A Crise Moral Brasileira

A Crise Moral Brasileira

Discurso proferido no Templo Nobre do Grande Oriente do Brasil, na rua do Lavradio, 97, Rio de Janeiro (GB), em 17 de junho de 1965, em sessão pública, pelo Grão-Mestre Geral da Ordem, professor Álvaro Palmeira.

O orador, ao concluir o seu trabalho, foi demoradamente aplaudido, de pé, pela enorme assistência. É de salientar-se o vultoso número de senhoras, presentes à solenidade.

Altas Autoridades do Poder Público.

Excelentíssimas Senhoras.

Prezados convidados.

Meus Irmãos.

Neste dia em que estamos, quando o Grande Oriente do Brasil comemora a passagem do 143.º aniversário de sua fundação, quero informar aos Irmãos e amigos presentes que nossa Instituição vai iniciar uma campanha, de âmbito nacional, indispensável e urgente, em prol do fortalecimento da Pátria.

As primícias do grande empreendimento, dei-as na cidade de Santos, quando ali compareci, em maio p. p., a fim de presidir uma Convenção Maçônica local. O Brasil exaltava, então o Dia das Mães e pareceu-me que nenhuma ocasião seria mais oportuna do que aquela, em que o Grande Oriente dignificava a Mulher-Mãe, como a providência moral da espécie humana, para anunciar que a nossa Instituição em breve se arrojaria aos percalços de uma dura missão, consistente em exaltar o Bem e neutralizar o Mal. (*)

Hoje o Grande Oriente comemora a sua gloriosa data natalícia, e perante vós venho reafirmar e fortalecer aquela fala prenunciadora, proferida em Convenção, realizada no grande empório de São Paulo.

Se aquela ocasião era a mais propícia para o anúncio da campanha, este local é o mais consentâneo para a sua declaração peremptória.

Este Templo, em que estamos, tem 123 anos de existência. Formou vária gerações de maçons. Quando se construiu esta Casa, era Grão-Mestre o Visconde de Albuquerque. Depois vieram: o Marquês de Abrantes, o Duque de Caxias, o Barão de Cairú, Saldanha Marinho, Marcelino de Brito, o Visconde do Rio Branco, o Marechal Cardoso Junior, os Viscondes da Silva e de Jary, o Marechal Deodoro.

E ainda, após: Macedo Soares, Quintino Bocaiúva, Lauro Sodré, Veríssimo da Costa, Nilo Peçanha, Tomaz Cavalcante, Mário Behring, Sena Campos, Carvalho Neiva, Fonseca Hermes, Otávio Kely e Moreira Guimarães. Paremos aí, que os demais são de nossa época.

Todos esses brasileiros ilustres: no Governo, na Política, na Administração, nas Forças Armadas, na Magistratura e no Jornalismo freqüentaram esta Casa. Além deles, por esta Casa, passaram entre muitos: João Caetano, o maior ator brasileiro; Monte Alverne, o pregador-régio; o Marquês de Sapucaí, sócio fundador do Instituto Histórico; Euzébio de Queiroz, o Barão de Cotegipe, o General Osório, Carlos Gomes, Joaquim Nabuco, Rui Barbosa, Rangel Pestana, Benjamin Constant, Prudente de Moraes, Campos Sales, o Barão do Rio Branco, Hermes da Fonseca, Washington Luiz… a lista é imensa e estelar. E mais: Silva Jardim, Patrocínio, Luiz Gama, Abílio Borges, Sampaio Ferraz… e tantos outros grandes brasileiros.

Nesta Casa, entre estas paredes veneráveis, na sucessão intérmina dos dias, sempre os maçons se preocuparam com o futuro da Pátria. O Gabinete do Império, na Questão Cristie, aqui buscou apoio, para resistir e vencer a insólita imposição; a Questão dos Bispos aqui se desenrolou, até a anistia, proposta pelo Duque de Caxias. Aqui se lutou pela abolição da escravidão, pela implantação da República, pela separação entre a Igreja e o Estado, sem embargo de concorrerem , harmônicos, para o bem comum. Aqui se sustentou a necessidade da Justiça do Trabalho, da unidade do direito processual, do culto à Bandeira, do voto secreto. Aqui se afirmou o repúdio aos extremistas da direita e da esquerda, porque ambos são antimaçônicos e antinacionais.

Esses nomes e esses feitos, relembrados neste dia genetlíaco, despertam aos maçons natural emoção e suscitam inspiração e incentivo.

Recordo-me de Renan, o festejado escritor francês. Renan, no prefácio de um livro de profunda subjetividade, “Souvenirs d’enfance et de jeunesse”, nos narra a delicada lenda bretã da cidade de Is, tragada pelo mar. Na ocasião das procelas, os pescadores vêem, no côncavo das vagas, a ponta das flechas de suas igrejas e nas manhãs de calmaria ouvem, absortos e enternecidos, subir do pélago os sons dos velhos sinos, modulando o hino do dia.

Por um milagre semelhante de enlevo espiritual, parece-me pressentir agora neste recinto o suave murmúrio das vozes dos grandes maçons que por aqui passaram. Apuremos o ouvido: que dizem ou falam esses numes tutelares? São conselhos à geração atual, para que nos mantenhamos fiéis aos formulários de nossa fé, desfraldemos a bandeira da Maçonaria e combatamos o bom combate em prol de nossa Pátria, porque o maçom há de sempre balizar sua vida entre o Bem e a Honra.

Hoje, mais do que nunca, o Brasil necessita da Maçonaria,sobretudo no âmbito moral.

Maior que as dificuldades de ordem política, econômica e social, o Brasil de hoje enfrenta uma crise moral sem precedentes. Os duros problemas, nos setores político, econômico e social, cabe ao governo resolve-los, mediante reformas institucionais, inclusive o desenvolvimento científico e tecnológico, para atualizar o Brasil, – mas a crise moral, para ser superada, depende sobretudo do magistério das Instituições espirituais do País, e entre elas, como comparte indispensável, apresenta-se o Grande Oriente, com a experiência e o vigor de um século e meio de atividades.

Sim, meus Irmãos e meus amigos: o Grande Oriente estará atuante, como força resoluta, na cruzada, incruenta mas basilar, da recuperação moral e cívica do homem, nascido ou não sob o Cruzeiro.

Temos que advertir e convocar, em todos os quadrantes da Pátria, os bons cidadãos, que existem numerosos, para que abandonem a expectação e a inércia e venham participar da memorável cruzada, que é ecumênica. Temos que alertar e prevenir as Instituições do País, congêneres ou vizinhas, para o esforço convergente e comum. Temos que animar e fortalecer todas as correntes: ideológicas, políticas ou religiosas, cujos objetivos preconizem a dignificação do homem do homem, pela elevação do espírito, através da vivência de padrões morais absolutos.

Nada se edificará no Brasil, sem o revigoramento do caráter nacional. Há que se fazer aqui, com urgência, a restauração do caráter, recuperadas e prevalentes as qualidades morais que o Grande Arquiteto do Universo “gravou” na índole nacional. O milagre da palingenesia.

Mesmo sozinho, o Grande Oriente não se omitirá jamais. A Maçonaria é, em todo o mundo, por definição, um sistema de moral.

Precisamos erradicar do ambiente nacional os defeitos, os vícios, os erros e os crimes que o deslustram, oriundos da vigente corrupção moral e espiritual. Combater o materialismo bastardo, forâneo e postiço, que nega a Deus, desconhece a Pátria e viola o genuíno estilo de vida dos brasileiros. Purificar o bem, queimando o mal. É a lição do Evangelho, na palavra do Precursor (Lucas, 3,17): “A eira será limpa, recolhido o trigo em seu celeiro e queimada a palha num fogo inextinguível”. Nihil medium est. Temos que destruir, num fogo inextinguível, o restolho e a vasa de todos defeitos e flagícios que deturpam o caráter nacional:

a) a) a decadência geral dos costumes, o estiolamento do sentido cívico e afrouxamento dos laços de família;

b) b) a crise de autoridade, mais perniciosa que o seu excesso;

c) c) a falta de espírito público, a improbidade, a prevaricação e a fraude, sob todas as formas;

d) d) a escassa cooperação e dissentimento do cidadão com o governo e a freqüente omissão e desídia do governo em desfavor do povo, como se fossem incompatíveis seus interesses;

e) e) o preito aos aspectos artificiosos, materialistas e inumanos da civilização contemporânea, inclusive o desprezo pelo resguardo do pudor feminino;

f) f) o favoritismo, o compadrio e o tráfico de influência;

g) g) a demagogia, a mentira, a impostura e a irresponsabilidade;

h) h) a prática do esnobismo e o aplauso à mediocridade;

i) i) a instigação do imediatismo e a ânsia do sucesso rápido;

j) j) a indisciplina, a brutalidade do comportamento e a primazia do egoísmo;

l) l) a facilidade com que se calunia e com que se mata;

m) m) a falsificação de alimentos e medicamentos;

n) n) as vantagens ilícitas e os privilégios de várias classes profissionais;

o) o) as greves políticas e a antinomia de ganhar mais e produzir menos;

p) p) a redução do tempo de aposentadoria no serviços público e particular, quando o nível de vida cresce no país;

q) q) a presença do poder econômico nos pleitos eleitorais;

r) r) a especulação dos negócios e a ganância dos lucros extraordinários;

s) s) a evasão de rendas, a sonegação de impostos e a isenção de direitos;

t) t) as subvenções para entidades fictícias;

u) u) o contrabando imenso e multiforme: gado, café, ouro (70% da produção), diamantes, outras pedras preciosas e semipreciosas… até navios carregados de café desaparecem em meio à rota e jamais a porto conhecido. Estima-se que o contrabando dê anualmente uma sangria no Tesouro Nacional superior a um trilhão e quinhentos bilhões de cruzeiros. Temos ainda:

v) v) as alíquotas das rendas federais para centenas de municípios fantasmas;

x) x) o contubérnio e a tramóia de grupos econômicos nacionais e alienígenas;

z) z) a infidelidade à Pátria pela fidelidade ao interesse e à disciplina de organizações e partidos políticos estrangeiros.

A crise moral é a grande diátese corruptora do organismo nacional. Contra ela, para vence-la, a grande reforma, a maior de todas, porque está na base das demais: a reforma do caráter do homem no Brasil. A Revolução de 31 de março divulgou recentemente uma informação, que impressiona: ela instaurou nada menos de 760 inquéritos, com dez mil indiciados.

O Grande Oriente, criador da Independência política da Pátria, vai, mais uma vez, servir ao Brasil.

Onde os valores morais se amesquinham ou desertam, campeiam a imprudência, a injustiça e a iniqüidade, enfraquecida ou dissolvidas as elites, como força criadora e orientadora.

O Grande Oriente entende ser preciso evitar que a pirâmide social do Brasil cresça ainda mais, afunilando o ápice e alargando a base, através de impostos espoliativos. Isso conduziria a um irremediável desastre: a supressão da classe média que, entre nós, não tem independência econômica. Lembremo-nos de que a classe média e a livre empresa constituem os sustentáculos da democracia, aqui como em toda a parte. Foi a classe média que fez o Brasil. A sua supressão colocaria o Brasil entre aqueles países em que uma minoria desfruta de todos os bens da civilização, enquanto milhões ficam à margem da vida, estiolados na fome e na renúncia. Mas a desesperança é, quase sempre, o caldo da desesperação. O Grande Oriente se bate pela implantação da Justiça Social, consubstanciada na satisfação das sete necessidades primárias: alimentação, teto, vestuário, saúde, educação, segurança e descanso.

Banir no mesmo passo a exploração, o desperdício e a opulência de um lado, – e a miséria, a ignorância e a doença do outro lado. Diminuir a distância social entre os homens. Não eliminar a riqueza, mas suprimir a miséria, conforme proclama o preclaro Presidente Lyndon B. Johnson, como o fundamento da “Grande Sociedade”. Outro grande maçom, também nosso contemporâneo, o Chanceler da República Federal, Ludwig Erhard, na Convenção da União Democrática Cristã, anunciou há poucas semanas, como idéia diretora de uma Alemanha moderna, a instauração de uma “Sociedade Formada”, que elimine a luta de classes e em que todos os grupos colaborem para o supremo bem-estar coletivo.(**}

O Grande Oriente não comete a injustiça vilipendiosa de admitir que, no mundo, só o Brasil necessite de uma revolução de mentalidade. Ao contrário, a crise moral é hoje generalizada por toda a parte . Não é específica do Brasil. Sabemos até que há alguns países em situação bem mais grave, mas também muitos outros não apresentam um estendal tão poluído quanto o nosso, e há mesmo alguns poucos em situação privilegiada.

O Grande Oriente entende também que a atual crise moral brasileira é, em grande parte, um aspecto local, retardado, da subversão política e social resultante da ocorrência das duas Grandes Guerras, na primeira metade do século. É uma situação contingente, não é imanente ao caráter nacional (a História o prova) e pode, por isso ser combatida e erradicada. Amanhã há de ser melhor. O verdadeiro Brasil não é a desvirtude: o Brasil “não é isso”, repudiou há quase meio século, logo após a primeira Grande Guerra, o imortal maçom Rui Barbosa, na famosa conferência do Teatro Lírico do Rio de Janeiro.

O Grande Oriente tem otimismo e esperança, porque sabe que no brasileiro de hoje não desapareceu, do íntimo do coração, a herança moral das gerações passadas. O radiômetro do idealismo, posto ao âmago, acusa ainda as vibrações de outrora. O Brasil possui características próprias e inalienáveis.

A Constituição de Anderson – o suporte doutrinário da Maçonaria, afirmou em 1723, em sua primeira sentença: “O maçom está obrigado, por vocação, a praticar a moral”. E logo a seguir estabeleceu os parâmetros espirituais e imprescritíveis do maçom: bondade, lealdade, honradez e brio, base da amistosa convivência na Ordem. Em outras palavras, diremos nós: vida reta e espírito fraterno.

Desde a sua fundação, o Grande Oriente do Brasil mantem-se fiel a todos os princípios fundamentais e inflexíveis da Maçonaria Original, Regular e Verdadeira, e sempre estendeu ser seu dever sustentar no mundo temporal aquelas virtudes essenciais de nossa Doutrina.

O Grande Oriente vai entrar em campo, em todos os quadrantes da Pátria, por suas 700 lojas, atuando pelo exemplo irredutível de seus membros e também por sua ação vigilante, para que os defeitos, os vícios e os erros sejam confutados ou elididos e os crimes punidos, conforme a lei, que deve ser revista, quando se demonstrar inócua, inoperante ou impotente, ou criada, quando houver uma lacuna.

O Grande Oriente há de ser a força catalizadora, despertando e desembaraçando o bem latente no coração do Brasil, o Conselho Federal da Ordem formulará o esquema da nobilitante campanha.

Não pretende fazer do país uma terra de santos ou puritanos, nem excluir a alegria e os prazeres da vida. Mas quer restabelecer os imperativos éticos, que desapareceram, e fazer com que o Brasil se reencontre consigo mesmo, na consciência e na prática dos valores morais e espirituais. Ressurgir a honestidade e a decência como normas de conduta, na vida particular, na vida profissional e na vida pública, esta abrangendo a Política e a Administração. Recuperar o Povo e as elites para o serviço da Pátria. Cícero, o gênio romano, há vinte séculos, sentenciou que “a Pátria se põe em primeiro lugar e acima de tudo”.

Vou encerrar esta alocução, agradecendo a honrosa presença de nossos convidados.

Irmãos de todos os Corpos e Lojas: terei de convocar-vos, em breve, para a imensa tarefa , que nos compete, na recuperação cívica e moral de nossa gente. Não deveis faltar ao chamamento. A neutralidade é um crime. Já Pitágoras (481-411) afirmara que “o homem é a medida de todas as coisas”. Trata-se precisamente da reforma do homem, isto é, da valorização do homem do Brasil, no que ele tem de mais essencial. Decerto, estarão conosco as bênçãos do Grande Arquiteto do Universo.

Só o espírito prevalece. O “império dos mil anos”, prometido por Hitler, desapareceu com ele, sem deixar vestígios. Não devemos, porém, combater sozinhos. Temos que pedir o apoio da Mulher brasileira, que já deu provas, através da História, e recentemente, de quanto vale a sua pureza e determinação.

Nesta noite promissora para o Grande Oriente do Brasil, inclinemo-nos perante a Mulher brasileira e lhe supliquemos humildemente nos conceda o poder de seu coração, para que possamos aurir a força e a pertinácia necessárias à campanha do surgimento do Grande Brasil, uno, próspero e feliz, sem trazer mais consigo “as duas Nações”, de Disraeli. Nós o antevemos ovante, econômica e politicamente forte, na posse e expansão de suas riquezas naturais, e restaurado na fortaleza de suas virtudes morais.

O homem-maçom constitui a negação frontal à decomposição e ao crime, porque tem consigo o sal da terra, aquele sal de que falou o Grande Iniciado, no Sermão da Montanha. Irmãos! Não recusemos, na hora convocatória, o sal de que o Brasil precisa, para seu recobro e salvação!

na palavra do Grão-Mestre Geral

Junho de 1965, E\ V\

(*) – Vide “O Diário” de Santos, de 11 de maio de 1955. Traz na integra o lançamento da campanha em São Paulo.

(**) – Expressão sugerida, por certo, em contraste com a de Herbert Von Borch, “A Sociedade Inacabada” – “Die Unfertige Gesellschaft”, 1962 – sobre os Estados Unidos.



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