A Maçonaria na Revolução Francesa: que papel?

A Maçonaria na Revolução Francesa: que papel? 

Eugène Delacroix – La liberté guidant le peuple [Wikipedia]

Ainda hoje é frequente ler e ouvir que a Revolução Francesa é sinónimo de uma acção vigorosa e organizada da Maçonaria francesa.

Sendo indiscutível, por múltiplos registos históricos, que uma grande parte da elite intelectual francesa integrava a Maçonaria, isso não significa que ela estivesse alinhada,
como tal, com a ideologia revolucionária de então.

A importante presença dos maçons é outro facto inquestionável, muito activos individualmente, mas presentes em todos os campos político-ideológicos, incluindo a nível dos Chouans, que constituíam a corrente política e militar de defesa dos interesses da realeza.

A primeira iniciativa em torno da criação do mito dos maçons como autores da Revolução é do abade Lefranc, director do seminário de Caen que, em 1791, publicou um livro com um extenso título e cuja parte inicial era “Le voile levé pour les curieux ou les secrets de la revolution revélés …”.

Uns anos mais tarde surgiu um ex-jesuíta, o abade Barruel, que publicou um livro que teve várias edições, de que a primeira é de 1797/1798, com o título “Les mémoires pour servir à l’histoire du jacobinisme”.

Toda a campanha antimaçónica, visando fazer crer que a Revolução Francesa foi obra da Maçonaria, acabou por partir dele.

Este tipo de especulações levou, ao longo de muitas décadas, à divulgação de informações falsas sobre a suposta filiação maçónica de personalidades como Robespierre, Saint Etienne, Danton, Saint Just, Desmoulins e mesmo Condorcet.

Foi simultaneamente desenvolvida a tese de que o objectivo fundamental da Maçonaria seria a destruição integral da monarquia francesa, dadas as suas estreitas ligações ao movimento republicano.

A análise rigorosa dos factos e dos registos históricos conduz à conclusão de que a Maçonaria, como tal, teve um papel muito discreto durante a Revolução, senão mesmo nulo, ao contrário da legenda que foi sendo criada.

Se a nível dos protagonistas revolucionários o número de maçons é reduzido, eles abundam a nível de príncipes, duques e membros da “Câmara dos Pares”, de que Montemorency-Luxembourg era um dos nomes mais destacados da maçonaria, dado o cargo que então ocupava de administrador-geral do Grande Oriente.

A título de curiosidade histórica, em 1789, Montemorency-Luxembourg emigrou para o nosso país, onde morreu em 1803.

Logo na primeira assembleia dos notáveis, Março/Abril de 1787, os maçons que dela fazem parte aparecem divididos.

Albert Soboul, historiador com diversas obras relativas à Revolução Francesa, afirmou que “ a fraternidade maçónica não resistiu a rude realidade da luta de classes”.

Pierre Lamarque efectuou uma investigação rigorosa e bem fundamentada sobre os maçons envolvidos nos Estados Gerais e publicou o livro, em 1981, com o título “Os franco-maçons nos Estados Gerais de 1789 e na Assembleia Geral”.

De acordo com essa investigação é possível estabelecer a ligação maçónica de 200 deputados titulares e de 37 deputados suplentes. No caso de outros 14 deputados titulares, essa ligação é possível, mas não está devidamente fundamentada.

Se incluirmos estes últimos, obtêm-se 214 deputados titulares com ligações à Maçonaria. A repartição entre as 3 ordens é a seguinte: Clero – 17 ou 18; Nobreza – 79; Terceiro Estado – 107 a 121.

É entre a nobreza que a percentagem é mais elevada: 28%. No Clero é de 6% e no Terceiro Estado de 19%.

Mesmo que os interesses e as posições de todos os maçons fossem coincidentes, existiria um “grupo parlamentar” de cerca de 200 deputados num universo de 1200, ou seja uma sexta parte da assembleia.

Nas discussões e votações efectuadas na assembleia as posições dos deputados maçons eram bem diferenciadas, como foi o caso concreto da discussão da moção que visava fazer do catolicismo a religião de Estado.

Dezanove deputados participaram na discussão, dos quais seis maçons. Três deles (Toulongeon, Menou e Régnault) opuseram-se à moção e outros três aprovaram-na (Cazalés, Mirabeau-Tonneau e d’Espremesnil).

O destino de alguns dos deputados maçons também importa ter presente, dadas as ilações que se podem tirar: 2 foram assassinados; 12 foram guilhotinados; 31 emigraram; e 4 foram presos.

Na Assembleia Legislativa, mais tarde, e ainda segundo o estudo de Pierre Lamarque, existiam 69 legisladores maçons, mais 32 que foram iniciados posteriormente. Também nesta situação existiam maçons em todos os campos.

À direita, por exemplo, Pastoret, Theodore de Lameth, o general Mathieu Dumas e Ramond de Carbonniére.

À esquerda, casos como Couthon, Guadet, Granet e Lacombe Saint-Michel.

Entre 1790 e 1792, verificou-se um rápido desaparecimento das lojas constituídas por aristocratas.
É facilmente verificável que nas cidades a maçonaria estava socialmente dividida e cada
meio social dispunha da sua loja específica.

A acentuada diminuição do número total de Lojas explica-se não somente pelas fracturas de opinião entre os seus membros como também devido a uma maior participação e intervenção nas múltiplas estruturas políticas surgidas com a Revolução, o que levou muitos maçons a negligenciar a participação nas sessões maçónicas.

Mesmo na luta entre os partidos Girondino e Montagnard existem maçons nos dois campos.

Em todos os lados do conflito político, económico e social que marcou profundamente a França e todo o contexto internacional, e que foi responsável por um dos maiores avanços civilizacionais em toda a história conhecida, estiveram maçons como Chaumette, Marat, quatro dos membros do Grande Comité de Salvação Pública (Barére, Couthon, Prieur de la Marne, Jeanbon Saint-André), regicidas, numerosos nobres que emigraram, aristocratas que morreram na guilhotina, etc. …

Um facto elucidativo nos confrontos políticos mais cruciais e que atesta a referida dispersão pelos vários campos é que o autor da moção que determinou a queda de Robespierre foi o maçon Louchet, deputado de l’Aveyron e membro da Loja “La Nouvelle Cordialité”.

O período do governo revolucionário foi particularmente nefasto para a Maçonaria, tendo conduzido à situação da maior parte das lojas terem deixado de funcionar devido a múltiplos factores, alguns deles já referidos, embora isso não tenha sido o resultado de uma acção repressiva sistemática e organizada do Poder contra a filiação maçónica.

Segundo Le Bihan, em Paris somente 4 ou 5 lojas se encontravam a funcionar em 1793 e 1794.

Por toda a França a situação das lojas era semelhante.

O próprio Grande Oriente de França conseguiu sobreviver até ao Verão de 1794 graças à actividade do banqueiro Tassin, que tinha substituído Luxembourg como administrador-geral.

Tassin foi condenado à morte e decapitado em Maio de 1794.

Na análise de todos os aspectos envolvidos neste importante processo político histórico, uma das conclusões que forçosamente se retira é que a Revolução teve um forte impacto sobre a Maçonaria.

Simultaneamente, pode colocar-se a questão sobre o impacto da Maçonaria sobre a Revolução.

E esta não tem uma resposta fácil, embora existam alguns aspectos fundamentais da vida das actuais sociedades que tiveram origem na acção da Maçonaria, enquanto tal e não só de maçons individualmente considerados.

Um desses aspectos é a inequívoca conquista da liberdade de associação e da liberdade de reunião.

Nessa altura a França monárquica não admitia a liberdade de associação e de reunião sendo interdita qualquer reunião sem o prévio acordo expresso do rei.

A insistência com que as lojas maçónicas mantiveram as suas reuniões e as sistemáticas desobediências às interdições acabaram por conseguir uma situação de alguma tolerância do poder real, apesar de precária.

Aliás, a liberdade de associação não estava consagrada na Declaração dos Direitos do Homem de 1789-91.

Com a Revolução, essa restrição emanada do Poder Real desapareceu. No entanto, nos primeiros anos do período Imperial foi publicada legislação que visou introduzir novas limitações à liberdade de associação e de reunião.

Outro aspecto que resulta da acção da Maçonaria é a conquista da liberdade de consciência, incluindo a liberdade religiosa.

Durante as sessões das lojas maçónicas, os maçons, ao contrário do que se passava na sociedade em geral, tinham liberdade de pensamento e de palavra para expressarem e discutirem livremente as suas opiniões.

No que se refere à questão religiosa, a tolerância era uma realidade em muitas das lojas onde conviviam fraternalmente maçons católicos, protestantes e judeus.

Importa ter presente outro aspecto fundamental implementado pelo Grande Oriente de França: a livre eleição dos dirigentes das lojas por todos os maçons.

A criação do Grande Oriente de França em 1772/73 é acompanhada desta medida contida nas suas disposições constitucionais, como por exemplo a seguinte: “o Grande Oriente de França não reconhece, daqui em diante, como Venerável da Loja o que não for elevado a esta dignidade pela livre escolha dos membros da Loja”.

Esta conquista da representatividade livre e democrática é um antecedente marcante em relação ao conjunto das sociedades mais desenvolvidas já nesse momento histórico.

Finalmente importa reter um facto histórico muito claro na evolução das sociedades nos últimos três séculos: sempre que há intervenção dos maçons “o mundo pula e avança”.

José Marti M:. M:.



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  1. Um dos assuntos mais controversos da Revolução Francesa, provavelmente o mais difícil de todos, tem a ver com o papel que a Maçonaria nela desempenhou. As opiniões vão, neste assunto, do zero ao infinito, e ora é atribuída à Ordem Maçónica um papel central e decisivo, fosse na preparação de uma conspiração e uma conjura para fazer eclodir o furor revolucionário contra a Família Real, fosse na transmissão dos valores que a inspiraram, ora lhe atribuindo um estatuto de algoz, responsável pelas mortes de Setembro e do Terror, ora fazendo dela uma vítima entre as muitas que sucumbiram sob os golpes incontáveis da guilhotina. Não me apetece dizer, como é comum neste género de polémicas históricas, que a verdade se encontrará algures no permeio das duas extremidades. Sou – confesso-o de imediato – mais propenso à tese de que a Maçonaria foi devorada por uma revolução que apenas ajudou a preparar pela influência do pensamento dominante da época, pensamento, de resto, que não era nem uniforme, nem originariamente seu, nem, tão-pouco, partilhado unanimemente entre os seus membros – os Irmãos -, e para a qual somente contribuiu pela acção individual de alguns maçons, mas nunca em função de qualquer plano pré-estabelecido. Em contrapartida, não hesito em afirmar que muita da Maçonaria que hoje conhecemos – concretamente a que está sob a órbita do Grande Oriente de França – foi visceralmente influenciada pelos valores saídos da revolução, entre eles o anti-clericalismo, a laicidade, o republicanismo e o igualitarismo. Por outras palavras, não foi a Maçonaria que influenciou a Revolução, mas a Revolução que influenciou a Maçonaria.

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