A maçonaria e a Religião

A maçonaria e a Religião (GADU)

O Supremo Conselho do Grau 33 para a República Federativa do Brasil, Rito Escocês Antigo e Aceito, considerando que, atualmente, existe no seio da sociedade brasileira a divulgação equivocada de princípios doutrinários atribuídos á Maçonaria;

considerando que esses conceitos deturpados acabam por classificar a Maçonaria como sendo uma Religião;

considerando a urgente necessidade de se esclarecer, oficialmente, nos limites de sua jurisdição, a posição da Maçonaria Filosófica em relação ao assunto:

Resolve promover um simpósio com a participação dos seus membros e maçons especialmente convidados, com a colaboração de membros da Academia Mineira Maçônica de Letras, para discutir e formular respostas aos seguintes questionamentos:

01 – Em seu entendimento e à luz dos rituais maçônicos a Maçonaria é uma Religião?

02 – Quais os fundamentos para sustentação da resposta à pergunta anterior?

03 – Qual a concepção maçônica sobre o Ser de Deus?

04 – Qual a concepção maçônica sobre a Pessoa de Cristo?

05 – Qual a concepção maçônica sobre a salvação da alma?

06 – Os ritos de juramento, batismo, casamento e sepultamento na maçonaria têm caráter religioso? Porquê?

07 – Há influência esotérica e ocultista na maçonaria em seus ritos e fundamentos? Por quê?

08 – Qual o entendimento da maçonaria sobre a Bíblia?

Observação:
E necessário esclarecer que desse simpósio participaram maçons que, sendo adeptos de religiões diferentes (católica, evangélica, espírita…), mantêm opiniões convergentes, acordes e unânimes, sem nenhuma restrição às conclusões e respostas oferecidas aos questionamentos aqui formulados.

CONCLUSÕES DO SIMPÓSIO

Introdução Necessária
Preliminarmente este Supremo Conselho esclarece que suas conclusões estão alicerçadas em três premissas que nortearam as discussões:

Primeira

Este Supremo Conselho reconhece que, há tempos, a maçonaria deixou de ser um bloco monolítico, isto é, uma fraternidade de alcance universal, indivisível, com um posicionamento ideológico uno, bem definido e aceito por todos. Há obediências, resultantes até de cisões, emitindo conceitos polêmicos e às vezes conflitantes com a melhor tradição e “landmarks” maçônicos, como por exemplo, a aceitação de mulheres e a negação ao uso do Livro da Lei (Bíblia, Alcorão, Torah e outros que tais) no altar dos juramentos. Por isso, sua posição alinha-se com a corrente majoritariamente aceita no mundo, sustentada pela Grande Loja Mãe, a GLUI – Grande Loja Unida da Inglaterra, pela qual, as demais Obediências denominadas “regulares”, são reconhecidas e aderentes à “Constituição de Anderson”, de 1723 – “carta magna” da Ordem.

Segunda

Por entender que, rigorosamente falando, ninguém, isoladamente, está autorizado a falar em nome da maçonaria, evita, sempre que possível, basear seus conceitos e posições em opiniões emitidas autonomamente por escritores, maçons ou não-maçons, por mais famosos e reconhecidos que sejam. Procura emitir suas opiniões, principalmente sobre conceitos e princípios fundamentais da Ordem, tomando por referência documentos oficiais, autenticamente publicados por Obediências, ou por convenções de Obediências regulares e de reconhecida competência e legitimidade. Somente essas, em sua opinião, estão legitimamente autorizadas a emitir conceitos maçônicos.

O mais próximo que chega de opiniões isoladas de maçons é quando cita conceitos vindos de Academias Maçônicas de reconhecida competência, constituídas por maçons de reconhecido saber, vindo à luz após debates de teses, antíteses e sínteses, como é o caso, por exemplo, da ACADEMIA BRASILEIRA MAÇÔNICA DE LETRAS, em seu manifesto de 24 de junho de 1985 assinados por 36 maçons de notório saber. Os críticos da Ordem Maçônica nunca aludem aos nossos documentos oficiais (Constituição de Anderson, Landmarks, Constituição de Obediências, inclusive dos Supremos Conselhos…) divulgados na literatura, conforme mencionam, mas preferem emitir suas opiniões baseadas em textos de autores os mais variados, dando preferência intencional àqueles que, sistematicamente, combatem a maçonaria.

Terceira

Este Supremo Conselho prefere não definir “a priori”, “religião”, já que não existe uma conceituação universalmente aceita para o termo. Cristãos (protestantes, católicos,…) imaginam uma forma e conceito de “religião”; os religiosos orientais definem-no distintamente; espíritas têm ainda definições diferentes; intelectuais seculares e agnósticos também. Qualquer um que emitir conceitos sobre religião, corre o risco de ser logo contestado. Além disso, grande é a confusão que se faz entre “religião” e uma “confissão religiosa” ou mesmo uma organização religiosa. Dizer que a maçonaria é uma religião, e como tal contrária às demais religiões, inclusive a cristã – como apregoam os críticos da Ordem – é a primeira e mais importante acusação dos antimaçons. Se nos curvamos a essa acusação, por não estarmos fortemente fundamentados conceitualmente, todas as demais acusações serão facilmente assacadas como corolários pelos detratores da Ordem. Esse ponto inegavelmente é o mais importante dessa pendência IGREJA-MAÇONARIA. É preferível ir ao cerne da questão. Este Supremo Conselho sustenta que a maçonaria nada tem de conflitante ou inconciliável (como sustentam seus críticos) com o cristianismo ou qualquer outra religião – representada esta pelas confissões existentes no mundo. Ela oficialmente estimula, como se provará, seus membros a seguirem suas religiões e a cultivarem sua espiritualidade. Essa posição está oficial, legitima e claramente documentada na Ordem. Só não vê quem não quer ver. Os críticos da maçonaria, por outro lado, em momento algum têm levantado e contestado posições maçônicas com base em qualquer documento oficial da Ordem. A maçonaria sustenta, oficialmente, não ser uma religião.

Com estes esclarecimentos preliminares, este Supremo Conselho, responde os questionamentos enfocados:

1. Em seu entendimento e à luz dos rituais maçônicos a maçonaria é uma religião?

2. Quais os fundamentos para sustentação da resposta anterior?

Resposta:
Não, a maçonaria não é uma religião. É uma Fraternidade, composta de homens livres, de boa reputação e que crêem em Deus e, na vida após a morte.

FUNDAMENTAÇÃO

I – Na Constituição de Anderson (l)

A palavra “maçonaria”, derivada de maçom, é um galicismo. Resulta do Francês, “MAÇON”, significando pedreiro ou genericamente construtor civil, como usualmente falamos no Brasil. A escolha desse nome nada tem de acidental. A maçonaria está umbilicalmente ligada à arte da construção. Os maçons do Séc. XVIII, quando surgiu de forma institucionalizada a maçonaria, podem ser considerados herdeiros diretos das associações de oficio, ou guildas, dos construtores das catedrais, palácios e fortificações que se perdem na origem dos tempos, mas que ganharam notoriedade na Idade Média.

Como qualquer outra organização humana, a maçonaria tem suas leis, códigos e princípios, universalmente observados, respeitados pelas Obediências e Lojas. A respeito da religião ou das religiões, a Maçonaria tem legítima e oficialmente se manifestado em várias oportunidades. A primeira vez ocorreu quando a Ordem dos Maçons Antigos e Aceitos publicou a primeira edição da sua Carta Magna, em Londres, 1723.

No topo do seu frontispício, lê-se:

“The Constítuitions of the Free-Masons.

Containing the History, Charges, Regulatíons, &

of the most Ancient and Right Worshipful

FRATERNITY”

(“As Constituições dos Franco-Maçons. Contendo a História, as Obrigações, Regulamentos & dessa mui Antiga e mui Venerável FRATERNIDADE”)

Também conhecida como “As Constituições de Anderson”, o documento subscrito até hoje por todas as Obediências Regulares do mundo, é dividido em três partes: A ‘Historia da Ordem’ dos maçons, isto é, da FRATERNIDADE dos primitivos construtores – ditos maçons operativos; as ‘Obrigações dos Franco-Maçons’ e, em ‘Apêndice’, uma pequena coletânea de hinos maçônicos a serem entoado pelos irmãos nas suas lojas.

O Livro da Lei
O Livro da Lei

Na introdução o documento descreve o nascimento das artes (ou ciências) da construção, remetendo a saga às origens do homem na Terra, em Adão. Cada maçom, na perspectiva histórica do texto constitucional, é associado arque tipicamente ao construtor, um edificador. Disserta sobre a evolução da arte de construir, detendo especial atenção ao Templo construído por Salomão, ajudado por muitos construtores e arquitetos, dedicado ao Culto ao Criador, conforme o relato bíblico. O mesmo histórico não deixa de descrever o papel de Noé, verdadeiro paradigma da Arte de Construir, de forma organizada e criativa, também baseado no que está descrito nas Escrituras Sagradas. O propósito básico dessa parte introdutória das “Constituições de Anderson” é o de estabelecer uma trajetória construtivista, plantada pelo Criador no coração e mente do homem desde o Éden.

O maçom, de acordo com a Fraternidade hoje estabelecida, é antes de tudo um “Construtor”, laborando continuadamente na Terra a magnífica Obra iniciada e sustentada pelo Criador – a quem denomina Grande Arquiteto do Universo.

Na sua segunda parte o Documento estabelece os compromissos, direitos e deveres daqueles que pertencem à nova “Fraternidade dos Maçons”. São as chamadas “Old Charges” – Antigas Obrigações, pois que nada mais são que compilações de antigos documentos prescrevendo comportamentos aos maçons de épocas primitivas, principalmente da região britânica.

No seu primeiro enunciado, “Concernente a Deus e a Religião”, a “Constituição de Anderson” assim estabelece a posição oficial da Ordem:

“Um maçom é obrigado, por sua condição, a obedecer à Lei Moral; e se compreende bem a Arte, não será jamais um ateu estúpido, nem um libertino irreligioso. Mas se bem que nos tempos antigos os maçons fossem obrigados em cada País a ser da Religião, qualquer que fosse desse País ou dessa Nação, contudo é considerado mais conveniente de somente os sujeitar àquela religião sobre a qual todos os Homens estão de acordo, deixando a cada um suas próprias Opiniões, isto é, serem Homens de bem e leais ou honra e probidade, quaisquer que sejam as denominações ou confissões que os possam distinguir; pelo que a Maçonaria se torna o Centro de União e o meio de firmar uma Amizade sincera entre Pessoas que teriam ficado permanentemente distanciadas”.

Seguindo uma linha defendida pelos pensadores de então que, reconhecidamente, aceitava o valor de cada religião em particular – a grande maioria que na Europa era composta por católicos e seguidores das diversas correntes acatólicas – os codificadores da maçonaria se equidistanciaram de qualquer confissão religiosa, deixando a cada indivíduo aceito na Ordem as posições seguidas em sua própria religião. Embora arreligiosa, a Maçonaria sempre concordou em contar em seu seio com pessoas seguidoras das diferentes religiões, orientando a todos, o princípio da tolerância e desviando do seu seio qualquer discussão sobre matéria religiosa confessional.

II – Na Convenção de Lausanne em 1875

Vale lembrar ainda a clara manifestação dos maçons do Rito Escocês Antigo e Aceito, emitida no Séc XIX, resultante da Convenção de Lausanne, aberta em 06 de setembro de 1875. Vinte e dois Supremos Conselhos, vindos de diversos países, reunidos então, aprovaram a “Declaração de Princípios” que, até os dias atuais, consta dos Regulamentos utilizados no Brasil pelas Potências Maçônicas regulares. Entre outros enunciados, a referida declaração acentua:

” …A maçonaria é pois aberta aos homens de todas as nacionalidades, de todas as raças e de todas as crenças.

Ela interdita em suas Lojas toda discussão política e religiosa; ela acolhe todo profano, quaisquer que sejam suas opiniões políticas e religiosas, ela, portanto, nada tem que se preocupar, uma vez que (o profano) seja livre e de boas maneiras.

…Aos homens para os quais a religião é a consolação suprema, a maçonaria diz: cultive sua religião sem obstáculos, siga as inspirações de tua consciência; a maçonaria não é uma religião, ela não tem um culto; ela também sustenta a instrução laica, sua doutrina é toda fundamentada na bela prescrição: ama ao teu próximo…”

Esclarecimento necessário: – Na linguagem maçônica o termo “profano” significa ÚNICA E EXCLUSIVAMENTE aquele que não pertence à Maçonaria.

III – Na Grande Loja Unida da Inglaterra

O Conselho da Grande Loja Unida da Inglaterra, com o apoio das idênticas obediências da Irlanda e Escócia e ainda contando com a subscrição sem reservas da Grande Loja Nacional Francesa, publicou em setembro de 1985, importante declaração a respeito do tema “MAÇONARIA E RELIGIÃO”:

“A luz de recentes comentários sobre a Maçonaria e a Religião e dos inquéritos realizados por diversas Igrejas sobre a compatibilidade entre a maçonaria e cristianismo, o Conselho decidiu tornar pública a Declaração seguinte, que completa as originariamente aprovadas pela Grande Loja em setembro de 1962 e confirmada pela Grande Loja em dezembro de 1981: A Maçonaria não é uma Religião nem um substituto da religião. Requer de seus membros a fé num Ser Supremo, mas não propõe nenhum esquema de fé que lhe seja próprio. Seus rituais permitem orações, mas essas orações se referem unicamente ao que se vai fazer imediatamente (p.ex. início de refeição) e não a uma prática religiosa. A Maçonaria é acessível aos homens de todas as crenças, mas, em suas assembléias não se pode discutir religião.”

Repetimos que todos esses enunciados gozam da sustentação da maior de todas as vertentes da maçonaria no planeta: a chamada maçonaria regular, isto é, as Obediências que mantém mútuo reconhecimento com a GLUI – Grande Loja Unida da Inglaterra.

3. Qual a concepção maçônica sobre o Ser de Deus?

Resposta:

A maçonaria exige de todos os seus membros a crença num Ser Supremo e a fé na vida após a morte. Não existe um deus maçônico. Por outro lado, a maçonaria não requer de seus membros a definição teológica do “Deus” de sua fé. A maçonaria deixa a cada um a definição do Deus de sua prática religiosa. As orações proferidas por cada um são feitas de acordo com a concepção e consciência de cada um.
A maçonaria oficialmente declara a existência de um ser Supremo, Criador de todas as coisas e coerentemente com o arquétipo representado por cada maçom, isto é, o de um construtor, o denomina Grande Arquiteto do Universo, ou ainda Grande Geômetra, pois sustenta que não há construção que não tenha obedecido à vontade do seu arquiteto. Não poderia existir o “relógio sem o relojoeiro”. Assim a grande construção do universo em que vivemos é para os maçons uma obra criada e sustentada pelo Grande Arquiteto do Universo. Mas idealização divina, oficialmente, não vai além à Maçonaria: É um Ser Supremo, Criador de todas as coisas. Para nós outros maçons ocidentais, nascidos e criados sob a religio-cultura judaico-cristã, o Grande Arquiteto do Universo citado é imediatamente associado ao Deus, revelado pela Bíblia e tantas vezes citado em nossos rituais e cujo primeiro Templo de Culto, o Templo de Jerusalém (edificado por Salomão), é base de todas alegorias e base ético-moral sobre a qual se assenta a grande maioria dos ensinos da Ordem.

Assim, ainda que oficialmente, a Ordem não emita conceitos teológicos de Deus, seus ritos e seus ensinos morais se reportam concreta e freqüentemente ao Deus revelado na Bíblia. Essa afirmação é encontrada especialmente nos ritos, ditos regulares, principalmente o de “Emulação” e “Escocês Antigo e Aceito”, praticados pela imensa maioria das lojas maçônicas do planeta.

FUNDAMENTAÇÃO

I) – Na Constituição de Anderson:

“Um maçom é obrigado, por sua condição, a obedecer à Lei Moral; e se compreende bem a Arte, nunca será um estúpido ateu nem um libertino irreligioso.”

II) – Nos Landmarks:

Landmark No. 19:

“A crença no Grande Arquiteto do Universo é um dos mais importantesLandmarks da Ordem. A negação dessa crença é impedimento absoluto e insuperável para a iniciação”.

III) – Na Constituição do Grande Oriente de Minas Gerais:

TÍTULO I

CAPÍTULO II

“Dos princípios normativos do Grande Oriente” de Minas Gerais

IV) Mantém com as demais Potências Maçônicas inclusive estrangeiras, relações de fraternidade e proclama os seguintes postulados universais da Ordem:

a) A existência de um Princípio Criador, o Grande Arquiteto do Universo, que é Deus.”

Observação: Este postulado está expresso nas leis ou regulamentos de todas as potências maçônicas regulares com as quais mantém intercâmbio ou relacionamentos.

IV) – Na Grande Loja Nacional Francesa (Neuilly)

A Grande Loja Nacional Francesa, para deixar bem clara a sua posição a respeito de Deus, publicou a seguinte NOTA:
“Para evitar qualquer equívoco, a Grande Loja Nacional Francesa de Neuilly, única Maçonaria da França reconhecida por toda Maçonaria Universal regular esclarece que não pode haver maçonaria “regular” fora dos seguintes princípios invariáveis:

– Crença em Deus, Pessoa divina, Grande Arquiteto do Universo.

– Crença em sua vontade revelada e expressa no livro da Santa Lei.

– Crença na imortalidade da alma.”

(La Grande Loge Nationale e Française et 1’Église Catholique, pág. 54, citação no livro “Maçonaria e Igreja Católica, ontem, hoje e amanhã”, de J.A. Benimeli, G. Caprile e V. Alberton, pág. 87 e 88, Edições Paulinas, 1981).

4. Qual a concepção maçônica sobre a Pessoa de Cristo?

Resposta:

A maçonaria não é uma religião, pois não se identifica com nenhuma corrente religiosa, e muito menos com uma Igreja, comunidade (ou corpo de fieis) criada pelo próprio Senhor Jesus Cristo. Assim, não apresenta nenhuma definição sobre a pessoa de Jesus.
Reconhece a maçonaria, entretanto, que o Sermão da Montanha é referência universal de valores morais, pregados pelos maçons e citados nos rituais, notadamente, no Rito Escocês Antigo e Aceito. No linguajar corrente entre maçons em loja, a pessoa de Cristo tem sido consagrada e muitas vezes citada como o “Mestre dos Mestres”, um líder por excelência, um paradigma da construção, embora nenhuma menção a respeito da pessoa de Cristo seja feita nos rituais do simbolismo da maçonaria. O Evangelho de Cristo é referência, paradigma moral e ético constante explicitamente ou implicitamente nos ensinos da maçonaria. Ele surge em muitos dos ensinos registrados nos Rituais.

FUNDAMENTAÇÃO

Não sendo uma religião, a Maçonaria abriga adeptos de todas as religiões monoteístas que aceitam e crêem em Deus, o Grande Arquiteto do Universo, como ficou demonstrado.
Com relação à pessoa de Cristo, a literatura maçônica acolhe a síntese abaixo transcrita de sua biografia, como o faz em relação a outros grandes vultos da humanidade, sem dar cunho religioso, a nenhum deles:

“Eu sou Jesus de Nazaré. Aquele que deu sua vida pela salvação dos homens.
Vindo para completar e não para abolir a lei, proclamei o direito da consciência em se desfazer dos intermediários nos seus entendimentos com o Pai Celeste.

A samaritana eu disse: dia virá em que não se adorará mais o Pai, nem em Gerezim nem em Jerusalém, mas onde todos os adoradores o venerarão, como Ele o deseja, em espírito e em verdade.

Aos fariseus respondi: Amar a Deus com todas as forças e a seu próximo como a si mesmo, é da lei dos profetas; não há maior mandamento. Aos que me perguntaram qual o caminho para o Reino dos Céus, declarei: procurai em primeiro lugar a justiça e o resto vos será dado em abundância.”

É assim que a maçonaria vê a pessoa de Cristo.

5. Qual a concepção maçônica sobre a salvação da alma?

Resposta:

Não sendo uma religião, e respeitando todas as confissões religiosas representadas por membros que as confessam individualmente, a maçonaria não enumera a salvação de almas em suas considerações. O termo é completamente estranho aos seus ensinos. Não se fala nem em salvação e também não em salvador.
O mesmo texto, citado acima, emanado da Grande Loja Unida da Inglaterra em setembro de 1985 é muito claro a esse respeito:

“A maçonaria está isenta dos elementos fundamentais de toda religião. Não tem dogmas nem teologia (pela proibição de toda discussão religiosa, não permite que se desenvolva uma dogmática). Não propõe sacramentos,. Não tem a pretensão de conduzir à salvação pelos trabalhos, ensinamentos secretos (gnose), ou outros meios (os segredos da Maçonaria de reconhecimento entre maçons, por meio de sinais, nada têm a ver com a salvação da alma.”).

6. Os ritos de juramento, batismo, casamento e sepultamento na maçonaria têm caráter religioso? Porquê?

Resposta:

Não há nenhum caráter religioso nas cerimônias referidas, isto é, juramento, batismo, casamento e sepultamento.

Juramento: O maçom presta solene juramento, ou compromisso, com a Maçonaria no ato de sua recepção oficial na Ordem. Este é o clímax do cerimonial de iniciação e por ele o novo membro se compromete a ser fiel à maçonaria, aos líderes de sua loja, às autoridades maçônicas (leis, regulamentos, Constituição, Obediência,…) e não revelar a ninguém, fora da Fraternidade, os ensinamentos a que tiver acesso. Esse compromisso é estendido aos ditos “segredos maçônicos”, isto é, os sinais, toques e palavras através dos quais os maçons podem mutuamente ser reconhecidos. Qualquer um de nós está sujeito a prestar juramento, ou solene compromisso, toda vez que adentrar alguma sociedade ou grupo de pessoas. O novo médico presta o solene juramento de Hipócrates quando ascende ao posto máximo da sua grei profissional, no momento da sua colação de grau. Todos nós, homens, prestamos juramento à nossa pátria, representada pelo Pavilhão Nacional, no momento em que concluímos o serviço militar temporário. O noivo jura, solenemente, fidelidade à sua noiva, na presença de varias testemunhas, na cerimônia do seu casamento. Naquele momento, os dois constituem uma nova organização: a família. E assim por diante. O ato de prestar um juramento, comprometendo-se a respeitar as leis, valores, autoridades e princípios nada tem de religioso. É antes de tudo um testemunho da livre disposição da consciência de cada um.

Batismo: O rito, erradamente denominado “batismo” na maçonaria, refere-se ao tradicional cerimonial oficialmente chamado de “ADOÇÃO DE LOWTONS” nas obediências regulares brasileiras. Trata-se do momento em que os maçons acolhem, segundo rito específico, menores entre 7 e 14 anos, que passam a merecer a proteção e auxilio dos membros da loja que os acolhe. Normalmente são aceitos como “LOWTONS”, filhos e netos de maçons. Não se trata de cerimonial religioso, a despeito de alguns, impropriamente, chamarem de “batismo”. Oficialmente, nenhuma potência maçônica brasileira usa essa denominação. A solenidade nada tem de assemelhado com o batismo cristão.

Casamento: Cerimônia tradicional entre os maçons, ligada ao matrimonio, é atualmente denominada, “CONFIRMAÇÃO MATRIMONIAL”. Não se trata de uma solenidade religiosa, nem cívica, conforme normalmente se considera. Não é tampouco uma solenidade substitutiva daquelas que normalmente ocorrem num templo religioso. Nesta solenidade, evocando os valores da família, sempre exaltados pela maçonaria, os cônjuges – normalmente já casados – se comprometem perante os membros da loja e demais maçons de outras lojas, a manterem firmes e constantes os vínculos que livremente resolveram celebrar. A maçonaria lembra o dever de cada um, bem como suas responsabilidades na condução da família, célula essencial da sociedade.
O cerimonial nada tem de religioso, é uma solenidade fraterna e humanitária muito usual entre maçons. É antes de tudo uma afirmação da maçonaria aos valores éticos e morais de uma sociedade formada por famílias solidamente constituídas.

Sepultamento: Na maçonaria existe a prática de se homenagear a memória de um irmão morto com o cerimonial denominado no Brasil, “Pompas Fúnebres”.
Todas as solenidades maçônicas obedecem a um ritual e nele são emitidos conceitos diversos sobre significados morais e espirituais. No caso do sepultamento, o ritual relembra o principio da vida após a morte – parte da crença exigida a todo o maçom. Esse valor, e tão somente esse, é relembrado no cerimonial – realizado ora no cemitério ora – “a posteriori” em sessão especifica em Loja à qual o finado pertenceu. Não se trata de cerimonial religioso, embora no Brasil, alguns o associem ao cerimonial “pós-mortem” celebrado nas igrejas católicas. Os maçons não consideram oficialmente as “Pompas Fúnebres” como um ato religioso, mas humanístico e fraterno – representando, simbolicamente, a ruptura da grande “corrente fraternal”, pela perda de um dos seus elos.

7. Há influência esotérica e ocultista na maçonaria em seus ritos e fundamentos? Por favor, justifique.

Resposta:

Para retirar-se o possível cunho preconceituoso da indagação, esta pergunta poderia, e deveria ser formulada acrescentando-se outras correntes de pensamento e da cultura das civilizações. Por exemplo, por que não acrescentar à influência esotérica e ocultista, a influência “iluminista”, “liberal”, “científica”, “filosófíco-materialista”, “marxista”, etc…?

Na realidade, o preconceito se prende às confusões reinantes na literatura corrente que associa a Ordem aos movimentos esotéricos, ocultistas, espíritas e outros. O que devemos esclarecer como ponto de partida, é sobre o fato de que determinados temas constarem de nossos estudos ou então serem citados em associação com publicação sobre a maçonaria. Tais citações na literatura não tomam os referidos temas efetivamente parte da Ordem. Nenhum maçom é constrangido a segui-los ou a defendê-los em suas posições, pois que não constam dos rituais onde estão os ensinos essenciais e aceitos pela Ordem.

Os maçons são levados a compreender e conhecer todas as linhas de pensamento existentes em tomo de si, sem o que não podem assumir seu papel construtivista. No seu nascedouro, no Séc. XVIII, a maçonaria assimilou a cultura judaico-cristã, mas também soube conhecer e respeitar a revolução científica em curso, com Newton (2), Halley (3) e Hooke (4) e como também as investigações e pensamentos dos alquimistas, hermetistas, antiquários, e astrólogos, de E. Ashmole (5), Fludd (6), Paracelsus (7) e outros que invadiram as comunidades de intelectuais e as lojas maçônicas. A maçonaria, respeitando as diversas correntes de pensamento e colocando-se, em realidade, como uma escola livre, de moral e de aperfeiçoamento humano jamais limitou caminhos dos maçons em direção à livre investigação da verdade, tão somente abrindo aos seus membros o acesso às diversas correntes de pensamento, fossem elas esotéricas ou quaisquer outras.

Hoje ao lado de reconhecer o pensamento iluminista, as correntes liberais-humanistas, as doutrinas socialistas e outras do universo de linhas filosóficas no mundo, deixa aos seus membros a liberdade de buscar seus próprios caminhos nada impondo a ninguém. Se alguém entende que nos rituais são feitos apelos ao ocultismo ou ao esoterismo (o que podemos com toda certeza e propriedade contestar), também se veiculam em nossos estudos, embora não registrados nos rituais, temas ligados à preservação ambiental (ecologia), ética nas relações comerciais e trabalhistas, medicina alternativa, o movimento da globalização, as novas religiões comparadas, os terrorismos de origem religiosa, os preconceitos de várias ordens, os movimentos fundamentalistas em nossos dias, etc… Todos são temas do que, poderíamos dizer constantes de um “currículo” voltado à boa formação dos seus membros, em permanente busca de conhecer melhor o mundo em que vivemos.

Ter, eventualmente, associado aos seus livros – vindos de autores independentes – os ensinos e as doutrinas e posturas esotéricas e herméticas são tão somente mais uma disciplina curricular e jamais uma conceituação doutrinária a ser obedecida pêlos maçons. A maçonaria é aberta ao estudo de todas as linhas do pensamento humano, não cerceando nenhuma delas.

Conclui-se, portanto, que não existe influência esotérica e ocultista nos regulamentos e, muito menos, na prática das lojas maçônicas.

8. Qual o entendimento da maçonaria sobre a Bíblia?

Resposta:

Para a maçonaria regular, a Bíblia representa o livro da “Santa Lei”. Nas lojas do ocidente, principalmente as que praticam um dos dois ritos já referidos, a Bíblia é o livro aberto em todas as sessões maçônicas. O texto, referido antes, emitido pela GLUI – Grande Loja Unida da Inglaterra, em setembro de 1985, estabelece claramente que:

“O volume aberto da Santa Lei (ou Livro da Lei), para os cristãos, é a Bíblia. Para os maçons de outras religiões, é o livro considerado por eles como sagrado (o Alcorão para os mulçumanos, etc…).”

No Brasil, de maioria católica, todas as obediências adotam a Bíblia [Novo e Velho Testamento] como o Livro da Lei, tolerando que algumas poucas lojas com predominância de judeus usem a Torah, a Lei Judaica ou o Velho Testamento.
Todos os maçons fazem seus juramentos [compromissos] com as mãos postas sobre a Bíblia. Nenhuma loja maçônica estará regularmente em funcionamento se o “Livro da Lei” não estiver aberto e sobre ele colocados o esquadro e o compasso.

A GLUI emitiu documentos em 04 de setembro de 1929, sob o título “PRINCÍPIOS BÁSICOS PARA TODA GRANDE LOJA REGULAR”, estabelecendo o termo de referência através do qual passaria a reconhecer como regulares as Grandes Lojas espalhadas pelo mundo. Um dos princípios reza o seguinte:

“Uma Grande Loja Regular deve exigir que qualquer novo membro preste seu juramento [juramento] sobre o Livro da Lei Sagrada, correspondente à sua crença, de modo que a consciência de todos os novos iniciados esteja ligada à revelação emanada do Altíssimo.”

Esse enunciado da GLUI encerra algumas verdades importantes: primeiramente o princípio maçônico de vincular o juramento a uma tomada de posição do novo membro, frente à sua fé religiosa particular e individual.

Além disso, a GLUI reconhece, no caso dos cristãos [como também dos de outras religiões], que o novo membro tem o Livro da Lei Sagrada como o portador da Vontade Revelada do Deus de sua fé. Esta é a posição oficial que maçons, cristãos e judeus, têm em loja quando diante do Livro da Lei.

Para o cristão maçom, a Bíblia aberta em loja em nada difere, no seu significado e valor, da Bíblia que maneja quando está no culto em sua igreja: é a Palavra de Deus revelada.

***

NOTAS BIOGRÁFICAS DE PERSONAGENS CITADOS NO TEXTO

(l) James Anderson – Era escocês de Aberdeen. Nasceu no ano de 1684 e morreu em 1739. Estudou teologia, tendo colado os graus de mestre e doutor. Em 1710 foi nomeado pastor da Igreja Presbiteriana Escocesa de Swallow Street em Londres, onde permaneceu até 1734. Uma curiosa coincidência marcou sua passagem nessa igreja. Ali havia trabalhado o Rev. John Desaguiliers, pai de J. Theophile Desaguiliers, que se tornaria maçom famoso, colaborador na redação da constituição e mais tarde Grão Mestre da Grande Loja.
Em 1.730 James Anderson tornou a defesa da Maçonaria. Samuel Prichard havia publicado “A Maçonaria Dissecada”, instalando um abalo e um escândalo atacando a Ordem e maçons. Anderson, em “Defense de La Maçonnerie”, criticou e combateu, alorosamente, Prichard, o maçom renegado.

James Anderson casou-se e teve filhos. Em 1.734 transferiu-se para a Igreja do bairro Leicester Square. Deixou escrito: “Sermões” (Unidade da Trindade) – (Testemunho de sua fé cristã e de que, ao contrario do que foi dito, jamais aderiu ao deísmo filosófico). Sermões: “Dia da Saúde”. “Assassinos do Rei”, “Crenças nos Santos”, “A Prisão dos Devedores”. Escreveu também “A Genealogia Real”, versando os imperadores, reis e princesas, desde Adão, e os livros “Conversas com os mortos” e “Noticias de Elysium”.
Seu nome e seu trabalho passaram pelo crivo impiedoso dos críticos, inclusive maçons de nome, entretanto ninguém conseguiu retirar-lhe os méritos que foram muitos e incontestáveis. “O seu trabalho confere-lhe o direito de ser chamado: UM NOME IMPAR na historia da maçonaria.

(Notas extraídas dos “Dados biográficos do pastor presbiteriano JAMES ANDERSON”, publicados por JORGE LASMAR no seu livro “COLETÂNEA”).

(2) Isaac Newton – Físico e matemático inglês. Dentre suas descobertas está a Lei da Gravitação universal.

(3) Edmund Halley – Astrônomo c matemático inglês. Anunciou, pela primeira vez, a reaparição do cometa que leva o seu nome. (cometa Halley).

(4) Robert Hooke – Físico inglês. Formulou a Lei das Deformações Elásticas. Entre seus inventos constam: a espiral dos relógios de bolso e o barômetro de marinha. Descobriu a estrutura celular dos vegetais.

(5) Elias Ashnole – Era inglês, erudito alquimista, antiquário, autor de diversas obras conhecidas, entre elas a História da Ordem da Jarreteira, fundador do “Museu Ashmolean”, na cidade de Oxford.

(6) Robert Fludd – Médico inventor e filósofo inglês. Foi influenciada por Paracelsus e pelo movimento rosa-cruz que surgiu no seu tempo.

(7) Philipe Paracelsus – Médico e filosofo alemão. Considerado o pai da medicina hermética. Deu aos medicamentos minerais uma importância que não tinham antes.



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  1. A Maçonaria é uma sociedade discreta, na qual homens livres e de bons costumes, denominando-se mutuamente de irmãos, cultuam a Liberdade, a Fraternidade e a Igualdade entre os homens. Seus princípios são a Tolerância, a Filantropia e a Justiça. Seu caráter secreto deveu-se a perseguições, a intolerância e a falta de liberdade demonstrada pelos regimes reinantes da época. Hoje, com os ventos democráticos, os Maçons preferem manter-se dentro de uma discreta situação, espalhando-se por todos os países do mundo.

    Sendo uma sociedade iniciática, seus membros são aceitos por convite expresso e integrados à irmandade universal, por uma cerimônia denominada iniciação.

    Esta forma de ingresso repete-se, através dos séculos, inalterada e possui um belíssimo conteúdo, que obriga o iniciando a meditar profundamente sobre os princípios filosóficos que sempre inquietaram a humanidade.

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