybila se manifestou, atiçaram-se as esperanças dos  senhores feudais. Contava-se que o irmão de Lusignan, comentando o casamento,  disse: “Se Guy for Rei, eu deveria ser Deus!” Tal a mediocridade que lhe era  atribuída.

Nessa mesma ocasião, Isabel de Jerusalém desposava Anfroi de Toron, filho  indigno de seu pai, o falecido condestável de Jerusalém, morto em defesa do  rei.

O estado de Balduíno IV piorava dia a dia. Foi uma provação para sua mãe — que não tinha boa fama — e para a roda de seus cortesãos ambiciosos e amorais,  ver a aproximação de Balduíno com Raimundo de Trípoli, único homem capaz de o  aconselhar sabiamente.

Nesse momento reapareceu, libertado dos cárceres muçulmanos, o antigo  príncipe de Antioquia, Renaud de Châtillon. Logo recomeçou suas aventuras,  assaltando uma importante caravana de peregrinos com destino a Meca. Esse ato  rompia a trégua assinada por Balduíno IV e Saladino e ofendia as convicções  religiosas dos muçulmanos, a cujos olhos o atentado afigurava-se monstruoso.  Intimado pelo rei a devolver os prisioneiros e o produto da pilhagem, ele  recusou-se com arrogância, tornando assim evidente a incapacidade do doente de  se fazer obedecer.

Imediatamente Saladino acorreu do Egito e invadiu a Galiléia, incendiando e  devastando as colheitas, capturando rebanhos e semeando pânico por toda parte.  Renaud de Châtillon suplicou ao rei que salvasse seus feudos. Balduíno concedeu,  vencendo Saladino em julho de 1182.

Em agosto, o infatigável maometano tentou tomar Beyrouth por uma ação  combinada por terra e mar. Uma vez mais Balduíno afastou o perigo. Impediu  Saladino de se apoderar de Alepo e conduziu uma expedição até os subúrbios de  Damasco. Assim, por toda parte, graças à sua energia sobre-humana, e ainda que  daí em diante ele se fizesse carregar em liteira para as batalhas, o heróico  leproso levava vantagem sobre o genial muçulmano.

Ele começava entretanto a perder a vista, a não poder mais se servir de seus  membros. Os que lhe eram mais chegados o pressionavam a abandonar os afazeres do  reinado, ou ao menos passar parte de suas responsabilidades a Guy de Lusignan.  Pode-se bem imaginar o drama interior desse rei de 22 anos, corroído por  úlceras, semi-paralisado e quase cego, cercado pelas sombras da desconfiança e  dos maus pressentimentos, atormentado de um lado pelas insinuações e sugestões  pérfidas dos seus, e de outro pela alta idéia que ele fazia de sua missão de  rei. Se a lepra o enfraquecia, se ele não podia ter esperanças de se curar,  sempre, entretanto, encontrava novas forças e resistia da melhor forma às  ciladas da camarilha.

Como a doença entrasse numa fase evolutiva, ele devia lutar contra ela, e  sobretudo contra a tentação de abandonar tudo para morrer em paz. Foi num desses  períodos que ele consentiu, se bem que a contragosto, em investir Guy de  Lusignan na regência do reino. No primeiro encontro com Saladino, Lusignan  deixou o exército franco ser massacrado. Recusou com altivez prestar contas a  Balduíno IV, que o destituiu de seu cargo. Para evitar que, pela complacência de  Sybila, Lusignan se tornasse rei de Jerusalém após sua morte, designou seu  sucessor o pequeno Balduíno V, filho de Guilherme “Longue Epée”. Como a situação  da Terra Santa estivesse desesperadora, ele enviou uma embaixada ao Ocidente,  composta pelo Patriarca de Jerusalém, pelo Mestre do Hospital e pelo Mestre do  Templo, o velho Arnaud de Torrage.

Renaud de Châtillon, que indiretamente tinha ajudado o rei a se desembaraçar  de Lusignan, achou-se autorizado a retomar suas pilhagens, agora na mais alta  escala. Armou uma frota, que foi transportada ao Mar Vermelho em dorso de  camelo. Devastando portos, interceptando comboios, essa frota ameaçou por algum  tempo o caminho para Meca. Saladino, excitado até o cúmulo do furor, destruiu os  navios de Renaud e depois sitiou-o em sua própria fortaleza, o Krac de Moab.  Balduíno IV reapareceu, agonizando em sua liteira, para lhe fazer frente.  Saladino retirou-se.

O último ato de Balduíno IV foi o de reunir em São João d’Acre o parlamento  de seus barões. Guy de Lusignan, incapaz e rebelde, foi então oficialmente  afastado do trono, e — o que não era senão justiça e sabedoria — a regência foi  confiada a Raimundo de Trípoli.

Mais tarde, a 13 de março de 1185, o mártir rendeu sua alma a Deus, em  presença se seus vassalos, dignitários e bons companheiros de guerra. Até os  infiéis lhe tributaram homenagens.

(Fonte: Georges Bordonove, “Les Templiers”, in “Catolicismo” nº 303)

Fonte: http://heroismedievais.blogspot.com/

 



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