Astronomia idade média

A Astronomia na Idade Média

Astronomia idade média
A fé islâmica inicia-se em 622 D.C., quando o profeta Maomé convoca os árabes a Meca para adorar o “único Deus verdadeiro”. A partir desse ano, em que Maomé faz a sua viagem conhecida por “Hégira”, o islamismo espalha-se rapidamente pelo Egipto, Iraque, Norte de África e Espanha

A Astronomia na Idade Média

A fé islâmica inicia-se em 622 D.C., quando o profeta Maomé convoca os árabes a Meca para adorar o “único Deus verdadeiro”. A partir desse ano, em que Maomé faz a sua viagem conhecida por “Hégira“, o islamismo espalha-se rapidamente pelo Egipto, Iraque, Norte de África e Espanha.

Tal como os cristãos dependem dos astros para a determinação da Páscoa, também os árabes dependeram das datas astronómicas para definir as suas cinco horas de oração diárias, para definir a direcção de Meca e o seu calendário lunar.

No início, a Astronomia islâmica teve como suporte a Astronomia persa e indiana, mas por volta do século IX já incorporava a Astronomia grega clássica, em particular as cosmologias de Aristóteles e Ptolomeu.

Entre os séculos IX e XII surgiram e desenvolveram-se três grandes centros de Astronomia árabes.

O primeiro foi na região de Bagdad, onde a “Casa da Sabedoria” criada pelos Califas Abbasid encorajou o desenvolvimento da Ciência como uma forma de louvar a Alá, tendo tido institutos em mais de um local.

Al-Battani (850-929) começou no início do observatório por estudar a Astronomia matemática de Ptolomeu, enquanto no final do século XIII, o Observatório de Maraghah no Irão forneceu as bases para os cálculos de Nasir al-Din al-Tusi (1201-74) que foi um dos grandes matemáticos de órbitas planetárias do Islão.

Já entre os árabes se verificava alguma inquietação com a questão de tirar a Terra do centro de rotação artificialmente introduzida por Ptolomeu e sobretudo a questão do enquanto. Ibn al-Shatir, um dos grandes astrónomos árabes medievais, viria a desenvolver um modelo que, mantendo a Terra no Centro, continha epiciclos.

 O segundo centro de investigação islâmico surgiu no Cairo. Para além do mapeamento do céu, o Cairo distinguiu-se pelo trabalho intelectual do maior físico óptico islâmico, Alhazen (986-1039). Com base nos conhecimentos de óptica deixados por Aristóteles e Ptolomeu, Alhazen dissecou olhos de animais e desenvolveu a teoria da formação da imagem no olho. Alhazen experimentou projecções por efeito de câmara obscura e com lentes. Estudou também a refracção atmosférica, tendo verificado que os raios do sol são “dobrados” ao entrar na atmosfera dando-se o crepúsculo quando o Sol ainda está 19º abaixo do horizonte.O terceiro centro de investigação astronómica encontrava-se no sul de Espanha. Astrónomos como Arzaquel fizeram observações inéditas e desenvolveram métodos matemáticos de cálculo das trajectórias dos planetas que foram muito além dos métodos desenvolvidos pelos gregos e por Ptolomeu. Uma das preocupações dos árabes era o desenvolvimento de modelos matemáticos para os céus que coincidissem com os movimentos observados. O trabalho de observação nos três observatórios ao longo dos séculos serviu para acumular determinações das posições dos astros com grande precisão. Estas permitiram verificar que as posições calculadas pelo método de Ptolomeu continham algum erro.

Para produzir modelos coerentes foi essencial compilar o trabalho realizado pelos três institutos. Al-Sufi (AD903-86) e Ulugh Beg (1394-1449) compilaram catálogos, enquanto Albateguius, Al-Buzjani e outros melhoraram constantes astronómicas como, por exemplo, a duração da precessão dos equinócios e o ângulo que a trajectória na qual o Sol orbita o zodíaco faz com o equador celeste. Os astrónomos árabes arranjaram formas apropriadas de tabelar os dados astronómicos – os “Al-manunkhs” ou almanaques- cuja estrutura ainda hoje se utiliza. Desenvolveram também a Álgebra, fizeram avanços importantes na trigonometria esférica e criaram o sistema de notação numérica que chamamos hoje numeração árabe.

Figura 2 – Modelo de revolução lunar de Ibn al-Shatir.

Os instrumentos com que os árabes trabalhavam tornaram-se altamente especializados, embora não possuíssem telescópios. A sua preocupação em determinar posições angulares de relação entre os corpos celestes levou a que desenvolvessem instrumentos que permitissem medir ângulos. Aperfeiçoaram o astrolábio a partir do modelo de Ptolomeu. O astrolábio astronómico consistia numa série de placas circulares de latão acopladas a um transferidor com uma mira-ponteiro que permitia medir a altura dos astros, para além de realizar cálculos. Aquele que foi provavelmente o maior instrumento criado para a medição de ângulos na história da Astronomia, foi o sextante de 39.6 metros construído por Ulugh Beg no Observatório Samarkand em 1420. Este sextante permitiu a Ulugh Beg estabelecer a duração do ano com uma precisão que apenas está desfasada de um minuto do valor actualmente aceite.

Apesar dos seus avanços, os astrónomos árabes sempre trabalharam dentro da lógica geocêntrica. Fizeram-no por não verem qualquer razão pela qual o Universo Aristotélico de nove esferas não pudesse ser explicado através da Física. Afinal de contas, os corpos celestes pareciam girar à volta da Terra, e fenómenos conhecidos, como a chuva, a queda de pedra ou de projécteis, pareciam revelar que a Terra ocupava o centro do universo atraindo para si todos os corpos.

Os dados recolhidos pela vigorosa Astronomia árabe foram o suporte para as teorias elaboradas por muitos astrónomos medievais europeus, como por exemplo Copérnico e Tycho Brahe.

Figura 3 – O astrolábio astronómico

Figura 4 – O astrolábio astronómico era um conjunto de placas circulares de latão acopladas a um transferidor com uma mira-ponteiro que permitia medir a altura dos astros para além de realizar cálculos.

ASTRONOMIA EUROPEIA NA IDADE MÉDIA Normalmente é assumido que não houve nenhum desenvolvimento da Astronomia digno desse nome ao longo da Idade Média e que a Igreja perseguia todos os que tinham perspectivas pró-científicas.No entanto, até ao século XV existe uma vasta bibliografia sobre várias áreas das ciências físicas nomeadamente, ao nível da Astronomia.

Se é verdade que a Igreja controlava a forma de pensar das pessoas através de uma interferência directa na educação das mesmas, a nível universitário (pois todos os professores universitários eram clérigos e a maioria dos estudantes eram monges, frades ou noviços de padres) era ainda assim possível uma vasta liberdade de pensamento entre os eruditos.

E se a Igreja controlava os leigos quando estes propunham novas concepções de cariz político ou que pudessem afectar interpretações teológicas, era relativamente tolerante quando as ideias surgiam da classe erudita do clero.

A defesa de dissertações (Disputatio cum Lectio) que então se usava, é ainda hoje, o sistema normal de defesa de graus académicos na maior parte das Universidades do Mundo. Nessa época o grau académico era obtido, não através de um exame escrito, mas através de uma argumentação apresentada em defesa de um qualquer tema realizada contra os arguentes que o examinavam.

Até às primeiras consequências do caso Galileu em 1615, a Igreja não tinha qualquer política oficial em relação à Ciência. Talvez a coisa mais próxima dessa política tenha sido discutida no século XIII, no debate da aceitabilidade da cosmologia aristotélica. Por volta de 380 A.C. Aristóteles havia afirmado que o Universo era imutável, o que tinha como consequência ser infinitamente velho, o que de certa forma contrariava a ideia de uma criação e de um início para todas as coisas que era pressuposto pela Bíblia. No entanto, a Igreja tinha conseguido acomodar a teoria Aristotélica com a criação do Primum Mobile (sopro original), que teria posto toda a engrenagem do Universo em movimento, permanecendo a partir de então o Universo imutável.

Contrariamente ao que é comum ouvir-se, não se acreditava que a Terra fosse plana, como pode ser verificado por gravuras dessa época que tentam demonstrar com clareza porque é que a Terra é redonda, com melhores ou piores argumentos (Figura 5).

A Astronomia medieval europeia, à imagem do que aconteceu com os árabes, não foi uma época de grandes descobertas, tendo sido sobretudo uma época de aperfeiçoamento do modelo existente e aceite. Era ideia corrente entre os astrónomos que a Terra estava imóvel no centro do Universo e como ninguém tinha razões para duvidar desta verdade fundamental do sistema geocêntrico desenvolvida por Aristóteles e Ptolomeu, a tarefa dos astrónomos era passar a informação de toda a complexidade e elegância matemática e filosófica de geração para geração. O astrónomo medieval, mais do que investigador, era um erudito.

O acumular de dados relativos ao movimento das estrelas ia, no entanto, levando a que surgissem pequenas adaptações ao modelo ptolemaico que iam complicando o formalismo matemático do mesmo. No entanto, nenhuma das soluções resolvia completamente os problemas que se iam verificando à medida que os séculos iam passando. Em particular, determinadas datas consideradas constantes como, por exemplo os equinócios e os solstícios foram-se desviando das datas previstas ao longo do tempo. Isto levou a que certas datas como a Páscoa se fossem desfasando quando se comparava a data de calendário e a data celeste (a Páscoa é determinada a partir da Lua Cheia mais próxima do equinócio da Primavera).O Calendário Moderno que ainda hoje usamos foi autorizado pelo Papa Gregório em 1582 e que sincronizou a Páscoa com os fenómenos celestes, mas a fórmula que ele utiliza demorou séculos de observação a ser desenvolvida. O tema dos calendários será abordado adiante.

A Astronomia gozava de um lugar destacado no curriculum universitário da Idade Média, que era essencialmente constituído por quatro ciências que tomavam o nome de Quadrivium: a Astronomia, a Geometria, a Aritmética e a Música. De facto, nenhum graduado universitário podia concluir o seu grau sem ser avaliado em Astronomia.

No século XIII, vários compêndios de Astronomia encontravam-se já traduzidos em latim independentemente da linguagem original do autor, sendo normalmente Sphera Mundi, de Johannes de Strabosco, utilizado como livro de texto de introdução à Astronomia. Durante os séculos XIII e XIV foram também feitas tentativas de mecanizar o astrolábio, fazendo rodar os seus discos de estrelas de forma a reproduzir o movimento dos céus.

O resultado acabou por ser bastante diferente e resultou na invenção do relógio accionado a pesos.Foi também neste período que, sob a influência do desenvolvimento da Astronomia árabe, começaram a ser aperfeiçoados instrumentos específicos (leves e menos sensíveis aos ventos) para a navegação que seriam utilizados em todo o período da expansão, nomeadamente o quadrante marítimo em madeira, o astrolábio náutico para a determinação da latitude e a balestilha.

Foram discutidas durante a Idade Média ideias revolucionárias que apenas foram retomadas séculos mais tarde como, por exemplo, a existência do tempo. Uma discussão comum era se o Universo divino teria tempo. O Universo divino encontrar-se-ia fora do Universo físico das esferas cristalinas, sendo perfeito e imutável. Por este motivo, o tempo não poderia existir pois o tempo implicava mutação.

Thomas Bradwardine (1290-1349) discutiu as características de um possível Universo infinito e Nicole de Oresme (c. 1320-1382) argumentou ser mais razoável que a Terra tivesse uma rotação em torno de si mesma, que a ideia de todo o Universo a rodar em torno da Terra.

Nicolas de Cusa defendeu um Universo infinito geocêntrico em que para além das esferas cristalinas haveria um Universo infinito que conteria infinitos sóis iguais ao Sol.

Apesar destas ideias controversas, nenhum destes escolásticos teve problemas com a Igreja. De facto, Thomas Bradwardine veio a ser Arcebispo da Cantuária, enquanto Nicolas de Cusa e Nicole de Oresme se tornaram Bispos.

Não obstante muito ligada a um modelo geocêntrico vigente, a Astronomia medieval gozou de grande dinamismo intelectual.

Por vezes ouve-se dizer que os filósofos medievais tinham discussões tolas sobre quantos anjos se poderiam equilibrar no topo de uma agulha. Coloquemos o problema da sua perspectiva: Se os anjos são seres que não possuem corpo físicos, será que ocupam um universo tridimensional? E se um ponto é, numa perspectiva euclideana, um conceito que pode ser percebido, mas que falha uma perspectiva tridimensional, quantos corpos adimensionais podem ocupar uma área de espaço infinitamente pequena? E durante quanto tempo?

Publicado em Ms Maçom, 28 de junho de 2010 às 11:54




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