As Guerras Púnicas

As Guerras Púnicas  foram uma série de três conflitos deflagrados entre romanos e cartagineses pela hegemonia do Mediterrâneo que durou, ao todo, mais de cem anos – entre 264 a 146 a.C. – e teve como desfecho a destruição da cidade de Cartago e a submissão do território cartaginês em província romana.

Mas porque Roma e Cartago chegaram às vias de fato a ponto de iniciar uma guerra? Primeiro vamos falar um pouco sobre a expansão territorial romana e o comércio do Mediterrâneo na época.

Territórios de Roma e Cartago na época da 2ª Guerra Púnica. Cartago perdeu a região da Sicília e compensou a derrota conquistando a região da cidade de Sagunto, na Espanha, que era aliada de Roma. [fonte do mapa]
Territórios de Roma e Cartago na época da 2ª Guerra Púnica. Cartago perdeu a região da Sicília e compensou a derrota conquistando a região da cidade de Sagunto, na Espanha, que era aliada de Roma. [fonte do mapa]


A expansão romana: tentando construir uma hegemonia comercial no Mediterrâneo.

Após a revolta dos patrícios romanos[2], que levou à deposição do rei Tarquínio e a fundação da República em 509 a.C., Roma gradativamente ampliou seu território até o início do século III a.C., quando começou a esbarrarnos interesses comerciais de Cartago.

Nesta época a cidade de Cartago era a maior controladora do comércio do Mediterrâneo, transportando e comercializando a maioria dos produtos de toda a região. Pelo seu parentesco com as cidades fenícias da costa palestina, Cartago também comercializava os produtos vindos do oriente e do Egito. Enfim, os cartagineses eram os maiores comerciantes da região. Eles tinham entrepostos comerciais – cidades dependentes ou aliadas – espalhados por todo o Mediterrâneo, o que facilitava muito o domínio comercial.

Os romanos, apesar de já terem uma certa influência e alianças na costa mediterrânea, não estavam satisfeitos com as limitações impostas pelo domínio dos cartagineses na ilha da Sicília, e aproveitaram o início de um conflito para empreender a Primeira Guerra Púnica com o intuito de tomar o domínio completo na ilha. Mas a guerra em si tem seus desdobramentos, e vamos falar deles agora.

A Primeira Guerra Púnica:

Em 288 a.C. os mamertinos, mercenários que anteriormente lutaram ao lado de Siracusa contra Cartago resolveram tomar a cidade de Messina, na Sicília, que na época fazia parte do reino de Siracusa. Para manter uma relativa paz, os mamertinos estreitaram seus laços comerciais com Roma e Cartago.

Quando o rei Hierão II chegou ao trono de Siracusa, decidiu retomar o controle de Messina e sitiou a cidade. Os mamertinos então pediram ajuda a Roma e a Cartago. Os cartagineses chegaram primeiro, reforçando as defesas de Messina, mas os romanos viram aí uma oportunidade de expulsar os cartagineses – e suas influências comerciais – definitivamente da Sicília.

Deslocando um considerável contingente de tropas a partir de 264 a.C., os romanos participaram de diversas batalhas navais que forçaram a submissão de Hierão II. Sem saída, o rei de Siracusa estabeleceu uma aliança com Roma. As tropas cartaginesas, agora acuadas, ainda resistiram por um tempo mas não conseguiram manter o controle da Sicília.

Com a vitória os romanos exigiram uma série de indenizações dos cartagineses, e passaram a controlar as ilhas de Córsega, Sardenha e Sicília. Para não perder muito espaço comercial no Mediterrâneo, os cartagineses iniciaram um movimento de conquista estratégico que pode ser considerado o estopim da segunda Guerra Púnica.

A Segunda Guerra Púnica: a marcha de Aníbal e a humilhação da Batalha de Canas (Cannæ).

Cartago, que já tinha uma certa influência na Península Ibérica, invadiu a cidade de Sagunto, que na época era aliada de Roma, em 219 a.C.. Além dos interesses comerciais na região, os cartagineses esperavam uma reação romana, que veio quase que imediatamente, com a declaração de guerra por parte de Roma.

Mesmo sabendo que enfrentariam as legiões romanas em solo não tão familiar, os cartagineses comandados pelo general Aníbal Barca não ficaram esperando o confronto em Sagunto. Aníbal reuniu cerca de 50 mil homens, 9 mil cavalos e 37 elefantes e partiu rumo a Roma. Mas ao invés de passar pela via que margeava o Mediterrâneo e que seria o caminho mais fácil e rápido para a Península Itálica, ele resolveu atravessar os Alpes.

Aníbal à frente de seu exército na Batalha de Zama.
Aníbal à frente de seu exército na Batalha de Zama.

Os elefantes cartagineses assustavam por onde passavam – e olha que eram elefantes menores do que os que vivem nas savanas africanas – e mesmo enfrentando o frio, as diversas tribos locais e fugindo da perseguição dos soldados romanos, o exército de Aníbal conseguiu chegar no vale do rio Pó, vencendo batalhas em Trébia e Trasimeno. Quando Quinto Máximo tomou posse como novo Consul, resolveu mudar a tática romana e preferiu esperar os avanços de Aníbal. Só que o povo romano estava interessado em ver suas legiões lutando, já que os cartagineses saqueavam e queimavam as terras dos romanos, espalhando uma certa dose de terror por onde passavam.

Após uns meses de relativo desinteresse dos romanos em guerrear, foram empossados como consules Caio Varrão e Lúcio Paulo, que organizaram novas legiões e reuniram cerca de 80 mil homens, entre soldados e cavaleiros, mas continuaram com as legiões imóveis próximas à Roma. Aníbal tomou a iniciativa de um primeiro movimento e deslocou suas tropas para Canas, um povoado próximo do rio Áufido.

Apesar de ter a inferioridade numérica no campo de batalha, Aníbal posicionou suas tropas de maneira a garantir uma certa superioridade numérica em alguns pontos, mas principalmente na cavalaria, o que ajudou muito a vencer a batalha. Também colocou soldados teoricamente mais fracos no centro da formação, e as legiões romanas foram lutando e gradativamente caindo na armadilha, entrando cada vez mais no meio da formação cartaginesa. Enquanto isso a cavalaria dava a volta pelas legiões e fechava o caminho para uma possível fuga romana do campo de batalha.

Essa tática de fechar o adversário em uma espécie de “pinça” foi utilizada pelos soviéticos contra as tropas nazistas em Stalingrado. Na verdade este é um movimento de batalha que é estudado nas escolas militares até hoje, tamanha sua genialidade! Aníbal humilhou os romanos, que tiveram milhares de baixas – estima-se que 45 mil soldados e 7 mil cavaleiros romanos morreram e 19 mil foram feitos prisioneiros.

Só que enquanto Aníbal humilhava os romanos, os cartagineses não conseguiram enviar reforços e ainda por cima tiveram que lutar contra o cerco do general Cipião, que atravessou o mar junto com algumas legiões e atacou a cidade de Cartago. Sem muitas defesas, Cartago solicitou a volta de Aníbal, que acabou derrotado na Batalha de Zama pelo próprio Cipião, já em 202 a.C.

Com a derrota, Cartago assinou um acordo de paz com Roma. Mas mesmo esta relativa paz não tinhasossego dentro do próprio Senado Romano.

A Terceira Guerra Púnica: “Delenda est Carthago!”

As duas cidades estavam em paz e Cartago não podia guerrear nem estabelecer rotas comerciais sem o consentimento de Roma. Mesmo assim os cartagineses não paravam de trabalhar e prosperar. Com as diversas restrições impostas pelos romanos após o fim da Segunda Guerra Púnica, os cartagineses passaram a centralizar suas atividades no campo.

Marcus Cato
Marcus Cato

Em pouco mais de meio século os produtos colhidos em Cartago já estavam rivalizando com os produtos romanos. Este “renascimento” comercial cartaginês encontrou inimigos no Senado, e o principal crítico e incentivador da destruição de Cartago era Marcus Cato, o Velho, que lutou na Segunda Guerra Púnica e sempre terminava seus discursos com a frase “Delenda est Carthago!”, que quer dizer em tradução livre: “Cartago precisa ser destruída!”.

Os discursos de Cato encontravam simpatizantes entre os patrícios, que viviam em Roma mas tinham latifúndios espalhados pelos territórios romanos e viviam justamente da renda das plantações nestas terras.

Como Cartago não podia guerrear, os romanos mandaram os numidas – um povo na época recém-aliado de Roma – atacar territórios cartagineses. Durante três anos Cartago pediu junto ao Senado o direito de defesa, e este foi negado todas as vezes. Quando Cartago enfim resolveu revidar, em 149 a.C., os romanos usaram o fato como motivo para atacar.

Cartago ficou cercada por mais três anos e foi completamente destruída em 146 a.C.. O cerco à cidade foi tão violento que estima-se que poucas pessoas sobreviveram às investidas das legiões romanas. No fim, apenas50 mil pessoas foram levadas como prisioneiras. A cidade foi completamente arrasada, suas construções destruídas e, dizem, a terra da cidade foi salgada para que nada mais nascesse ali naquele chão.

Os territórios cartagineses ficaram definitivamente sob domínio romano, e após o fim da Terceira Guerra Púnica, Roma ganhou destaque definitivo como maior potência da Antiguidade, conquistando cada vez mais territórios e aumentando suas áreas de influência nos dois séculos seguintes.

Notas e fontes:

[1] “Púnico” vem de “punus”, nome latino dos cartagineses.

[2] Segundo a lenda romana, Tarquínio era um tirano odiado pela população e seu filho Tarquínio Sexto também. Sexto se apaixonou por Lucrécia, filha de um aristocrata romano e já casada com um patrício, Lúcio Colatino. Lucrécia não cedeu às pressões de Sexto, que desejava que ela se separasse do marido para ficar com ele. Aí a história conta que Sexto violentou Lucrécia, que acabou contando para o marido e para o pai o que aconteceu e cometeu suicídio enquanto clamava por vingança. As duas famílias ficaram sabendo do ocorrido, depois o fato chegou a toda a população e a revolta que se seguiu depôs Tarquínio.

– LÍVIO, Tito: História de Roma. Editora Paumape. São Paulo, 1989.



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